Lavoisier

José Horta Manzano

«Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme». Costuma-se atribuir a Antoine Laurent de Lavoisier, cientista parisiense do séc. XVIII, a adaptação francesa de máxima formulada, mais de um milênio antes dele, pelo filósofo grego Anaxágoras.

Seja como for, taí uma verdade incontestável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Protestos já havia na Grécia conturbada de Anaxágoras e na França pra lá de tumultuada de Lavoisier. Há que lembrar que o infeliz químico francês terminou seus dias na guilhotina.

Dado que é impossível satisfazer a todos, descontentamento sempre houve e sempre haverá. O que muda, eventualmente, é a maneira de exprimir desagrado. Pode ir de uma praga rogada em silêncio até um golpe de Estado com exército e canhões.

O Brasil anda meio pasmo com a ressurgência de manifestações de protesto. É compreensível. Os que hoje travam batalha contra policiais não haviam nascido quando as últimas manifestações vigorosas tiveram lugar no Brasil, no fim da Era Collor.

Passeatas que degeneram estão longe de ser particularidade brasileira. Como prova, estão aí as atualíssimas manifestações populares venezuelanas, bem mais mortíferas que as tupiniquins.

Até a pacífica Suíça ― espante-se o senhor e a senhora ― tem escaramuças episódicas. As últimas aconteceram em novembro de 2009. Foi quando o bando autodenominado «Black Blocs» decidiu promover manifesto, em Genebra, contra a OMC.

Genebra, 28 nov° 2009 Quebra-quebra promovido por blocos pretos

Genebra, 28 nov° 2009
Quebra-quebra promovido por “blocos pretos”   –   Clique sobre a imagem para assistir

Acho curioso que quadrilhas protestem contra a Organização Mundial do Comércio, um fórum onde o mundo se reúne justamente para dialogar. Que se combatam decisões autoritárias, posso entender. Hostilizar concertações civilizadas parece-me despropositado. Mas assim acontece, infelizmente.

No sábado 28 nov° 2009, Genebra assistiu a cenas de deixar qualquer integrante do bloco preto brasileiro babando de inveja. Que clique aqui quem quiser ter uma ideia do que aconteceu aquele dia.

E sabem qual foi a consequência? Nenhuma, absolutamente nenhuma! A OMC continua lá fazendo o que sempre fez. Se eu fosse integrante de algum bloco preto, me sentiria desapontado. A não ser…

… a não ser que estejam fazendo arruaça pelo simples prazer de fazer arruaça. Sei não, algo me diz que a hipótese da bagunça pela bagunça não está longe da verdade.

Frase do dia — 109

«Quando lançou o Ciência sem Fronteiras, o governo foi altamente elogiado, dada a contribuição que o programa poderia trazer para ampliar o nível de formação acadêmica e profissional das novas gerações. Quase quatro anos depois, a inépcia do governo compromete o que poderia ter sido a grande realização da presidente Dilma Rousseff.»

Editorial do Estadão, 19 fev° 2014.

Contrato maleável

José Horta Manzano

Não é credível que o governo de nossa República, ao combinar com o regime cubano as modalidades de importação de pessoal da área médica, não estivesse a par das peculiaridades da remuneração dos profissionais.

Portanto, se assinaram o convênio e aceitaram suas condições, fizeram isso com conhecimento de causa. Estavam a par de que os missionários receberiam menos de 10% do total desembolsado pelo contribuinte brasileiro.

Quem assina, concorda. Que não venham agora alegar ignorância. Essa história de «eu não sabia» ficou como imagem de marca de personagem em acelerada via de decadência. Não cai bem requentar o símbolo.

Nossos mandachuvas têm o persistente e irritante costume de só trilhar o caminho certo quando pressionados a fazê-lo. São como criança pequena: exigem atenção 24 horas por dia. Bobeou, fazem besteira.

Foi preciso que uma certa Ramona ― admitida no «programa» na qualidade de médica ― botasse a boca no trombone, em atitude temerária. Não fez mais que gritar bem alto o que todo o mundo já sabia. Mas seu trombone soou forte, e ninguém mais pôde fazer de conta que o problema não existia.

Crédito: Nani (Ernani Diniz Lucas) Desenhista mineiro

by Nani (Ernani Diniz Lucas)
Desenhista mineiro

Ficou claro que o governo brasileiro patrocina trabalho escravo. Ficou escancarado que, apesar de se autoproclamar justo e igualitário, o governo popular faz vista grossa a gritantes desigualdades ― desde que seus interesses pecuniários sejam preservados.

Assim mesmo, medo pânico se infiltrou nos bastidores! E agora? Se «debandar geral», como é que fica? Por mais que o atual estilo de governar ande desmoralizado, ainda não tocou o fundo do poço. Continua presente a ameaça de descer mais fundo. Mais vale pôr um esparadrapo enquanto é tempo, antes que a sangria se torne inestancável.

Eis que, de repente, nosso bondoso governo prepara gestões junto aos bons velhinhos de Cuba para pedir-lhes que concedam um aumentozinho no holerite dos missionários. Pode ser coisa pouca, um cala-boca pra inglês ver. Sempre ajuda.

Lígia Formenti e Vera Rosa, do Estadão, nos dão conta do embaraço e da aflição que invadiram a alma de nossos dirigentes ao perceberem que a remuneração dos infelizes cubanos equivalia à décima parte do que recebem os profissionais, digamos assim, normais. Nosso governo, que não suporta injustiça na distribuição de benesses, indignou-se.

Até a abnegação missionária tem limites, que diabo!

PS:
Como diz o outro, se importaram médicos cubanos para melhorar a saúde, quero políticos suecos para acabar com a corrupção.

O país dos relógios

José Horta Manzano

Parece brincadeira mas é verdade. A inacreditável notícia foi dada por vários órgãos da mídia suíça e europeia. Está tão bem contado pelo site francês MetroNews, que não me resta senão traduzir. Aqui está:

Avião sequestrado e desviado a Genebra Foto: SIPA

Avião sequestrado e desviado a Genebra
Foto: SIPA

Interligne vertical 9Um avião que cumpria o trajeto entre a Etiópia e a Itália foi sequestrado segunda-feira de manhã e desviado para Genebra. Mas a aviação (militar) suíça não se mexeu. Por quê? Simplesmente porque era cedo demais.

O aparelho foi escoltado até Genebra por aviões militares franceses e italianos. Os aviões suíços, no entanto, não alçaram voo. Em princípio, certas situações são consideradas excepcionais. Mas na Suíça, nem o sequestro de um avião tem o poder de alterar a regra: tem hora pra tudo.

Assim, quando o aparelho das Linhas Aéreas Etíopes, no trajeto entre Adis Abeba e Roma, foi sequestrado e desviado segunda feira cedo pelo próprio copiloto, a aviação suíça não se abalou. O regulamento reza que as forças aéreas somente estão disponíveis das 8h às 12h e das 13h30 às 17h. A Itália e a França se encarregaram de escoltar o aparelho até Genebra.

O diário suíço Le Matin explica essa singular peculiaridade helvética. «As autoridades suíças foram avisadas desde as 4h30 da madrugada que um avião etíope de carreira se havia desviado de sua trajetória na Itália e se dirigia a Genebra», escreve o jornal suíço. «Pela lógica, o alarme deveria ter soado em todas as bases militares do país, deixando seus F/A 18 prontos para decolar. Só que, mesmo em casos de extrema urgência ― como hoje de manhã ― a aviação militar respeita seu horário.»

Catástrofe evitada
«Não temos condições de assegurar plantão de 24 horas por dia», reconhece Laurent Savary, porta-voz das Forças Aéreas Suíças. «Tendo em vista nossas restrições de orçamento e de pessoal, a Suíça concluiu acordo com os países vizinhos para garantir o policiamento aéreo fora das horas de abertura das bases militares.»

«O problema é que, se o sequestrador tivesse perdido a cabeça e estivesse decidido a jogar o aparelho sobre a cidade de Genebra, os jatos estrangeiros não estariam autorizados a abatê-lo. Como nenhum avião militar suíço estaria disponível antes das oito da manhã, a catástrofe teria sido total.»

Interligne 18c

Nota à atenção dos que pretenderem invadir a Suíça: tenham a fineza de fazê-lo no horário regulamentar. Antecipadamente, agradecemos.

Rapidinha 15

José Horta Manzano

Ninguém nasce sabendo. Tirando insetos, micróbios, protozoários e afins, todos temos algo a aprender. Animais inferiores já nascem sabendo tudo o que lhes será necessário para sobreviver. O homem, não.

Para isso estão aí a família e a escola. Independentemente das aptidões inatas de cada um, a orientação familiar e a qualidade do ensino exercerão pesada influência na construção da personalidade.

Recente pesquisa levada a cabo pela National Science Foundation trouxe revelações surpreendentes. Uma quarta parte dos 2200 americanos entrevistados imagina que o Sol gire em torno da Terra. As lições de Galileu, Kepler e Copérnico ainda não foram assimiladas.Sistema solar

Pior que isso: menos da metade dos pesquisados sabia que o ser humano é produto da evolução das espécies. Assim como os astrônomos pioneiros, tampouco Darwin conta com amplo reconhecimento por aquelas bandas.

Será burrice? Será atraso? Não me parece que o caminho seja esse. Tenho tendência a crer que o problema maior esteja na ideologização do aprendizado. Em muitas familias ― e em muitas escolas ― o integrismo de fundo religioso passa à frente da Ciência.

Ideologia e Educação não fazem necessariamente boa companhia.

Rapidinha 14

José Horta Manzano

Reportagem do Estadão botou a boca no trombone. Alertou autoridades para um comércio de gênero peculiar que se desenrola, diário e clandestino, na noite paulistana. Ao ar livre, em plena rua da região central do município.

Peixoto GomideVende-se droga ― da pesada ― a quem quiser. Milhares de habitués frequentam o ponto pra lá de conhecido. É curioso que autoridades policiais, justamente pagas para zelar pelo respeito à lei e às regras, não estivessem a par. Uma desatenção, certamente. Ficam devendo um favor ao jornal que pôs o dedo na ferida.

Antes tarde que nunca: agora já sabem. O governador do Estado, num daqueles pronunciamentos transcendentes, declarou solenemente que «o tráfico de drogas é crime e precisa ser combatido». Prometeu tomar as devidas providências.

17 fev° 2014 ― Chamada Estadão

17 fev° 2014 ― Chamada Estadão

Vamos torcer para que, em breve, a feira livre das drogas se transforme numa feira livre das drogas.

PS: Ah, a falta que um hífen faz!

Cría cuervos, y te sacarán los ojos

Sandro Vaia (*)

Não é preciso ter visto o filme de Carlos Saura para entender o significado da célebre expressão espanhola.

O rojão na cabeça que matou o cinegrafista Santiago Andrade da TV Bandeirantes durante um distúrbio no Rio é o olho arrancado por um corvo criado, alimentado, paparicado e incentivado por boa parte do pensamento político que imagina construir uma sociedade perfeita cheia de fadas Sininho e de rios de leite e mel, onde a justiça social estará disponível nas prateleiras dos supermercados a preços de liquidação.

Não importa se o morteiro foi disparado por 150 reais. Há assassinatos mais baratos do que esse disponíveis no mercado. Importa é o caldo da cultura que criou assassinos-vítimas que aparecem com cara de Dr. Jeckyll nos seus gestos de confissão e arrependimento e são fotografados em ação no auge de sua monstruosa transfiguração de Mr. Hyde.

Se, além do curling, houvesse na Olimpíada russa de inverno que transcorre em Sochi a modalidade de pisar em ovos, a imprensa, as autoridades, os políticos e o governo brasileiro criariam um escrete imbatível.

Pede-se uma lei contra o terrorismo, mas terrorismo não é. E se terrorismo for, como não enquadrar os não muito amistosos manifestantes do MST, que ocuparam a praça dos Três Poderes, tentaram invadir o prédio do Supremo e entraram em combate com policiais militares?Corvo 1

Mas não se pode criminalizar os movimentos sociais, reza a cartilha do poder. Por isso, prudentemente o ministro da Justiça guardou em sua gaveta um ante-projeto do secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, prevendo punições para manifestações violentas.

Como se não bastasse, representantes do pacífico MST, cujo líder José Pedro Stédile chamou o governo Dilma de «bundão» em questões de reforma agrária uma semana antes, foram recebidos e afagados pela própria presidente, depois de ferir 30 policiais nos choques do dia anterior.

Mas se o movimento for contra a Copa do Mundo, não será mais movimento social, mas pode ser enquadrado como terrorismo, conforme um projeto de lei que está atravancado em alguma gaveta do Congresso Nacional.

A confusão conceitual se instalou na seara do politicamente correto, e os concorrentes da maratona de pisar em ovos, não sabem mais pra que lado atirar: os pobres meninos desamparados da periferia que atiram rojões a esmo são vítimas da sociedade ou da exploração de políticos inescrupulosos que pagam pela sua violência?

O diabo é que todos dizem querer uma sociedade mais justa e em nome disso são capazes de pregar e acreditar que a justiça está em desmoralizar o Poder Judiciário porque condenou correligionários por corrupção ou em escrever que o «superávit primário é uma invenção diabólica do capitalismo para explorar os povos».

Quem cria esses corvos? E os olhos de quem eles comerão?

(*) Sandro Vaia é jornalista e escritor.
Fonte do artigo: O Globo, Blogue do Noblat

A causa e a consequência

José Horta Manzano

Inaugurar uma plataforma de petróleo inacabada é mais vistoso que implantar uma dúzia de escolas elementares. Se a plataforma vai funcionar amanhã, pouco importa ― ninguém vai conferir. O que fica são as imagens, os discursos, a impressão de grandiosidade. É o que conta.

Por uma dessas ironias armadas pelo acaso, a Folha de São Paulo online de 16 fev° 2014 estampou na primeira página, empilhadas, duas chamadas conflitantes. Eu disse conflitantes? Talvez seja melhor dizer que uma explica a outra.

Folha de SP - 16 fev° 2014

O primeiro artigo explica, com riqueza de números e porcentagens, que o governo tem gastado mais do que pode. Como dinheiro não é extensível, o que se gasta aqui vai fatalmente faltar ali. Mas disso já estávamos todos sabendo, não carecia escrever mais uma reportagem.

A novidade é a decisão que está pintando no horizonte: para cortar despesas, o orçamento da Instrução Pública será podado. A desvalida Educação nacional verá minguar suas alocações. Investir no ensino não dá frutos nem votos imediatos. Portanto, não resolve o problema de quem quer se perpetuar no poder. Quando o interesse pessoal de cada eleito passa à frente da responsabilidade que lhe foi confiada, não sobra alternativa: o resultado tem de ser aqui e agora. Toda a verba disponível será usada em empreendimentos de resultado rápido e ofuscante.

O segundo artigo é triste consequência do primeiro. Deixa claro o fracasso do programa Ciência sem Fronteiras, aliás, uma das raras boas iniciativas do atual governo no âmbito da Educação. A aplicação do programa, infelizmente, está-se revelando problemática pela notória falta de conhecimentos de língua inglesa que caracteriza nossos estudantes. E olhe que não estamos falando de crianças de escola primária, mas de universitários.

É desanimador constatar a que ponto nossos dirigentes são vesgos. Os bilhões enterrados na “Copa das copas” surtiriam efeitos muito mais úteis se tivessem sido investidos no aprimoramento da Instrução Pública. Não dariam votos, mas dariam futuro.

Como se sabe, o fruto não costuma cair muito longe da árvore. Dirigentes incultos não conseguem senão tomar decisões ignorantes. Quando a ganância, a má-fé e o imediatismo se somam à incompetência, aí então o resultado é desastroso.

Tão cedo, não tem jeito.

Como se escolhem os ministros

Era uma vez um rei que queria ir à pesca. Chamou seu ministro de Meteorologia e pediu-lhe a previsão do tempo para as horas seguintes. O ministro assegurou-lhe que não ia chover.

No caminho, o rei encontrou um camponês montado num burro. Ao ver o monarca e seus apetrechos de pesca, o campônio achou melhor prevenir:
«É melhor Vossa Majestade regressar ao palácio porque vai chover muito.»

O rei cogitou com seus botões:
«Ora, eu tenho um ministro meteorologista ― por sinal muito bem pago ― que me disse o contrário. Vou mais é seguir em frente». E assim fez.

Burro de carga

Burro de carga

Não deu outra: a chuva torrencial logo veio e arruinou a pescaria. O rei ficou encharcado e apanhou um resfriado. Furioso, voltou ao palácio e, entre dois espirros, demitiu o ministro.

Ato contínuo, mandou chamar o camponês e ofereceu-lhe o cargo. Em sua simplicidade, o homem foi sincero:
«Majestade, não sou político nem entendo nada disso. Só sei é que, quando as orelhas do meu burro estão caídas, é sinal de chuva. Não falha nunca.»

O rei então usou a lógica: nomeou o burro.

Foi assim que teve início o costume de nomear burros que, desde então, têm as posições mais bem pagas no governo.

Rolê ao molho alemão

Riem 1

Centro comercial Riem
Munique, Alemanha

Na Alemanha também tem… rolezinho, sim, senhor!

O estilo alegre e o semblante descontraído dos participantes é indicação certeira de que não estão infringindo regras nem driblando repressão.

A coreografia e os sons são um bocadinho diferentes do que se costuma fazer na Tupiniquínia. Alemão, sacumé, é mais organizado, mais preciso.

Conseguem surpreender os frequentadores sem amedrontá-los. Merecem aplausos no final.

Para assistir, clique aqui.

Dar asilo aos perseguidos

José Horta Manzano

Alimentar quem tem fome, agasalhar quem tem frio, consolar os que choram, proteger os indefesos, abrigar os perseguidos. São princípios universais, base de toda sociedade organizada e termômetro de seu grau de civilização.

O Brasil está rodeado de vizinhos estranhos e imprevisíveis. Alguns até violentos. No tempo em que cada país vivia fechado em seu universozinho, sem grande contacto com o exterior, vizinhos tinham pouca importância. Mas a roda girou e a ordem mundial se alterou.

Com a melhora nos transportes e nas comunicações, a proximidade geográfica passou a ter maior significado nas relações entre os povos. Cinquenta anos atrás, uma viagem internacional ― fosse ela a Assunção ou a Bruxelas ― causava o mesmo pasmo. Era assunto para relatos que duravam meses, anos até. Hoje não é mais assim. A proximidade dos vizinhos tem assumido importância crescente.

Se é um bem ou um mal? Pois não me parece nem um nem outro. É da vida. Tendemos todos a ter mais intimidade com o vizinho de parede do que com o que vive na rua de baixo. E a recíproca é verdadeira: nossos vizinhos também nos veem, mais e mais, como gente digna de atenção e de respeito.

Foi nessa continuidade histórico-política que um senador boliviano, perseguido pelo governo de seu país e sentindo-se por ele ameaçado, buscou asilo na embaixada do Brasil em La Paz. Causou rebuliço em nosso governo popular. Por um lado, princípios universais de convivência ensinam que se deve dar asilo aos perseguidos. Por outro, dar proteção a um desafeto de governante amigo pode ser interpretado como afronta. Que fazer?

Oficialmente, nada se fez. Brasília escudou-se detrás de desculpa cômoda: o governo boliviano se negava a conceder salvo-conduto para o asilado abandonar o país em segurança. No entanto… por baixo do pano, as coisas não se desenrolavam exatamente assim.

Não tivesse a notícia sido publicada pelo Estadão, em sua edição de 14 fev°, não seria de acreditar. Se você não leu, não perca: é edificante. Clique aqui. Sabemos agora que, logo que o senador bateu à porta de nossa embaixada e lá foi acolhido, Brasília e La Paz entabularam tratativas para resolver o problema de maneira indolor para os dois governos e, se possível, infernizando e desgraçando a vida do ousado parlamentar.

O plano era remover de nossa embaixada o refugiado incômodo, instalá-lo num avião venezuelano e despachá-lo para a Venezuela de Chávez ou para a Nicarágua de Ortega ― gente notoriamente confiável e amiga. Para coroar o cenário de sórdida deslealdade, o senador não deveria ser informado do destino final de sua viagem.

Dois motivos impediram o sucesso da infame operação. Primeiro, o asilado não concordou em embarcar num voo de destino ignorado. Segundo, Chávez, apesar do desvelo do ápice do suprassumo da quinta-essência da superior medicina cubana, faleceu. E a urdidura secreta foi por água abaixo. O senador teve de ser resgatado pela compaixão de um funcionário de nossa embaixada, que arriscou seu futuro profissional na empreitada.Roger Pinto 2

O senador refugiado sobrevive hoje em Brasília no quarto de empregada ― perdão! ― no quarto de auxiliar de serviços domésticos do apartamento de um senador brasileiro. É cômodo sem janela, de uns 5 metros quadrados, onde não cabe nem criado-mudo.

É inconcebível que nossos governantes, que, em nome do Estado brasileiro, deram refúgio na embaixada ao político perseguido, não lhe proporcionem o alojamento e a proteção que lhe são devidos. Mais inexplicável é o fato de o terem acolhido em La Paz e de se recusarem agora a confirmar-lhe asilo em território nacional.

Melhor teria feito o señor Molina se tivesse procurado a embaixada de um país civilizado. Fez mau negócio, o infeliz parlamentar.

Copas e Jogos Olímpicos podem servir para anestesiar o distinto público interno. Casos como o do senador boliviano corroem a imagem de nosso país no exterior. É pena.

Frase do dia — 107

«Lobão, com seu humor tragicômico, ironiza acidentes aéreos, que matam. Temos de rezar para que não vire ministro da Aviação Civil.»

Mendonça Filho, deputado federal pernambucano, ao comentar fala do ministro de Minas e Energia. Este último havia declarado que, «assim como aviões, o sistema elétrico “sazonalmente cai”».

Reportado por Vera Magalhães, editora do Painel da Folha de São Paulo.

Frase do dia — 106

«Desta vez, a segunda chance não foi dada ao réu, mas aos juízes necessitados de se redimir do vexame anterior.»

Dora Kramer, em sua coluna in Estadão.
Refere-se ao voto da Câmara Federal que cassou o mandato legislativo do presidiário Donadon.

Natan Donadon disse tudo!

Fernão Lara Mesquita (*)

«O voto aberto vai fazer com que meus colegas votem contra o coração e a vontade deles»

E não é com isso que o Brasil sempre sonhou? Que eles votem SEMPRE contra o coração e a vontade deles e a favor da nossa? Democracia é exatamente isso ― nem mais, nem menos. Estas duas votações em menos de seis meses:

Interligne vertical 7Meio ano atrás: 233 votos pela cassação, 24 a menos que o necessário a 172 pela manutenção do mandato (mais abstenções)

Ontem: 467 pela cassação x 1 abstenção (de outro deputado presidiário)

É a prova do que se tem afirmado desde sempre aqui no Vespeiro: a civilização (que é o outro nome da democracia) não é muito mais que a presença da polícia.

O voto distrital com recall põe polícia na política. É a chegada do xerife a este nosso faroeste dominado pelos bandidos.

Não há povos piores nem povos melhores, «gentinha» nem gentona. O que há são os que já experimentaram e os que ainda não experimentaram. E mesmo entre os que já experimentaram, se tirar a polícia de cima, volta tudo pra trás. Até o Steve Jobs, o Leonardo da Vinci cibernético ― o «inventor da modernidade» ― se tiver certeza de que não vai pagar por isso, vira explorador de menores miseráveis na China.Biscoito surpresa

O voto distrital com recall arma a mão da polícia da política ― que é você ― para que ela possa exigir o cumprimento da lei. E o efeito é imediato e automático, como previa o anteontem ainda deputado e hoje só presidiário. E se é assim diante da simples perspectiva de ser identificado pelo eleitor, imagine o que seria se eles soubessem que o eleitor pode, a qualquer momento, sem manifestação de rua nem bagunça, retirar o voto que lhes garante o emprego.

O recall é isso. Divide-se o número de eleitores pelo número de deputados e cria-se um distrito eleitoral delimitado pela geografia com aquele número de eleitores. Cada candidato só pode pedir votos em um único distrito eleitoral. Se eleito, fica-se sabendo exatamente que eleitores ele representa. E se mijar fora do penico, qualquer eleitor daquele distrito tem direito de passar uma lista pedindo a confirmação do mandato do porcalhão. Se conseguir colher a assinatura de 5% dos eleitores da circunscrição, convoca-se uma nova votação unicamente naquele distrito. Caso o deputado não seja confirmado, seu mandato será cassado. E, se calhar, ele que vá se entender com o Joaquim sobre os direitos que lhe vão restar lá na Papuda.

Isso faz milagres! Muda a vida! Qualquer outra reforma fica fácil de arrancar com essa arma na mão.

Agora que estamos na bica de acabar com essa tapeação dos mascarados assalariados, todo o mundo sabe de quem, quebrando tudo por aí, taí uma boa razão pra você voltar pra rua.

Mas jogue fora o cartaz inútil, por mais engraçadinho que tenha sido o trocadilho usado na última vez. Espalhe esta convocação. Vamos todos pra rua com o mesmo cartaz. Vamos todos exigir a arma que temos direito de carregar pra construir um Brasil do jeito que a gente quer.

VOTO DISTRITAL COM RECALL, JÁ!

Para maiores informações sobre o funcionamento do recall, clique aqui.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Frase do dia — 105

«Não somos cordiais, somos cruéis, e é bom que o mundo se cuide a nosso respeito.»

Ruy Castro, escritor e jornalista, em sua coluna da Folha de São Paulo.
O articulista refere-se às arruaças que desocupados, instrumentalizados por interesses vários, vêm promovendo de uns tempos pra cá.

Picaretas ou covardes?

José Horta Manzano

Num tempo que hoje nos parece antediluviano, nosso messias, recém-eleito deputado federal, debochou da Câmara Federal dizendo que ela abrigava 300 picaretas. O passar do tempo cuidou de aparar as arestas. Bastou que a necessidade surgisse para que nosso pitoresco personagem fizesse as pazes com os parlamentares. Afagou a cabeça de todos e chegou até a beijar a mão de algum deles. Quem te viu, quem te vê! ― como diria o outro.

No fim de agosto 2013, os mesmos picaretas da mesma Câmara foram convocados a se exprimir, em votação secreta, sobre a cassação do mandato de um colega deputado. O homem tinha sido acusado, julgado e já condenado definitivamente. Estava preso por crime de peculato e formação de quadrilha.

São Judas Tadeu Padroeiro das causas perdidas

São Judas Tadeu
Padroeiro das causas perdidas

Dos 513 deputados, 108 gazetearam ― simplesmente não compareceram à sessão. Dos 405 que votaram, 172 se posicionaram pela manutenção do mandato do deputado criminoso.

Somando-se os 172 que negaram a cassação aos 108 que se esgueiraram, chegamos ao total de 280. São os que não enxergam nenhum mal em continuar a ser colegas de um presidiário condenado a 13 anos de cárcere.

De lá para cá, o clamor popular cresceu. A Câmara foi pressionada a mudar as regras. Nunca mais ― prometem de pés juntos ― um caso de quebra de decoro será decidido pelo voto secreto.

O deputado que havia sido salvo pelo sigilo corporativo no ano passado voltou a passar pelo crivo de seus colegas. Desta vez, o voto foi aberto. Com exceção de um deputado ― unzinho só! ― os 280 que, escondidos atrás do voto anônimo, tinham votado pela manutenção do mandato do deputado criminoso, desapareceram. São todos pela cassação. Desde criancinhas, ora vejam só.

Interligne vertical 11O dicionário ensina:

Picareta = pessoa aproveitadora, que utiliza meios condenáveis para obter o que deseja.

Covarde = quem age com temor; quem não apresenta valentia.

A visão que nosso guia tinha da Câmara passou da data de validade, está vencida. É impensável que, depois de 8 anos de convivência amistosa com 3 em cada 4 parlamentares, ele repetisse hoje a bravata segundo a qual aquela Casa acolhe 300 picaretas.

Quanto a mim, ainda fico com a definição originária. A conta do antigo presidente da República não está nada exagerada. Pior ainda: os 300 indigitados, além de picaretas, são covardes.

Valei-nos São Judas Tadeu, o advogado das causas impossíveis!

Rapidinha 13

José Horta Manzano

No caso do infeliz jornalista assassinado no exercício de sua função, tenho observado o jogo de empurra.

Quem comprou o rojão? Quem o carregou até o local da arruaça? Quem pegou, quem tocou, quem relou nele? Quem acendeu o pavio? Quem o lançou?

Essa agitação pra jogar a batata quente no colo do outro me fez lembrar de velho (e sábio) ditado lusitano:

«Tanto é ladrão o que vai à vinha como o que fica à porta».

Permito-me incluir quem indicou o caminho da vinha, quem incentivou, quem forneceu a sacola, quem emprestou a tesoura, quem assistiu a tudo e nada disse, quem aplaudiu. E quem comeu as uvas. E, naturalmente, quem pagou os 150 reais.

Frase do dia — 104

«Brazil’s government has set the favelas and middle classes against each other»

«O governo do Brasil incentiva o enfrentamento entre favelas e classes médias»

Título de artigo publicado no jornal britânico The Guardian em 8 fev° 2014. Para ler o texto integral (em inglês), clique aqui.