Natan Donadon disse tudo!

Fernão Lara Mesquita (*)

«O voto aberto vai fazer com que meus colegas votem contra o coração e a vontade deles»

E não é com isso que o Brasil sempre sonhou? Que eles votem SEMPRE contra o coração e a vontade deles e a favor da nossa? Democracia é exatamente isso ― nem mais, nem menos. Estas duas votações em menos de seis meses:

Interligne vertical 7Meio ano atrás: 233 votos pela cassação, 24 a menos que o necessário a 172 pela manutenção do mandato (mais abstenções)

Ontem: 467 pela cassação x 1 abstenção (de outro deputado presidiário)

É a prova do que se tem afirmado desde sempre aqui no Vespeiro: a civilização (que é o outro nome da democracia) não é muito mais que a presença da polícia.

O voto distrital com recall põe polícia na política. É a chegada do xerife a este nosso faroeste dominado pelos bandidos.

Não há povos piores nem povos melhores, «gentinha» nem gentona. O que há são os que já experimentaram e os que ainda não experimentaram. E mesmo entre os que já experimentaram, se tirar a polícia de cima, volta tudo pra trás. Até o Steve Jobs, o Leonardo da Vinci cibernético ― o «inventor da modernidade» ― se tiver certeza de que não vai pagar por isso, vira explorador de menores miseráveis na China.Biscoito surpresa

O voto distrital com recall arma a mão da polícia da política ― que é você ― para que ela possa exigir o cumprimento da lei. E o efeito é imediato e automático, como previa o anteontem ainda deputado e hoje só presidiário. E se é assim diante da simples perspectiva de ser identificado pelo eleitor, imagine o que seria se eles soubessem que o eleitor pode, a qualquer momento, sem manifestação de rua nem bagunça, retirar o voto que lhes garante o emprego.

O recall é isso. Divide-se o número de eleitores pelo número de deputados e cria-se um distrito eleitoral delimitado pela geografia com aquele número de eleitores. Cada candidato só pode pedir votos em um único distrito eleitoral. Se eleito, fica-se sabendo exatamente que eleitores ele representa. E se mijar fora do penico, qualquer eleitor daquele distrito tem direito de passar uma lista pedindo a confirmação do mandato do porcalhão. Se conseguir colher a assinatura de 5% dos eleitores da circunscrição, convoca-se uma nova votação unicamente naquele distrito. Caso o deputado não seja confirmado, seu mandato será cassado. E, se calhar, ele que vá se entender com o Joaquim sobre os direitos que lhe vão restar lá na Papuda.

Isso faz milagres! Muda a vida! Qualquer outra reforma fica fácil de arrancar com essa arma na mão.

Agora que estamos na bica de acabar com essa tapeação dos mascarados assalariados, todo o mundo sabe de quem, quebrando tudo por aí, taí uma boa razão pra você voltar pra rua.

Mas jogue fora o cartaz inútil, por mais engraçadinho que tenha sido o trocadilho usado na última vez. Espalhe esta convocação. Vamos todos pra rua com o mesmo cartaz. Vamos todos exigir a arma que temos direito de carregar pra construir um Brasil do jeito que a gente quer.

VOTO DISTRITAL COM RECALL, JÁ!

Para maiores informações sobre o funcionamento do recall, clique aqui.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Pangeia 2

Para quem apreciou o mapa da Pangeia, aqui está a versão original, em alta resolução. Cortesia do autor, Massimo Pietrobon. Clicando duas vezes, um mapa bem mais detalhado deveria aparecer. Em princípio. Com informática, nunca se sabe o que pode acontecer.

Pangeia ― alta resolução

Pangeia ― alta resolução

Pangeia

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que a Idade Média terminou faz quase 600 anos. Temos até a data exata: 29 de maio de 1453, uma terça-feira, dia em que Constantinopla, a capital do Império Bizantino, se rendeu ao exército turco otomano. É raro que a História marque com tal precisão uma mudança de era.

Bem, o fim da Idade Média não significa que o mundo se encontrou de ponta-cabeça no dia seguinte. As mudanças foram paulatinas. A saga da navegação em alto-mar engatinhava. As áreas linguísticas e culturais europeias já começavam a delinear as fronteiras nacionais que só surgiriam bem mais tarde.

Timidamente, o mundo foi deixando de se dividir entre os que sabiam e os que não sabiam. Até meio milênio atrás, o saber era um valor absoluto. Quem sabia, sabia tudo, era versado em todas as artes, todas a ciências, todas as línguas. Segundo seu caráter, cada sábio tinha seu campo de preferência, o que não o impedia de perambular por outras searas.

Pangeia by Massimo Pietrobon

Pangeia
by Massimo Pietrobon

Leonardo da Vinci(*) é o mais acabado exemplo de sábio medieval ― tocava todos os instrumentos da orquestra. De lá para cá, a comunicação entre grupos humanos foi se intensificando, terras novas foram descobertas, conceitos foram surgindo, o espectro do conhecimento foi-se alargando. O fato é que, pouco a pouco, tornou-se impossível para um só homem, por mais genial que seja, abarcar toda a sapiência. Inexoravelmente, foram-se delimitando campos específicos, cada letrado especializou-se na área onde se sentia mais à vontade.

Hoje em dia, a especialização tem levado a excessos. Em medicina, por exemplo, está cada vez mais difícil encontrar um generalista. Cada profissional se dedica a uma área específica e não costuma se aventurar em campo alheio. Isso pode ter seu lado bom, mas, para o paciente, a peregrinação é meio complicada.

É raro, mas de vez em quando acontece de a gente topar com algum remanescente da Idade Média. É o caso de Massimo Pietrobon, cidadão do mundo, originário da mesma terra que viu nascer Leonardo. Poliglota, um pouco artista, um pouco cientista, um pouco desenhista, um pouco globe-trotter, um pouco visionário, um pouco maluco, Pietrobon é uma fábrica de ideias ― às vezes absurdas.

Pangeia ― detalhe by Massimo Pietrobon

Pangeia ― detalhe
by Massimo Pietrobon

Todos já ouvimos falar num hipotético continente primitivo, ao qual os cientistas deram o nome de Pangeia. De sua fragmentação, milhões de anos atrás, teriam surgido os continentes que conhecemos hoje. Pietrobon decidiu ir mais longe. Recolheu o resultado dos estudos científicos e botou no papel a representação gráfica do que poderia ter sido o globo terrestre com seu continente único. Foi mais longe. Desenhou o contorno dos países atuais.

O resultado é primoroso. Se os continentes não tivessem derivado, muitos brasileiros poderiam facilmente realizar seu sonho maior. Dado que os EUA praticamente encostavam no Amapá, a viagem até a Disneylândia poderia ser feita… a pé! Mas nada é perfeito. O Brasil não teria costa marítima, ao contrário da Suíça. Não se pode ter tudo.

Para quem quiser fazer uma visita a esse extraterrestre, deixo os endereços. Aqui e aqui. Quem quiser pode também ver Pangeia em resolução mais elevada. Aqui.

Interligne 18b

No Brasil, dizemos Leonardo da Vinci, como os italianos. Fica a impressão de que Vinci é o sobrenome do homem. Não é bem assim. A preposição italiana da indica procedência, proveniência. O sábio chamava-se Leonardo. Tinha nascido num lugarejo ― que é hoje uma cidadezinha ― chamado Vinci, perto de Florença. Daí dizerem Leonardo da Vinci. Deveríamos dizer Leonardo de Vinci. Mas acho que é tarde demais para mudar. Fica assim mesmo.