O jogo e a paz

José Horta Manzano

Ingenuidade é característica da infância. É enternecedor ler cartinhas escritas por crianças e endereçadas ao Papai Noel. Cada época da vida tem seus atributos. E é muito bem que assim seja.

À medida que o tempo vai passando, os marcadores vão-se modificando. À pureza infantil, segue-se a rebeldia do adolescente, a sensação de onipotência do jovem adulto, o realismo próprio da maturidade.

Carta a Papai Noel

Carta a Papai Noel

Assim deveria ser. No entanto, como já dizia o outro, na prática, a teoria é outra. Não é raro que adultos já bem crescidinhos conservem traços infantis. Não é perigo tão grande: cada um tem suas idiossincrasias.

Bem mais grave é ver a casta dirigente de um país ―todos à beira de uma idade provecta ― ser regida por delírios infantis. É assombroso constatar que os que têm nas mãos as rédeas do País continuam acreditando na existência do bom velhinho, aquele que ri «ho, ho, ho».

Em 2004, na certeza de que seria bom para nosso País, nossos mandachuvas insistiram para que nos fosse garantida participação significativa na Minustah, força de intervenção da ONU destinada a fazer reinar a ordem no pobre e atormentado Haiti.

Os mandarins do Planalto, comandados à época por um enfatuado presidente, imaginaram que a situação se resolveria num piscar de olhos. Um jogo de futebol para encantar e uma tropazinha de algumas centenas de soldados para distribuir barrinhas de cereais entre os miseráveis deveriam bastar. Ademais, seria um passo de capital importância para a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, neurose obsessivo-compulsiva do presidente de então.

As grandes potências, cujos dirigentes são menos deslumbrados, ficaram felizes em livrar-se do abacaxi. Aceitaram rapidinho.

Já vai para dez anos que isso se passou. O Haiti continua ocupando o pouco invejável lugar de país mais pobre das Américas. A calma por lá é só aparente ― todos sabem que terminará no exato instante em que as tropas de ocupação se retirarem. O Brasil continua tão distante da cobiçada cadeira cativa no Conselho de Segurança quanto estava em 2004.

A intervenção, que o Planalto acreditava ser coisa de poucos meses, não dá sinal de chegar ao fim. O erário ― cofre onde se guardam os impostos, diretos e indiretos, pagos por todos os habitantes do território nacional ― continua sendo sangrado. Não se sabe direito quantos bilhões a aventura terá custado até agora. De qualquer maneira, dar esmola com chapéu alheio não dói no bolso, não é mesmo?

Minustah Missão de estabilização no Haiti

Minustah
Missão de estabilização no Haiti

Reportagem da Folha de São Paulo esclarece que perto de 700 milhões de reais já foram gastos só com adicionais de soldo pagos aos militares estacionados lá. Só adicionais! Esse total, evidentemente, não inclui o montante gasto com transporte, armamentos, alimentação, logística, e tudo o mais que um deslocamento de tropa pode custar.

Resultado da façanha: gastamos rios de dinheiro e continuamos no ponto zero. Fica reforçada a impressão de nosso País vem sendo governado por cortesãos ingênuos e incapazes.

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Interligne vertical 5Nota de pé de página:
Em 18 de agosto de 2004, realizou-se o «jogo da paz». O povão, naturalmente, foi escorraçado do estádio. De qualquer maneira, não teriam dinheiro para pagar a entrada. O Brasil ganhou por 6 a zero. Mas a paz não veio.