Liberou geral

José Horta Manzano

Se gritar “pega, ladrão!”, não fica um, mermão

As manifestações populares de junho deixaram patente que o gigante está despertando. Na esteira do prenúncio destes novos tempos, o venerando Senado nacional trata de atualizar seu regimento interno.

O regulamento antigo tem mais de 40 anos, data de uma época em que o colosso adormecido ainda roncava em berço esplêndido. Não havia internétchi. Não havia feicibúqui. A informação circulava mal. Só os muito enfronhados sabiam o que realmente acontecia atrás das portas dos gabinetes. Naturalmente, as portas sempre tiveram ouvidos, mas esses ouvidos não tinham bocas. Governava-se em circuito fechado.

Até o fim do século XX, esse sistema, bem ou mal, se manteve. Com as avenidas de informação abertas pela rede mundial de computadores, segurar notícias dentro de um círculo de companheiros ficou cada dia mais complicado. Acabou dando no que deu. Os protestos de junho podiam já ter acontecido em 2010, 2012. Poderiam também esperar para estourar em 2014 ou 2015. Quis o destino que 2013 fosse o ano do amadurecimento.

Figuras públicas estão sendo obrigadas a rever às pressas seus comportamentos. O que era normal e aceito até ontem ― talvez por não ser de conhecimento público ― é hoje divulgado, censurado, reprimido, fustigado. Vejam o caso do governador do Rio de Janeiro. Como todos os seus pares que dispunham de um helicóptero, fazia dele uso em deslocamentos profissionais ou privados, tanto faz. Teve de abandonar essa prática, sob pena de linchamento.

Vejam também o caso de nosso inefável ex-presidente. Dizem as más línguas que sua família se valia de avião das Forças Aéreas Brasileiras ― custeados pelo povo brasileiro ― para fins prosaicos tais como levar a cadelinha ao veterinário ou conduzir a primeira-dama para uma sessão de brushing. Tiveram sorte de ter perpetrado essas leviandades antes do despertar do gigante. Fosse hoje, sei não…

Da atual presidente, não se tem notícia de que assim esteja procedendo. Melhor para ela. Já tem feito trapalhadas suficientes.

Senatus populusque romanus O Senado e o povo romano

Senatus populusque romanus
O Senado e o povo romano

Mas eu falava do Senado da República. É uma instituição de respeito. Já o nome é imponente: senado… Etimologicamente, é palavra muito antiga. O sânscrito conhecia a raiz sanas/sanaka, utilizada para designar pessoa de idade avançada. O radical se espalhou pelas línguas europeias. Aparece em lituano, nos idiomas celtas, nos falares germânicos e, naturalmente, nas línguas latinas.

Senex era como os latinos chamavam o velho. Senium era a velhice. Senil, que não tinha a carga pejorativa que carrega hoje, era a qualidade do que é velho. O Senado romano era instituição formada por homens de idade madura, encharcados daquela sabedoria que só os anos trazem. Todas as civilizações costumam respeitar o discernimento e o bom-senso que a velhice traz. Da mesma família etimológica também fazem parte sênior, senhor, senhorio, assenhorear.

Senado romano

Senado romano

Já faz algum tempo que nosso Senado se desviou da finalidade para a qual foi instituído. Era para ser um colégio de sábios respeitados aos quais se vem pedir conselho. Desviaram-se das regras. E o que é que se faz num caso desses? Dá-se uma guinada e volta-se ao bom caminho, não é mesmo? Qual… O uso do cachimbo deixou torta a boca de suas excelências. Converter-se a bons hábitos dá muito trabalho. Há meio bem mais simples: afrouxam-se as regras de conduta!

O senador maranhense Lobão, figurinha carimbada da política brasileira das últimas décadas, é o relator do projeto de mudanças no regimento interno do Senado. Colegas seus, preocupados com a corrosão que a imagem da instituição vem sofrendo perante a opinião pública, acharam que seria importante incluir entre as regras de conduta o compromisso de agir dentro da ética.

Andreza Matais, do Estadão, nos informa que o senador Lobão vetou a novidade. Não lhe parece relevante. O lobo mau não faria diferente.

Está ajudando a convocar novas ondas de protesto.

Interligne 37h

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