Casa da avó

José Horta Manzano

Vovó

Vovó

Minha avó era um puro produto do século XIX. Em sua casa, visita de mulher separada(*) era tolerada. Até desquitada(*) entrava. No entanto, o novo companheiro da pecadora não passava da soleira. Eram as regras da casa. Ninguém era obrigado a frequentar aquele lar, mas os que quisessem entrar tinham de estar conformes ao regulamento.

A Igreja Católica não permite o ordenamento de mulheres. Tampouco aceita o casamento de seus sacerdotes. Pode ser até que as coisas mudem no futuro ― Papa Francisco dá sinais de não se opor à flexibilização de certos regulamentos. Seja como for, as regras da casa atualmente são como são. Os tempos medievais passaram e o Tribunal da Inquisição também já foi extinto. Portanto, ninguém mais é obrigado a abraçar a fé católica e a permanecer-lhe fiel durante toda a vida. No entanto, os que desejarem fazê-lo terão de se conformar com o regulamento.

Em casa de japonês, não se entra com sapato nos pés. Não se usa cumprimentar dando a mão, muito menos dando beijinho. Costuma-se agradecer na entrada, elogiar durante a estada e agradecer de novo na saída. Ninguém é obrigado a frequentar casa de japonês, mas os que quiserem guardar bom relacionamento com nossos amigos orientais terão de se conformar com o regulamento.

Em estádio de futebol, não se pode consumir bebida alcoólica ― pelo menos, assim era antes de a Constituição da Fifa ser içada acima da nossa. Em açougue, cachorro não entra. Em templo muçulmano, ninguém pode entrar com sapato nos pés. No Clube do Bolinha, mulher não é admitida. Em determinados batalhões militares de aparato, homens de estatura inferior a um metro e oitenta não são aceitos. Em espetáculos cujo conteúdo pode chocar almas sensíveis, não é permitida a entrada de crianças.

Não passe!

Não passe!

Ninguém é obrigado a frequentar estádios de futebol, a entrar em açougue, a visitar mesquitas, a matricular-se no Clube do Bolinha. Contudo ― e não deveria ser difícil entender ― aquele que quiser comparecer a esses lugares terá de se conformar com as regras. Se espaços públicos têm suas exigências, que dirá espaços privados.

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias, um dos braços da Câmara Federal, é conduzida pelo deputado Feliciano, criador e dirigente de uma das numerosas seitas neopentecostais que pipocam atualmente. Sua escolha para administrar essa comissão provocou escândalo em muitos brasileiros pensantes. Parece que o homem tem um grave problema de intolerância a comportamentos sexuais que não lhe pareçam ortodoxos. É possível que o deputado Feliciano carregue recalques que Freud explicaria. Mas não é disso que lhes quero falar hoje.

Como se diz por aqui, não se deve jogar o bebê com a água do banho. O fato de o deputado ser figura controversa e contestada não justifica a rejeição sistemática de todos os seus atos e de todas as suas ideias. Assim como já elogiei, quando me pareceu justificado, alguma ação do senhor Haddad ― e até mesmo algum (raro) ato do senhor Lula da Silva! ―, tenho de concordar com a decisão tomada ontem pela comissão parlamentar presidida pelo senhor Feliciano.

Vá circular noutra freguesia!

Vá circular noutra freguesia!

A Comissão recomenda à Câmara que aprove um projeto de lei que dá a organizações religiosas o direito de recusar pessoas que violem seus valores. A grita dos discordantes baseia-se nos direitos das minorias. Pois eu acredito que a Comissão, no presente caso, tem razão. Errados estão os discordantes.

Os direitos de que dispõem as minorias não são absolutos. O direito de um indivíduo expira no exato ponto em que começa o direito do próximo. Igrejas, templos, mesquitas, açougues, estádios, cinemas, clubes têm suas regras. Cabe aos aderentes segui-las. Não faria sentido ser admitido num templo religioso ― neopentecostal ou não ― por força de mandado de segurança.

Como na casa da avó, só deve entrar quem estiver em conformidade com as regras.

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(*) Explicação para os mais jovens que talvez não conheçam
No tempo em que não se divorciava no Brasil, havia uma solução intermediária para oficializar a separação. Chamava-se desquite. Era uma separação judicial que, embora não desse aos cônjuges autorização para se casarem de novo, regularizava a situação.

A Casa do povo

José Horta Manzano

Na mesma tônica de meu artigo de ontem sobre as travessuras do deputado Feliciano― aquele que se diz pastor de ovelhas ― a edição online do Estadão de 4 de abril publicou a visão de dois especialistas, professores de Administração Pública da FGV.

Melhor do que comentá-la será transcrevê-la.

Congresso

Câmara deixa de ser a Casa do povo

por Fernando Luiz Abrucio e Marco Antonio Carvalho Teixeira (*)

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara ganhou notoriedade após o imbróglio causado pela eleição de seu novo presidente, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP). Historicamente, é uma das comissões que mais se relacionam com a sociedade, seja em temas vinculados a minorias, seja em questões mais gerais, como o debate sobre a Comissão da Verdade. De forma surpreendente, Feliciano definiu, com apoio da maioria de seus colegas, que a comissão só terá reuniões fechadas ao público. Em poucas palavras, o povo está proibido de frequentar a Casa que lhe pertence, o Congresso.

Essa decisão esdrúxula deriva da reação negativa à eleição do deputado. Motivo: suas posições públicas polêmicas sobre os direitos das minorias. Desde então, Feliciano não conseguiu realizar, até o fim, uma única reunião da comissão e viu proliferar uma grande mobilização pública contrária à sua permanência.

Impedir a entrada de pessoas que não sejam deputados, servidores e profissionais da imprensa, para assim garantir os trabalhos do colegiado, vai aumentar ainda mais o isolamento de Feliciano. Só que agora não apenas ele será bombardeado pela opinião pública, como a própria instituição congressual estará na berlinda. A partir de agora, o custo político não ficará apenas na conta do deputado do PSC, sendo dividida com todos os seus colegas. Em poucas palavras, o problema deixou de ser pessoal e se tornou institucional.

As principais críticas que o Congresso sofre dizem respeito ao comportamento ético de seus integrantes. Mesmo nesse cenário geralmente negativo, nunca a Câmara deixou de ser a Casa do povo. Esse perigoso passo parece ter sido dado pelo pastor Feliciano.

(*) Professores e coordenadores do curso de Administração Pública da FGV, SP.

Lasca de bacalhau

José Horta Manzano

Sabe aquela lasca de bacalhau que se enfia entre dois dentes e não sai de jeito nenhum? Você chupa, cospe, bochecha, e nada. Discretamente, mete os dedos dentro da boca e tenta puxar fora. Nada. Nem de um lado, nem de outro.

Vai perturbar durante toda a festa, a tal ponto que você não acha mais graça em nada. Você não vê a hora de chegar em casa e finalmente passar aquele abençoado fio dental. Ah, que alívio!

Tenho lido sobre um tal de Feliciano, deputado federal cujo nome não combina com a infelicidade que espalha em redor. Me fez pensar no fiapo de bacalhau. Só que este é do tipo que nem fio dental resolve. Onde ele se enfia, não há santo que o faça sair. Nem Santa Felicidade. (Não nos esqueçamos que, segundo a hagiografia, Santa Felicidade era irmã de Santa Perpétua. Ai, ai, ai.)

Li também que é dono (sic) de uma Igreja. Em virtude disso, autodenomina-se pastor. Como o dono é ele, não espanta se chegar amanhã a bispo ou até mesmo a papa. De sua própria confraria, entende-se. Outros já fizeram isso. O povo, crédulo, não liga.

O personagem é dado a um discursozinho assaz depreciativo para com os afrodescendentes, como se usa dizer hoje. Considera que pertencem todos a uma raça amaldiçoada. É esquisito, dado que várias fontes afirmam que o próprio deputado, filho de mãe mulata, também se enquadra na categoria.

Não pára por aí. Nosso deputado-pastor também tem fixação na sexualidade. Como em outros espíritos radicais, constata-se também nesse senhor uma obsessão por assuntos ligados ao sexo. Entre iluminados, gurus, ditadores e outros poderosos, não é incomum.

Crédito: SandroCastelli. com

Crédito: SandroCastelli. com

Dizem que Mao, aquele que mandou na China durante decênios, tinha libido exacerbada. Mesmo estando já com certa idade, suas pulsões continuavam vívidas. Só se acalmavam ― até o dia seguinte ― quando lhe traziam uma jovem voluntária para passarem juntos a noite.

Eclesiásticos pedófilos, gurus libidinosos, milionários sadomasoquistas já não espantam mais ninguém. Nosso pastor-deputado é obsedado pela homossexualidade, que diz detestar e combater. Freud certamente explicaria.

Além das disfunções já descritas, o homem é dado a carteiradas. Outro dia, em plena Câmara Federal, mandou prender um cidadão que manifestamente não enxergava o mundo pelos mesmos óculos do pregador.

Apesar de suas excelsas qualidades ― ou, quem sabe, exatamente por causa delas ―, seus pares o elegeram para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. O povo caiu matando. «Tirem esse homem daí!» foi a invectiva mais gentil que se ouviu pelos lados de Brasília.

Agora, cá entre nós, quem errou? O pastor-deputado? Não me parece. Ele não foi eleito deputado na semana passada. Seus pares, principalmente aqueles que votaram nele, estão a par de sua linha de pensamento. Se o escolheram, foi em conhecimento de causa.

Portanto, errados estão os deputados que lhe deram seu voto. E mais errados ainda estão os eleitores que deram seu voto a esses deputados irresponsáveis.

Vamos, brava gente! Um pouco mais de discernimento na hora de apertar aqueles botões da urna não há de fazer mal ao Brasil.