De alto padrão

José Horta Manzano

Uma empresa costuma se parecer com seu dono ou com seu gerente. Se o dirigente é atencioso e gentil com a clientela, os funcionários tendem a seguir a mesma trilha. Quando o chefe é malcriado, fala aos berros uma linguagem entrecortada de palavrões e maltrata os funcionários, estes acabam se deixando contaminar. Em pouco tempo, a atmosfera na empresa estará irrespirável. E a firma vai acabar se transformando numa verdadeira casa de mãe joana.

A mesma coisa se dá com um país. O espírito reinante nas altas esferas acaba escorrendo e contaminando boa parte do povo. Um governo autoritário e paranoico perverte o povo. Aconteceu na antiga Alemanha Oriental de 1945 a 1989, quando um governo acossado por mania de perseguição converteu metade da população em espiões. Pai desconfiava de filho, irmão desconhecia irmão, todos bisbilhotavam a vida de todos.

No Brasil não chegamos ― ainda ― a esse nível de tensão. Mas os oito anos de reino de nosso messias deixaram marcas que levarão muito tempo para esmaecer.

Estádio «padrão Fifa»

Estádio «padrão Fifa»

Em sua visão distorcida de mundo, nosso antigo presidente punha o futebol no topo, a preocupação maior, o bem supremo. Suas parábolas faziam uso frequente de metáforas futebolísticas. Para apaziguar a violência do sofrido Haiti, organizou uma partida de futebol. Naturalmente, não conseguiu resolver coisa alguma. Assim mesmo, não desistiu.

Chegou a propor um jogo no conturbado Oriente Médio, como meio ― infalível, segundo ele ― de pôr fim ao conflito crônico entre árabes e israelenses. Os dirigentes daquela região trataram de enquadrar nosso criativo mandachuva. Como era de esperar, o jogo nunca se realizou.

Durante seu longo governo, o Lula deu pouca atenção a problemas graves como, por exemplo, melhorar o nível de instrução do povo. Mas, deixe estar, fez o que pôde para conseguir o bem supremo: que a Copa do Mundo se realizasse no Brasil. O dia em que a escolha do país-sede foi oficializada há de ter sido um dos mais felizes de sua vida. Deve ter-se sentido como se sentiu Napoleão no dia de sua coroação.

Por mérito de seu líder, o Brasil acabava de chegar ao topo da montanha. O acolhimento da Copa do Mundo de futebol está sendo tratado como um fim em si, o clímax, a consagração, o símbolo maior da era do Lula.

Vitória futebolística pode encher os bolsos de cartolas, mas não enche a barriga do povo. Estamos gastando o que podemos e o que não podemos para construir estádios monumentais, uma parte dos quais servirão para abrigar meia dúzia de jogos e mais nada. Ao mesmo tempo, a implantação de ferrovias está parada, a bifurcação do rio São Francisco se arrasta a passo de lesma cansada, falta o equipamento básico necessário para manter a saúde pública. Em resumo, as tradicionais mazelas do país continuam no mesmo patamar em que o presidente taumaturgo as tinha encontrado.

Grama «padrão Fifa»

Grama «padrão Fifa»

Ainda agora, um artigo do Estadão de 29 de setembro nos conta que mais alguns milhões serão gastos para adequar o gramado dos novos estádios ao «padrão Fifa». Como temos visto nestes últimos anos, o Planalto continua reverenciando mais a Fifa do que os maiores clientes do País, aqueles que compram nossas mercadorias. Mas a notícia é excelente, senhores! Teremos estádios padrão Fifa!

Continuaremos com nossa política externa padrão bolivariano, nosso atendimento médico padrão africano e nossa instrução pública padrão medieval. Mas isso não tem a menor importância.

Bulindo com a bala

José Horta Manzano

Desde que a peça teatral L’Arlésienne, do escritor e dramaturgo francês Alphonse Daudet (1840-1897), foi encenada pela primeira vez, a palavra arlésienne entrou na linguagem comum do país.

L'Arlésienne com dedicatória do autor

L’Arlésienne
com dedicatória do autor

Em sentido próprio, designa uma mulher originária da cidade de Arles, no sul da França. Na peça, é o nome de uma personagem que não aparece nunca, que ninguém vê. Desde então, quando quer se aludir a algo ou a alguém que não se vê, que não periga aparecer, diz-se que «c‘est comme l‘arlésienne», é como a arlesiana.

Estes dias, foi anunciado o enésimo adiamento do leilão em que se pretende confiar, a um consórcio de empresas, a construção do famigerado trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro, via São Paulo. Lembrei-me da arlesiana. Com sua sabedoria do século XIX, minha avó diria que esse trem aí só será inaugurado no dia de São Nunca.

O tempo passa e as coisas mudam. Quando esse projeto foi concebido, o País vivia tempos de euforia. Presidente taumaturgo, economia florescente, dinheiro entrando a rodo, céu de brigadeiro. Foi nessa onda que pareceu a nossos mandarins uma excelente ideia investir o que fosse necessário para convencer Fifa e CIO que os próximos megaeventos planetários tinham de se realizar no Brasil.

Trem de São Nunca

Trem de São Nunca

Não deve ter sido difícil convencer os comandantes mundiais do esporte. São gente muito compreensiva e bastante flexível. Aliás, desde que os fenícios inventaram a moeda, ficou bem mais fácil convencer.

No embalo de copona, copinha, jogos olímpicos, veio também o trem-bala. Sem falar em transposição(*) de rios. Obras faraônicas, de prestígio, vistosas, imponentes, que nem os generais chegaram a ousar nos tempos do Brasil grande.

Os ventos mudaram. Hoje seria impensável impor ao povo brasileiro o gasto de bilhões de reais em façanhas de tão pouca utilidade. Enfim, o que está feito, está feito. Não faz sentido demolir estádios modernosos nem anular a copa. No entanto, o trem-bala, que nem começado está, de certeza nunca se fará.

Bala

Bala

O artigo 5° de nossa Constituição deixa bem claro que todos os brasileiros nascem livres e iguais. Num país em que falta giz nas escolas e esparadrapo nos hospitais, numa terra onde milhões de cidadãos vivem expostos à fome, ao medo, à insegurança, ao atraso cultural, à desesperança, seria inadequado ― para dizer o mínimo ― torrar 35 bilhões na construção de um trem de luxo para beneficiar uma meia dúzia.

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(*) Transposição, palavra pomposa, não é o termo mais adequado. Bipartição, tripartição ou simplesmente partição reflete a realidade com mais precisão e cai muito melhor.