Fugiu de medo

José Horta Manzano

Este último fim de semana, importante reunião de cúpula do Mercosul teve lugar na capital paraguaia. Como se sabe, porém, grandes decisões costumam ser acertadas em reuniões de corredor e de sala de café, dificilmente em encontro de chefes de Estado.

Mercosul 5Cúpula solene, com aquela imensa mesa retangular ao redor da qual se sentam mais de cem pessoas, com todo aquele aparato, aquelas reverências, aqueles convidados ilustres, não é lugar propício para discussões. Cada figurão já vem com discurso pronto, escrito, burilado, ensaiado. Não há surpresa, a atmosfera é modorrenta.

Desta vez, no entanto, havia expectativa de ebulição. Señor Macri, recém-empossado presidente da Argentina, já havia deixado claro que cobraria de señor Maduro, presidente da Venezuela, mudança radical de atitude com relação à democracia em geral e a presos políticos em particular.

Mercosul 6Receoso de passar vergonha em público, ainda por cima em terra estrangeira, Maduro renunciou à viagem na última hora. Dilma, Mauricio Macri (Argentina), Tabaré Vazquez (Uruguai) e Horacio Cartes (Paraguai) ‒ os chefes de Estado do Mercosul ‒ estavam lá. Até Michèle Bachelet, presidente do Chile, compareceu. A deserção do brutamontes venezuelano foi gritante e pegou pra lá de mal.

De pouco adiantou ter fugido. Cumprindo o que havia prometido, Macri balançou o coreto ao pedir publicamente «por la pronta liberación de los presos políticos en Venezuela». Para enfatizar seu pensamento, acrescentou que «no puede haber lugar para la persecución política por razones ideológicas ni la privación ilegítima de la libertad por pensar distinto». Mais claro, impossível. Dona Dilma deve ter engolido em seco.

Como se sabe, não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. O castigado povo argentino, finalmente, começa a avistar luz no fim do túnel. Ainda vai demorar pra chegar lá, mas estão em boas mãos. Resta-nos a esperança de que os bons (e novos) ares de Buenos Aires soprem em nossa direção e nos ajudem a livrar-nos dos miasmas que nos sufocam.

O lado folclórico da cúpula ficou por conta de dona Dilma. Apesar de pronunciar discurso já escrito e de estar sendo atentamente vigiada pelo inefável assessor Marco Aurélio «top-top» Garcia, tropeçou.

Na intenção de prestar homenagem ao Paraguai, país que organizava a reunião, declarou: «O povo e o governo brasileiros têm, pelo povo e pelo governo uruguaio (sic), uma grande amizade.» Desculpou-se em seguida, mas o mal estava feito.

Senhora Rousseff acrescentou uma pérola a seu (já extenso) rosário.

Interligne 18h

PS: Notei que nenhum dos participantes se servia de fone de ouvido, daqueles que costumam transmitir tradução simultânea. Cada um falava sua língua e os outros que se virassem. Fico aqui a me perguntar até que ponto dona Dilma terá entendido o que diziam os hermanos. E, principalmente, até que ponto os hermanos terão entendido a fala claudicante de dona Dilma.

Destino dramático

Cláudio Humberto (*)

Experimentam destino dramático os maiores empresários que prosperaram à sombra do Lula, de quem se fizeram amigos íntimos. Acabaram vitimados pelo famoso pé-frio do ex-presidente.

Lula caricatura 2Eike Batista, quem diria, antes considerado o oitavo mais rico do mundo, hoje foge de credores (e de oficiais de justiça) como o diabo, da cruz. Mas tem razões para comemorar: ao menos ele não foi preso.

O pecuarista José Carlos Bumlai, um dos homens mais ricos do Centro-Oeste, também teve destino trágico: está preso no âmbito da Lava a Jato.

André Esteves, banqueiro favorito de Lula, foi preso. Ganhou habeas corpus, mas é forte o risco de receber longa pena de cadeia.

Também acabaram na cadeia os empreiteiros favoritos da era do Lula, de quem se tinham tornado amigos: Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro (OAS).

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Supersaco

José Horta Manzano

Você sabia?

Café 3Faz setenta ou oitenta anos, a economia brasileira era baseada na cultura do café. A pauta de exportação dependia desesperadamente da cotação da rubiácea, como se costuma dizer. A crise de 1929, que empobreceu boa parte do mundo desenvolvido, foi catastrófica para nosso país. Da noite pro dia, os preços do café em grão desabaram.

Assim como países que produzem petróleo em grande volume têm seu Ministério do Petróleo, o Brasil teve o IBC ‒ Instituto Brasileiro do Café, autarquia que regulava produção, promoção e comercialização do produto. Só desapareceu em 1989.

Bolsa Oficial do Café (hoje Museu do Café), Santos (SP)

Bolsa Oficial do Café (hoje Museu do Café), Santos (SP)

Até os anos cinquenta, curiosa situação persistia: embora fosse o maior produtor mundial, o Brasil exportava grão e importava café solúvel. As latinhas vinham da Europa, fabricadas nas usinas suíças e francesas da Nestlé. É que nosso mercado não estava preparado para a novidade. O preço que o consumidor pagava pela bebida era baixíssimo, a ponto de desestimular todo investimento em fabrico de café solúvel.

O tempo passa, as coisas mudam. O distinto leitor deve ter ainda na memória o tradicional saco de aniagem (ou de juta, se preferir) que servia para o transporte dos grãos. Comportava 60 quilos de café e era carregado nas costas, tanto no galpão do atacadista quanto na estiva. Mas isso era nos tempos passados.

Estivador 1Leio no portal francês Zone Bourse, especializado em assuntos econômico-financeiros, que as velhas embalagens, símbolo do transporte de café por mais de dois séculos, estão em via de extinção. Vão sendo, pouco a pouco, substituídas por empacotamento à base de matéria plástica. As sacas de 60kg sobrevivem, mas vão perdendo terreno para grandes embalagens de uma tonelada ‒ e até para superfardos de 20 toneladas! ‒ feitos de polipropileno e de polietileno.

Supersacas

Supersacas

Longe de decorrer de preocupações ecológicas, a razão da mudança é puramente comercial. Para encher um contêiner com sacas de juta de 60kg, é necessário o trabalho de nove homens durante uma hora. Se o café estiver embalado em supersacos, o mesmo trabalho pode ser feito em apenas 25 minutos por um homem só ao volante de uma empilhadeira.

Aceita um cafezinho, patrão? Passado na hora!

Nozes & castanhas

José Horta Manzano

Sabe o distinto leitor de onde vem o costume de guarnecer a mesa das festas de fim de ano com nozes, castanhas, avelãs, figos secos e damascos? É costume europeu, sabemos disso. Mas por que precisamente esses alimentos? E por que justamente nesta época do ano?

Para quem vive em terras tropicais, a resposta não é evidente. Para os habitantes das zonas temperadas do Norte, salta aos olhos: são produtos da estação.

Fruta 1Hoje em dia, encontram-se por toda parte frutas fora de época, trazidas de avião do outro lado do globo. Pessoalmente, recuso-me a comprar. Não me parece ajuizado poluir a atmosfera com toneladas de querosene só para ter morangos em dezembro, quando o natural é comê-los em maio. A julgar pela enorme oferta que se vê por aí de produtos ‘exóticos’ e fora de época, imagino que nem todos pensem como eu.

Pois bem, nozes, castanhas, avelãs, figos secos, damascos e outras especialidades consumidas entre Natal e ano-novo cruzam oceanos antes de chegar às mesas brasileiras. Os preços são exorbitantes. Em épocas de carestia, como a atual, o consumo desses produtos arranha o meio ambiente e fere o bom senso.

Fruta 2Brasileiros há que chegam a privar-se de artigos necessários só para ter à mesa esses alimentos que, robustos e encorpados, nem de longe combinam com os calores de nosso Natal tropical. Sob risco de parecer iconoclasta, acho isso uma grande bobagem.

O Brasil é o maior produtor de frutas do planeta. Dezembro e janeiro marcam o apogeu da colheita. Por que não aproveitar? É mais leve, sai bem mais barato e dá mais cor e vida à mesa.

Rabanada 1Para não romper totalmente com a tradição ‒ e se não estiver de regime ‒, prepare uma boa rabanada e salpique com açúcar e canela. Faça com pão dormido, de preferência. As receitas estão na internet, é fácil achar. Bom apetite.

América del Sur

José Horta Manzano

Faz 13 anos que nosso governo popular vem se esforçando para integrar o Brasil no clube das nações sul-americanas. É verdade que, desde que os primeiros portugueses aportaram, demos as costas para nossos vizinhos. Nunca nos identificamos com os hermanos. No nosso imaginário, nosso ideal sempre foi outro, situado a milhares de quilômetros daqui.

No entanto, analisando de mais perto e comparando nosso comportamento com o dos vizinhos, não há como escapar da conclusão: não somos tão diferentes assim.

A mentira, por exemplo, é defeito comum a todos os governantes da região, vício que costuma passar batido. Cuba é o arquétipo desse comportamento ‒ faz cinquenta anos que os Castros embalam seus concidadãos com inacreditáveis lorotas.

Ultimamente, o mau costume tem-se alastrado pelo subcontinente. Chávez, Kirchner, Correa, Evo, Maduro mantêm-se à custa de cascatas de falsidade e de muita conversa fiada. Sem mencionar nosso inefável Lula, naturalmente. Nosso guia adotou o mesmo caminho indigente.

A apropriação indébita da coisa pública é outro defeito. Em outras palavras, falo do roubo, em proveito próprio, daquilo que pertence a todos. Dizem as más línguas que a fortuna dos irmãos Castro, devidamente encafuada em lugar seguro, totaliza bilhões. Quanto aos outros, pouca gente conhece o montante exato da riqueza de cada um. Mas todos desconfiam.

O mais recente exemplo de assalto aos bens do contribuinte acaba de ser dado por doña Cristina, que deixou a presidência da Argentina faz alguns dias. A mandatária e seus áulicos deram um verdadeiro rapa. Sumiram computadores, móveis, eletrodomésticos, equipamentos. Para completar a herança maldita, deixaram veículos presidenciais com multas não pagas. Nem água quente havia na Casa Rosada quando Mauricio Macri assumiu.

Interessante será notar que a mídia argentina, ressabiada com possíveis represálias de correligionários da antiga presidente, não deu eco a esses «malfeitos». Quem noticiou foram jornais chilenos e espanhóis.

Essa rapina me fez recordar a declaração surpreendente dada em 2002 por Jorge Batlle, então presidente do Uruguai, sobre a honestidade de seus vizinhos. O homem declarou textualmente: «Los argentinos son una manga de ladrones, del primero hasta el último» ‒ os argentinos são um bando de ladrões, do primeiro ao último.

Foi sentença pesada, sô! Ofendeu um povo inteiro, sem deixar brecha pra exceção nenhuma. Nem nosso amado guia, em seus mais desatinados pronunciamentos, ousou ir tão longe.

Pra abrandar, há que jogar água nessa fervura. Melhor será dizer que muitos argentinos ‒ assim como muitos brasileiros, muitos uruguaios, muitos venezuelanos ‒ são desonestos. Mas não todos. Pelo menos, espero.

Pra frente é que se anda

José Horta Manzano

No tempo em que o Brasil ainda era um país atrasado, éramos a pátria do futebol.

Futebol 10Depois, um certo 7 x 1 passou pelo caminho. E tudo mudou.

Futebol 11Hoje, progredimos um bocado. Somos agora a pátria do surfe! Coisa mais chique, não?

Chamada do Estadão, 18 dez° 2015

Chamada do Estadão, 18 dez° 2015

É a Patria Educadora mostrando a que veio. Agora, vai!

A força dos passaportes

José Horta Manzano

Você sabia?

Símbolo de passaporte biométrico

Símbolo de passaporte biométrico

Passaporte, palavra tomada emprestada do francês passeport, é o livreto que cidadãos devem levar consigo ao atravessar fronteiras. Na origem, esse documento não se referia a pessoas, mas a mercadorias.

Na Europa do final da Idade Média, a precariedade das estradas e os perigos que as rondavam desencorajavam viagens terrestres. O transporte de bens era feito principalmente por via fluvial ou marítima. Assim, para deixar o lugar de origem e chegar ao destino, toda mercancia tinha de passar por portos ‒ daí o nome do documento.

A intensificação das trocas comerciais deu, aos poderosos e aos que detinham posições estratégicas, a ideia de cobrar pela passagem ou pela estadia de barcos. Bulas, ofícios, cartas de transporte e documentos vários foram surgindo. Entre eles, o passeport, que atestava que a mercadoria estava nos conformes.

Em nossos dias, documentos específicos continuam a ser emitidos para bens que cruzam fronteiras: conhecimento aéreo ou marítimo, fatura comercial, licença de importação ou de exportação. Já o termo passaporte perdeu a conotação comercial e passou a designar o documento que autoriza indivíduos a viajar de um país a outro.

Passaporte 1Em princípio, todos os passaportes são iguais. Na prática, uns são mais iguais que outros. A força do documento de viagem é medida pelo número de países cuja fronteira o titular pode atravessar sem precisar de visto. Quanto maior for o número de países aos quais um passaporte dá acesso sem necessidade de visto, mais «forte» será considerado o documento.

Um portal especializado analisa os passaportes emitidos por 199 países e os classifica pelo número de portas que cada um abre sem precisar pedir licença. Nestes últimos 13 anos, o governo brasileiro tentou aproximação com países olhados com desconfiança pelo resto do mundo. Falo de Irã, Cuba, Coreia do Norte, Guiné Equatorial, Venezuela. Apesar disso, nossa classificação (ainda) não parece ter sido prejudicada.

Classificados por ordem de «força», os passaportes dos EUA e do Reino Unido aparecem em primeiro lugar. Seus titulares podem entrar em 147 países sem pedir visto. Na segunda posição, empatam Alemanha, França e Coreia do Sul, com 145 países. Logo em seguida, em terceiro, aparecem Itália e Suécia, com 144 passes livres.

Passaporte brasileiro 2O Brasil surge em 17° lugar, empatado com Romênia e Mônaco. Cidadãos brasileiros podem visitar 128 países sem necessidade de visto. Os numerosos empates, porém, podem falsear a compreensão. Será mais claro dizer que cidadãos de 41 países são mais livres que nós na hora de viajar.

Mas há pior. Todos os outros componentes do Brics concedem a seus cidadãos passaporte menos poderoso que o nosso. Um russo tem direito de visitar apenas 98 países sem pedir visto. Um sul-africano pode viajar a 84 países; um chinês, a 74; um indiano, a somente 59. É um dos raros quesitos em que ultrapassamos os outros ditos emergentes.

Quem estiver interessado na lista completa deve clicar aqui.

Na cueca

José Horta Manzano

Leio n’O Globo que a Polícia Rodoviária deteve dois ocupantes de um veículo que trafegava por estrada de rodagem federal. A notícia não esclarece se era contrôle de rotina ou sob denúncia. Fato é que, no porta-malas, havia três valises recheadas de dinheiro.

Ao cabo de minuciosa contagem, os policiais constataram que as valises continham quase quatro milhões de bolívares venezuelanos, quantia que, convertida ao câmbio oficial, equivale a 2,4 milhões de reais.

Dinheiro 3Pacotes de dinheiro venezuelano viajando em porta-malas no Estado de São Paulo? A descoberta de dólares, euros, ienes ou francos suíços caberia dentro do molde habitual. Moeda venezuelana em volume industrial não se encaixa nos parâmetros. A ninguém viria a ideia maluca de fazer poupança em bolívares, a moeda mais corrída pela inflação. A origem do dinheiral é pra lá de intrigante.

Se, entre os desdobramentos diários da Lava a Jato, ainda lhe sobrar tempo e disposição, a Polícia Federal tem bons motivos para investigar nos detalhes esse achado. Aliás, ninguém se espantaria se fosse descoberta ligação entre nossos atuais escândalos político-financeiros e as malas de dinheiro venezuelano.

Os ocupantes do automóvel alegaram que a bolada provinha da venda de empreendimento imobiliário. Hmmm… Podiam também alegar ter encontrado as malas numa praia deserta, abandonadas, sem dono. Por que não?

Dinheiro 4Falando sério, a França encontrou meio de cercear essa circulação de dinheiro debaixo do pano. A lei que coíbe pagamentos em dinheiro vivo, que existe há muitos anos, está sendo reforçada. Para dificultar lavagem de dinheiro, grandes operações em espécie estão enquadradas. Veja alguns exemplos de limitação de transações em dinheiro:

Interligne vertical 17bVenda de imóvel: 10 mil euros.

Salário: mil euros.

Impostos: 300 euros.

Compra de moeda estrangeira: mil euros.

Pagamento de compra em loja: mil euros.

Acima desses montantes, só se pode pagar com cheque, cartão de crédito ou remessa bancária. Ainda que essa regulamentação não elimine todo risco de lavagem de dinheiro ilícito, cria forte empecilho. Pagamentos com cheque, cartão e remessa bancária deixam rastro. Está mais que na hora de implantar medidas rigorosas no Brasil.

Apagando incêndios

José Horta Manzano

Argentina 5Estas últimas semanas, a República Argentina vive uma febre de nomeação de embaixadores. Um mês antes de deixar o cargo, Cristina Fernández de Kirchner(*) disparou uma série de decretos designando nada menos que sete representantes no exterior.

Não ficou claro o motivo dessas nomeações às carreiras. É permitido imaginar que doña Cristina estivesse pagando dívidas de gratidão. Quando se deu conta de que seus dias na chefia do Estado estavam contados, tratou de resgatar compromissos assumidos de longa data.

É interessante notar que, menos de uma semana depois de assumir suas funções, o novo presidente parece ter sido contaminado pela febre de nomeações. Já designou seis novos representantes.

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Se Cristina, em fim de mandato, pagava dívidas, Macri tem outra motivação. As loucuras cometidas nos últimos vinte anos, desde a era Menem, corroeram a imagem da Argentina. O longo reinado dos Kirchner não contribuiu para aplainar arestas. Cabe ao novo presidente enviar, a postos-chave, portadores de mensagem de seriedade.

Compreensivelmente, señor Macri decidiu rapidinho quem serão os representantes nos Estados Unidos e na China – são potências mais que importantes. Os outros quatro enviados vão ao Uruguai, ao Brasil, à Espanha e… ao Vaticano. Por que terão sido escolhidos esses destinos?

Quanto ao Uruguai, é fácil entender: há interesses econômicos e enorme proximidade entre os dois países platinos, amigos de fé e irmãos camaradas.

O Brasil é parceiro incontornável, grande fornecedor, paciente interlocutor e generoso cliente. As boas intenções que o novo presidente tem com relação ao desencalhe do Mercosul dependem desesperadamente da anuência de Brasília.

Embaixada da República Argentina, Brasília

Embaixada da República Argentina, Brasília

Novo embaixador também foi designado para a Espanha. A encampação das atividades que a petroleira espanhola Repsol desenvolvia em solo argentino, decidida faz alguns anos, estremeceu as relações com Madrid e deixou marcas. A missão maior do novo embaixador será restabelecer a normalidade.

E o Vaticano? Sabe-se lá por que razão, a Santa Sé, fugindo à praxe diplomática, não enviou mensagem de felicitações ao novo presidente. E olhe que o papa é argentino! Algum problema há. O novo enviado há de estar incumbido de apagar focos de incêndio e de apaziguar relações.

Interligne 18h

(*) Na tradição espanhola, a mulher casada conserva o sobrenome de solteira – prática cuja imparcialidade me agrada. Em princípio, as antigas colônias hispânicas seguem o mesmo costume.

Nesse particular, nossos hermanos do Sul inovaram. Ao casar-se, a mulher argentina costuma conservar o sobrenome de solteira, podendo agregar o do marido precedido da partícula “de”.

Assim, Cristina Elisabet Fernández, quando se casou, tornou-se Cristina Elisabet Fernández de Kirchner. Para nós, parece estranho. Soa como se a esposa se tivesse tornado propriedade do marido.

Enfim, cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

Kiss of death

José Horta Manzano

Dicionario 2O Cambridge Dictionary ensina que a expressão “kiss of death” (=beijo da morte) é usada quando se tem certeza de que um fato vai impedir outro de se realizar. E dá como exemplo: “Chuva é o ‘kiss of death’ de um churrasco”.

Em pleno esperneio contra a cassação de seu mandato, dona Dilma acaba de receber importante apoio moral. Vem de Diego Armando Maradona, antigo profissional do futebol argentino. Embora seja figura idolatrada em seu país, o jogador nunca arrebatou multidões no Brasil.

De fato, o gol de mão com que Maradona definiu um jogo contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986 ficou na história do futebol. Não foi o gesto mais elegante que já se viu. É de crer que o esportista preferisse ser lembrado por outras façanhas, mas assim são as coisas. Passando por cima da perfídia do ato, nossos hermanos sempre louvaram o goleador pela esperteza.

Chamada do jornal O Tempo, 14 dez° 2015

Chamada do jornal O Tempo, 14 dez° 2015

Pensando bem, o socorro anunciado por Maradona faz sentido. Seu gol de mão foi exemplo típico do tenebroso adágio “os fins justificam todos os meios”. Na mesma linha, falsos dossiês, rapinagem, cooptação e pedaladas – métodos empregados com regularidade por dona Dilma e sua turma – seguem a mesma filosofia. A coincidência de visão de mundo é perfeita. O chato é que… nem todos os brasileiros enxergamos pelos mesmos óculos. Convenhamos que é um tanto embaraçoso.

Quer saber de uma coisa? Esqueça a ‘mano de Diós’. No que diz respeito a nossa presidente, o tuíte do ‘esperto’ jogador está mais pra ‘kiss of death’.

Novilíngua – 3

José Horta Manzano

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Este blogueiro é do tempo em que se tomava mais cuidado ao traduzir despachos chegados do estrangeiro.

Quanto aos vegetais comestíveis fotografados, faz oitocentos anos que têm nome genérico em nossa língua.

Quanto à metrópole indiana, foi batizada com nome próprio pelos primeiros portugueses que lá desembarcaram quinhentos anos atrás.

Revista e melhorada, a legenda da foto fica assim: “Vendedor de legumes espera por clientes em sua barraca num mercado de Bombaim, na Índia.”

A tradição continua

Elio Gáspari (*)

by Ueslei Marcelino, jornalista e fotógrafo brasiliense

by Ueslei Marcelino, jornalista e fotógrafo brasiliense

O fotógrafo Ueslei Marcelino captou a doutora Dilma num momento Debret ao caminhar nos jardins do Palácio da Alvorada rumo a um helicóptero. Ela ia à frente de um grupo de quatro cidadãos, todos de roupa escura e em fila indiana. O primeiro a protegia com um guarda-chuva aberto. Já o quarto carregava um guarda-chuva fechado. O segundo levava pequena sacola de papel.

by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Em famosa gravura, o pintor Jean-Baptiste Debret retratou um fidalgo do Rio de Janeiro seguido por uma fila de dez pessoas. Provavelmente iam para alguma cerimônia.

No tempo do imperador, era comum ver D. Pedro II carregar sua valise.

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Verba volant

José Horta Manzano

Verba volant 1A frase marcante da semana que passou foi, sem dúvida, aquela com que o vice-presidente encabeçou a carta enviada à chefe: Verba volant, scripta manent – palavras voam, escritos permanecem.

Firme e robusto, o adágio romano vigorou por dois milênios até que a revolução digital destas últimas décadas viesse injetar um grão de areia no azeitado mecanismo. De fato, escritos podem ser facilmente destruídos, enquanto dados digitalizados tedem a ser reproduzidos e conservados com segurança.

Toda moeda, no entanto, tem duas faces. Adulterar documentos escritos é possível, mas não é tarefa simples. Rasuras e correções costumam deixar rastro, ao passo que fraude em dados digitais é muito mais difícil de detectar.

Caramuru 1Faz duas semanas, soltei fogos ao receber a notícia do fim do voto eletrônico no Brasil. Infelizmente, não eram fogos Caramuru, aqueles que nunca dão chabu. A esmola era grande demais para sacola pequena. A boa-nova não se manteve de pé.

A crer no desmentido que acaba de surgir, continuaremos a apertar botões na hora de escolher representantes. E estaremos na incapacidade de conferir se a opção de cada eleitor terá sido realmente respeitada.

Era bom demais pra ser verdade. Em matéria eleitoral, a exceção brasileira prossegue. A comprovação de nosso voto continuará embrulhada nos mistérios impenetráveis da informática e avessa a toda tentativa de autentificação. É pena.

Wishful thinking

José Horta Manzano

Nossa língua é rica. Infelizmente, a deterioração do ensino básico tem negado aos mais jovens a chave do baú. O vocabulário encolhe, palavras-ônibus engolem termos específicos, a transmissão das ideias vai ficando mais complicada. A dificuldade de compreensão contamina até altas esferas: exemplo típico é o de nossa presidente, cujos pronunciamentos absconsos exigem interpretação.

Na Suíça, cada região fala a própria língua. Isso, no entanto, não causa particulares tensões – faz séculos que tem sido assim. Pelo contrário, costuma-se até brincar dizendo que os suíços se entendem bem justamente porque não se compreendem. É galhofa, mas não deixa de ter lá seu fundo de verdade. Talvez venha a se tornar realidade no Brasil de amanhã.

Na estrada 04A línguas germânicas, que muitas vezes dispensam preposições, têm características sintéticas. São, assim, mais maleáveis. Em inglês, por exemplo, com duas palavras exprimem-se conceitos complexos, daqueles que exigiriam uma linha de explicação em nosso idioma. É o caso de wishful thinking.

Ao pé da letra, a tradução «pensamento desejoso» não transpõe a ideia exata. Precisaria verter como «formular conceitos que levam a tomar decisões baseadas menos na realidade e mais no desejo que temos de que algo se concretize». Trabalhoso, não? Pra remediar, ficamos com o original mesmo. É verdade que a conhecida fórmula: “me engana, que eu gosto” exprime, com ironia, pensamento semelhante. Mas não é exatamente a mesma coisa, além de a expressão ser longa demais.

Evidenciando uma característica de nossos tempos, a cada dia pilhas de exemplos de wishful thinking despontam no horizonte político brasileiro. Topei com dois deles esta semana. O primeiro foi proferido por nosso guia. De visita à Espanha, onde chegou a ser recebido pelo rei, disse, sem corar, que «é um luxo para o Brasil ter uma presidente da qualidade da Dilma». Exemplo acabado de wishful thinking.

2015-1211-01 TeleSurOutro belíssimo espécime fez manchete no portal da venezuelana TeleSur, a chamada ‘tevê do Chávez’. Dando uma forcinha a nossa mandatária, noticiaram que «aumenta apoyo a Dilma Rousseff ante juicio político» – cresce apoio a Dilma Rousseff diante de julgamento político.

Quem conta um conto aumenta um ponto. Ou subtrai, dependendo da conveniência.

Falta de tacto ou desaforo?

José Horta Manzano

Não me canso de apontar a enxurrada de erros primários que tem encharcado nossa diplomacia desde que o «governo popular» se aboletou no Planalto. O inspirador de grande parte dessas iniciativas calamitosas é senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, assessor que dispõe de cadeira cativa: entrou em função no primeiro governo do Lula e está lá até hoje.

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Pode até nem parecer, mas esse senhor não é nenhum ignorantão. Estudou, tem formação. Seu problema – que acaba apequenando a diplomacia brasileira – é a fixação numa ultrapassada visão terceiro-mundista. Seu pensamento ficou ancorado no mundo dos anos 1960 e 1970, quando Nasser, Indira Gandhi e Tito tentavam escapar (sem realmente conseguir) da dualidade da Guerra Fria. Hoje, essa dicotomia não faz mais sentido.

Política externa não é o forte do Lula nem de dona Dilma. Tanto ele quanto ela decidiram abandonar esse importante espaço. Na falta de luminares, sobrou para senhor «Top-top». Que fazer? Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

Interligne 18c

Cônsules e embaixadores são enviados temporários. Dependendo das normas e da conveniência do Estado que representam, permanecem alguns meses ou alguns anos em cada missão. Em seguida, como numa dança de cadeiras, são removidos e despachados a outro país.

O posto de embaixador de Israel em Brasília vagou. O primeiro-ministro daquele país decidiu indicar senhor Dani Dayan para preencher o cargo. O governo brasileiro foi informado. Em princípio, o país receptor dá sua aprovação ao cabo de duas ou três semanas. Neste caso, passadas oito semanas, nosso Planalto se fecha num silêncio ensurdecedor.

Em artigo de 10 dez° 2015, o jornal The Times of Israel acredita ter entendido a razão da atitude de Brasília. O embaixador designado é notório ativista conhecido por seu empenho na causa da implantação de colônias israelenses na Cisjordânia ocupada.

Relações internacionais by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Relações internacionais
by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Ao que tudo indica, em julho de 2014, quando tratou o Brasil de «anão diplomático», o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores israelense não estava usando figura de linguagem. Estava realmente expressando a convicção dos mandachuvas daquele país. A designação do novo embaixador é a prova flagrante.

Se enviassem esse senhor para um país pequeno e inexpressivo, o fato passaria despercebido. Nomeá-lo para representar Israel no Brasil é, no mínimo, falta de tacto. Na pior das hipóteses, é desaforo.

Grande e populoso, nosso país conta com importante comunidade de confissão judaica. Além disso, Brasília já mostrou sua desaprovação quanto à persistência de Israel na política de implantação de colônias em território ocupado.

As credenciais do novo embaixador dificilmente serão acolhidas pelo Planalto. Desta vez, justiça seja feita, não se pode atirar pedra no “top-top”. A aceitação desse diplomata seria interpretada como conivência com a ocupação da Cisjordânia, atitude que o atual governo brasileiro desaprova. E eu também.

Frase do dia — 278

«Em 1906, graças aos investimentos feitos em saneamento básico e saúde pública pelo governador Jorge Tibiriçá, que poderia dar aulas de modernidade a 9 entre 10 políticos brasileiros de hoje, São Paulo comemorou a extinção da febre amarela e da varíola na capital.

Agora, com apenas 13 anos de PT, aí estão São Paulo e o Brasil afundados na dengue, na chicungunha, na zika, na microcefalia e na síndrome de Guillain-Barré galopantes…»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em seu blogue Vespeiro.