The royal name

José Horta Manzano

Você sabia?

Algumas atividades são éticas e legais. Felizmente, é o caso da maior parte do que fazemos no dia a dia. Outras ações são, ao mesmo tempo, aéticas e ilegais. Tanto a corrupção como o homicídio entram nessa categoria ― ambos cabem dentro da esfera penal.

Outras práticas, embora ilegais, são éticas. Durante a Segunda Guerra, quando europeus acolheram e esconderam judeus para salvá-los da deportação e da morte certa, estavam agindo na ilegalidade. As leis de então proibiam expressamente que se desse guarida a perseguidos. No entanto, os que assim fizeram contrariaram a lei, mas agiram dentro da ética. Até do heroísmo, em muitos casos.

Por último, falta mencionar as atividades que, embora perfeitamente legais, estão na fronteira da ética. Quando não são claramente antiéticas. Um artigo do site suíço Handelszeitung ― Jornal do Comércio ― nos dá notícia de um desses atos limítrofes entre o que fica bem e o que não se deve fazer.

Vive em Portugal um jovem empreendedor suíço de 32 anos. Tem o sobrenome Biggs, exatamente o mesmo daquele inglês que, faz meio século, cometeu assalto a um trem pagador na Grã-Bretanha e se refugiou no Rio de Janeiro. Mas parece que é pura coincidência, que os dois não se conhecem nem de elevador.

The Royal Family

The Royal Family

Nosso empreendedor começou a vida como corretor de imóveis. Faz alguns anos, decidiu mudar-se para Portugal e, a partir de lá, dedicar-se a uma atividade pouco corriqueira. Atento aos acontecimentos do mundo, registra em seu nome domínios internet com a intenção de revendê-los, com bom lucro, a quem se interessar. Possui atualmente mais de 600 domínios registrados em seu nome.

Estas últimas semanas, acompanhou de perto o agito das bolsas de apostas de Londres. Interessou-se particularmente pelos nomes que seriam provavelmente dados ao principezinho que estava por nascer. Acostumado que está a registrar nomes, deixou tudo engatilhado e ficou preparado para agir o mais depressa possível.

Teve sucesso. Segundos depois do anúncio oficial do nome da criança, conseguiu registrar GeorgeAlexanderLouis.com em seu nome ― uma façanha! A família real deveria ter pensado em registrar o nome antes de publicá-lo. Bobearam, logo dançaram. Quanto àquele que fez o registro, deu um excelente exemplo de ação que, embora perfeitamente legal, está no limite da ética.

Depois que a Europa inteira ficou sabendo do caso, nosso amigo Biggs, meio encabulado, resolveu corrigir o tiro. Não quis passar para a posteridade como usurpador. Decidiu doar o domínio à família real britânica.

Ainda não se sabe se a Royal Family aceitou a doação.

Interligne 18h

Arrastão europeu

José Horta Manzano

Imaginamos todos que arrastão seja exclusividade tupiniquim, coisa nossa, exclusividade nacional. Pois vou mostrar ao distinto leitor e à graciosa leitora que estão enganados.

A antiga arte da pirataria atingiu seu apogeu lá pelos anos 1700. Falo daquela de cinema, de espadachins com tapa-olho preto, daquela que nos inspirava temor, respeito e até ― convenhamos ― uma certa admiração. Essa, feliz ou infelizmente, acabTGV 1ou.

Nos tempos áureos, piratas eram aqueles que agiam por conta própria, empresários autônomos, como diríamos hoje. Já corsários obravam a mando e por conta de terceiros. O mandatário tanto podia ser o rei da Inglaterra, como o da França ou o mandachuva de outro lugar qualquer.

Um ponto comum unia os atacantes: sabiam o que buscavam. Coisa pouca não lhes interessava. Arriscavam pesado, mas, sabiam escolher o alvo. Se conseguissem vencer a batalha, a recompensa era garantida e farta.

Os tempos passaram. Ouro e pedras preciosas já não são transportados por via marítima. Hoje vão por avião e seguem percurso ultraprotegido, com escolta de agentes de óculos escuros e fones de ouvido, tudo vigiado por câmeras e snipers. Piratear avião para roubar-lhe o conteúdo? Podia ficar bem em filmes dos anos 70. Hoje, nem pensar.

Já vão longe os tempos de Ronald Biggs e seu milionário assalto ao trem pagador. Já vão longe? Talvez nem tanto…

Jornais da França informam que, talvez por não contarem com nenhuma Iemanjá a festejar, uns 30 pequenos delinquentes juvenis escolheram o dia 2 de fevereiro para assaltar um trem. Não um trem qualquer, faça-me o favor: um trem-bala. Sim, senhor.

Os membros da quadrilha mirim promoveram uma vaquinha, mas ela não deve ter rendido o suficiente para comprar bilhetes para todos. Tomaram, então, a decisão de não embarcar no trem como passageiros, mas de obrigá-lo a parar nalgum ponto do percurso.Capitão Gancho

Não foi difícil. Conseguiram lanternas vermelhas, do tipo utilizado pelas estradas de ferro francesas para assinalar perigo grave logo à frente. Instalaram as luzes ao longo da linha. Os maquinistas têm instrução categórica de imobilizar a composição à vista dessas lanternas. É sinal de emergência extrema.

Parado o trem, assim que os responsáveis pela segurança se deram conta de que não se tratava de acidente, mas de um assalto, acionaram o dispositivo que tranca imediatamente todas as portas dos vagões de passageiros. Por mais que o bando tenha tentado forçá-las, não tiveram sucesso. A invasão do trem-bala foi assim evitada. A polícia veio em seguida e carregou boa parte dos frustrados atacantes ao distrito.

Quem quiser conferir, leia aqui, aqui ou aqui.

Qualquer semelhança com um arrastão tupiquim não é simples coincidência. As mesmas causas costumam engendrar as mesmas consequências. A população das periferias francesas é frequentemente constituída de gente pouco instruída, de origem estrangeira, rejeitada pelo resto da população. Alguns de seus membros, mais ingênuos ou menos escrupulosos, acreditam que a violência seja o caminho mais rápido para obter o TGV 2dinheiro que lhes falta. E para adquirir os objetos que cobiçam.

Hoje há menos piratas pelo mundo. Mas que não se acanhem os novos capitães gancho, sejam eles franceses ou somalis. Caso um dia, apanhados, consigam escapar, nosso País não costuma negar asilo a fugitivos de Justiça. Se tiverem sido condenados, a acolhida será ainda mais efusiva. E se o crime tiver sido de sangue, terão direito a tapete vermelho e, quem sabe, até a um empreguinho público, uma sinecura qualquer.

Já faz tempo que nossas ‘otoridades’ perderam o senso da honra e do ridículo.