Os mi[ni]stérios brasileiros

Myrthes Suplicy Vieira (*)

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Não escapa à sensibilidade de ninguém a má vontade e a acidez das críticas com que muitos de nossos concidadãos avaliam o desempenho do atual quadro ministerial, induzidos talvez por pura e simples má-fé ou movidos pela inveja da capacidade criativa de nossa atual mandatária. Nem mesmo a recente reforma ministerial escapou da negatividade da ótica dessas pessoas, que chegaram a alegar que ela se deveu a motivos espúrios que nada têm a ver com os interesses nacionais. Basta de tanto catastrofismo, chegou a hora de fazer justiça.

Hoje, ao ler o desabafo que nossa amada líder fez ao final de sua primeira reunião com a nova equipe ministerial, afirmando que está em curso uma tentativa de “golpe democrático à paraguaia”, não pude mais me conter. Desolada, decidi, por isso, estender a mão aos ilustres defensores da democracia à brasileira e ajudar a explicar aos não iniciados como funciona a versão tupiniquim desse sistema de governo.

Lingua 1Em primeiro lugar, é preciso destacar que nossos aguerridos democratas à brasileira justificam suas ações numa “novilíngua” que, embora guarde semelhanças com a língua portuguesa, tem conotações um tanto diversas para cada vocábulo. Já nos deparamos com preciosos exemplos desse novo idioma proferidos por nossa líder máxima, como “isso é uma panaceia que não vai funcionar” e “não vamos estabelecer uma meta e aí, quando atingirmos a meta, vamos dobrá-la”.

Eolienne 1Por estes dias, circula no Facebook um vídeo em que nossa estimada presidenta acrescenta mais uma pérola a esse inventivo dicionário. Lamenta ela, em um discurso, que ainda não se tenha descoberto um modo de “estocar vento”. Referia-se ela, obviamente, ao fato de que, embora seu governo seja a favor de transferir parte do investimento na matriz energética para a energia eólica, ainda está às voltas com alguns obstáculos incontornáveis.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Acompanhemos seu raciocínio: ao contrário da água que pode ser armazenada para enfrentar dias mais difíceis, disse ela, ainda não se descobriu um modo de estocar vento, dado o caráter oscilante dessa força da natureza. Como ela mesma fez questão de ressaltar, “tem hora que venta mais e tem hora que venta menos, às vezes venta mais à noite, por exemplo”. Talvez por uma questão de pudor, ela tenha omitido os apuros tecnológicos enfrentados pelos cientistas brasileiros para capturar o vento e aprisioná-lo em um contêiner, preservando ao mesmo tempo toda sua potência segundo a segundo.

by Geraldo 'Passofundo' Fernandes desenhista gaúcho

by Geraldo ‘Passofundo’ Fernandes
desenhista gaúcho

Foi tendo em mente tais exemplos que me ocorreu que é provável que tenham escapado à atenção da legião de detratores do governo outros sofisticados exemplares dessa nova forma de pensar – e nomear – a realidade nacional. Valho-me da ajuda de Lacan para apontar os mais recentes vocábulos:

Interligne vertical 16 3Ke● A reforma ministerial foi “legítima” porque feita às claras e no intuito de defender o ajuste fiscal, ainda que possa implicar aumento de despesas para garantir a tão necessária “fidelidade” da base aliada ao programa de governo;

● os cortes programados no Ministério da Educação, no da Saúde e em vários programas sociais representam apenas uma estratégia “temporária”, necessária para enfrentar a crise “internacional” com realismo – crise essa que está próxima do fim, uma vez que “já estou vendo luz no final do túnel”;

● o mesmo pode ser dito em relação à necessidade de reintrodução da CPMF, seja porque é o “imposto que menos impacta a inflação”, seja porque “vai valer só por uns quatro anos”, seja porque “ninguém vai sentir” o peso no próprio bolso, dado o “propósito nobre” de financiar a saúde, e seu caráter “democrático”. Para reforçar a confiança dos crédulos quanto ao último item, o governo até mesmo se dispõe a estudar “isenção” para os contribuintes de baixa renda;

● finalmente, as frases mais enternecedoras da novilíngua democrática brasileira, proferidas por nossos dois últimos mandatários: “Eu não sabia”, “Tomei a decisão baseada em dados incompletos”, “Nunca antes na história deste país se investigou tanto”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Verdade distorcida

José Horta Manzano

Precisa um pouco de tudo pra fazer um mundo: beleza, feiura, bondade, maldade, riqueza, pobreza. E assim por diante. Mas tudo tem limite. Além de um ponto de ruptura, a má-fé torna-se intolerável.

Folha online, 9 out° 2015 – Primeira página

Folha online, 9 out° 2015 – Primeira página

Neste 9 out° 2015, por volta de 11h manhã (hora de Brasília), os principais jornais do mundo estão dando, em manchete, a notícia quente: o nome dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz.

No mesmo momento, a Folha de São Paulo manda o Nobel pra segundo plano e prefere ressaltar a choradeira do presidente da Câmara, dedurado pelo banco que acolhia seus milhões.

Até aí, pode-se imaginar que a dessitonia não passe de escolha do editor. Não parece tão grave. A coisa começa a ficar esquisita quando se lê chamada informando que «cópia de passaporte de Cunha foi usada para abrir conta, diz banco suíço».

Folha online, 9 out° 2015

Folha online, 9 out° 2015

«Cópia de passaporte?» Como assim? O leitor distraído guarda a impressão de que o banco trapaceou, mostrando cópia de documento como prova de abertura de conta.

Imagino que no mundo inteiro os bancos sigam o mesmo procedimento de acolhida a novo cliente. Em todo caso, posso garantir que, na Suíça, bancos não costumam abrir conta na base de «cópia» de passaporte. O candidato se apresenta e exibe o documento original. Cabe ao funcionário tirar cópia do documento para arquivá-la no dossiê. É exatamente essa cópia que o banco juntou à documentação demonstrando que o presidente da Câmara tem conta naquela instituição.

Mas, sacumé, cada jornal apresenta a verdade sob as luzes que mais favorecem seus interesses.

Formalismo estúpido

José Horta Manzano

Erros acontecem, é da vida. Já me aconteceu ir à farmácia, receita em punho, e ouvir do farmacêutico algo do tipo «Mas qual é a dosagem do remédio? Vinte ou quarenta miligramas?» É quando o médico, distraído, se esquece de que aquele remédio é vendido em dosagens diferentes.

Remedio 1Na incerteza, que faz o farmacêutico? Pede-me que aguarde um instante, vai até o escritório que fica a dez passos do balcão, pega o telefone e liga para o consultório médico. Identifica-se e expõe a dúvida. Dez vezes em dez, recebe a resposta na hora. Em menos de dois minutos, a dúvida está esclarecida. O farmacêutico volta então ao balcão tendo já nas mãos o remédio. Pago a conta, levo o produto e o problema termina ali. Sem mortos nem feridos.

Li ontem estonteante notícia no jornal. Aconteceu no Maranhão estes dias. Ao não conseguir decifrar o que estava escrito na receita, o atendente da farmácia recusou-se a servir o cliente. Despachou-o de volta ao galeno exigindo que trouxesse prescrição legível. Irritado, o médico se excedeu. Reescreveu a receita acrescentando insultos: tratou o farmacêutico de imbecil e de analfabeto.

Receita 1Nessa altura, quem se enfezou de vez foi o paciente. Fez chegar o acontecido à imprensa causando alarido. O irrespeitoso comportamento pode custar ao médico uma sanção. Deveria render um puxão de orelhas ao farmacêutico também. A notícia não diz se, ao final, o paciente conseguiu receber a medicação. Fica só a certeza de ter sido inutilmente maltratado, jogado de lá pra cá como se marionete fosse.

Farmacia 1Por que tudo isso? De onde vem essa agressividade que, longe de resolver, agrava situações e arma conflitos? É difícil apontar causa única, que é fruto de um conjunto de fatores. Intolerância, soberba, arrogância, visão corporativista, baixa instrução se misturam. É flagrante o menosprezo pelo cliente que é, no fim das contas, justamente quem sustenta médico e farmacêutico.

Falta, acima de tudo, educação básica. Pra corrigir, é necessário percorrer longo caminho. Se começarmos hoje, só daqui a uma ou duas gerações nossa sociedade terá começado a aprender a viver em harmonia. Todo caminho, por mais longo que seja, começa com o primeiro passo.

Com incentivo do governo federal, que persiste em compartimentar os brasileiros em categorias estanques, antagônicas e adversárias, ainda estamos longe de dar esse primeiro passo. Por enquanto, tentamos sobreviver na selvageria primitiva do “nós contra eles”.

Made in P.R.C.

José Horta Manzano

China PRCAté uns quinze anos atrás, os chineses eram mais que discretos ao etiquetar seus manufaturados para exportação. Se a legislação do país de destino fosse liberal, nem mencionavam a origem da mercadoria. Caso fosse absolutamente necessário, marcavam «Made in P.R.C.». A estranha e quase desconhecida sigla significava ‘feito na República Popular da China’.

De lá pra cá, as coisas evoluíram. Produtos daquele país já ostentam um desinibido «Made in China». Não se pode dizer que o que vem da China se tenha tornado chique, mas já não é olhado com tanta desconfiança.

Tendo-se transformado em fábrica do mundo, a China tornou-se incontornável. Pouco a pouco, a indústria básica dos demais países tem dismilinguido. Ninguém mais fabrica pianos na França. As fábricas brasileiras de brinquedo vão fechando uma atrás da outra. A indústria têxtil suíça sumiu. E assim por diante.

Chave 3Automóveis chineses, na Europa, nunca vi. Mas há de ser questão de tempo: mais dia, menos dia, chegarão. Parece que, no Brasil, já estão circulando. Espero que não sejam tão ruins como os carros russos – Lada –, importados nos anos 80, dos quais, com certa dose de maldade, a gente dizia que até a chave já vinha enferrujada.

Chinelo 1Nome, marca, origem da mercadoria podem ser prestigiosos. Em matéria de carnaval, praia, capoeira, caipirinha, chinelo de dedo, essas coisas, o nome de nosso País está por cima da carne seca. Deixa qualquer concorrente comendo poeira. Já em outros campos, a situação é menos dourada.

Como já mencionei recentemente, o banco brasileiro BTG Pactual comprou o tradicional banco suíço BSI, veneranda instituição com século e meio de história. Em casos assim, os clientes costumam ser avisados sobre a transação. É modo acertado pra tranquilizar todo o mundo dizendo que tudo continuará como antes. Em matéria de dinheiro, ninguém aprecia mudança.

O BSI seguiu a receita. Comunicou a cada cliente que, embora o dono fosse agora outro, nada mudaria nas relações com a clientela. Informou que, a partir de 15 de setembro, passava a pertencer ao BTG Pactual, «um dos mais importantes e influentes grupos bancários do mundo, com sede na América Latina».

BSI 1Meus distintos leitores hão de ter reparado que o nome do Brasil não aparece na comunicação. Ao ler a carta, lembrei-me do «made in P.R.C.» de antigamente. No mundo das finanças, a marca Brasil ainda é olhada com reserva e desconfiança. É compreensível. O conceito da banca brasileira não é lá essas coisas, o que justifica o fato de o BSI ter preferido situar sua sede, vagamente, em algum lugar da América Latina.

BSI 2Se a percepção das atividades financeiras brasileiras já não era tão favorável, o prognóstico não é alvissareiro. Mensalões, petrolões, eletrolões e refinões indicam que a onda de escândalos que assola o País ainda não atingiu o apogeu. Periga piorar. O arranhão causado à imagem do Brasil será mais duradouro do que supomos.

Frase do dia — 263

«Diplomatas brasileiros estão envergonhados com o papelão de Celso Amorim, chanceler do governo Lula: documentos do Itamaraty revelados ontem mostram que ele e o aspone Marco Aurélio “top-top” Garcia atuavam e eram tratados como ”office-boys de luxo” da Odebrecht.»

Cláudio Humberto, jornalista, in Diário do Poder, 7 out° 2015.

A velhice e as máscaras

José Horta Manzano

O Lula organizou, em seu escritório político, evento para louvar o número dois da política boliviana, señor Álvaro García Linera, vice-presidente do país vizinho.

O seminário realizou-se dia 5 out° e contou com presença de alguns dos figurões remanescentes do Foro de São Paulo. Compareceram aqueles que ainda estão livres para ir e vir. Embora os organizadores não tenham publicado a lista dos participantes, as fotos oficiais mostram o homenageado, Marco Aurélio «top-top» Garcia, o ex-senador Suplicy e o próprio Lula.

Lula e Evo 1O Estadão registrou momento significativo que, por sinal, não aparece no site do escritório político do antigo presidente. Foi a revelação de que, quando ainda era candidato à presidência da Bolívia, Evo Morales andou sondando o Lula, então presidente do Brasil, sobre a eventualidade de estatizar as instalações da Petrobrás em território boliviano.

A narrativa é do próprio Lula: «O Evo me perguntou: ‘como vocês ficarão se nós nacionalizarmos a Petrobrás’? Respondi: ‘O gás é de vocês’. E foi assim que nos comportamos, respeitando a soberania da Bolívia».

Pode ter acontecido exatamente assim. No entanto, dado que quase dez anos são passados desde a estonteante tomada das plantas da Petrobrás manu militari, acredito que se trate antes de «passado recomposto» – fatos antigos adaptados ao gosto atual, procedimento comum em política.

É razoável que o Lula de 2006, surpreso pela ideia atrevida do futuro colega boliviano, tenha preferido se aconselhar com o entourage antes de dar resposta. O ressentido assessor Garcia, preso a notória visão ideológica do mundo e incapaz de dar preferência aos interesses superiores do Estado brasileiro, é bem capaz de estar por detrás do mau aconselhamento. Pode bem ter partido dele a sugestão de entregar a Petrobrás – com dedos e anéis – à Bolívia.

Lula e Evo 2Seja como for, o Lula, cuja «esperteza» costumava ser reconhecida à unanimidade, tem escorregado com frequência cada vez maior. Com essa confidência, deixou claro que a surpresa estampada em seu semblante quando Evo tomou nossas instalações era tão falsa quanto nota de três reais.

O passar dos anos nos faz mais velhos. E a velhice tem o poder de fazer cair máscaras e revelar antigos segredos. Conclusão: desse fato, pelo menos, o Lula sabia. A confissão foi espontânea.

Petrobras 3Ao relembrar esse episódio, o demiurgo mostra que, aos 70 anos, ainda não entendeu que civilização se distingue de barbárie pela existência de regras e pelo cumprimento delas.

Contratos são feitos para ser cumpridos. Havia contratos assinados entre a Petrobrás e o governo da Bolívia. O presidente do Brasil, guardião da Constituição, é a última pessoa de quem se esperaria conivência com o desrespeito a tratos que prejudicam interesses do Estado brasileiro.

Diretor de marketing do bando

José Horta Manzano

Lapsus calămi

Lapsus calămi é locução latina usada para designar erro que escapa, por inadvertência, a quem escreve. Há quem considere esse tipo de tropeço um revelador do que o escriba tinha realmente em mente.

Pra explicar a escorregadela aqui abaixo, nem é preciso chamar Freud.

Trecho de reportagem do Estadão, 6 out° 2015

Trecho de reportagem do Estadão, 6 out° 2015

Corrupto no bolso

José Horta Manzano

Você sabia?

Nem tudo está perdido. O recém-nomeado superintendente regional da Polícia Federal no Estado de São Paulo é membro da mesma corrente de pensamento seguida pelo juíz federal Moro, do Paraná.

Em entrevista ao Estadão, foi simples e direto: «É pegar corrupto no bolso», ou seja, o confisco das posses dos assaltantes do dinheiro público é pra lá de eficiente no combate a organizações criminosas que compõem as máfias brasileiras.

Disney RossetiUm mês de carceragem, tornozeleira, prisão domiciliar não bastam. Assim como a cupidez foi o motor dos larápios, a prevenção reside na perspectiva de perder tudo o que roubaram. E, por cima disso, ainda pagar multa pesada, proporcional ao valor surrupiado.

Execração pública não dissuade cara de pau. Os sem-vergonha são gente sem vergonha. Estamos cansados de ver políticos cassados – ou que renunciaram ao mandato para fugir à cassação – voltarem à ativa, cara limpa e sorridente, como anjinhos recém-escorregados de uma nuvem.

Apesar da pouca idade, o novo superintendente já acumulou experiência no ramo. Estes dois últimos anos, funcionou como adido policial junto à embaixada do Brasil na Itália. Além de participar do caso Pizzolato, teve ocasião de entrar em contacto com a experiência da polícia antimáfia daquele país. Uma escola e tanto!

Quero aproveitar o ensejo pra compartilhar uma curiosidade com o distinto leitor. O novo superintendente chama-se Disney Rosseti. São duas palavras de grafia distorcida.

O sobrenome italiano, bastante comum, deveria escrever-se Rossetti, com dois tt. Tal nome indica que, lá pelo século 13 ou 14, quando sobrenomes começaram a ser atribuídos, o patriarca da família era ruivo. Rosso (= vermelho), rossetto (vermelhinho), rossetti (os vermelhinhos). Um tê se perdeu quando a família chegou ao Brasil.

Isigny-sur-mer, Normandia, França

Isigny-sur-mer, Normandia, França

O prenome – pra lá de original – lembra Walt Disney, o idealizador de simpáticos personagens que povoaram nossa infância. Você sabia que, apesar da aparência britânica, Disney tem origem francesa?

Pois é, vem da Normandia, norte da França. Nada mais é que a grafia inglesa – um pouco arrevesada – do francês d’Isigny (= de Isigny). Quem leva esse sobrenome há de ter tido, centenas de anos atrás, um antepassado originário da graciosa cidadezinha francesa de Isigny-sur-mer, situada à beira do Canal da Mancha, bem em frente à Grã-Bretanha.

Falam de nós – 13

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Tempos difíceis
Romandie, portal suíço de informação, repercute entrevista que Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, concedeu a O Globo. O artigo é encabeçado por frase de impacto: «Le Brésil traverse des temps difficiles» – o Brasil passa por tempos difíceis.

Lula no interrogatório
Tahiti-Infos, portal de informação da Polinésia Francesa, traz a informação de que o STF deu seu aval para que Lula seja interrogado sobre eventual envolvimento no escândalo da Petrobrás. Vamos, afinal, saber se ele sabia. Quem sabe.

A festa acabou
Libération, diário francês de orientação socialista, faz análise da sinuca em que Dilma Rousseff se meteu. «Elle détourne ses yeux fardés, embarrassée, presque honteuse» – ela desvia os olhos maquiados, constrangida, quase envergonhada. A expressão «escroquerie électorale» – estelionato eleitoral – é utilizada para explicar dramas pessoais de gente que se deixou iludir. A análise, bastante aprofundada, leva o título «Au Brésil, la fête est terminée» – no Brasil, a festa acabou.

Senegales 1Compatriota herói
Dakar Actu, portal de atualidades de Dacar (Senegal) conta a façanha de Moussa Sène, senelagês que vive no Rio Grande do Sul. O moço, enfermeiro de formação, socorreu uma senhora que havia desfalecido num vagão de trem na região metropolitana de Porto Alegre. Para completar a reportagem, informam que, na sequência de seu gesto espontâneo e firme, o rapaz recebeu, pela primeira vez, proposta de trabalho como enfermeiro.

Espelho meu
O portal Premium Beauty News publica em francês e em inglês. É fonte de informação da indústria mundial de cosméticos. Dá surpreendente previsão: dentro de quatro anos, o Brasil terá atingido a primeira posição no mercado mundial de cosméticos para homens. Crise? Inflação? Violência? Pouco importa, nada disso conta. Esse nicho de mercado espera crescer 7,1% por ano daqui até 2019.

E se for à falência?
La Stampa, tradicional diário de Turim (Itália), ousa fazer a pergunta: «Cosa capita al fondo se il Brasile fallisce?» – que aconteceria ao fundo se o Brasil fosse à falência? Mostra a preocupação daqueles que participam de fundos de investimento que incluem ações, obrigações e valores brasileiros.

Edificio ItaliaItália em chamas
O site da RAI, rede pública de rádio e televisão italiana, dá, em poucas linhas, notícia do incêndio que destruiu parcialmente o restaurante panorâmico Terraço Itália, no último andar do Edifício Itália, em São Paulo.

Direito de defesa
A Gazzetta di Modena, editada na cidade onde está encarcerado aquele signor Pizzolato do mensalão, levanta a hipótese de um imbróglio jurídico. Lembra que o fugitivo ítalo-brasileiro, que está a dias de ser extraditado para comprir pena na Papuda, ainda deve contas à justiça italiana. De fato, ao entrar no país com papéis falsos, o cidadão incorreu em crime de falsidade ideológica. O julgamento está previsto para 14 de dezembro. Se o acusado for extraditado antes, terá de ser julgado à revelia sem poder defender-se pessoalmente, o que contraria o ordenamento jurídico italiano. Que fazer?

Favorito do verão
La Nación, diário argentino, dá conta da alegria dos turistas argentinos que planejam passar as próximas férias de verão no Brasil. Com as seguidas desvalorizações que atigiram a moeda brasileira, o custo de vida ficou mais em conta para quem chega com dinheiro estrangeiro. Nossos hermanos estão «con saudade de aguas tibias y caipiriña». É o jornal que o diz.

Estrada 1Quem não tem trem vai de carro
O portal Cinco Días, braço de conglomerado espanhol que inclui o diário El País, confessa que, enquanto o Brasil se esfria, a multinacional Abertis não deixa suas máquinas esfriarem. A empresa, conhecida como Arteris no Brasil, é concessionária de importantes trechos rodoviários. Pretende investir 1,9 bilhão de euros em nosso País nos próximos cinco anos. Já que não temos mais estradas de ferro, que, pelo menos, as estradas de rodagem sejam bem tratadas.

Cidadãos conscientes
O portal sueco Nyteknik dá conta de um debate que agita a sociedade daquele país. Os aviões Gripen encomendados pela FAB não são produto integral da indústria sueca. Boa parte de seus componentes são importados. Armas e sensores, por exemplo, são fabricados em Israel e na África do Sul. No pacote de compra assinado entre Suécia e Brasil, o Estado sueco se compromete a financiar os aviões. Em miúdos, a Suécia compra os componentes, fabrica as aeronaves, e o Brasil paga em suaves prestações a perder de vista. Os «skattebetalare» – literalmente ‘pagadores de impostos’, ou seja, os contribuintes do fisco sueco se perguntam se cabe realmente a eles adiantar fundos para o Brasil comprar armas israelenses.

Especial Finados
A edição alemã da Latina Press informa ser o Brasil o primeiro país da América Latina a ter seus cemitérios varridos pelo Google Street View. Aqueles que têm horror a visitar cemitério no dia de Finados podem agora fazê-lo virtualmente.

Encontro de marinheiros
O portal Harburg Aktuell, de Hamburgo (Alemanha) informa que a cidade recebeu visita de cortesia de tripulantes do navio-escola NE Brasil, da marinha nacional. A embaixada do Brasil em Berlim valeu-se da ocasião para organizar, a bordo da nave, recepção a representantes da Marinha alemã.

Lula caido 2O balão e a ira
O sério The Wall Street Journal conta, tim-tim por tim-tim, as façanhas do boneco que representa o Lula com camisa de presidiário. Explica tudinho, inclusive o significado do 171 inscrito sobre o peito do personagem. O título do artigo é «In Brazil, Balloon of Former President da Silva Provokes Ire» – no Brasil, boneco inflável do antigo presidente da Silva suscita ira.

Calúnia rancorosa

José Horta Manzano

«A calúnia rancorosa [de Hélio Bicudo] e sua exploração pela imprensa servem para nos alertar sobre a necessidade de limites morais na disputa política.»

A frase é trecho de carta enviada pelo Lula ao filho de Hélio Bicudo. Na missiva, o antigo presidente se queixa das declarações do antigo aliado e as define como caluniosas.

Nas entrelinhas, nosso guia, que assina a carta, reitera um dos objetivos maiores de seu partido: a imposição de limites para a livre expressão. Em outras palavras, deixa patente seu apego à censura prévia.

Todos sabemos que a lei prevê mecanismos para punir caluniadores, injuriadores e difamadores. De propósito, o antigo mandatário passa por cima disso, como se a lei não existisse.

Ah, seria tão bom se vozes discordantes pudessem ser caladas no nascedouro, não é Lula?

Interligne 18cMaiores informações estão aqui.

Os dejetos da alma humana

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Stanislaw 1Banheiro 3Há já muitos anos, tive acesso a uma pesquisa realizada em um país europeu sobre o “banheiro ideal”. Nada muito filosófico, apenas a manifestação de interesse de um fabricante de louças sanitárias.

Para tornar a pesquisa um pouco menos burocrática e um pouco mais elucidativa para o cliente, os pesquisadores propunham que os participantes não apenas falassem sobre seus desejos e necessidades, mas que também desenhassem o ambiente de seus sonhos. Esperavam com isso encontrar indicações de materiais, texturas, acessórios e detalhes estéticos que se associassem com a sensação de satisfação para eventuais usuários. Os resultados obtidos, porém, ultrapassaram em muito as expectativas dos próprios pesquisadores.

Banheiro 1Descobriu-se a existência de dois grupos principais de consumidores: o primeiro, que bem poderia ser chamado de adeptos do encapsulamento, visualizava um ambiente sanitário total ou parcialmente blindado para evitar a proliferação de maus odores. Para isso, valiam-se de muitas divisórias, paredes lisas e, se possível, metálicas ou de vidro para evitar a retenção de bactérias causadoras de cheiro, além de manifestarem a expectativa de que se criasse alguma forma de tratamento químico para a eliminação de fungos, germes e bactérias.

O segundo grupo caminhava em direção diametralmente oposta: idealizava uma ambientação o mais próximo possível da de um jardim interno. Esmeravam-se na concepção de detalhes, como a introdução de uma profusão de plantas e flores, amplas janelas basculantes; também não manifestavam qualquer oposição à ideia de intercomunicação do ambiente propriamente sanitário com o do banho. Aparentemente, os participantes desse segundo grupo apostavam todas as suas fichas na crença de que a circulação sem obstáculos do ar e a presença de filtros naturais, como as plantas naturais e flores, seriam suficientes para garantir proteção contra odores e germes inoportunos.

Banheiro 4Ao me deter na análise dos resultados da pesquisa, minha primeira reação foi a de atribuir ao primeiro grupo o credo comportamental típico dos europeus, onde os banheiros mais se parecem com armários; o segundo grupo, pensei, estaria mais próximo das crenças e anseios dos nativos de terras tropicais. Pura tergiversação para não enxergar o cerne da questão.

Refletindo um pouco mais sobre essas estratégias, não pude me furtar ao desejo de estabelecer uma analogia com a forma pela qual nós humanos lidamos universalmente com nossos dejetos psíquicos. Inveja, rancor, ressentimento, orgulho, vaidade e suas derivações discriminatórias são frequentadores mais ou menos habituais de nosso mundo interior, não há como negar. Todo mundo já passou um dia pela experiência de ver germinar uma erva daninha em seu ambiente psíquico, a despeito de todos os esforços conscientes para erradicá-la. Nossa luta interior mais ferrenha, porém, é no sentido de evitar o constrangimento de eventuais “vazamentos”.

Banheiro 6Acredito sinceramente que o problema não está em admitir a existência desses malfeitores em nossa alma. Está, a meu ver, na forma como acreditamos poder combatê-los. Há pessoas que optam por mantê-los sob rígido controle racional, obrigando-os a viver em masmorras escuras e sem comunicação com o exterior. Se e quando esses invasores conseguem escapar, um verdadeiro tsunami emocional varre a vida dessas pessoas. Certa feita presenciei, durante uma sessão de psicoterapia em grupo, uma participante colocando para fora pela primeira vez todo o ódio contido em seu peito por décadas. Quando terminou de falar, entrou em choro convulsivo e todo seu corpo passou a exalar um forte cheiro de camarão estragado. Era o odor pútrido da emoção estagnada. Tão logo ele se dissipou, o semblante da mulher iluminou-se como que por encanto e ela parecia ter renascido em meio a um jardim florido depois de uma tempestade. Cheirava a terra úmida.

Banheiro 2Não é impossível também encontrar pessoas que não hesitam em ventilar seus conteúdos emocionais negativos caso a ocasião propícia surja. Não estou falando daquelas pessoas sem papas na língua, que despejam suas verdades íntimas sem pudor e até com um toque de exibicionismo. Refiro-me às raras pessoas que escolhem confessar com transparência seus desvios de alma, fraquezas ou transgressões, quando instadas a fazê-lo. Conheço algumas que não usam de meias palavras para admiti-los e em cujos dicionários não consta a palavra culpa.

Eu adoraria poder dizer que faço parte desse pequeno e seleto agrupamento humano, mas devo admitir que não me tem sido fácil administrar as reivindicações de meus porões pessoais. Por vezes, na falta de melhor argumento, transfiro a culpa para as circunstâncias e me concedo absolvição antecipada por me dedicar à tarefa de alimentar tais monstrinhos de vez em quando.

Banheiro 5Já descobri dolorosamente, no entanto, que varrer o problema para debaixo do tapete é uma estratégia tão perigosa quanto bloquear a válvula de segurança de uma panela de pressão para que o vapor não escape. Por outro lado, também já me dei conta de que os “sincericídios” são tão danosos socialmente quanto a própria doença que eles pretendem combater. Apontar o dedo para as sujeiras que os outros mantêm escondidas a sete palmos de sua superfície decididamente não é uma técnica eficaz de autopurificação.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Redução de ministérios

Ricardo Noblat (*)

O que disse Dilma no dia 15 de setembro do ano passado, em campanha pela reeleição:

by Fernando 'Nando' F. Nunes

by Fernando ‘Nando’ F. Nunes

«Tem gente querendo reduzir ministérios. Vocês podem saber os ministérios que eles querem reduzir. Um deles é o da Igualdade Racial, o outro é o que luta em defesa da mulher. O outro é de Direitos Humanos. E tem um ministério que eu criei e eles estão querendo acabar que é o da Micro e Pequena Empresa.»

Dilma acabou com o Ministério da Micro e Pequena Empresa. E reduziu os ministérios da Igualdade Racial, da Defesa da Mulher e dos Direitos Humanos a um só. Ou seja: fez tudo o que disse que os outros fariam caso vencessem. Mentiu de novo. Como mentira antes.

(*) Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 3 out° 2015.

Cadeira cativa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 out° 2015

Onu 3Ano sim outro também, o ritual se repete: terminadas as férias de verão do Hemisfério Norte, abre-se mais um ano de trabalho na ONU. E lá vai nosso presidente, a quem cabe discursar em primeiro lugar. Segue-se uma cachoeira de alocuções em línguas sortidas. O espetáculo se desenrola sobre fundo de granito verde-imperial muito chique – pedra que, aliás, é bem capaz de ter sido extraída de nosso solo.

Este ano, à guisa de aperitivo à liturgia, fomos mimoseados com um conciliábulo apelidado G4, que reuniu quatro mandatários. Observe-se, en passant, que o costume atual de atribuir número a reunião de medalhões (G4, G7, G20) é sintomático. Realça o fato de os objetivos dos participantes não serem necessariamente concordantes. Foi-se o tempo em que alianças tinham propósito bem estruturado e compartilhado, donde a atribuição de nome próprio como Entente Cordiale ou Pacto de Varsóvia. A acertos efêmeros, números bastam.

Brasil, Alemanha, Índia e Japão irmanaram-se, por um instante, na reivindicação de uma reforma da ONU que lhes conceda assento permanente no Conselho de Segurança. Cada qual desses países é movido por um conjunto de interesses que lhe dizem respeito. O traço comum, sem hesitação, é a busca do prestígio perdido. Ou nunca havido.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Alemanha e Japão, gigantes industriais e econômicos, procuram recuperar a aura que a derrota na última guerra lhes tolheu. A Índia, país populoso, em franca ascensão e – ponto não desprezível – dotado de armamento nuclear, também aspira a sentar-se à mesa dos grandes. Quanto ao Brasil, a justificativa é menos nítida. No frigir dos ovos, o olhar que o mundo lança sobre nosso país não é muito diferente do de setenta anos atrás, quando a Organização das Nações Unidas foi fundada. Senão, vejamos.

Já naquela época, o Brasil era visto como país de futuro promissor, mas de modesta importância militar, industrial, econômica e diplomática. Se as últimas décadas renderam progresso a nosso país, não há que perder de vista que as demais nações, longe de terem parado no tempo, também se desenvolveram e avançaram. Ao fim e ao cabo, o posicionamento relativo do Brasil no conjunto dos Estados não está lá tão distante do que era em 1945.

ONU - Conselho de Segurança

ONU – Conselho de Segurança

Ilude-se, portanto, quem faz abstração das mudanças alheias e só leva em consideração as transformações pelas quais passamos nós outros. A população de alguns países cresceu mais que a nossa. Alguns deles se aplicaram e conseguiram industrializar-se mais rapidamente que nós. Um ou outro optou por dotar-se da arma nuclear. Diligências diplomáticas constantes fizeram que certos países, por se terem mostrado mais atuantes, nos superem hoje em relevância.

Cadeira permanente no Conselho de Segurança é assunto pra lá de delicado. Titular nenhum abre mão da que lhe cabe. Qualquer país que pretenda entrar para o clube pode até ser bem-visto por uns, mas desagradará a outros. Basta que uma das cinco potências com direito a veto bote empecilho, e pronto: o candidato não passa da soleira. Reforma do sistema? Nem pensar, que não serve ao interesse dos atuais membros permanentes. Por que a fariam?

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Com tantos problemas por resolver, mais graves e mais urgentes, o Brasil deveria economizar energia e evitar arriscar-se num pleito cujas chances de dar certo são próximas de zero. No dia em que uma reforma for anunciada – o que está longe de acontecer – aí, sim, terá chegado o momento de reivindicar vaga. Por enquanto, é perda de tempo. Essa atitude de pedinte é humilhante e constrangedora.

Asilo 4Nossa industrialização vem encolhendo há vários anos, o que não nos torna mais poderosos no conjunto das nações. Nossa participação proporcional nas trocas comerciais globais não progride há décadas. Seria útil começar por assumir postura diplomática séria e coerente. Milhões de sírios deslocados pela guerra civil estão imersos na precariedade. O Brasil mostraria grandeza se, por exemplo, fizesse o necessário para acolher uma parcela desses infelizes. Que, pelo menos, nos apliquemos a promover uma diplomacia digna de nação adulta e consciente.

Que não nos contentemos em ser um Brasil grande, mas que nos esforcemos para nos tornar um grande Brasil. Não custa caro e está ao alcance de nossas possibilidades. A persistir em deixar como está pra ver como fica, continuaremos pagando, à prestação, nosso bilhete de volta ao Terceiro Mundo. E olhe que faltam poucas folhas para chegar ao fim do carnê.

Suíço pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno fazia tempo que não aparecia. Veio hoje com aquele ar deslumbrado de quem acaba de inventar a roda.

Banco 2– Olá! Não acredito em coincidências. Nessa história de dinheiro escondido na Suíça, tem coisa fora do lugar.

– Bons dias, Sigismeno! Tem razão você. Dá realmente vontade de trucidar esse pessoal que andou enfiando a mão em nosso bolso pra enriquecer.

– Não estou falando da paisagem geral. Estou-me referindo ao caso especial do senhor Cunha, aquele que preside a Câmara.

– Especial por que, Sigismeno? Pelo que diz a mídia, andou se servindo do nosso dinheiro igualzinho a dezenas de outros. Ou não?

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

– Assim foi, mas parece que escolheu o banco errado pra encafuar seus milhões.

– Banco errado? Mas foi na Suíça, Sigismeno! Parece que o pessoal de lá entende do ramo. Errado por quê?

– Raciocine comigo. Por tradição, banco suíço é discreto. Faz parte do jogo. A cada vez que o MP do Brasil precisou obter dados de outros larápios foi um custo. Qualquer retalhozinho de informação só sai com saca-rolhas. Informação costuma vir a conta-gotas. Já no caso desse senhor Cunha, foi diferente.

– Diferente como, Sigismeno?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Pois você não viu? Diz aqui no jornal que o Cunha foi denunciado pelo próprio banco. Coisa do outro mundo, amigo! Terá sido a primeira vez que banco suíço denuncia cliente sem ser compelido pela justiça.

– Tem razão, Sigismeno, parece fora de esquadro. E qual é sua teoria, você que sempre encontra explicação pra tudo?

– Antes de dar minha conclusão, quero voltar a um acontecimento ocorrido faz pouco mais de um mês. Certamente você se lembra daquele caso da conta suíça do Romário.

– Aquela que a Veja denunciou?

– Essa mesmo. A revista obteve, sabe-se lá como, extrato bancário do senador, com papel timbrado, número de conta, montante, tudo nos conformes. Era perfeito demais pra ser verdadeiro, mas a revista caiu no logro e publicou.

– Mas, Sigismeno, além do fato de serem cariocas, o que tem o Romário a ver com o Cunha?

Banco 4– Olhe, meu amigo, é cristalino como água de mina. Por um lado, o pessoal lá do andar de cima tem bronca da revista Veja, não tem?

– Todo o mundo sabe disso.

– Por outro, eles têm interesse em tirar o senhor Cunha do caminho, não têm?

– Ô, se têm. Afinal, a chave do processo de destituição da presidente está nas mãos do homem.

– Pois é, embora seja raro no andar de cima, alguma cabeça pensante pensou, veja você. E arquitetaram um jeito malandro de dar uma cutucada feia na Veja e no Cunha.

– Nos dois?

Chamada d'O Globo, 1° out° 2015

Chamada d’O Globo, 1° out° 2015

– Nos dois, amigo. Valeram-se do fato de Cunha ter milhões de dólares escondidos no BSI, um banco suíço. Já Romário não tem conta nesse banco.

– Agora está ficando difícil seguir seu raciocínio, Sigismeno. Qual é o ponto comum entre esse três personagens, o Romário, a Veja e o Cunha?

– Não seja impaciente. Continuo. O Romário, a meu ver, foi inocente útil na história. Seu nome foi usado. Podiam ter usado qualquer figura pública. Escolheram o senador.

– Usado? Para quê?

– Para quê? Ora, é evidente: pra atingir a revista Veja, deixá-la numa saia justa e levar a cabo a vingança. Forjaram um extrato bancário do ex-jogador e deram um jeito de fazê-lo chegar à revista como se verdadeiro fosse. Imaginando que era legítimo, os editores, felizes com o ‘achado’, publicaram imediatamente. Daí deu aquela confusão toda: o Romário viajou até Genebra, a revista se retratou e pediu desculpa, um forrobodó dos diabos. Foi um vexame. Os que urdiram o plano devem ter gargalhado.

– Então você acha mesmo que os dois foram ludibriados, Sigismeno? O Romário e a Veja?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Acho. A Veja era o alvo, enquanto o senador foi o inocente útil.

– E onde é que o Cunha entra nessa história?

– O senhor Cunha não foi ludibriado. Foi traído. Traído pelo banco suíço onde tinha enfurnado seus milhõezinhos. Jamais se tinha visto banco suíço denunciando cliente. Foi a primeira vez. Um despautério!

– Que coisa mais extraordinária, Sigismeno. E por que, diabos, esse banco teria agido assim?

– Olhe, agora estamos pisando no terreno das suposições. Dou-lhe uma dica que pode ser a chave do mistério: o tradicional banco suíço BSI, nascido 150 anos atrás, foi comprado no ano passado por um banco brasileiro.

– Hã?

BSI 3– Sim, senhor. Faz um ano que o conceituado BSI pertence ao Banco BTG Pactual, cujo dono é um bilionário brasileiro. Agora, não me pergunte se há relação entre a ‘brasilidade’ do banco suíço e o Planalto. Não saberia responder. Mas ficam no ar as perguntas. Como é possível um falso extrato do Romário ter sido impresso em papel timbrado do banco, direitinho como manda o figurino? Como é possível que, pela primeira vez na história, banco suíço denuncie um correntista, assim, gratuita e espontaneamente?

– Ih, Sigismeno, acho bom você parar por aqui. Por minha parte, já entendi, mas, se alguém nos ouvir, ainda vamos ter problemas. Só vou dizer-lhe uma coisa: se um dia eu tirar a sorte grande na loteria, vou pensar duas vezes antes de botar meu dinheirinho naquele banco.

O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Outras máximas ― 21

LA HONTE N’EST PAS TOUJOURS LA CONSCIENCE DU MAL QUE NOUS FAISONS, ELLE EST SOUVENT LA CONSCIENCE DU MAL QU’ON NOUS FAIT.

A vergonha nem sempre é a consciência do mal que fizemos, mas do mal que nos fizeram.

Paul Morand (1888-1976), escritor francês

Mexida no tabuleiro

José Horta Manzano

Xadrez 1Nossa Constituição é clara. No artigo 84, logo depois de estipular que compete ao presidente da República nomear e exonerar ministros de Estado, deixa claro que o mandatário deverá «exercer, com o auxílio dos ministros de Estado, a direção superior da administração federal».

Portanto, embora o presidente da República tenha liberdade de escolher seus ministros, não tem autorização para governar sozinho. Escolhidos os auxiliares, a administração deverá ser exercida com o auxílio deles.

Reunião ministerial

Reunião ministerial

Isso posto, o mínimo que se espera do presidente é que mantenha frequentes reuniões de trabalho com os ministros. O mais prático é instituir rotina de encontros regulares. Na França, por exemplo, presidente e todos os ministros se reúnem pontualmente cada quarta-feira às 9h da manhã.

A cada reunião, como numa empresa, o presidente cobra de cada ministro a situação dos assuntos em andamento. É excelente ocasião que o presidente tem de reafirmar, diante de todos, sua autoridade. A ocasião é boa também para estimular competição entre ministros – ninguém gosta de ser repreendido na frente de todos os colegas. Para coroar, reuniões gerais servem para deixar todos a par das ações do governo, o que evita declarações desastradas à imprensa.

Xadrez 2É evidente que certos assuntos deverão ser tratados reservadamente. Em casos assim, reuniões restritas serão convocadas. Mas isso não impede que encontros de todos os auxiliares continuem a ser mantidos.

Sabe-se que nossa presidente nunca – eu disse nunca(!) – concedeu audiência a alguns de seus ministros. É assombroso. Dizem as más línguas que dona Dilma não conhece sequer o nome de todos os ocupantes das quase 40 pastas. Pode até ser verdade.

Vêm, então, perguntas inevitáveis. Quem dita a linha mestra da orientação de cada ministério? Cada ministro faz o que lhe dá na telha, sem consultar o presidente? Ou as decisões ficam nas mãos de integrantes de escalões inferiores? Se assim for, pra que serve o ministro?

Reuniao trabalho 1A mídia noticiou que o ministro da Saúde foi ontem demitido… por telefone. Não é o ministro do Combate à Saúva, minha gente, é o ministro da Saúde! A desculpa? «Preciso do seu cargo» – disse a presidente segundo os jornais.

Se faltasse uma prova de que as altas esferas de Brasília são meros balcões de negócios, já não falta mais. Ministros são como peças de um jogo de xadrez. Não se movem por vontade própria. São mexidos daqui pra ali e de lá pra acolá, conforme os humores da presidente. Como num tabuleiro, podem ser banidos a qualquer momento, independentemente de seu desempenho.

Está aí uma das explicações – entre muitas – da ineficácia das instituições nessepaiz.