É pra lá ou pra cá?

José Horta Manzano

Pra cima ou pra baixo? Pra esquerda ou pra direita? Pra frente ou pra trás? O panorama político-econômico global é como uma quadrilha. Atenção! Estou falando daquelas de São João, não de malta de larápios.

Como toda dança de grupo, a quadrilha exige dos participantes boa coordenação. Nada de sair cada um pro seu lado pulando como lhe agrada. Se é hora de dar um passo à frente, todos têm de dá-lo ao mesmo tempo. Quando é hora do balancê, todos balançam igual. No tour, todos se põem a girar juntos.

Há gente graúda, em nosso País, que ainda não entendeu isso. Entre 23 e 24 de fevereiro, duas manchetes divergentes foram estampadas. Estão lá:

Interligne vertical 7«Brasil lança iniciativas para criar constrangimento aos EUA por espionagem na web»
Estadão, texto de Jamil Chade

«Brasil quer acelerar acordo do Mercosul com UE, diz Dilma a empresários»
Folha de São Paulo, artigo de Leandro Colón

Costumo dizer que não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Não se pode puxar a corda concomitantemente por uma ponta e pela outra, sob pena de ficar parado no mesmo lugar. E com risco de romper a corda ainda por cima.

Gemeos 1Dona Dilma, seus marqueteiros e seus ingênuos assessores costumam partilhar o planeta em «blocos», segundo sua conveniência. Enxergam um mundo dividido em agrupamentos estanques e acreditam que essa visão corresponda à realidade.

Enchem a boca para falar de um Brasil que «pertence»(sic) aos Brics, como se essa sigla ― inventada entre um hambúrguer e uma coca-cola por um «especialista» americano ― definisse a realidade.

O Planalto, manietado pelo primitivismo dos dirigentes do Mercosul, acredita numa forte oposição entre os EUA e a UE. Essa visão não corresponde à realidade. No fundo de cada europeu, os EUA continuam uma espécie de Terra Prometida.

Os habitantes do velho mundo enxergam a América do Norte como uma continuação da própria Europa. Tanto na visão dos europeus quanto na dos americanos, o mundo ocidental se restringe à Europa mais os Estados Unidos.

Assim como o atual governo brasileiro divide o povo tupiniquim entre «nós» e «eles», europeus e americanos enxergam um mundo bipolar. Europeus e americanos são o «nós». O resto é o «eles».

Gemeos 2A estratégia de «criar constrangimento» para os EUA e, ao mesmo tempo, acelerar acordos comerciais com a UE é esquizofrênica. Seria como afagar um irmão enquanto se pisa o pé do outro.

O vínculo entre Europa e Estados Unidos ― não necessariamente formalizado por tratados ― é visceral, entranhado, tipo unha e carne. Não se pode procurar aproximação com um deles enquanto se tenta «constranger» o outro.

Todo o mundo sabe que não convém semear zizânia entre dois amigos. Os marqueteiros do Planalto, infelizmente, não aprenderam a lição. Se o Itamaraty ― que já foi ajuizado e competente ― não estivesse sendo tão humilhado pelo atual governo, talvez até se animasse em dar um conselho. No estado atual de coisas, mais vale calar. Pra não levar bordoada.

Deixe estar, que um dia acaba. Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. A escolha é nossa.

Frase do dia — 77

«O presidente da Fifa, Joseph Blatter, queixou-se do comportamento da presidente Dilma Rousseff ao técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, e, nos bastidores, alfineta a presidente sempre que é perguntado sobre o envolvimento do governo na preparação para a Copa.»

Jamil Chade, em artigo publicado pelo Estadão em 7 jan° 2014. Para ler as 160 palavras adicionais, clique aqui.

Frase do dia — 56

«Os aeroportos brasileiros estão sendo “remendados” para lidar com o fluxo de torcedores na Copa do Mundo. Mas não darão conta da expansão do mercado doméstico brasileiro. As medidas não atendem às necessidades a longo prazo.»

Jamil Chade, ao citar apreciação feita pela IATA(*), in Estadão 12 dez° 2013

(*) IATA = International Air Transport Association, entidade formada por cerca de 240 companhias aéreas, que respondem por 84% do tráfego aéreo planetário.

Cheia de encantos mil

José Horta Manzano

Quando o então presidente Luiz Inácio da Silva fez o que devia ― e talvez até o que não devesse ― para conseguir que o Brasil entrasse na rota de grandes eventos esportivos de impacto planetário, estava longe de se dar conta do tamanho da encrenca em que estava nos metendo.

O presidente emérito havia passado 30 anos rodeado por uma corte de áulicos. Diferentemente de certos mandarins que só se impõem pelo terror que inspiram, nosso messias nunca precisou dar murros em cima da mesa para se fazer respeitar. Ele era a locomotiva do partido. Melhor ainda que um enigmático Enéas ou um efêmero Tiririca. Era o abre-alas de uma turma grande.

À medida que o sucesso crescia, novos companheiros foram-se juntando aos camaradas de primeira hora. Formou-se aos poucos uma corte em que todos dependiam do chefe. Cada um tinha seu motivo ideológico ou pecuniário para mostrar submissão e, acima de tudo, jamais contrariar os caprichos do chefe. Numa confraria de viés absolutista, onde reina um único personagem, contestações não são bem-vindas. Os poucos que ousaram contradizer a verdade oficial pagaram caro: foram expulsos do grupo. Ou pior.

Mas todo exagero é perigoso. Cercado de elogios, sem jamais enfrentar o contraditório, o chefe adulado vai aos poucos perdendo o contacto com a realidade. Acaba acreditando sinceramente que, com um estalar de dedos, é capaz de transformar o mundo.

Nosso guia chegou a imaginar que, com um jogo de futebol e alguns afagos, conseguiria resolver em dois tempos o imbróglio entre israelenses e palestinos, emperrado há muitas décadas. Inexplicavelmente, seu chanceler Amorim ― dono de inegável experiência na carreira diplomática ― foi incapaz de enxergar o ridículo da situação e o fracasso anunciado. Como aos demais cortesãos, faltou-lhe ousadia para divergir do chefe.

Logo oficial ― JO Rio 2016

Logo oficial ― JO Rio 2016

Alguns anos atrás, quando Copa do Mundo e Jogos Olímpicos foram atribuídos ao Brasil, a franja pensante da população intuiu que não era hora de assumir compromissos tão caros e complexos. Mas a corte não ousou passar essa advertência ao chefe. E fomos em frente alegremente.

Jamil Chade, correspondente do Estadão na Suíça, nos dá conta do conteúdo de um relatório confidencial do CIO (Comitê Internacional Olímpico) sobre o andamento das obras em vista dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O relato é estarrecedor. Melhor do que transcrevê-lo aqui, convido os leitores a uma visita ao Estadão.

Apesar do discurso tranquilizador proferido pelas autoridades brasileiras, o atraso no planejamento e na realização das obras é catastrófico. O problema atinge todas as áreas que, de algum modo, dizem respeito aos Jogos Olímpicos. Infraestrutura, transporte, alojamento dos atletas, hotéis para visitantes, plano B para emergências, aeroportos, todas as obras estão atrasadas.

A impressão que fica é a de que o Brasil teve o olho maior que o estômago, como diz o outro. Comprou um peixe enorme e pagou por ele. Agora, não sabe direito como escamá-lo. E ainda falta limpar, temperar, cozer, servir. Os convidados já estão apontando na esquina.

Culpa do rei? Em parte. Maior responsabilidade pesa sobre os que, mais esclarecidos, titubearam e se omitiram. De qualquer maneira, quem pagará a conta somos nós.

Frase do dia – 24

«O representante da empresa que detém todos os direitos sobre a seleção brasileira até 2022, a ISE, faz parte da lista dos empresários suspeitos de envolvimento com os escândalos da compra de votos para a eleição na Fifa e mesmo para a escolha da Copa de 2022 no Catar.»

Jamil Chade, em edificante artigo publicado no Estadão online, 17 ago 2013

Frase do dia – 19

Interligne vertical 10«Um país que construiu mais sedes que eram exigidas, estádios com dinheiro público e, em alguns casos, em lugares sem um time de futebol. O relato poderia ser uma explicação sobre o comportamento do Brasil para a Copa 2014. Mas, na realidade, é a situação de Portugal quando se preparou para sediar a Eurocopa de 2004.»

Jamil Chade, in Estadão 5 ago 2013

Vale a pena ler o artigo inteiro.