A vida dura dos presidentes

José Horta Manzano

Aparições públicas são momentos de alto risco para governantes. Não falo de risco de vida, falo de risco para a imagem.

Até uns 20 anos atrás, atentados eram moeda corrente em qualquer ponto do globo. Desde Júlio César, enfrentaram essa situação incômoda ― e às vezes mortal ― figuras excelsas como o Mahatma Gandhi, João Paulo II, John F. Kennedy, D. Carlos I (rei de Portugal), Benazir Bhutto (do Paquistão), Ronald Reagan, Indira Gandhi. E muitos outros.

Os 38% de dona Dilma vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Os 38% de dona Dilma
vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Hoje em dia acontece menos, talvez porque o aparato de proteção da pessoa física se tenha aperfeiçoado. Mas os descontentes, se não conseguem mais atingir figurões fisicamente, dão a volta por cima. Por vias menos violentas, mas tão contundentes quanto as tradicionais, se valem da internet e das chamadas redes sociais.

Assim mesmo, aparição pública sempre comporta uma dose de risco. Se ficou difícil riscar o personagem da face da Terra, logra-se riscar sua imagem e deixar arranhões que causam tanto dano quanto uma punhalada.

Todos se lembram daquele dia em que, ao preparar-se para discursar no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007, nosso messias ouviu, atônito, uma retumbante vaia. Poucos se lembrarão de seus índices de popularidade na época. Mas ninguém esqueceu os apupos.

Nossa guia atual também já passou pela experiência. Foi bem mais recentemente, na inauguração da copinha de poucos meses atrás, de novo no mesmo Maracanã. Como deve ter sofrido nossa orgulhosa presidente! Para ela também vale a mesma reflexão. Que tenha 30%, 50% ou 80% de popularidade importa pouco. O que ninguém jamais esquecerá são as vaias. Tonitruantes.

François Hollande vaiado 11 nov° 2013

François Hollande vaiado
Paris, 11 nov° 2013

Monsieur Hollande, presidente da França, participou de dois atos públicos importantes nesta segunda-feira. O onze de novembro é feriado nacional, dia em que se comemora o armistício de 1918, aquele que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. O brilho da solene aparição do mandatário nos Champs-Elysées foi embaçado pelas vaias de uma parte da multidão.

Mais tarde, Hollande se dirigiu a uma comemoração menos pomposa, numa cidadezinha do interior. E não é que a coisa se repetiu? Foi de novo vaiado. A cerimônia foi encurtada, e o presidente escafedeu-se.

Bem, é de notar que a popularidade de François Hollande está no patamar mais baixo jamais registrado para um presidente da França desde que esse índice começou a ser medido. Apenas 21% dos franceses avaliam positivamente seu governo. Nem Sarkozy, o antecessor, havia chegado a um número tão pífio.

Pensando bem, dona Dilma pode até sentir-se feliz com seus 38%. Mas vamos ver. Dificilmente ela poderá esquivar-se de discursar na abertura da copona, a do ano que vem. Com bombas de efeito moral, podem-se reprimir alguns arruaceiros, mas… como calar um estádio?

A imprensa faz mal à democracia

Guilherme Fiuza

Discursando no Senado, em comemoração aos 25 anos de promulgação da Constituição, Lula disse que a imprensa “avacalha a política”. E explicou que quem agride a política propõe a ditadura. Parem as máquinas: para o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, a imprensa brasileira atenta contra a democracia. É uma acusação grave.

Os líderes da esquerda brasileira Crédito: Ricardo Stuckert

Os líderes da esquerda brasileira
Crédito: Ricardo Stuckert

O Brasil não tinha se dado conta de que os jornais, as rádios, a internet e as televisões punham em risco sua vida democrática. Felizmente o país tem um líder atento como Lula, capaz de perceber que os jornalistas brasileiros estão tramando uma ditadura. Espera-se que a denúncia do filho do Brasil e pai do PT tenha acontecido a tempo de evitar o pior. (…)

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Faltou um (para)fuso

José Horta Manzano

Você sabia?

Para quem faltou à aula de Geografia no dia em que falaram sobre fusos horários, dou algumas pinceladas sobre o assunto. Quando é meio-dia em Brasília, é meia-noite em Tóquio, disso todo o mundo já ouviu falar. Mas por que é assim? Porque a Terra é redonda e gira em torno de si mesma, ora. Se ela fosse quadrada ou se não girasse ― como já chegou a sugerir um antigo presidente da República cujo nome neste momento me escapa ―, o problema da hora não existiria. De um lado do cubo seria sempre dia, enquanto o lado oposto viveria em escuridão eterna.

Dado que não é assim, todos os países aderiram à tradicional divisão do dia em 24 horas, que já vem dos tempos babilônicos, e o problema foi resolvido. Como os gomos de uma laranja, a Terra foi dividida em 24 fusos de referência, um para cada hora, tendo como marco inicial o meridiano de Londres ― a potência preponderante no século XIX.

O desenvolvimento das comunicações (estradas de ferro, telégrafo) fizeram que, pouco a pouco, todos os países aderissem ao sistema. O Decreto n° 2784, assinado pelo presidente Hermes da Fonseca em 18 junho 1913, estabelecia no Brasil a Hora Legal. Geógrafos constataram que, devido à sua grande extensão leste-oeste, nosso País abrangia quatro zonas horárias, cobrindo quatro fusos. O decreto oficializava essa realidade e determinava as partes do território nacional que passavam a se enquadrar em cada fuso.

Noventa e cinco anos escorreram sem maiores problemas, até que, um belo dia, um senador do Partido dos Trabalhadores propôs uma lei que, em flagrante colisão com a geografia e com o simples bom-senso, eliminava o quarto fuso horário no Brasil. O Acre e o extremo oeste do Amazonas passavam a se regular pela mesma hora de Mato Grosso do Sul, numa explícita aberração geográfica.

O Congresso Nacional, sempre distraído, aprovou a lei que foi rapidamente sancionada pelo mesmo presidente de que lhes falei acima, aquele da terra quadrada. Um grande perito em temas geográficos.

Brasil ― fusos horários

Brasil ― fusos horários

Dizem as más línguas que a razão principal da bizarra mudança foi a pressão exercida por uma grande emissora de tevê, muito ativa no ramo de novelas. Parece que o quarto fuso lhe causava certos transtornos ― donde o atentado à geografia. Mas há controvérsias. Pode ser que a razão não tenha sido essa. Em todo caso, a ninguém ocorreu, na época, consultar os maiores interessados: a população local. O Brasil é um país de todos, mas é evidente que nem todos os todos são iguais.

A nova lei entrou em vigor como rolo compressor. Mas a população atingida foi assim mesmo às urnas em 2010 e deixou claro que não estava de acordo com a mudança arbitrária. Após três anos de querela jurídica, a nova presidente da República, magnânima, decidiu fazer o que o povo lhe pedia. Acaba de sancionar a lei que anula a esdrúxula mudança de 2008. Fica o dito pelo não dito. A partir de domingo 10 de novembro, o Acre e o Oeste do Estado do Amazonas voltam a integrar o fuso dito GMT menos 5h, de onde nunca deviam ter sido desalojados.

O (para)fuso solto voltou a ser atarraxado.

Cara de pau

José Horta Manzano

Segundo informações da Agência Brasil, repercutidas pelo DCI e pelo Estadão, a Câmara Federal outorgou ao Lula a Medalha da Suprema Distinção, concedida a quem presta relevantes serviços públicos à sociedade brasileira (sic). O Correio Braziliense apimenta a notícia ao nos dar conta da agressão cometida por um segurança contra um repórter. Um efeito colateral certamente indesejável, mas real.Interligne 23

A motivação dessa homenagem que suas excelências prestaram ao preclaro mandachuva me faz lembrar o relato que ouvi, tempos atrás, de um conhecido. Ele vivia, não fazia muito tempo, com uma companheira chinesa. Ela já tinha chegado à Europa na idade adulta. Embora fosse inteligente e de boa educação, as minúcias do dia a dia ocidental não lhe eram totalmente familiares.

Meu amigo, profissional liberal, explicou um belo dia à namorada que tencionava dar um aumento de mérito a algumas de suas assistentes para o ano seguinte. A chinesa olhou sem entender e perguntou o significado da expressão. Ele explicou que era um aumento de salário que patrões costumam conceder a funcionários que se tenham mostrado esforçados.

Espanto visível no rosto da chinesa. «É mesmo? Que coisa estranha!». E continuou: «No meu país, todo empregado tem obrigação de se esforçar. Não é matéria sobre a qual se discuta. Falar em aumento de mérito, na China, não faz sentido. Quem não fizer por merecer perde o emprego».Interligne 23

O senhor Lula da Silva foi presidente do País durante 8 anos. De alguém que ocupou o cargo maior da República, espera-se que tenha prestado bons serviços públicos à sociedade ― faz parte de suas atribuições. Portanto, a outorga da medalha não faz sentido. Ou se concede essa distinção a todos os que tiverem ocupado o posto, ou não se concede a nenhum.

Homenagem ao Lula vista por Alberto Alpino, cartunista capixaba

Homenagem ao Lula
vista por Alberto Alpino, cartunista capixaba

Quando o presidente não presta, a lei permite aos cidadãos apeá-lo do cargo e mandá-lo de volta pra casa. Esse direito, naturalmente, terá de ser exercido através dos parlamentares, os representantes do povo. A destituição (ou impedimento) de um presidente é mais conhecida no Brasil por seu nome em tupiniquim genuíno: impeachment. Se, ao final do mandato, o presidente não tiver sido destituído, é sinal de que prestou bons serviços. É natural, foi eleito justamente para isso.

Em seu discurso aos parlamentares, Luiz Inácio ousou uma daquelas suas afirmações vazias que causam impacto no auditório: preconizou uma reforma política para o País. Ou ele está zombando da memória de todos nós ou algum tipo precoce de demência já anda consumindo os neurônios que lhe restam. O Lula foi presidente omnipotente durante oito longos anos durante os quais o Senado, a Câmara e a camarilha vinham comer na sua mão. Excetuando-se tempos ditatoriais (Estado Novo e ditadura militar), foi certamente o presidente que maior poder deteve. Se não promoveu uma reforma política enquanto estava no pedestal foi porque não quis. Soa muito hipócrita vir a público ― justamente agora que os ventos estão mudando de quadrante ― conclamar outros a fazerem aquilo que ele mesmo, por oportunismo ou pusilanimidade, não fez.

Não parou por aí o autoincensamento do medalhão. Recordou manifestações da década de 70, como se delas tivesse participado. Não é o que a História registrou. Seu nome não começa a surgir senão no entardecer da ditadura, quase nos anos 80. E não como locomotiva de alguma ideia política, mas como líder sindical e agitador de massas. Se um partido se formou em volta dele foi porque ideólogos e alguns oportunistas se aglomeraram em roda do homem que lhes pareceu representar um bom canal de vulgarização de suas elucubrações para as camadas populares. Sem a matéria prima e o apoio daqueles intelectuais de primeira hora, nosso messias ainda estaria discursando em porta de fábrica.

Para coroar, o figurão enfatizou a Assembleia Constituinte, da qual foi deputado de apagada atuação. A menção à Constituição de 1988 tem o intuito evidente de fazer que as novas gerações imaginem que ele tomou parte ativa em sua elaboração. Curiosamente, ele «esqueceu» de dizer que seu partido reprovou a Lei Maior e votou contra ela. Que não venha agora tentar colher louros que não plantou.

A cooperação bilateral e os sapos

José Horta Manzano

Francamente, a confrontação não é o traço de caráter mais marcante de Lula da Silva. O homem é mais propenso a arreglos, conversas de corredor, negociações, acertos. Dizem que o fruto nunca cai muito longe da árvore. Será?

Sapo

Sapo

Imaginava-se que dona Dilma, filha política do Lula ― e não muié do hômi, como pensam alguns ― seguisse o exemplo do pai e padrinho. Não é o que se tem visto. Toda família tem sua ovelha negra, é verdade, mas a atual chefe do Executivo exagerou no contraste com relação a seu criador. Mais que negra, a ovelha saiu retinta.

Onde o Lula ― às vezes com certa ingenuidade ― procurava apaziguar e pôr panos quentes, dona Dilma não só prefere o enfrentamento, como ainda pisa com força. Tomemos o recente e atualíssimo caso dos segredos da agência americana de inteligência, bradados aos quatro ventos pelo trânsfuga Snowden.

A propósito, diga-se que, passados os quinze minutos de glória a que aspirava, o indiscreto funcionário periga ser esquecido nas estepes russas. Ele já disse o que tinha que dizer. Continuar a bater na mesma tecla, no fundo, não interessa a nenhuma das partes envolvidas, nem a espiões, nem a espionados. Insistir no assunto só pode aumentar o constrangimento de todos. Quanto ao funcionário indiscreto, fica a impressão de que, se arrependimento matasse, ele já estaria sob sete palmos de terra.

Voltando a dona Dilma, o fato de saber-se espionada, intolerável para sua autoestima, despertou seu caráter belicoso. É sempre arriscado imaginar qual teria sido a reação do Planalto se o presidente fosse outro. Mas é permitido acreditar que, caso o escândalo tivesse estourado durante o governo do Lula, ele teria refreado todo ímpeto de revide e teria procurado tirar o melhor proveito da situação. É seu feitio.

Já dona Dilma optou por arremessar o brinquedo ao chão e pisoteá-lo. Arreganhou os dentes, mostrou as garras, foi manchete nos jornais brasileiros durante dias, virou nota de rodapé até na mídia estrangeira. Mas, no frigir dos ovos, terá ganhado alguma coisa, terá auferido alguma vantagem? A pergunta fica no ar, mas receio que o resultado da agitação tenha sido nulo. Tudo continua como antes.

Estes dias, o jornal francês Le Monde noticiou, numa série de reportagens baseadas nas revelações do senhor Snowden, que membros do governo francês também estavam sendo monitorados pela inteligência americana. Não só homens políticos, mas também indústrias estratégicas. Qual está sendo a reação de Paris?

Sapo

Sapo

Durante três dias, Monsieur Hollande mostrou indignação, como manda o protocolo. Passada a tempestade, o presidente francês lembrou-se do sábio adágio segundo o qual, quando não se tem força para combater o leão, o melhor é aliar-se a ele.

O próprio Le Monde nos dá a informação ― repercutida pelo correspondente do Estadão ― de que Paris propõe aos serviços secretos americanos colaborar com a inteligência francesa. Coopération bilatérale é o que sugere o presidente, expressão que dispensa tradução. Surpreendente? Nem tanto.

Por um lado, Hollande mostra ao mundo que seu país não se compraz no papel de ator secundário na cena universal. Tem serviços de espionagem e contraespionagem, como todo Estado zeloso de sua importância. Foi mais esperto que nosso Planalto que, com sua tragicômica e exagerada indignação, deixou patente que não dispunha de meios para se defender. Por outro lado, Paris entendeu que juntar suas forças às do adversário é uma boa maneira de enquadrá-lo e de se inteirar de seus métodos.

Mostrar muque, afrontar, desafiar, fazer beicinho, comportar-se à moda do finado Chávez pode impressionar o distinto público interno, mas é sem efeito para resolver problemas externos. Talvez dona Dilma e seus ínclitos assessores consigam um dia entender esta verdade basilar: na política, às vezes, precisa engolir sapos sem fazer cara feia.

Não tenho muita fé, mas… a esperança é a última que morre.

Casa da avó

José Horta Manzano

Vovó

Vovó

Minha avó era um puro produto do século XIX. Em sua casa, visita de mulher separada(*) era tolerada. Até desquitada(*) entrava. No entanto, o novo companheiro da pecadora não passava da soleira. Eram as regras da casa. Ninguém era obrigado a frequentar aquele lar, mas os que quisessem entrar tinham de estar conformes ao regulamento.

A Igreja Católica não permite o ordenamento de mulheres. Tampouco aceita o casamento de seus sacerdotes. Pode ser até que as coisas mudem no futuro ― Papa Francisco dá sinais de não se opor à flexibilização de certos regulamentos. Seja como for, as regras da casa atualmente são como são. Os tempos medievais passaram e o Tribunal da Inquisição também já foi extinto. Portanto, ninguém mais é obrigado a abraçar a fé católica e a permanecer-lhe fiel durante toda a vida. No entanto, os que desejarem fazê-lo terão de se conformar com o regulamento.

Em casa de japonês, não se entra com sapato nos pés. Não se usa cumprimentar dando a mão, muito menos dando beijinho. Costuma-se agradecer na entrada, elogiar durante a estada e agradecer de novo na saída. Ninguém é obrigado a frequentar casa de japonês, mas os que quiserem guardar bom relacionamento com nossos amigos orientais terão de se conformar com o regulamento.

Em estádio de futebol, não se pode consumir bebida alcoólica ― pelo menos, assim era antes de a Constituição da Fifa ser içada acima da nossa. Em açougue, cachorro não entra. Em templo muçulmano, ninguém pode entrar com sapato nos pés. No Clube do Bolinha, mulher não é admitida. Em determinados batalhões militares de aparato, homens de estatura inferior a um metro e oitenta não são aceitos. Em espetáculos cujo conteúdo pode chocar almas sensíveis, não é permitida a entrada de crianças.

Não passe!

Não passe!

Ninguém é obrigado a frequentar estádios de futebol, a entrar em açougue, a visitar mesquitas, a matricular-se no Clube do Bolinha. Contudo ― e não deveria ser difícil entender ― aquele que quiser comparecer a esses lugares terá de se conformar com as regras. Se espaços públicos têm suas exigências, que dirá espaços privados.

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias, um dos braços da Câmara Federal, é conduzida pelo deputado Feliciano, criador e dirigente de uma das numerosas seitas neopentecostais que pipocam atualmente. Sua escolha para administrar essa comissão provocou escândalo em muitos brasileiros pensantes. Parece que o homem tem um grave problema de intolerância a comportamentos sexuais que não lhe pareçam ortodoxos. É possível que o deputado Feliciano carregue recalques que Freud explicaria. Mas não é disso que lhes quero falar hoje.

Como se diz por aqui, não se deve jogar o bebê com a água do banho. O fato de o deputado ser figura controversa e contestada não justifica a rejeição sistemática de todos os seus atos e de todas as suas ideias. Assim como já elogiei, quando me pareceu justificado, alguma ação do senhor Haddad ― e até mesmo algum (raro) ato do senhor Lula da Silva! ―, tenho de concordar com a decisão tomada ontem pela comissão parlamentar presidida pelo senhor Feliciano.

Vá circular noutra freguesia!

Vá circular noutra freguesia!

A Comissão recomenda à Câmara que aprove um projeto de lei que dá a organizações religiosas o direito de recusar pessoas que violem seus valores. A grita dos discordantes baseia-se nos direitos das minorias. Pois eu acredito que a Comissão, no presente caso, tem razão. Errados estão os discordantes.

Os direitos de que dispõem as minorias não são absolutos. O direito de um indivíduo expira no exato ponto em que começa o direito do próximo. Igrejas, templos, mesquitas, açougues, estádios, cinemas, clubes têm suas regras. Cabe aos aderentes segui-las. Não faria sentido ser admitido num templo religioso ― neopentecostal ou não ― por força de mandado de segurança.

Como na casa da avó, só deve entrar quem estiver em conformidade com as regras.

Interligne 18b

(*) Explicação para os mais jovens que talvez não conheçam
No tempo em que não se divorciava no Brasil, havia uma solução intermediária para oficializar a separação. Chamava-se desquite. Era uma separação judicial que, embora não desse aos cônjuges autorização para se casarem de novo, regularizava a situação.

Privilegiados da Justiça

José Horta Manzano

Justiça

Justiça

As últimas do STF nos chegam por via do Diário da Justiça. A mídia cuidou de fazer a devida tradução do juridiquês para o vernáculo. Ficamos oficialmente informados. Sabemos a quantas anda o julgamento do mensalão. Se entendi bem, excetuados os que foram condenados a penas mais severas, os acusados ainda podem apresentar novos embargos infringentes. Desconhecida do vulgo até algumas semanas atrás, essa locução entrou na linguagem do dia a dia. Trocada em miúdos, equivale à conhecida expressão entrar com recurso.

Sabemos todos que, em nosso país, figurões não são pessoas comuns. Aliás, um presidente da República um dia proferiu essa ousada afirmação ― e o fez com todas as letras. Portanto, entendemos todos que, caso deslizem, medalhões merecem tratamento especial. Não estão sujeitos a tribunais menores, de primeira ou segunda instância, que isso é para gente ordinária. Respondem diretamente ao tribunal maior. Questão de prestígio, ora vejam. Gente fina não se mistura com ralé.

Só que há um senão. Gente normal passa primeiro por um tribunal de primeira instância. Caso discorde do julgamento, tem a possibilidade de apelar para um tribunal superior, onde os juízes não são os mesmos. Caso ainda não esteja satisfeito, resta-lhe ainda uma derradeira possibilidade: o STF. É verdade que, para chegar lá, precisa ter fôlego, tempo e dinheiro. Mas a possibilidade existe.

Justiça

Justiça

No que concerne aos eleitos, o privilégio de passarem por cima dos tribunais menores e serem enviados diretamente diante dos ministros do supremo é faca de dois gumes. Entre julgamento inicial, recursos e embargos, terão direito, como qualquer mortal, a pelo menos três apreciações. Só que…

…só que essas avaliações serão feitas, em princípio, pelos mesmos juízes. O caso do mensalão é um pouco especial porque o fato de ele ter-se espichado anos e anos propiciou a saída de cena de ministros antigos e a chegada de novos juízes. Indo direto ao STF, os acusados têm várias chances de protestar sua inocência. Mas é grande o risco de serem rejulgados sempre pelos mesmos árbitros.

Ninguém gosta de se contradizer, é questão de imagem pública e de coerência. Acusados comuns têm três chances reais de ser julgados, dado que os julgadores serão a cada vez diferentes. Já os privilegiados perigam enfrentar todas as vezes a mesma comissão julgadora.

Justiça

Justiça

Até pouco tempo atrás, para que um político chegasse a ser julgado (e condenado) pelo STF, precisava no mínimo ter esquartejado alguém com motosserra. Os tempos estão mudando. Crimes de colarinho branco já não eludem tão facilmente a lei.

Quando de uma hipotética futura reforma do Poder Judiciário, esse duvidoso privilégio será certamente objeto de especial atenção. Não seria espantoso que fosse abolido e que medalhões decaídos passassem a iniciar sua peregrinação respondendo a um tribunal de primeira instância. Como qualquer outro cidadão.

Tribunais especiais aos quais somente uma casta de cidadãos têm direito destoam num país que se quer democrático. Na mesma linha, estão as condições carcerárias privilegiadas (prisão especial) ― concedidas com base num eventual diploma formal obtido outrora pelo condenado.

São resquícios de uma sociedade arcaica que a Constituição de 1988, por mais que seja dita cidadã, não conseguiu remover.

Escola pública, gratuita e obrigatória

José Horta Manzano

Dez anos atrás, quando conseguiu ser eleito ao cargo mais prestigioso da República, o Lula devia estar muito feliz. Seu deslumbramento cegou-o. Deve ter imaginado que havia chegado lá exclusivamente por mérito pessoal. O sucesso baralha as ideias.

Caçador de letras by André Abreu, desenhista paraense

Caçador de letras
by André Abreu, desenhista paraense

Em sua simploriedade, o novo inquilino do Planalto não foi capaz de se dar conta de que, enquanto ele entrava com a cara e o carisma, uma complexa máquina operada por milhares de indivíduos atapetava-lhe o caminho do triunfo. Às vezes eu me pergunto se, hoje, a ficha já caiu ― se ele já entendeu que, sem o amparo de foi beneficiário, jamais teria sido eleito.

Já foi dada a prova de que, dispondo de máquina eleitoral eficiente e bem lubrificada, qualquer um pode ser eleito. Dois postes ― para usar a linguagem do próprio ex-presidente ― já tiraram a sorte grande por esse método: o prefeito de São Paulo e a atual presidente da República. Eram ilustres desconhecidos desprovidos de capital eleitoral. Se foram guindados ao posto que hoje ocupam, devem-no exclusivamente ao complexo e formidável aparelho político-partidário que os catapultou.

Voltemos a nosso antigo presidente. Partindo de seu caso particular, o Lula generalizou. Sua ascensão à chefia do Executivo há de tê-lo convencido de que a falta de instrução formal não constituía, em absoluto, empecilho para o sucesso. Se um semiletrado havia podido alçar-se ao posto maior, qualquer um poderia conquistar qualquer posto. Ora, pois!

Convencido de que o mundo funciona assim, foi coerente consigo mesmo. Despendeu esforço e dinheiro (público) para costurar acordos, cooptar apoio, alardear seus feitos. Para a educação, nada. Migalhas. Por que gastar dinheiro com supérfluos? ― deve ter pensado nosso líder.

Quem planta, colhe. As crianças que, em 2003, estavam na escola primária, estão hoje cursando ensino superior ou às portas de fazê-lo. Como o governo central não se preocupou em dar-lhes formação sólida, continuam chegando crus aos estudos superiores. Nossas escolas superiores chegam a abrigar gente cuja ausência de pensamento lógico as impede até de se exprimir. São estabelecimentos que, de superiores, só têm o nome.

Vamos ser justos: o presidente taumaturgo não é o único responsável pela pobreza intelectual do jovem brasileiro. Com esporádicas exceções, os que lhe antecederam pouco tinham feito pela instrução pública. No entanto… nosso milagreiro carregava capital de esperança superior a qualquer um de seus predecessores, desde Getúlio Vargas. Mais que isso, tendo sentido desde a infância o peso da ignorância e a falta que o saber faz, era de esperar que se mostrasse sensível à elevação do nível de formação escolar.

Não foi o que aconteceu. Temos hoje, em teoria, um número maior de escolas de ensino dito superior. Mas os alunos que a ela chegam nem sempre estão capacitados a encarar aprendizado complexo. Não foram formados para isso. Os docentes são obrigados a descer ao nível dos alunos. Forma-se um círculo vicioso. Os diplomados de amanhã terão recebido formação de segunda classe. Tendo recebido formação fraca, transmitirão os parcos conhecimentos de que dispõem. E o círculo se fecha.Alfabeto

Saiu ontem a notícia: a respeitada instituição Times Higher Education avalia que a Universidade de São Paulo ― o melhor estabelecimento de ensino superior do Brasil ― não figura mais nem entre os 200 melhores do mundo. Está mais perto do 250° lugar.

Tendo em mente que o Brasil é o 5° país em superfície e também o 5° em população, a classificação de nosso ensino é lamentável, vergonhosa, inquietante. E nada indica que a descida aos infernos esteja perto de se estancar. Detalhe acachapante: a instituição avaliadora chega até a considerar que duas universidades turcas são melhores que nossa USP.

Acredito que a mente do jovem brasileiro não seja mais embotada que a de qualquer outro. Portanto, estamos desperdiçando material humano e comprometendo o futuro do País. Uma pena. Já dizia Pero Vaz de Caminha, 500 anos atrás, que a terra achada era boa e que, em se plantando, dar-se-ia nela tudo. Falta plantar.

A razão dá-se a quem tem

José Horta Manzano

Em 1932, Noel Rosa e Ismael Silva compuseram ― e Chico Alves e Mario Reis gravaram ― um samba que ia assim:

Notas musicaisSe meu amor me deixar
Eu não posso me queixar
Vou sofrendo sem dizer nada a ninguém
A razão dá-se a quem tem

De lá pra cá, o Amazonas despejou muita água no oceano, mas certas verdades continuam valendo. A razão dá-se a quem tem.

Meus leitores sabem que sempre me mostrei francamente céptico quanto à competência do Lula de dirigir o Brasil. Nosso messias exibe comportamento demasiado ameboide a meu gosto.

Concordo que cada um adapte seu comportamento a cada situação. Entendo que se possa transigir aqui ou ali. Mas o Lula destes últimos dez anos decepcionou muita gente. Deixou a impressão de que os fins justificam todo e qualquer meio. Tudo serve, desde que se alcance o objetivo. É aí, a meu ver, que a coisa pega. Comportamentos excessivos nunca são bons.

Supremo Tribunal Federal Brasília

Supremo Tribunal Federal
Brasília

No entanto ― e agora voltamos a nosso sambinha ― nada nem ninguém é de todo ruim. O Lula, que pode ser chucro mas bobo não é, às vezes tem umas tiradas que não são de jogar fora.

Aconteceu nesta terça-feira, 1° de outubro. Em cerimônia patrocinada pela OAB em Brasília, o Lula soltou as barbaridades que dele já se esperam. Previsivelmente, voltou a classificar o julgamento do mensalão de «linchamento». Se seu pronunciamento se tivesse resumido a isso, não valia um post.

Não sei se lhe terá sido soprado por algum assessor, mas o fato é que nosso ex-presidente, num lampo de bom-senso ao qual não estamos acostumados, saiu-se com um argumento daqueles que fazem a gente parar e pensar. Propôs que o mandato dos ministros do Supremo passe a ser por tempo limitado, não mais vitalício. Mais que isso, sugeriu que, em lugar de serem nomeados unicamente pelo presidente da República, como é o caso atualmente, a decisão seja colegial e envolva outras instituições.

Falou na mesma linha do que eu já tinha sugerido em meu post Tribunal federal, de 14 de set°. Que o Lula e eu estejamos de acordo é suficientemente raro. Merece rojão e champanhe!

De fato, qualquer dono de mandato vitalício tende a amolecer. Pra que mostrar aplicação quando você tem a garantia de nunca ser despedido? Não há como segurar a motivação, it’s human nature. Mandato por tempo limitado é mais salutar. Como disse o Lula, se presidente, senador, governador, deputado têm de se submeter ao julgamento das urnas periodicamente, por que cargas d’água ministro de STF não teria de passar por reavaliação? Se os atuais ministros tivessem de provar que são suficientemente bons para conseguir renovar o mandato, o resultado do julgamento do mensalão teria seguido rumos bem diferentes. Pode apostar.

JustiçaConcordo plenamente com nosso messias quando sugere que a escolha seja feita não mais pelo presidente da República, mas por um colegiado incluindo bambambãs do ramo, gente de notória erudição e ilibada reputação. Receio que não vá ser fácil encontrar tanta qualidade reunida, mas vale a pena tentar.

Do jeito que está, com ministros do STF nomeados pelo titular da presidência, a Justiça parece não estar no mesmo patamar dos outros dois poderes da República. A continuar assim, é grande o risco de termos um tribunal supremo ao molho bolivariano, dominado pela politicagem, pela ideologia e, pior, pelo partidarismo. Aliás, já estamos no bom caminho.

Se a sugestão do Lula germinar, será coisa boa para ele e para o Brasil. O país aperfeiçoará suas instituições e o ex-presidente poderá acrescentar alguns créditos ao seu currículo que, francamente, anda meio magrinho.

A razão dá-se a quem tem.

De alto padrão

José Horta Manzano

Uma empresa costuma se parecer com seu dono ou com seu gerente. Se o dirigente é atencioso e gentil com a clientela, os funcionários tendem a seguir a mesma trilha. Quando o chefe é malcriado, fala aos berros uma linguagem entrecortada de palavrões e maltrata os funcionários, estes acabam se deixando contaminar. Em pouco tempo, a atmosfera na empresa estará irrespirável. E a firma vai acabar se transformando numa verdadeira casa de mãe joana.

A mesma coisa se dá com um país. O espírito reinante nas altas esferas acaba escorrendo e contaminando boa parte do povo. Um governo autoritário e paranoico perverte o povo. Aconteceu na antiga Alemanha Oriental de 1945 a 1989, quando um governo acossado por mania de perseguição converteu metade da população em espiões. Pai desconfiava de filho, irmão desconhecia irmão, todos bisbilhotavam a vida de todos.

No Brasil não chegamos ― ainda ― a esse nível de tensão. Mas os oito anos de reino de nosso messias deixaram marcas que levarão muito tempo para esmaecer.

Estádio «padrão Fifa»

Estádio «padrão Fifa»

Em sua visão distorcida de mundo, nosso antigo presidente punha o futebol no topo, a preocupação maior, o bem supremo. Suas parábolas faziam uso frequente de metáforas futebolísticas. Para apaziguar a violência do sofrido Haiti, organizou uma partida de futebol. Naturalmente, não conseguiu resolver coisa alguma. Assim mesmo, não desistiu.

Chegou a propor um jogo no conturbado Oriente Médio, como meio ― infalível, segundo ele ― de pôr fim ao conflito crônico entre árabes e israelenses. Os dirigentes daquela região trataram de enquadrar nosso criativo mandachuva. Como era de esperar, o jogo nunca se realizou.

Durante seu longo governo, o Lula deu pouca atenção a problemas graves como, por exemplo, melhorar o nível de instrução do povo. Mas, deixe estar, fez o que pôde para conseguir o bem supremo: que a Copa do Mundo se realizasse no Brasil. O dia em que a escolha do país-sede foi oficializada há de ter sido um dos mais felizes de sua vida. Deve ter-se sentido como se sentiu Napoleão no dia de sua coroação.

Por mérito de seu líder, o Brasil acabava de chegar ao topo da montanha. O acolhimento da Copa do Mundo de futebol está sendo tratado como um fim em si, o clímax, a consagração, o símbolo maior da era do Lula.

Vitória futebolística pode encher os bolsos de cartolas, mas não enche a barriga do povo. Estamos gastando o que podemos e o que não podemos para construir estádios monumentais, uma parte dos quais servirão para abrigar meia dúzia de jogos e mais nada. Ao mesmo tempo, a implantação de ferrovias está parada, a bifurcação do rio São Francisco se arrasta a passo de lesma cansada, falta o equipamento básico necessário para manter a saúde pública. Em resumo, as tradicionais mazelas do país continuam no mesmo patamar em que o presidente taumaturgo as tinha encontrado.

Grama «padrão Fifa»

Grama «padrão Fifa»

Ainda agora, um artigo do Estadão de 29 de setembro nos conta que mais alguns milhões serão gastos para adequar o gramado dos novos estádios ao «padrão Fifa». Como temos visto nestes últimos anos, o Planalto continua reverenciando mais a Fifa do que os maiores clientes do País, aqueles que compram nossas mercadorias. Mas a notícia é excelente, senhores! Teremos estádios padrão Fifa!

Continuaremos com nossa política externa padrão bolivariano, nosso atendimento médico padrão africano e nossa instrução pública padrão medieval. Mas isso não tem a menor importância.

A fanfarrice e suas consequências

José Horta Manzano

Imaginemos que um país sério decida promover uma ofensiva comercial. Para nosso exemplo, façamos de conta que o país que quer aumentar suas vendas seja a Alemanha, o Japão, o Canadá, a Nova Zelândia, a Holanda, tanto faz.

A receita é sempre a mesma: no embalo de um evento qualquer ― uma feira comercial, uma visita presidencial, um simpósio ― uma comitiva de grandes empresários acompanha um figurão agregador. O pivô em torno do qual gravitam os homens de negócios pode ser um capitão da indústria, um ministro ou até um chefe de Estado.

No caso que me preparo a comentar, a figura agregadora era justamente a presidente de nossa República. Na brecha aberta pela sessão anual da ONU, dona Dilma se fez acompanhar por seu ministro da Fazenda e por uma revoada de empresários.

Um editorial do Estadão de 26 set° nos revela ― e Patrícia Campos Mello nos confirma na Folha de São Paulo de 27 set° ― que o grupo gastou seu tempo martelando, como numa litania, que o Brasil costuma respeitar contratos.

The Economist conceituada revista britânica

The Economist
À esquerda, edição de nov° 2009                                                            À direita, edição de set° 2013

Alguém em sã consciência poderia jamais imaginar um grupo de empresários alemães, japoneses, canadenses, neozelandeses ou holandeses declamando uma tal ladainha? Não precisa, ça va de soi, é uma evidência.

Que nosso grupo de empresários se tenha sentido na obrigação de reafirmar com tanta veemência que o Brasil é um país sério é mau sinal. A necessidade tão premente que o capitão de indústria sente de dar garantias prévias ao investidor denuncia um clima de desconfiança. Ninguém quer aplicar seu dinheiro em empreitada duvidosa.

Visto do estrangeiro, o Brasil não é o mesmo. Para o investidor externo, muitos dos grandes acontecimentos nacionais passam em branco. O mensalão simplesmente não existe na mídia internacional. Engorda a conta da corrupção endêmica do País, já conhecida por todos. Disputas partidárias, mais médicos ou menos médicos, asilo de senador boliviano & outros temas que nos parecem transcendentes simplesmente não são noticiados. Não interessam a aplicadores estrangeiros.

Já os caminhos políticos, sim, são observados com lupa e analisados com minúcia. A inserção de nosso país no conjunto das nações importa. O governo de dona Dilma está pagando por um pecado que não cometeu. E todos nós, de tabela, entramos na dança. Essa desconfiança com relação ao Brasil planta suas raízes na ingênua e desastrada política exterior levada a efeito por nosso messias e sua veneranda equipe.

O presidente que antecedeu dona Dilma abraçou Chávez, confraternizou com os irmãos Castro, estendeu tapete vermelho para Ahmadinejad, distribuiu afagos a sanguinários ditadores africanos, chamou Kadafi de irmão, intrometeu-se na política interna de Honduras, concedeu asilo a um terrorista condenado pela justiça italiana, atropelou grandes potências ao tentar impor um xeque-mate mal alinhavado no Oriente Médio. Esse rosário de fracassos deixa a impressão de que o Brasil é governado por gente presunçosa, conquanto ingenua e ignorante.

Como conquistar o investidor estrangeiro segundo Amarildo Lima

Como conquistar o investidor estrangeiro
segundo Amarildo Lima

São fatos que permanecem na memória dos que controlam os grandes fluxos de capitais. No Brasil os descalabros se sucedem vertiginosamente. O escândalo de hoje empurra o de ontem para o esquecimento. Já quem olha de fora usa outros óculos e não costuma acreditar em duendes. A mais recente edição da celebrada revista The Economist veio de encomenda para reforçar a reticência de investidores já hesitantes.

Se eu tivesse alguns milhões e estivesse procurando um país para aplicar meu capital, dificilmente escolheria o Brasil. Quando se trata de dinheiro grosso, pouco importa o nome do país. O investidor quer, antes de tudo, segurança. Se o retorno for bom, melhor ainda.

Miscelânea 10

José Horta Manzano

Idiota 3Mensalão
O que mais vai-se ler hoje são análises ― serenas ou inflamadas ― do mais recente episódio do mensalão, de seus comos e de seus porquês. Não vou-lhes dar mais do mesmo. De toda maneira, o que está feito, feito está.

A meu ver, o julgamento do mensalão, que termine ou não com gente na cadeia, terá sido um divisor de águas nas práticas judiciárias brasileiras. E é isso que a História guardará. Passemos a outro assunto.

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La vie en rose
Na Suíça, como em qualquer parte do mundo, autoridades penitenciárias têm, vez por outra, de usar a força para acalmar prisioneiros mais exaltados. Os suíços mandaram fazer estudos para encontrar método melhor que a tradicional camisa de força para sossegar os que surtam. Especialistas recomendaram que se encerrassem os mais atacados em celas cor-de-rosa durante um certo tempo, até que serenassem.

Cela calmante, Suíça

Cela calmante, Suíça

Na Suíça alemã, já chegaram à conclusão que 2 horas são suficientes para acalmar qualquer um. Já na Suíça francesa, não se sabe se por displicência ou vingança, chegam a «esquecer» o preso durante 5 dias nesse mundo unicolor. Os encarcerados reclamam, não tanto da cor, mas principalmente da humilhação.

Interligne 18b

Caros celulares
O roubo de celulares está-se tornando calamitoso na Guatemala. Por um telefonezinho de bolso, assaltantes são capazes até de cometer o irreparável. Diante disso, o Congresso resolveu legislar. Acabam de aprovar uma lei que pune ladrão de celular com até 15 anos de prisão mais multa de, no mínimo, 25 mil dólares.

A nova lei não admite embargos infringentes.

Interligne 18b

Idiota 4Gelo para quem pode
A crise financeira que começou em 2008 com a quebra do Banco Lehman Brothers arruinou muita gente. No entanto, é sabido que a balança tem dois pratos. Para que um desça, é preciso que o outro suba. Se muita gente perdeu dinheiro, outros ganharam fortunas. Dizem até que há hoje mais milionários do que antes da crise.

Algumas firmas, de olho nessa clientela abastada e composta em maioria por novos-ricos, não se tem privado de oferecer o que o mercado pede. Uma empresa americana está fazendo sucesso vendendo… gelo! Ah, mas não é um gelo qualquer, quá! É gelo para ricos. Vêm sob forma de cubinhos ou de bolinhas.

Feita de água duplamente destilada, essa nova maravilha é isenta de sais minerais que lhe possam alterar o gosto. Em compensação, o preço é salgado. Uma embalagem de 50 cubinhos sai por 325 dólares, o que dá 6.50 dólares por cubo. Uma boa notícia: o valor do despacho no interior do território americano está incluído no preço. Compradores de outros países pagarão um acréscimo para cobrir o frete.

Quem foi mesmo que disse que a estupidez humana não tem limites?

Interligne 18b

Idiota 1Ladrão que rouba ladrão
A cadeia da cidade de Pavia, na Itália, foi assaltada. Os ladrões vinham de fora do estabelecimento. Levaram o cofre-forte onde era conservado, entre outros pertences, o dinheiro pessoal dos detentos ― uma espécie de caixa econômica interna. As economias de cada um estavam lá. A quantia roubada situa-se, segundo a fonte, entre 5000 e 6000 euros.

Além de força muscular, os assaltantes deviam ter conhecimento perfeito daquelas paragens. Penetraram no estabelecimento, atravessaram subterrâneos, abriram portas, carregaram o cofre, desapareceram, e ninguém se deu conta. Estão sendo procurados.

Interligne 18b

Sob pressão, não!
O senhor Assange, aquele que está asilado na embaixada equatoriana em Londres, andava meio esquecido. Pressentindo que, do jeito que as coisas vão, periga passar o resto da vida na prisão onde se encurralou voluntariamente, resolveu fazer alguma coisa para ressurgir no noticiário. Aproveitando a deixa que lhe deu dona Dilma, fez declaração à Folha de São Paulo, por email. Aplaudiu a decisão da presidente de cancelar sua visita de Estado aos EUA.

Valeu-se da mesma ocasião para dar um conselho a nossa voluntariosa presidente. Declarou que o cancelamento da visita não é suficiente. Falta ainda dar asilo tropical a uma jornalista britânica que se encontra atualmente em degredo na Rússia.Idiota 2

O senhor Assange provavelmente ignora que não tem chance nenhuma de ser atendido. Nós todos, escolados, sabemos que dona Dilma nunca decide sob pressão. A não ser que a pressão venha de La Paz. Ou do Lula. Ou das ruas. Ou de Buenos Aires. Ou de Havana. Ou de Caracas.

Senhor Assange, se me lê, guarde bem: Mrs. Rousseff never makes any decision under pressure. Nunca mesmo.

O desaforo inútil

José Horta Manzano

A diversidade humana é fascinante. O que um tem sobrando pode faltar a um outro. Por sua vez, este outro pode esbanjar alguma característica que escasseia no primeiro. Assim caminha a humanidade, é salutar.

O que pode causar algum problema é o excesso. Nenhum descomedimento é bom. Pode provocar encontrões com a família, com os colegas, com os amigos. Quando o indivíduo excessivo exerce função de mando, os transtornos serão mais amplos. Quando o posto de mando é o mais importante do país, decisões impulsivas e exageradas podem acarretar resultados calamitosos para a nação inteira. Quem ocupa posição elevada deve pensar duas vezes antes de agir.

Característica marcante de nosso antigo presidente era seu espírito exageradamente maleável e conciliador. Para aumentar seu rebanho, por exemplo, não hesitava em lançar mão de expedientes, digamos assim, pouco convencionais. Manobras de bastidores, cooptação, distribuição de benesses, atribuição de sinecuras, criação de ministérios sob medida para acomodar mais ovelhas, afagos em adversários, todos os meios, fossem eles quais fossem, justificavam o almejado fim.

No afã de fazer-se bem querer por todos, nosso messias chegou a extremos e navegou por mares traiçoeiros, nunca dantes navegados nessepaís. Chamou para junto de si um acadêmico que vivia nos EUA ― justamente aquele que havia escrito que o governo do Lula era o mais corrupto que jamais houvera no Brasil. Fez as pazes com José Sarney, inimigo de 30 anos, e ainda ensinou a todos que o novo companheiro, por não ser pessoa comum, merecia tratamento especial. Curvou-se aos caprichos de Paulo Maluf e não se envergonhou de ir até a casa do tradicional adversário para suplicar apoio eleitoral. Mas esses eram assuntos internos, que não transpunham as fronteiras do País. Não fosse a orientação ideológica que arruinou sua diplomacia, poderia até ter legado ao mundo a imagem de um Brasil civilizado e confiável. Fica para uma próxima vez.

Já nossa atual presidente… ah, nossa atual presidente! São outros quinhentos. O que o Lula tinha de sobra, falta a dona Dilma. A diferença entre o criador e a criatura é tão gritante que a gente fica a cismar que bicho terá mordido nosso messias no dia em que resolveu, com um dedazo, designar sua sucessora. Dona Dilma está nos antípodas da maleabilidade e da conciliação.

Reunião ministerial

Reunião ministerial

É sabido que nossa presidente tem gênio forte, que é irascível, estabanada, agressiva. Dizem que, vendo-se contrariada, é sujeita a ataques de fúria. Ao contrário de seu predecessor, não procura convencer por meios suaves ― prefere impor sua vontade. Talvez esteja aí a explicação para o andamento errático de seu governo. Seus auxiliares, intimidados, encolhem-se e não ousam contradizer a chefe. Na ausência do contraditório, ela se convence de que está no caminho certo e acaba tomando decisões inapropriadas.

Esta terça-feira, dona Dilma anunciou o cancelamento de sua visita de Estado aos EUA. Nenhum de seus conselheiros diplomáticos terá conseguido explicar-lhe que essa decisão, conquanto satisfaça seu amor-próprio, pode não ser benéfica para nosso País. Na valsa aveludada da diplomacia mundial, anular uma visita de Estado é pior do que pisar o pé da dama no meio do baile.

Concordo que não é confortável saber-se espionado por quem quer que seja. Mas, que fazer? Ainda que dona Dilma se sinta incomodada, governos sempre se espionaram e vão continuar a fazê-lo. O Brasil não é o único país na mira de espiões internacionais. Todos dão uma xeretada nos que lhe interessam. Estes últimos meses, tornou-se pública a informação de que os EUA espionam praticamente todos os governos do planeta. Alguém viu alguma reação epidérmica? Não. Todos se limitaram a um protesto formal e tudo ficou por isso mesmo.

A reação violenta de nossa presidente só faz escancarar a realidade: os dirigentes brasileiros, desprovidos de proteção contra intrusões, se encontram em situação de total vulnerabilidade. A revelação dessa verdade soa como um estímulo a outras potências que estejam planejando matricular-se no clube dos que espionam o Planalto.

Aquilo roxo by Alpino

Aquilo roxo
by Alpino

Por que o governo de outros Estados reagiu de maneira tão suave? Porque são realistas. Entendem que o vigor e a intensidade do protesto não mudarão a situação. Todos continuarão a espionar todos, como sempre se fez.

Está faltando realismo ao Planalto. Conseguem-se melhores resultados com um sorriso do que com uma carranca. Nossa ultrassusceptível presidente não deve conhecer esse princípio basilar da boa convivência. Uma boa conversa reservada com o presidente Obama teria surtido melhor efeito. Sem causar escândalo. Derrubar pontes, barrar estradas e fazer beicinho não são a melhor solução. Nosso messias esqueceu-se de ensinar à pupila as artes da persuasão pelo diálogo.

Entre importação de cubanos, perdão a dívidas de países africanos ditatoriais e enfrentamento com o império, estamos cada dia mais parecidos com nossa república vizinha, a bolivariana.

Frase do dia ― 29

«A ira de Dilma contra Saboia não se explica apenas por ela se sentir vítima de um crime de lesa-majestade. Tão ou mais grave, a seus olhos, há de ter sido a desmoralização de Evo, a quem o Planalto, desde Lula, presta incompreensível vassalagem.»

Editorial do Estadão de 13 set° 2013 a propósito da fúria presidencial diante da chegada do senador boliviano a Brasília.

Gente fina é outra coisa

José Horta Manzano

Luiz Inácio da Silva, que foi um dia presidente desta República, anda meio borocoxô. Como já diziam os antigos, mentira tem perna curta. O passar do tempo tem-se mostrado cruel para com o antigo mandarim. Pouco a pouco, não só o Brasil, mas também o resto do mundo vai-se dando conta de que a «emergência» do Brasil, que tinha sido apresentada como iguaria fina, não era mais que um reles pastel de vento. Crocante e apetitoso por fora, mas vazio por dentro.

Apesar de todo o esperneio, da cara feia, do jogo de cena, dos atuais murros na mesa, o conjunto dos anos Lula mostra pouco ou nenhum avanço de nosso País. Hoje, políticos roubam com mais desfaçatez que antes. A criminalidade e a insegurança ressentida pelo cidadão aumentou. Quem tem possibilidade de fazê-lo vive em casa ou prédio cercado de muros e de barreiras que lembram jaulas.

Turisticamente, a imagem do País no estrangeiro está muito deteriorada ― um europeu preferirá passar suas férias na República Dominicana, na Tailândia ou até no Marrocos, mas evitará o Brasil. As estradas continuam tão esburacadas como antes, ou até mais. Os portos e aeroportos seguem travados, ineficientes, incapazes de fazer frente à demanda. A qualidade da instrução pública decaiu a tal ponto que os mandachuvas se viram na obrigação de instituir quotas para promover artificialmente certas franjas da população. As condições de locomoção dentro das megalópoles continua calamitosa, seja por transporte individual, seja por transporte coletivo.

A inflação voltou, o dólar sobe um pouco a cada dia, investidores estrangeiros procuram outros horizontes mais seguros. O companheiro Chávez se foi, Zelaya não voltou ao poder, o Oriente Médio continua se estraçalhando, Evo anda ridicularizado pelo mundo civilizado, a Argentina se afunda cada vez mais. O Mercosul não concluiu nenhum acordo comercial importante e emperrou de vez ― até o Paraguai dá mostras de insatisfação. Cansados de esperar, os países mais dinâmicos do subcontinente se juntaram para costurar uma aliança mais comercial e menos ideológica.

Dizem que a agricultura vai bem. Sei não. Cinquenta anos atrás, costumava-se dizer que «esta terra é tão boa que, se deixar cair um bago de feijão, ele germinará». Hoje importamos feijão da China. Sim, senhores, da China! A produção nacional há de ter encolhido. Ou cedeu lugar à soja, que pode trazer lucro a grandes grupos, mas não alimenta o brasileiro. Está aí mais uma prova de que a fortuna particular de grandes empresários passa à frente da segurança alimentar da população.

O sistema nacional de saúde ― aquele mesmo do qual um extasiado Lula disse já ter atingido a «quase perfeição» ― continua em pandarecos. Muitos médicos brasileiros se recusam a trabalhar em condições tão precárias, o que força o governo a importar profissionais. Vêm para o Brasil os excedentários estrangeiros ou os que não encontraram colocação em seus próprios países. Podemos continuar por muitos parágrafos, mas… pra quê? O mal que está feito está feito. Só nos resta desejar ânimo às gerações futuras para consertarem o estrago. Vão ter trabalho.

Homem meio perdido by Lynch

Homem meio perdido
by Lynch

O velho mandarim está borocoxô, dizia eu, mas nem por isso fez voto de silêncio. Tem evitado aparição pública, que as vaias que recebeu nos Jogos Panamericanos, anos atrás, deixaram um trauma. Dá preferência a comparecer a assembleias fechadas, às quais só correligionários são admitidos. Esteve num desses almoços quinta-feira, dia 5.

Provocado por jornalistas quanto ao caso da espionagem exercida pelos serviços secretos americanos sobre o governo de todos os países relevantes, não se fez rogar. Aconselhou ao presidente Obama ter a humildade de pedir desculpas à Dilma por ter quebrado o sigilo da correspondência eletrônica dela. Não lhe ocorreu que, no tempo em que foi presidente, suas próprias mensagens já deviam estar sendo monitoradas. A contraespionagem brasileira é realmente lerda. Se um programa de tevê não tivesse botado o dedo na ferida, o Planalto jamais se preocuparia com essas insignificâncias.

As declarações esclarecidas de nosso messias continuam a nos surpreender com pérolas inesperadas. Desta vez, a cereja sobre o bolo teve sabor escandinavo. A uma certa altura, o Lula mencionou o «presidente da Suécia». Pode conferir: está no Globo (3° parágrafo a contar do fim) e no Estadão (igualmente no 3° parágrafo a contar do fim).

Que você ou eu não estejamos bem a par de que, na Suécia, não há presidente, mas um rei (chefe do Estado) e um primeiro ministro (chefe do governo), vá lá, é compreensível. Há até quem confunda Suíça com Suécia. No entanto, vindo da parte de um homem que foi presidente do Brasil durante 8 anos ― e que, ainda por cima, fez visita de Estado à Suécia em setembro de 2007, ocasião em que foi recebido pelo rei Carlos XVI Gustavo ― é alucinante.

Fico impressionado com a incapacidade de aprender que têm certas pessoas. Para nosso simplório personagem, tudo isso há de ser demasiado sutil. Para ele, de qualquer maneira, são todos loiros de olhos azuis, tudo a mesma coisa. E ‘vâmo’ em frente, que eu sou mais eu!

Conduta estabanada

José Horta Manzano

Depois de um messias rastaquera e deslumbrado, veio uma presidente grosseira e colérica. O Brasil está bem arrumado. Ô carma pesado este nosso!

Dilma e o ET by Zé Dassilva

Dilma e o ET
by Zé Dassilva

Dilma perturbada by J. Bosco

Dilma perturbada
by J. Bosco

Dona Dilma pode até ter alguma qualidade ― confesso que ainda não me dei conta. Por outro lado, sem dúvida, tem defeitos aos borbotões. Todos visíveis, uns mais, outros menos. As repetidas demonstrações de fúria que ela nos tem dado estes últimos dias estão ultrapassando os limites da conveniência. Já não é mais questão de salvar a honra nacional, mas de vingar-se de uma afronta pessoal de que a mandatária considera ter sido vítima.

Tempos atrás, um irresponsável chamado Assange andou espalhando segredos diplomáticos aos quatro ventos. Até hoje não se sabe direito qual era sua intenção. Terá tido seus 15 minutos de glória, mas o maior prejudicado foi ele mesmo. Enquanto o mundo continuou a girar, nosso dom quixote sobrevive confinado em prisão domiciliar num cubículo da embaixada do Equador em Londres. E tudo indica que lá permanecerá por anos. Inglês não costuma largar a presa tão fácil assim.

Dilma enfezada

Dilma enfezada

Pois bem, naquela época, embora o Brasil aparecesse entre os países alvejados pelo vazamento, nossa reação oficial foi inaudível. A presidente, não se sentindo envolvida pessoalmente, deu pouca importância aos acontecimentos. Aliás, nesse ponto, acompanhou a tendência global. Nenhum governo se encarniçou com o assunto.

Já agora, a coisa mudou de figura. Anunciou-se que a própria presidente teria sido monitorada por uma potência estrangeira. Para dona Dilma, acima da honra nacional, parece estar o orgulho pessoal. Tem reagido de modo estabanado e pueril. A atual inquilina do Alvorada faz lembrar aquela criança mimada que, zangada, atira o brinquedo ao chão, pouco ligando para as consequências. Se quebrar, papai compra outro.

Antes de tomar alguma atitude ríspida e capaz de desagradar alguém, é sempre bom medir as consequências e avaliar os desdobramentos. Em interessante artigo, o Estadão nos informa que, num acesso de ira, dona Dilma atirou o brinquedo ao chão: suspendeu os preparativos para a viagem aos EUA prevista para o mês que vem. Vamos torcer para que o brinquedo não esteja irremediavelmente espatifado.

Dilma e Obama by Sponholz

Dilma e Obama
by Sponholz

Outro artigo do mesmo Estadão conta que o embaixador americano em Brasília está sendo removido, após 3 anos de serviço. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Segundo a autora deste segundo artigo, em vista da peleja que já dura mais de 10 anos contra os ideólogos antiamericanos que dominam a intelligentsia do Planalto, o governo americano preferiu fazer uso mais adequado de seus bons diplomatas. Shannon, que estava no Brasil, vai para a Turquia, país mais estratégico ao olhos de Washington. Brasília deverá contentar-se com a embaixadora que atualmente representa os interesses americanos no Paraguai.

Esse, sim, é sinal bem mais inquietante para nosso País. Nosso segundo maior parceiro comercial já nos enxerga como país políticamente menos interessante que a Turquia. Se dona Dilma continuar a fazer beicinho, pode azedar de vez as relações. E quem é que vai sair perdendo? É urgente dizer a ela que o Brasil precisa mais dos EUA do que eles de nós.

Dilma de maus bofes

Dilma de maus bofes

Não faz sentido tratar Argentina, Bolívia, Venezuela a pão de ló e os EUA a pontapé. É inacreditável a relutância que esses ideólogos do Planalto têm em aceitar que a guerra fria terminou 25 anos atrás e que o mundo mudou muito. Continuam com os pés cimentados nos anos 60.

As oportunidades políticas e econômicas que essa visão obtusa nos tem feito perder não voltarão mais. O trem da História não passa duas vezes.

Cheia de encantos mil

José Horta Manzano

Quando o então presidente Luiz Inácio da Silva fez o que devia ― e talvez até o que não devesse ― para conseguir que o Brasil entrasse na rota de grandes eventos esportivos de impacto planetário, estava longe de se dar conta do tamanho da encrenca em que estava nos metendo.

O presidente emérito havia passado 30 anos rodeado por uma corte de áulicos. Diferentemente de certos mandarins que só se impõem pelo terror que inspiram, nosso messias nunca precisou dar murros em cima da mesa para se fazer respeitar. Ele era a locomotiva do partido. Melhor ainda que um enigmático Enéas ou um efêmero Tiririca. Era o abre-alas de uma turma grande.

À medida que o sucesso crescia, novos companheiros foram-se juntando aos camaradas de primeira hora. Formou-se aos poucos uma corte em que todos dependiam do chefe. Cada um tinha seu motivo ideológico ou pecuniário para mostrar submissão e, acima de tudo, jamais contrariar os caprichos do chefe. Numa confraria de viés absolutista, onde reina um único personagem, contestações não são bem-vindas. Os poucos que ousaram contradizer a verdade oficial pagaram caro: foram expulsos do grupo. Ou pior.

Mas todo exagero é perigoso. Cercado de elogios, sem jamais enfrentar o contraditório, o chefe adulado vai aos poucos perdendo o contacto com a realidade. Acaba acreditando sinceramente que, com um estalar de dedos, é capaz de transformar o mundo.

Nosso guia chegou a imaginar que, com um jogo de futebol e alguns afagos, conseguiria resolver em dois tempos o imbróglio entre israelenses e palestinos, emperrado há muitas décadas. Inexplicavelmente, seu chanceler Amorim ― dono de inegável experiência na carreira diplomática ― foi incapaz de enxergar o ridículo da situação e o fracasso anunciado. Como aos demais cortesãos, faltou-lhe ousadia para divergir do chefe.

Logo oficial ― JO Rio 2016

Logo oficial ― JO Rio 2016

Alguns anos atrás, quando Copa do Mundo e Jogos Olímpicos foram atribuídos ao Brasil, a franja pensante da população intuiu que não era hora de assumir compromissos tão caros e complexos. Mas a corte não ousou passar essa advertência ao chefe. E fomos em frente alegremente.

Jamil Chade, correspondente do Estadão na Suíça, nos dá conta do conteúdo de um relatório confidencial do CIO (Comitê Internacional Olímpico) sobre o andamento das obras em vista dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O relato é estarrecedor. Melhor do que transcrevê-lo aqui, convido os leitores a uma visita ao Estadão.

Apesar do discurso tranquilizador proferido pelas autoridades brasileiras, o atraso no planejamento e na realização das obras é catastrófico. O problema atinge todas as áreas que, de algum modo, dizem respeito aos Jogos Olímpicos. Infraestrutura, transporte, alojamento dos atletas, hotéis para visitantes, plano B para emergências, aeroportos, todas as obras estão atrasadas.

A impressão que fica é a de que o Brasil teve o olho maior que o estômago, como diz o outro. Comprou um peixe enorme e pagou por ele. Agora, não sabe direito como escamá-lo. E ainda falta limpar, temperar, cozer, servir. Os convidados já estão apontando na esquina.

Culpa do rei? Em parte. Maior responsabilidade pesa sobre os que, mais esclarecidos, titubearam e se omitiram. De qualquer maneira, quem pagará a conta somos nós.

Jogo de cena

José Horta Manzano

Todos já ouviram falar no drama do senador boliviano que, ameaçado pelo governo do folclórico e bolivariano Evo, tinha solicitado asilo à embaixada do Brasil em La Paz faz mais de um ano. Ao ligar o rádio, a tevê ou a internet neste domingo, todos ficarão sabendo que o homem passou a fronteira e se encontra em território brasileiro. Melhor assim.

O círculo mais próximo do senador garante que ele concederá à imprensa uma entrevista coletiva na segunda-feira 26 de agosto. O Itamaraty preferiu não comentar o assunto. O governo boliviano fechou-se num silêncio ensurdecedor.

Seja o que for que disserem ― antes, durante e depois da entrevista do senador ― nós, meros mortais, jamais saberemos exatamente o que aconteceu. Alguma historinha rocambolesca terá de ser costurada, naturalmente, para tirar todo resquício de responsabilidade das costas das autoridades bolivianas e das brasileiras. Mas eu não poria a mão no fogo sobre a veracidade do relato que está por vir.

Vigiar uma embaixada e impedir a entrada ou a saída de alguma pessoa não é empreendimento difícil. Que o diga o senhor Assange, que continua cumprindo sua pena de privação de liberdade na representação londrina do Equador. Por coincidência, um país também bolivariano.

Embaixada do Brasil La Paz, Bolívia

Embaixada do Brasil
La Paz, Bolívia

Em 1956, na esteira da fracassada revolução húngara, o cardeal József Mindszenty recebeu asilo na Embaixada dos EUA em Budapest, onde permaneceu 15 longos anos. Só saiu quando lhe foi concedido, na sequência de um acordo político, um salvo-conduto para deixar o país. Antes disso, nem por sonho. Faleceu 4 anos depois de libertado, já com 83 anos.

Portanto, nenhuma explicação, por mais sofisticada que venha, me fará acreditar que o senador boliviano «fugiu» da embaixada. E em seguida? Dirigiu-se ao aeroporto, comprou uma passagem, entrou num avião, desceu em Corumbá (ou em Cuiabá, dependendo da fonte)? Tudo isso sem dinheiro e sem passaporte? Me engana, que eu gosto ― como diz o outro.

É muito mais plausível que a vinda do senador seja fruto de um arreglo político entre Brasília e La Paz. Nenhuma das partes estava interessada em fazer durar a situação. Ao mesmo tempo, nenhuma queria perder a face. Estou curioso para ouvir a explicação oficial.

Há males que vêm para bem. Nesse melodrama, algo de positivo começa a apontar: o Brasil aparenta já não mais estar de joelhos diante da Bolívia. Que alívio! Como parecem distantes aqueles tempos bizarros em que o Lula não só aceitou como também aprovou a invasão e a encampação de uma refinaria da Petrobrás situada em território boliviano. Uma prova de fraqueza!

Vale lembrar que o sócio majoritário da semiestatal de petróleo somos nós, o povo brasileiro. O governo federal, por mais enfatuados que sejam seus integrantes, não é dono da gigante. Ele é mero representante dos verdadeiros donos, que somos nós. Fosse o Brasil um país menos preocupado com direitos individuais e mais atento ao Direito ― com D maiúsculo ―, o presidente pusilânime teria sido processado por crime de responsabilidade.

Enfim, vamos a quedarnos con lo bueno. A novela de La Paz teve final feliz. Podemos dormir em paz.

Interligne 37i

Despacho do Estadão e da Folha de São Paulo.

Das oportunidades perdidas

Consultando meus alfarrábios, topei com um escrito de Dad Squarisi(*), minha guru em língua portuguesa. O texto, escrito no comecinho de janeiro de 2007, valia-se da atualidade de então ― a reeleição de Lula da Silva ― para dar uma lição sobre conjugação verbal.

A clarividência não tem sido a qualidade primeira de nossos governantes. As exceções, raras demais, têm tido sua voz abafada pelo coro da maioria barulhenta e sem visão.

Naquele longínquo janeiro de quase sete anos atrás(!), Dad deitou no papel o que poucos ousavam. Estávamos longe dos protestos de junho 2013. A maioria acreditava que havíamos chegado lá e que nosso povo, barriga cheia, estava dominado. Eram tempos de pão e de circo. Agora, o espetáculo acabou.

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Dad Squarisi, jan. 2007

Dia de posse. Elegante no terno Armani, camisa sob medida e gravata Hermès, Lula discursa no plenário da Câmara dos Deputados. Repete as promessas de campanha. Acena com educação de qualidade, saúde democrática, segurança dinamarquesa, moradia de fazer inveja. Quando? O homem tem pressa. Diz que nos próximos quatro anos conjugará dois verbos. Um: acelerar. O outro: incluir.

Os ouvintes sentiram arrepios em todos os pelos. Duvidaram dos próprios ouvidos. Acelerar como? A criatura mal tomou posse e vai gozar férias. Sem definir a equipe, deixa a administração de braços cruzados. E incluir? O verbo é manhoso. Há 500 anos tentamos flexioná-lo. Lula conseguirá? Tirar dos que muito têm para dar aos que nada têm é tarefa pra lá de difícil. Mais fácil é desvendar os mistérios da ação que dá passagem aos que estão de fora.»

(*) Escritora, linguista e mestra em teoria da literatura. Seu blogue merece uma visita. Como dizem por aqui, l’essayer c’est l’adopter, quem provar fica viciado.