Ciberpiratas

José Horta Manzano

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Parece milagre. Para nós todos, tão acostumados com a lentidão e o desleixo dos guardiães da língua na tarefa de aportuguesar palavras estrangeiras, é um espanto. Tomando a dianteira sobre o francês, o espanhol, o italiano e outras línguas próximas, o mui oficial Volp ‒ Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa ‒ já abonou o termo «ciberpirata», perfeita adaptação do inglês «hacker». A transposição foi muito feliz. A palavra portuguesa evoca exatamente a figura do indivíduo que passeia pela rede recheado de más intenções. Estamos liberados para usar e abusar do termo sem aspas e sem sentimento de culpa. Aleluia!

Ciberpirata 1


O governo espanhol confirma ter constatado, estas últimas semanas, a invasão do espaço cibernético nacional. As redes sociais do país estão inundadas de milhares de perfis falsos que propagam «pós-verdades»(*). Todas elas seguem clara linha de incentivo à independência da Catalunha. Está comprovado que as investidas vêm da Rússia e… da Venezuela, veja só.

O fenômeno se assemelha ao que se viu nos EUA durante a campanha para as eleições presidenciais do ano passado. Naquela ocasião, a pirataria só foi descoberta tarde demais, quando Mr. Trump já estava eleito. Escaldados, os peritos que investigam esse tipo de ataque já acenderam o sinal vermelho no caso da Catalunha.

Ciberpirata 3

O assunto é delicado. Apesar da certeza sobre a origem dos ataques, o governo espanhol optou por manter certa discrição, pelo menos por enquanto. À boca pequena, corre a informação de que Madrid tem provas que incriminam a Rússia. Mas certas verdades são incômodas. Se acusados, os russos vão imediatamente negar. Será palavra contra palavra. Ao final, um incidente diplomático estará criado sem que a piratagem cesse. Não vale a pena.

Mas que interesse tem a Rússia numa hipotética independência catalã? ‒ deve estar-se perguntando o distinto leitor. À primeira vista, nenhum. Muito pelo contrário. Abrigando em seu vasto território dezenas de povos com línguas e religiões diferentes, a Federação Russa não deveria ver com bons olhos uma onda secessionista que partisse da Catalunha, varresse o continente e despertasse sentimentos nacionalistas no interior de seu imenso território.

Ciberpirata 2

No entanto, um exame mais atento desvela a razão da intervenção. À Rússia de Putin, não interessa uma Europa forte e unida. O enfraquecimento da União Europeia ‒ seu esfacelamento, se possível ‒ está entre as prioridades de Moscou. Farão tudo o que puderem para semear a discórdia no continente. O sonho do Estado russo é ver a Europa de novo subdividida em dezenas de pequenos países fracos e desunidos. É uma evidência: uma Europa despedaçada será um concorrente a menos.

E a Venezuela, o que faz nesse imbróglio? Abandonados por todos, nossos hermanos do norte precisam desesperadamente de aliados. Chineses, que são comerciantes na alma, não costumam se meter em política alheia. A Europa tem sérias restrições em apoiar a ditadura de Maduro. Resta a Rússia. Eis por que Caracas dá uma forcinha a Moscou na romântica tentativa de «quebrar» a Europa com a força de redes sociais.

Por mais exímios que sejam seus ciberpiratas, os russos não têm chance de conseguir, a médio prazo, o que desejam. A grande firmeza mostrada por Madrid deixa claro aos independentistas catalães que não conseguirão separar-se. E, ainda que isso desagrade a Moscou, a Europa segue firme e unida no apoio à Espanha.

(*) Faz mês e meio, escrevi sobre «pós-verdades». Clique aqui quem quiser recordar.

Amigo é coisa para se guardar a sete chaves

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Amigo é aquele que…

Nem se dê ao trabalho de completar a frase, identificando as qualidades que você espera encontrar numa pessoa para fazer dela um amigo. Amigos não são escolhidos pela razão, não atendem a pré-requisitos. Eleitos pela alma, podem ser encontrados em diferentes formatos, tamanhos, cores e estilos. Não são fabricados em série, só podem ser confeccionados artesanalmente, cozidos em fogo brando e moldados de forma customizada. E, a cada vez que ganhamos um, novas surpresas e encantamentos nos esperam ao abrirmos a caixa.

Todos vêm com uma advertência clara já na própria embalagem: Atenção, este produto não contém promessa de concordância eterna e incondicional. Necessário explorar todas as características incorporadas de fábrica antes de julgar sua adequação. Não serão aceitos pedidos de devolução ou substituição por quebra caso fique comprovado que eventuais disfunções se deveram a mau uso.

Amizade não é resultado desejado. É um longo processo bilateral de ajuste, de um paciente aparar de arestas e de um corajoso desejo de contornar todos os obstáculos do caminho. Além da disposição de recomeçar sempre, é claro. A parte mais difícil de uma relação fraterna como essa é, sem sombra de dúvida, a que diz respeito à revisão e atualização das imagens um do outro. Muitas vezes nos prendemos nostalgicamente à configuração que a relação tinha em seu início, impedindo que ela floresça e frutifique como e quando quiser. Amizade é semente frágil que necessita de terreno anímico apropriado para prosperar e de muito sol de propósitos em comum para desabrochar em todo o esplendor de sua beleza.

Há uma canção de Jacques Brel que ilustra com perfeição o que quero dizer. Despedindo-se de um amigo que acabou de morrer, ele diz a certa altura: “On n´était pas du même bord mais on cherchait le même port”. De fato, para mim nunca foi preciso estar na mesma margem, o que sempre me importou foi o prazer de navegar e torcer para que os ventos nos empurrassem para o mesmo porto de destino.

Aviso aos navegantes: meu conceito pessoal de amizade é radicalmente diferente do comumente encontrado nas redes sociais hoje em dia. Não é uma categoria abrangente dentro da qual podem ser alocadas todas as pessoas que cruzaram meu caminho em algum momento. Talvez por falta de palavra melhor para designar uma relação que é mais do que simples coleguismo de escola ou de trabalho, concordamos em apresentar a pessoa como “amiga”. Pode ser um bom recurso para transmitir a ideia de que ela é de confiança, mas sempre faltará a essa descrição um elemento fundamental: o da intimidade testada e aprovada pelo tempo.

Também não é um conceito guarda-chuva que incorpore os assim chamados “seguidores”, seja lá o que isso quer dizer. Seguidor, para mim, é alguém que se submete à direção imposta por terceiros por não ter capacidade de se aventurar na criação das próprias trilhas. Para que uma amizade provoque prazer em ser degustada, é preciso que ela contenha um toque de rebeldia, de independência, de altivez, de autodeterminação.

Pensando bem, o único critério racional que considero essencial para qualificar uma pessoa como amiga é que ela seja portadora de irrestrita integridade. Que, na presença dela, eu possa também me mostrar por inteiro, sem temer nem a perda de afeto quando dos descaminhos, nem o tédio dos períodos de calmaria. Aprendi com a vida que uma verdadeira associação só pode ser conseguida por seres inteiros e separados que retêm sua separação mesmo em meio à união. Amizade é celebração contínua do dom da liberdade de espírito e dele se derivam todas as demais qualidades de caráter das duas partes.

Você pode estar se perguntando: por que essa defesa de tese tão apaixonada? Eu respondo com alegria: é que hoje é o dia do nascimento de um amigo querido. Mesmo acreditando que não existem amigos mais especiais do que outros, quero celebrar especialmente a existência e a constância dessa pessoa que vem iluminando minha vida com sua sabedoria há sete décadas. Que nunca se deixou desestimular por inúmeros contratempos nem se intimidar pelo distanciamento geográfico. Que tem a grandeza de perdoar e nunca se cansa de demonstrar compaixão.

Desculpe, Roberto Carlos, mas eu não quero ter um milhão de amigos. Como já dizia Aristóteles, ter muitos amigos é não ter nenhum. Esse amigo de quem vos falo é coisa fina, um artigo especial, raro ‒ e, por isso mesmo, precioso para mim.

Não se constranja, meu amigo, com tamanha efusividade. Em última instância, lembre que estou elogiando a mim mesma por ter sabido pinçá-lo em meio à multidão e por tê-lo conservado por tanto tempo bem perto do meu coração.

Obrigada pela longeva companhia. Que saibamos descortinar novos horizontes para nossa relação todos os dias.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O preço da imprudência

José Horta Manzano

Velho ditado herdado dos lusos ensina que o segredo é a alma do negócio. Para mim, continua válido. No entanto, nestes tempos bizarros, parece que menos e menos gente leva essa evidência a sério.

Todo o mundo faz besteira de vez em quando, que ninguém é santo. Quando éramos adolescentes e fazíamos algo reprovável, a reação primeira era guardar segredo. Alguns, não aguentando a tensão e o peso de reter a informação, confiavam-se ao melhor amigo, àquele que oferecia certa garantia de não espalhar a notícia. Já outros, mais prudentes ainda, preferiam confiar o escorregão ao diário.

diario-1Aos mais jovens, explico que diário era um caderno pessoal, geralmente de capa dura, muitas vezes trancado com um cadeadozinho, onde o proprietário deitava por escrito as peripécias de cada dia. Alegrias, tristezas, esperanças e confissões se misturavam. Dado que faz anos que não ouço falar nesse tipo de confessionário, imagino que tenha desaparecido junto com a máquina de escrever e o óleo de fígado de bacalhau.

A popularização de ‘redes sociais’ tornou menos nítidos os limites entre o pessoal e o coletivo. Adolescentes ‒ e adultos também ‒ parecem não se dar conta de que, ao confessar «façanhas» a um círculo que imaginam fechado e confiável, estão divulgando informações que lhes podem ser prejudiciais.

Chamada do Estadão, São Paulo

Chamada do Estadão, São Paulo

Dia sim, outro também, a gente acaba ficando a par da besteira alheia. Tem aquela servidora ‒ Coordenadora do Programa de Saúde Bucal do Ministério da Saúde! ‒ que pediu licença médica para tratamento de saúde e se mandou para Madri, numa escapada de lazer. Imprudente, fez circular na internet a prova da transgressão. Com foto e tudo. Não deu outra: a história foi parar no Estadão e a moça perdeu o emprego.

Tem também aquela funcionária da Receita argentina que, alegando doença traumatológica, tirou licença. Na verdade, veio curtir o sol e «tomar uns tragos» nas praias de Florianópolis. Também ela fez questão de difundir a prova documental do delito. Tudo foi parar no Clarín, jornal argentino de grande circulação.

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Fico aqui a me perguntar o que leva essa gente a relatar suas infrações ao grande público. Será inconsciência? Vaidade exacerbada? Burrice mesmo? Ou, talvez, uma combinação de todas essas fraquezas?

Freud deve poder explicar. Enquanto a explicação não vem, astros e atrizes destes novos tempos pagam seu efêmero momento de estrelato com a perda do emprego. E assim vai o mundo. Imperfeições e desvios, que antes eram guardados debaixo de chave, vão-se tornando motivo de orgulho. Vá entender, distinto leitor!

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Só para finalizar
E o que acontece com médico que dá atestado a paciente em perfeita saúde? Fica por isso mesmo?

Perfil e círculos

José Horta Manzano

Photo de profil 3Sou do tempo em que a gente, quando saía de férias, dava um jeito de evitar dar muita bandeira. Para despistar, cada um tinha seu método. Era imprescindível pedir a algum vizinho que esvaziasse a caixa de cartas a cada dois ou três dias. Caixa cheia dá na vista e assinala ausência de moradores.

Outra providência era instalar um temporizador que acendesse lâmpadas durante determinados períodos e – essa também era boa – botasse o rádio pra tocar a certas horas do dia. Luz e flashes intermitentes de tevê refletidos na parede também eram boa pedida.

Em resumo: fazia-se o possível para evitar que desconhecidos mal-intencionados se inteirassem da ausência e aproveitassem para assaltar a residência.

Photo de profil 2O mundo mudou. Mantenho respeitosa distância de redes sociais. Quando me perguntaram um dia se eu tinha «foto de perfil», imaginei que me estivessem falando daqueles retratos tirados de prisioneiros que dão entrada na carceragem: de frente e de perfil, e com escala graduada como pano de fundo.

Embora, pessoalmente, não me sinta atraído por círculos, rodas, clubes & afins, entendo que outras cabeças possam emitir outras sentenças. Muita gente gosta de relatar pequenos fatos do quotidiano – o que fez, o que pretende fazer, o que comeu, onde esteve, com quem conversou. Por que não? Se um tem prazer em contar e outro gosta de ficar sabendo, onde está o mal?

Pois o mal está no excesso. Já houve casos de gente que, descuidadamente, deixou vazar a informação de que estaria de viagem de tal a tal dia. Propagada, a notícia chegou a ouvidos de integridade duvidosa. Foi como entregar à raposa a chave do galinheiro. Sabendo que não perigavam ser surpreendidos pela chegada inopinada do morador, ladrões deitaram e rolaram.

by Gilberto César Terra, desenhista mineiro

by Gilberto César Terra, desenhista mineiro

«Do que a mão esquerda faz, a direita não precisa ficar sabendo.» Mesmo afastado do conceito original bíblico, o ditado serve para ilustrar o caso de hoje. Serve também em outras ocasiões. Em boca fechada, não entra mosca.

A vida dura dos presidentes

José Horta Manzano

Aparições públicas são momentos de alto risco para governantes. Não falo de risco de vida, falo de risco para a imagem.

Até uns 20 anos atrás, atentados eram moeda corrente em qualquer ponto do globo. Desde Júlio César, enfrentaram essa situação incômoda ― e às vezes mortal ― figuras excelsas como o Mahatma Gandhi, João Paulo II, John F. Kennedy, D. Carlos I (rei de Portugal), Benazir Bhutto (do Paquistão), Ronald Reagan, Indira Gandhi. E muitos outros.

Os 38% de dona Dilma vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Os 38% de dona Dilma
vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Hoje em dia acontece menos, talvez porque o aparato de proteção da pessoa física se tenha aperfeiçoado. Mas os descontentes, se não conseguem mais atingir figurões fisicamente, dão a volta por cima. Por vias menos violentas, mas tão contundentes quanto as tradicionais, se valem da internet e das chamadas redes sociais.

Assim mesmo, aparição pública sempre comporta uma dose de risco. Se ficou difícil riscar o personagem da face da Terra, logra-se riscar sua imagem e deixar arranhões que causam tanto dano quanto uma punhalada.

Todos se lembram daquele dia em que, ao preparar-se para discursar no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007, nosso messias ouviu, atônito, uma retumbante vaia. Poucos se lembrarão de seus índices de popularidade na época. Mas ninguém esqueceu os apupos.

Nossa guia atual também já passou pela experiência. Foi bem mais recentemente, na inauguração da copinha de poucos meses atrás, de novo no mesmo Maracanã. Como deve ter sofrido nossa orgulhosa presidente! Para ela também vale a mesma reflexão. Que tenha 30%, 50% ou 80% de popularidade importa pouco. O que ninguém jamais esquecerá são as vaias. Tonitruantes.

François Hollande vaiado 11 nov° 2013

François Hollande vaiado
Paris, 11 nov° 2013

Monsieur Hollande, presidente da França, participou de dois atos públicos importantes nesta segunda-feira. O onze de novembro é feriado nacional, dia em que se comemora o armistício de 1918, aquele que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. O brilho da solene aparição do mandatário nos Champs-Elysées foi embaçado pelas vaias de uma parte da multidão.

Mais tarde, Hollande se dirigiu a uma comemoração menos pomposa, numa cidadezinha do interior. E não é que a coisa se repetiu? Foi de novo vaiado. A cerimônia foi encurtada, e o presidente escafedeu-se.

Bem, é de notar que a popularidade de François Hollande está no patamar mais baixo jamais registrado para um presidente da França desde que esse índice começou a ser medido. Apenas 21% dos franceses avaliam positivamente seu governo. Nem Sarkozy, o antecessor, havia chegado a um número tão pífio.

Pensando bem, dona Dilma pode até sentir-se feliz com seus 38%. Mas vamos ver. Dificilmente ela poderá esquivar-se de discursar na abertura da copona, a do ano que vem. Com bombas de efeito moral, podem-se reprimir alguns arruaceiros, mas… como calar um estádio?

Fofocas impróprias

José Horta Manzano

O nome antigo era mexerico. Lá pelos anos 60, a revista semanal O Cruzeiro, então a mais importante do País ― é verdade que não havia muitas ―, lançou uma secção humorística.

Já havia páginas de humor antes disso, naturalmente. Ninguém perdia o Pif-Paf, de Millor Fernandes, com seu humor característico, suas máximas e seu traço naïf. O Amigo da Onça, sempre estampado na última página, assinado pelo pernambucano Péricles Maranhão, fez tremendo sucesso durante duas décadas. Muita gente não resistia e começava a leitura da revista pela última página só para ver logo a mais recente malvadeza do pitoresco personagem.Amigo da onça

A novidade de 1963 foram as Fotofofocas baseadas em fotografias reais. Mexiam com políticos e com gente conhecida. O humor não estava nas fotos, mas nos dizeres fantasistas que os humoristas inventavam e metiam nas bolhas. Naturalmente, os diálogos não tinham nada que ver com a realidade, mas o efeito podia ser engraçadíssimo.

O neologismo fez tanto sucesso que entrou nos dicionários. O Houaiss indica que o termo fofoca foi imortalizado já a partir de meados dos anos 70.

O tempo passou, O Cruzeiro desapareceu, a tevê se popularizou. Com isso, as fotofofocas acabaram relegadas ao esquecimento que costumamos reservar a tudo aquilo que sai de moda.

Um dia, surgiu o telefone de bolso, também chamado de celular. No começo era um tijolão que dava boa impressão, dava status, dava cartaz, dava importância, mas… raramente dava linha.

Mais alguns anos se passaram, internet se popularizou e, um belo dia, alguém teve a ideia de conjugar funções múltiplas num só aparelho. A situação atual, todos vocês conhecem. Um telefonezinho minúsculo permite falar, ouvir, ver, transmitir dados, guardar zilhões de coisas na memória, tuitar, despertar dorminhocos, e mais 1001 utilidades. As redes ditas «sociais» dão a seus usuários a possibilidade de fofocar a qualquer hora do dia ou da noite.

Assim como não há ida sem volta, nenhuma ação fica sem reação. Há limite para tudo. O erro de um não pode servir de justificativa para o erro de um outro. Os novos fofoqueiros nem sempre se dão conta dessas verdades velhas, mas inexoráveis.

Reportagem do Correio Braziliense do dia 15 de fevereiro nos dá conta de que duas jovens foram demitidas logo após haverem surpreendido um rato no prédio da oficina gráfica do Senado da República, onde cumpriam seu estágio. Seu crime? Fotografaram o bicho morto e postaram em suas respectivas contas facebook. Até aí, poderiam ter sido acusadas de indiscrição, de comportamento pouco elegante, mas ninguém é obrigado a ter gostos requintados.

O problema maior é que a foto difundida para o planeta estava acompanhada de comentário desairoso em que o presidente da Casa era comparado ao roedor. Foi aí que a porca torceu o rabo.

Que não me compreendam mal: não morro de amores pelo senhor Calheiros, não o conheço nem de elevador, não pretendo arrumar uma boquinha em nenhum de seus protetorados. O ensinamento que gostaria de extrair deste episódio é outro.

Na verdade, o que me deixa boquiaberto é o fato de as jovens ― certamente por ingenuidade própria da pouca idade ― terem ousado injuriar publicamente seu próprio patrão.

Quem é, como eu, do tempo em que aluno se punha de pé assim que o professor entrava em classe, e só se sentava quando lhe davam autorização, fica abismado com o desdém que as estagiárias mostraram. Descancar o presidente da própria Casa onde se trabalha! E difundir grande piada a um número de leitores potenciais que O Cruzeiro jamais sonhou atingir!Bolha cartum 1

Uma coisa é não concordar com decisões do Senado e de seus componentes. Nesse ponto, estamos todos de acordo. E o remédio é um só: votar bem. Outra coisa é comparar seu próprio patrão a um rato. Certos comentários podem ser feitos numa roda de amigos, não numa rede social de alcance mundial. É impertinente e cai mal.

Isso já não é fofoca, é mexerico de cortiço. Berrado num megafone.

O site do Senado Federal dá a informação in extenso. Aqui.

Duas histórias para pensar em casa

José Horta Manzano

Primeira história
O jovem Alcebiades é um bom rapaz, sorridente, generoso, sempre pronto para dar uma mão a quem precisa. Seu defeito maior é vestir-se como gosta, apresentar-se ao mundo como lhe dá na telha. Não dá muita bola paCrete rouge 2ra o que os outros vão pensar. Ele é assim, uai.

Um dia, resolveu mandar rapar a cabeça nas laterais, deixando apenas uma faixa de cabelo da testa até a nuca. Pintou a crista de vermelho e modelou-a com gel ― parece que está na moda. Mandou fazer alguns piercings entre sobrancelhas, orelhas e lábios. Sem esquecer da língua, naturalmente.

Cebide, como é conhecido, gosta de contacto com gente e resolveu candidatar-se a um emprego de atendimento ao público. Currículo para lá, telefonema para cá, tudo correu bem. Foi chamado para entrevista.

Para se apresentar pessoalmente, Cebide achou que uma boa camada de sombra em torno dos olhos lhe daria um ar mais sério. Vestiu-se de negro dos pés à cabeça e foi. Não conseguiu passar da portaria da firma, o coitado. Foi barrado pelo segurança. Teimou, garantiu que tinha entrevista marcada. O leão de chácara foi-se informar e, meio a contragosto, deixou-o passar.

A moça da recepção mandou-o sentar-Crete rouge 1se numa salinha acanhada, lá no fundo do corredor. Depois de uma boa meia hora de espera, ela voltou para avisar que, infelizmente, o selecionador tinha tido um imprevisto e não ia poder recebê-lo. Cebide foi-se embora desenxabido e nunca mais conseguiu marcar outra entrevista lá.

Nosso amigo chegou até a desconfiar que a recusa pudesse ter sido causada por sua aparência física. As pessoas são preconceituosas, sacumé, não conseguem imaginar que há coisa boa por detrás de uma aparência surpreendente. Mas resolveu deixar pra lá. Achou que não valia a pena, que a vida é assim mesmo. Da próxima vez, havia de dar certo.

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Segunda história
Um casal de classe média alta, já de idade madura, tinha muita vontade de ter um filho pequeno. Por algum motivo, tomaram a decisão de adotar. O destino é insondável. Os dois, brancos, tornaram-se pais adotivos de um menininho de pele negra. A história não registrou detalhes, mas é de crer que os três viviam felizes.inter-racial adoption

Um dia, foram visitar uma concessionária de automóveis importados da Alemanha, daqueles potentes, raçudos, de forte cilindrada. Coisa que não está ao alcance de qualquer mortal. Levaram o menino junto.

A um dado momento, enquanto o casal se preparava a entreter-se com o gerente da loja, o filho afastou-se alguns metros. O dirigente não se deu conta de que os três estavam juntos. Ao ver um menino pequeno e negro dentro de uma concessionária daquele porte, tomou-o por um intruso e não teve dúvida: fez que fosse enxotado.

Chocados, os pais julgaram que o acontecido não podia ficar por isso mesmo. Passando por cima do gerente, endereçaram uma reclamação diretamente à diretoria do grupo automobilístico. E não pararam por aí: criaram uma página numa dessas redes sociais para dar publicidade ao episódio. Só não deram queixa à polícia. Por enquanto.

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Epílogo
A primeira história é totalmente inventada. Caso se assemelhe a algum fato real, terá sido mera coincidência. Já a segunda é verídica. Pode ser conferida no artigo publicado pela Folha de São Paulo faz pouco mais de duas semanas.Adotado 2

Parece-me interessante traçar um paralelo entre esses dois fatos que põem em evidência casos de gente bruscamente descartada com base na aparência externa. Surgem muitas perguntas , mas, infelizmente, poucas respostas.

O Cebide ficou quieto, enquanto o casal estrilou. Por que essa diferença de reação? Será porque o primeiro é pobrezinho enquanto os outros estão bem de vida? Será porque o preconceito que vitimou o casal foi classificado como racial, ao passo que o que prejudicou o Cebide foi apenas facial? Se o menininho enxotado não fosse filho do casal branco, será que teria tido direito a página de desagravo no facebook? Se o Cebide fosse um figurão, será que teria sido tratado com a mesma sem-cerimônia?

A rejeição ao diferente é inerente a todo ser vivente. É síndrome ancestral. As leis de quotas raciais que se propagam hoje em dia perigam maquiar o problema sem resolvê-lo. Pelo contrário, o risco é de que venham a azedar ânimos e a criar uma vala entre “os de cá” e “os de lá”. Em resumo: o resultado pode ser exatamente o oposto do que se pretendia.

Quando várias comunidades, sejam elas étnicas ou raciais, são obrigadas a conviver, enorme cuidado tem de ser tomado antes de votar leis que favoreçam uns em detrimento de outros. No Brasil, esse assunto tem sido tratado com leviandade.

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