Quase-verdades e traições

José Horta Manzano

Para quem achava que o máximo em matéria de personalidade desconcertante era o Lula com suas idas e vindas e suas «quase-verdades», o presidente dos EUA é muito mais perturbador e ganha disparado. Pra quem se sentiu chocado quando o Lula apertou a mão de doutor Maluf, está aí Donald Trump pra fazer mais e melhor: apertou a mão de um ditador sanguinário, inimigo declarado de seu país.

Em matéria de traição e de reviravolta, Mister Trump deixa Lula da Silva no chinelo. É imbatível. Em apenas um ano, fez o que nenhum mandatário jamais ousou fazer nem ‘nessepaiz’, muito menos ‘nesseplaneta’.

O homem renegou os Acordos de Paris sobre o clima. Renegou o Acordo Nuclear Iraniano. Traiu países aliados ao impor tributação à importação de aço e de alumínio. Faz alguns dias, quando do último encontro do G7, assinou o acordo final para, poucas horas mais tarde, renegá-lo. E fez tudo isso sem corar.

Semana passada, tratou o primeiro-ministro canadense de traidor. E pensar que o Canadá é o mais antigo e mais fiel aliado dos EUA. Acompanhou o irmão poderoso nas horas boas e nas más, na guerra como na paz. Desembarcou na França em 1944 e batalhou junto.

Poucos dias depois, Trump declarou depositar toda confiança no ditador norte-coreano. Disse acreditar que o homem cumprirá o prometido e honrará os acordos. Pergunto agora: como é possível chamar de traidor o homem que encarna a população do maior aliado e, ao mesmo tempo, acariciar um brutal ditador e declarar confiar naquele que era inimigo até a véspera?

É dose pra elefante, como diz o outro! Ninguém pode garantir que Mister Trump não vá renegar, semana que vem, o protocolo assinado hoje com Kim Jong-un. Dá pra viver numa insegurança desse calibre?

Mas a roda gira. De tanto maltratar amigos e aliados, Donald Trump vai acabar se indispondo com todos. Não é o melhor cenário para seu país.

Palavra certa no lugar certo

José Horta Manzano

Muitas vezes, uma palavra ou expressão pode causar incômodo. Não me refiro a palavrão nem a expressão vulgar. Falo daquele termo que deixa uma sensação de estar fora de lugar, de ser palavra certa no lugar errado.

Na linguagem oral, nem sempre dá tempo de mergulhar ao fundo dos miolos para encontrar a boa expressão. Já quando se escreve, a coisa muda. Dá tempo de pensar e se expressar apropriadamente. É hora de praticar a adequação vocabular.

Termo inadequado não é necessariamente sinônimo de erro. Uso inadequado pode, no limite, até passar adiante a mensagem. Mas, convenhamos, deixa o discurso desgracioso. Se é possível fazer melhor, por que hesitar? Não há nada a perder.

Chamada Estadão
clique para ampliar

Bafômetro
O aparelhinho que leva o sugestivo nome de bafômetro mede a concentração de álcool no sangue. A lei brasileira proíbe ao motorista dirigir com mais de 0,6g de álcool por litro de sangue. Dependendo da corpulência da pessoa, a mesma quantidade de bebida alcoólica não faz efeito idêntico. A ingestão de dois copos de vinho, que não deixará um indivíduo tipo «dois por dois» alterado, pode deixar um magricela trançando as pernas.

Portanto, não é adequado falar em «ingestão de álcool acima do permitido». Previdente, a lei não mede a quantidade ingerida, mas a concentração remanescente no sangue. A expressão utilizada na chamada foi inadequada. Melhor dizer que o teste constatou presença de álcool no sangue superior ao limite legal.

Chamada Estadão
clique para ampliar

Sujeito boa-praça
Nem sei se os jovens ainda conhecem essa expressão. Boa-praça se dizia de um indivíduo simpático, sorridente, sempre bem-disposto. De uma pessoa assim, dizem hoje que é «amigável». A mim, soa estranho. Sou do tempo em que esse adjetivo era reservado para definir desquite, divórcio, negociação, trato comercial. Nunca se descrevia pessoa como «amigável». Há de ser contaminação do inglês “friendly”.

No lugar de qualificar o sujeito de «amigável», mais vale dizer que é amistoso, amical, amável, simpático, cordial, gentil. Ou, simplesmente, amigo. A expressão utilizada na chamada soa esquisita.

Chamada Estadão
clique para ampliar

Thank you
Pelos serviços que tem prestado ao país, doutor Sergio Moro foi homenageado com um prêmio conferido pela Universidade Notre Dame. Ao receber a honraria, o juiz pronunciou palavras de agradecimento. Na chamada da notícia, o jornal qualificou a fala do magistrado de «discurso de gratidão». Como é que é? Ficou esquisito. A palavra gratidão tem forte carga emocional (e até moral), enquanto agradecimento é gesto de boa educação.

«O acidentado demonstrou gratidão para com o bombeiro que o salvou do incêndio» ‒ é situação em que a palavra cabe perfeitamente. Doutor Moro, que não deve gratidão à universidade que o homenageou, apenas proferiu «discurso de agradecimento». Mostrou que é educado. Educado e esperançoso. Segundo o doutor, «a era dos nossos barões da corrupção está chegando ao fim»

Inxalá!(*)

(*) Inxalá é livre transcrição de interjeição árabe que significa «Queira Deus!». Está na origem de nosso oxalá, de mesmo sentido.

Destino dramático

Cláudio Humberto (*)

Experimentam destino dramático os maiores empresários que prosperaram à sombra do Lula, de quem se fizeram amigos íntimos. Acabaram vitimados pelo famoso pé-frio do ex-presidente.

Lula caricatura 2Eike Batista, quem diria, antes considerado o oitavo mais rico do mundo, hoje foge de credores (e de oficiais de justiça) como o diabo, da cruz. Mas tem razões para comemorar: ao menos ele não foi preso.

O pecuarista José Carlos Bumlai, um dos homens mais ricos do Centro-Oeste, também teve destino trágico: está preso no âmbito da Lava a Jato.

André Esteves, banqueiro favorito de Lula, foi preso. Ganhou habeas corpus, mas é forte o risco de receber longa pena de cadeia.

Também acabaram na cadeia os empreiteiros favoritos da era do Lula, de quem se tinham tornado amigos: Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro (OAS).

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.