Ayrton Senna: 60 anos

José Horta Manzano

O jornal austríaco Kleine Zeitung traz hoje um artigo interessante. A autora lembra que Ayrton Senna, não fosse aquela trágica tarde em Imola, estaria completando 60 anos exatamente nesta data – efeméride sobre a qual não vi nenhuma menção na imprensa nacional.

A julgar pelo tom elogioso, a jornalista há de ter sido fervente admiradora do piloto brasileiro. Afirma que ele era dono de personalidade muito especial, não somente no esporte, mas também na vida civil. Diz ainda que Senna, com sua extrema mistura de vulnerabilidade e resistência, era simplesmente diferente de muitos outros atletas de ponta. Carismático e dono de sorriso cativante, era capaz de pensamento filosófico e de fortes emoções.

Senna e Berger

O artigo menciona também uma frase de Gerhard Berger, piloto austríaco, companheiro de equipe de Senna na Fórmula 1. Berger aposta: «Senna seria hoje presidente do Brasil».

É impossível fazer profecia de um futuro que não virá. Não dá pra saber se Senna seria bom presidente. Mas, com certeza, seria melhor do que o presidente que temos agora. É difícil ser pior.

V como Velocidade

José Horta Manzano

Sigismeno é boa gente, mas meio bobão. Embora seja muito aplicado, atencioso e curioso, a compreensão de certas coisas lhe escapa. Para compensar, o que lhe falta de cultura sobra-lhe de boa vontade. É um tipo agradável.

Hoje, logo de manhã, leu uma chamada do Estadão online que lhe deu nó nos miolos. A manchete associa o nome de Ayrton Senna ― o símbolo de um Brasil veloz e triunfante ― a um reles congestionamento de tráfego, símbolo de um Brasil lento e descrente.

Eu lhe expliquei que, assim que o glorioso campeão de velocidade sobre quatro rodas desapareceu num trágico acidente, seu nome havia sido dado à antiga Rodovia dos Trabalhadores. A intenção, naturalmente, era ligar o nome do corredor a uma estrada por onde se costumava transitar em alta velocidade.

Sigismeno, que não sabia disso, olhou-me muito espantado. Ele me perguntou por que tinham «desomenageado» (não reparem, Sigismeno inventa neologismos de vez em quando) todos os trabalhadores para homenagear um só. Quis saber se uma só figura podia ser mais importante que todos os outros reunidos. Fiquei sem saber responder.

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Refletindo um pouco mais sobre o caso, concluí que realmente não faz sentido, numa cidade que se expande a cada dia, dar preferência a desnomear logradouros tradicionais para honrar novos ídolos. Teria sido tão mais simples dar o nome do campeão a, digamos, um novo bairro. Um bairro inteiro!

Além de não desonrar todos os trabalhadores do Brasil, traria vantagem adicional: afastaria o vexame de ligar o nome de Senna ao de um congestionamento de tráfego.

É comum e compreensível banir estátuas e homenagens a heróis caídos em desgraça. Na antiga União Soviética, estátuas de Stalin desapareceram. Naquele país, até uma cidade mudou de nome: Leningrado recuperou seu primitivo nome de São Petersburgo. No Iraque, a imensa escultura representando Saddam foi posta abaixo. Na própria cidade de São Paulo, logo em seguida à implantação do regime republicano, a Rua da Imperatriz virou 15 de novembro, enquanto a Rua do Príncipe tornou-se Quintino Bocaiuva.

Já faz quase 20 anos que a estrada mudou de nome. Mas só hoje Sigismeno se deu conta disso. Ficou deveras chocado com a confiscação do nome antigo, perpetrada em detrimento de todos os trabalhadores. Há de ser para confirmar a tradicional máxima: rei morto, rei posto. Mesmo assim, não faz sentido. Trabalhador nunca foi rei no Brasil.

Se Sigismeno chegar a alguma conclusão, eu lhe conto.