Lula perdeu

Fernão Lara Mesquita (*)

Explosao 1Dilma manda avisar, a quem interessar possa, que Joaquim Levy fica e que “a opinião do maior partido da coalizão não é necessariamente a opinião do governo”, que a CPMF é imprescindível e coisa e tal…

Ela estava reagindo à entrevista de Rui Falcão à Folha de São Paulo, na qual esse cara que ninguém elegeu diz aos brasileiros como ele quer que o Brasil seja governado. Ficou claro que ele não falava só por ele. Tem as costas mais que quentes.

Essa separação governo ↔ PT é um marco. A gastança não vai recuar, o que seria pedir demais, mas descarta-se inflá-la a ponto de provocar explosão imediata, o que desaguaria inevitavelmente no golpe.

Era o que Lula queria. Lula perdeu.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Arrecadação recorde

Cláudio Humberto (*)

Moeda realAo contrário do que alardeia a presidente Dilma, o total das receitas realizadas pelo governo federal este ano já supera o recorde histórico de R$ 2,2 trilhões estabelecido em 2014. O valor equivale a tudo que o governo Dilma conseguiu embolsar desde janeiro com impostos, taxas, ações na justiça, multas, etc. É ainda mais expressivo por ser 50% maior que o R$ 1,4 trilhão arrecadado em 2010, último ano do Lula.

Se mantiver o ritmo (e o mandato) até o final do ano, o governo Dilma vai chegar a R$ 2,8 trilhões embolsados do contribuinte.

O governo Dilma se tornou uma máquina de arrecadar desde a posse da presidente em 2011. Em cinco anos, superou R$ 10 trilhões.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Buscando a receita

José Horta Manzano

Há males que vêm pra bem é expressão conhecida e usada com frequência. Em contraposição, também há casos em que coisas boas acabam atrapalhando a vida e infernizando a existência.

Company logo 6No caso de males que, no final, se revelam úteis, há exemplos aos montes. Guerras, se trazem destruição, desgraça e morte, contribuem para o progresso. Os grandes conflitos do século XX são responsáveis pela invenção ou pelo desenvolvimento de técnicas de grande utilidade. Falo da radiologia, da traumatologia de reconstituição, do avião a jato, dos antibióticos e de numerosos outros «subprodutos».

Bens, quando chegam de repente e sem que o beneficiado tenha tido de fazer grande esforço, podem causar transtorno. É o caso daqueles que tiraram a sorte grande nalguma loteria, enricaram, e… acabaram se perdendo. Escritos bíblicos já contavam a história do filho pródigo, aquele que dissipou num piscar de olhos a fortuna recebida de mão beijada.

Company logo 2No Brasil, desde que a gente é criança, nos convencem de que o País é rico, que tem enorme riqueza mineral, a maior floresta do mundo, clima excelente, povo cordial, diversidade biológica fantástica, petróleo, litoral extenso, vizinhos amigos, paz social, habitantes talentosos, as mais lindas praias, terras ainda não desbravadas, subsolo riquíssimo, água à vontade, território livre de terremotos e tsunamis. Em três palavras: um paraíso terrestre.

Company logo 4Nosso País é um dos raros capazes de exibir certificado de nascimento. Falo da carta que Pero Vaz de Caminha escreveu a Dom Manuel dando notícia do achamento de novas terras. Quando o escrivão previu: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo», estava, sem se dar conta, vaticinando o futuro da nação.

O chato é que as gerações que se seguiram passaram por cima da condição (em se plantando) e se aferraram direto à conclusão (dar-se-á nela tudo). Faz 500 anos que a característica nacional é permanecer, mão estendida, à espera do fruto que a terra bendita nos vai fazer cair na palma da mão.

Company logo 3As benesses inerentes à terra brasileira atrapalham mais que ajudam, acreditem. Nações menos aquinhoadas nos dão a prova. Senão, vejamos.

Estes dias, dona Dilma está viajando pela Europa do Norte: a Suécia primeiro, a Finlândia depois. São nações com escassas riquezas minerais, clima rude, pouca diversidade biológica, agricultura quase impossível, nem uma gota de petróleo, praias frias e infrequentáveis, vizinhos nem sempre cordiais – a Finlândia é colada à Rússia, da qual, aliás, já foi província.

Company logo 1No entanto… são países ricos. Em 2013, a Suécia registrou 58 mil dólares de PIB por habitante, enquanto a Finlândia chegou a 49 mil dólares. Para efeito de comparação, o Brasil não passou de 11 mil dólares. E como é possível que territórios pouco habitados e abandonados pela natureza possam enriquecer dessa maneira?

Company logo 5Dona Dilma há de ter escrito um lembrete na caderneta pra não esquecer de perguntar isso a eles. Aos figurões suecos, ela vai indagar como é possível um país de natureza pobre, com menos de 10 milhões de habitantes, ter 220 empresas(!) implantadas em solo brasileiro, que dão emprego a 50 mil conterrâneos. Na pequena Finlândia, ela perguntará como fez um país de pouco mais de 5 milhões de almas, onde mal e mal se cultiva um pé de repolho, para estabelecer 50 empresas(!) em solo tupiniquim.

Quem sabe ela não trará a receita pra nos tirar do buraco? Há que ser otimista, camaradas!

Pixuleco

José Horta Manzano

Pixuleco 1Quando Luiz Inácio da Silva, o Lula, chegou ao posto máximo do Executivo, o sorriso abriu-se-lhe de orelha a orelha. Sentiu-se numa nuvem. Deu-se conta de que, mais ainda do que já estava acostumado, bastava levantar um dedinho pra que todos se curvassem à sua vontade. E a seus caprichos. Era paparicado por grandes e pequenos, por ricos e pobres. Um verdadeiro estado de graça.

Não sei quanto tempo terá durado o inebriamento. Terão sido alguns meses. Passado o encanto inicial, o figurão investiu-se, corpo e alma, na batalha da reeleição. Precisava porque precisava garantir a permanência no trono. Aquilo era bom demais pra ser descurado.

Pixuleco 4Embora a expressão ainda não estivesse na moda, «fez o diabo». Paralelamente à distribuição de bolsas variadas a clientela cativa, cuidou de alimentar oportunistas e aliados de circunstância. Cargos, sinecuras, benesses, mensalões e petrolões estão aí pra provar.

Reeleito, deu-se conta de que o horizonte de número um se fecharia em quatro anos. Passado esse tempo, impossibilitado de competir mais uma vez, teria de ceder o lugar. A perspectiva não há de lhe ter agradado.

Pixuleco 6Que não fosse por isso. Faria o necessário para escolher um sucessor sem graça, sem carisma, sem potencial para fazer-lhe sombra. Arregaçou as mangas e mandou pra escanteio – para usar sua costumeira metáfora futebolística – todos os postulantes que lhe pudessem prejudicar a popularidade. Foi assim que optou por dona Dilma, aquela que as más línguas chamaram de poste.

Nosso líder fez bem questão de colar seu nome ao dela. Deixou bem claro que, por detrás da desconhecida, continuaria ele dando as cartas. Gente simples chegou a convencer-se de que aquela era «a muié do Lula».

Pixuleco 5Durante todo o primeiro mandato do «poste», o Lula chamou para si os holofotes. Não faltou a cerimônias, inaugurações, seminários, convenções e palanques. Reforçou a ideia de que a «muié» fazia tudo o que o «marido» mandava. Ele e ela eram a mesma coisa.

Nenhuma alegria é eterna. Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, como diziam os antigos. Um belo dia, já no segundo mandato da «muié do Lula», o desastre ficou evidente: inflação, desemprego, carestia, roubalheiras, corrupção, obras inacabadas, promessas não cumpridas, um pandemônio.

Faz quase um ano que nosso guia vem tentando descolar sua imagem da do «poste». É missão doravante impossível. O demiurgo, a pupila, o partido e até aliados oportunistas caíram no mesmo pote de cola. O mesmo visgo os envolve e os iguala.

Pixuleco 3Se faltasse uma prova, que se observem os pixulecos, aqueles bonecos que vêm se tornando símbolo da bandalheira. A atual presidente, o governador de Minas, o prefeito de São Paulo já foram homenageados com a própria imagem inflada e elevada às alturas.

Pixuleco 2Mas reparem bem: o pixuleco mais importante nunca está muito longe. Para o bem ou para o mal, o Lula continua exercendo seu papel de puxador de cordão.

O futuro chegou e, como havia almejado, nosso guia continua debaixo dos holofotes. Não exatamente como ele tinha sonhado, é verdade.

Mas, que diabo, não se pode ter tudo na vida! Ou não?

Medalha cassada

Cláudio Humberto (*)

Medalha 8Finalmente, três anos após terem sido condenados pelo Supremo Tribunal Federal, os mensaleiros José Genoino, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto perderam a Medalha do Pacificador, a mais alta condecoração do Exército Brasileiro.

O ato é do general Villas Bôas, o atual comandante. O anterior, general Enzo Peri, com medo de irritar Dilma, não havia cassado as medalhas apesar de ser obrigado a fazê-lo pela legislação.

Os mensaleiros já sumiram do Almanaque do Exército.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Limão galego

José Horta Manzano

Em matéria de discrição, a Suíça é escolada, numa atitude típica de país pequeno. No país alpino, a secretividade foi elevada ao status de tradição nacional. Cada um luta com as armas que tem, não é mesmo? Países grandes e fortes impõem-se pelo tamanho e pela força. Nações sem esses atributos procuram outros caminhos.

Assalto 6Nos tempos em que ainda vigorava rigoroso sigilo bancário, todo ditador digno desse título fazia questão de que o cobertor helvético agasalhasse o grosso da fortuna mal granjeada. Mas nem só de ditadores vive o mundo. Corruptos, ladrões, desonestos e que tais seguiam a mesma via: banco suíço era o lugar mais apropriado pra enfurnar dinheiro de origem duvidosa.

Só que… o tempo passou, a Terra girou, costumes mudaram. Dez anos atrás, ninguém acreditava que a situação fosse evoluir tão rapidamente. Mas evoluiu: em poucos anos, o sigilo bancário suíço praticamente desapareceu. O pouco que resta está vivendo os últimos momentos.

Teve gente, mais esperta e avisada, que se deu conta, a tempo, de que algo estava mudando. Foram os que retiraram suas barras de ouro in natura e saíram carregando na sacola. Encerraram as contas e nenhum rastro ficou. Foram ancorar o iate em portos mais seguros.

Houve os menos atentos (ou mais ingênuos) que, com a mente talvez absorta por outras negociatas, não se deram conta de que a banca suíça perdia rapidamente suas características. Tranquilos e confiantes, deixaram dormir sua fortuna. Deram-se mal.

Ladrão 3O Estadão noticiou, faz alguns dias, que cerca de cem contas suspeitas, cujos beneficiários são cidadãos brasileiros, estão bloqueadas. Uma centena, minha gente! A Lava a Jato está muito longe de terminar. Deve haver muita gente em Brasília com dificuldade em pegar no sono. Não só em Brasília.

As relações entre o Ministério Público do Brasil e seu homólogo suíço nunca estiveram tão íntimas, tão cordiais, tão proveitosas como atualmente. Enquanto outros países, como a Ucrânia e a Malásia, reclamam há meses contra a falta de cooperação da Suíça, o Brasil tem conseguido, com facilidade, informações, documentos, provas, atestações e até restituição de depósitos.

Jornal 2O jornal suíço 24 Heures traz um resumo do escândalo Petrobrás. Cita a declaração de Monsieur André Regli, embaixador da Suíça em Brasília: «L’image de la Suisse auprès des Brésiliens a fortement évolué grâce à cette coopération judiciaire» – a imagem da Suíça melhorou muito, junto aos brasileiros, graças a essa cooperação judicial.

Tremei, mensaleiros, petroleiros & congêneres! Limão galego, relou tá pego! Tem muita gente que nem sabe que já foi relada.

Carta recebida

Prezado editor deste blog,

Lamento informar que uma de suas colunistas estará temporariamente impedida de enviar novas colaborações.

by Garance Lobotomie

by Garance Lobotomie

D. Myrthes Suplicy Vieira foi inesperadamente acometida por um surto de insanidade, tendo sido forçada a se internar em clínica psiquiátrica para tratamento emergencial, ainda sem data definida para alta. Segundo os psiquiatras que a atenderam, o problema ocorreu após um período de intenso e prolongado estresse com o atual quadro social e político de nosso país.

Aparentemente, o surto foi motivado pela leitura de duas reportagens, a saber:

Interligne vertical 16 3Ke“Vigilante morre atropelado com um tiro na cabeça” – conforme é narrado pelo jornalista, dois soldados da PM paulista registraram um boletim de ocorrência numa delegacia, informando que tinham atendido a um chamado para socorrer um homem que teria sido atropelado, sendo que o motorista do veículo teria se evadido do local sem prestar atendimento à vítima. Quando a ambulância de resgate chegou ao local, os ditos PMs teriam dispensado o veículo e impedido que os paramédicos tocassem o corpo do rapaz, alegando que ele já estava morto e que cabia a eles preservar o local do crime. No dia seguinte, no entanto, o legista designado para o caso entregou um laudo em que atestava que a morte se devera à perda de massa encefálica decorrente de um tiro na parte de trás da cabeça.

Louco 1“Procuradores da Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro processam dois cidadãos por financiamento de campanha eleitoral” – segundo a nota, um deles teria doado a exorbitante quantia de R$ 15,00 para a campanha de um deputado; os procuradores, então, solicitaram imediatamente ao juiz a quebra do sigilo fiscal do tal cidadão, embora o pedido tenha sido negado pela juíza responsável pelo caso diante da “insignificância” da contribuição. O outro caso, considerado um pouco mais grave e prontamente acolhido pelo juiz, refere-se à doação de quantia ainda maior (R$ 50,00) igualmente para financiar campanha eleitoral. O advogado contratado pelo réu manifestou sua indignação com o “absurdo” da decisão de envolver a justiça num caso de pouca relevância nacional, dado que mesmo que o cidadão fosse julgado culpado ele seria condenado a pagar uma multa de algo em torno de R$ 150,00. Já o réu-cidadão, ao ser entrevistado por uma emissora de televisão, encarou despudoradamente a câmera e disse: “Doei sim. No próximo ano, vou dobrar a meta e doar R$ 100,00 para ver no que vai dar.”

No final da tarde, já combalida com essas notícias, D. Myrthes teria assistido a um vídeo divulgado no Facebook em que a presidente da República discursa para um grupo de sindicalistas e pergunta desafiadoramente: “Quem tem a força moral, o caráter ilibado… suficiente para atacar a minha honra? Quem?!”

Cachorro 25Louco 2Na sequência, D. Myrthes teria começado a apresentar um quadro de forte agitação psicomotora e passado a proferir frases desconexas, em que apenas palavras isoladas faziam algum sentido: “non-sense”, “puro Kafka”, “golpismo”, “motivos nobres para transgressões”, “moralistas imorais”, etc. Depois, num gesto tresloucado, ela jogou-se ao chão, ficando de quatro, rosnando e agitando o traseiro, roubou a ração de suas cachorras e, ao ser confrontada por elas, mordeu as duas. Mais tarde, recolheu-se embaixo do armário da sala e recusa-se a tomar banho.

Isso posto, temo que a coluna que o senhor abriga em seu blog fique indisponível por várias semanas.

Grata pela atenção,

Secretária da Clínica Veterinária Acãochego

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pedaladas

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que o termo pedalada lembrava passeio de bicicleta. Pra girar as rodas, a gente dava pedaladas na Monark ou na Caloi. Hoje em dia, pedalada não se dá, se faz. E o significado mudou.

Lula boné 1Nestes tempos estranhos, o sentido da palavra tem evoluído. Não evoca mais as rodas da magrelinha. A imagem que vem é de barbeiragens financeiras cometidas conscientemente por dona Dilma. Parece que é crime. Se for, mais dia menos dia a presidente terá de responder por ele. Quem viver, verá.

Dirigindo-se a plateia amestrada, um Lula que, apesar de viver vida abastada, continua se esforçando para parecer igual aos excluídos, enfiou mais uma vez no cocuruto o boné do MST. Expedientes malandros como esse eram conhecidos já nos tempos do velho Jânio Quadros, mas ainda tem gente que se deixa embalar.

Em 2003, ao fazer o gesto pela primeira vez, nosso guia desencadeou um bafafá. Cidadãos mais conscientes consideraram a atitude imprópria para presidente de país sério. De lá pra cá, o figurão perpetrou impropriedades bem maiores que aquela. Tantas fez que hoje os brasileiros, blasés, não prestam mais atenção.

Estes últimos meses, com o desenrolar veloz e imprevisível dos acontecimentos, o Lula anda mais desnorteado que cego em tiroteio. Perdeu os anéis, quis salvar os dedos. Perdeu os dedos, está tentando salvar as mãos. Seu horizonte anda um bocado nevoento para quem já sonhou abocanhar um Nobel da Paz para, em seguida, terminar presidente do Banco Mundial.

Bicicleta 8Na cerimônia de ontem, sem muito que dizer, o demiurgo aventurou-se por terreno minado. Falou das «pedaladas» que dona Dilma «fez». Contou não ter lido o processo, fato que não surpreendeu ninguém. Assim mesmo, garantiu que a afilhada cometeu esses «malfeitos» para poder continuar pagando programas de distribuição de dinheiro que ele mesmo havia instituído.

Ora, analisemos. Nos tempos em que o Lula era presidente, não foi preciso «pedalar» pra distribuir aos mais necessitados. A partir do momento em que o cumprimento de programas passou a exigir que leis fiscais fossem infringidas, das duas uma: que se mudassem as leis ou que se extinguissem os programas. Nenhum dos dois foi feito.

Blabla 2Qual é o resumo da opereta? Duas considerações se impõem. A primeira é a confissão – involuntária mas evidente – de que a pupila realmente «fez» pedaladas, ou seja, infringiu a lei.

A segunda consideração remete a meu post de ontem – A lei? Ora, a lei… A fala do Lula reforça a ideia de que leis e regras valem para os outros, não para si mesmo. O demiurgo pode falar mais que outros, se agitar mais que outros, ousar mais que outros, ser mais vaidoso que outros, ser menos culto que outros, ser mais ingênuo que outros mas, no fundo… é um político do mesmo padrão que todos os outros. A lei? Ora, a lei…

A magia da meia-entrada

Hélio Schwartsman (*)

O pensamento mágico é parte inafastável da arquitetura mental humana. É que, em larga medida, nossos cérebros operam por ilusões. Como diz o psicólogo Matthew Huts, se você acha que são pensamentos conscientes que o fazem mover seu braço, então você também acredita em mágica.

Ocorre que nem todas as instâncias desse fenômeno são iguais. Há situações em que crenças absurdas, como o comportamento supersticioso, são apenas inúteis, caso do torcedor que veste a meia da sorte sempre que seu time joga. Muitas vezes, porém, o recurso a elementos da magia revela-se útil, o que explica não terem sido dizimados pela evolução. Um estudo mostrou que voluntários acertavam 38% mais tacadas de golfe (“putts”) quando os pesquisadores lhes diziam que usariam o taco de um atleta famoso.

Meia-entrada

Há, porém, um bom número de instâncias em que o pensamento mágico atua contra nós, seja nos fazendo desperdiçar energia com irrelevâncias, seja nos empurrando ativamente para erros custosos. Por vezes, sociedades inteiras embarcam na ilusão. Meu exemplo favorito de viagem coletiva é a recém-regulamentada lei da meia-entrada, apoiada por mais de 90% dos paulistanos. No discurso de seus defensores, a meia consegue, a custos mínimos, promover a cultura, investir na formação dos jovens e ainda homenagear os mais velhos -tudo isso fazendo justiça social.

O problema é que nada disso é real. Os preços de diversões públicas são livres, o que significa que o empresário já fixa os valores considerando uma cota de meias-entradas. Assim, tudo o que a lei faz é impor um subsídio cruzado difícil de justificar (nada indica que o subsidiado tenha menos renda que o subsidiante) e distorcer a transparência tarifária.

Erros ainda mais caros ocorrem porque acreditamos magicamente que basta a vontade do legislador para materializar benefícios. É um pouco por isso que o Brasil quebrou.

(*) Hélio Schwartsman, filósofo e escritor, é colunista da Folha de São Paulo.

Outras máximas ― 22

La France est un pays extrêmement fertile. On y plante des fonctionnaires. Il y pousse des impôts.

 A França é um país extremamente fértil. Plantam-se funcionários. Crescem impostos.

Georges Clemenceau (1841-1929), homem de Estado francês

Dizem que o solo brasileiro é ainda mais fértil que o francês, portanto…

Pimenta nos olhos…

Advogado 1Ancelmo Góis (*)

Felipe Santa Cruz, presidente da OAB no Rio, questionou, no Facebook, se um deputado com várias contas secretas na Suíça contrataria, para sua defesa, um advogado que tivesse sido reprovado no exame da instituição.

É que Eduardo Cunha assina um projeto que acaba com a prova para o exercício da profissão.

(*) Ancelmo Góis, jornalista, em sua coluna no jornal O Globo, 11 out° 2015.

Frase do dia — 264

«Aliás, já temos [conteúdos importantes]: criamos a novela. Ao criarmos a novela criamos uma das formas mais importantes no nosso País de fabulação, de contar história, algo que a humanidade desenvolveu quando se tornou humana.»

Dilma 1Trecho do discurso pronunciado pela presidente da República no dia 6 out° 2015 quando da abertura do Congresso Brasileiro de Radiodifusão, Brasília.

É interessante notar que dona Dilma atribui a criação da novela à genial inventividade brasileira. Não lhe ensinaram que esse gênero, sucessor do folhetim, é multissecular. Já no século XVIII, jornais franceses publicavam histórias a conta-gotas, em capítulos diários. Com o advento do rádio, nos anos 20, novelas foram adaptadas para o modo radiofônico. Vinte anos mais tarde, a televisão americana se apropriou do modelo e o fez entrar no molde televisivo.

Ainda que a verdade possa desagradar a nossa mandatária, não criamos a novela. Assim como não inventamos a mandioca.

Uma última observação
Num momento de notável lucidez, dona Dilma lembrou que, um dia, a humanidade se tornou humana, constatação extraordinária. A presidente não especificou como era a humanidade antes dessa crucial transformação. Ignaros e sedentos de aprender, ficamos todos, ansiosos, à espera de suas luzes, presidente!

O texto integral do admirável discurso está no mui oficial site do Planalto, aquele que, subserviente, chama a presidente de “presidenta”.

Quem nunca comeu melado

José Horta Manzano

Smoking 1Imagine o distinto leitor um senhor grisalho, elegantíssimo dentro de smoking impecável, cravo vermelho na lapela, calçado com… um par de chinelos de dedo. Chama tanto a atenção como se estivesse carregando uma melancia pendurada no pescoço. Não há de passar despercebido.

As coisas têm de se encaixar num conjunto. Se algum dos componentes do quadro destoa, acende-se luz vermelha. É assim que se desmascaram impostores, mentirosos, farsantes: quando um detalhe parece fora de esquadro.

Chinelo 2É natural que cliente de banco comercial – Bradesco, Itaú, Santander & similares – utilize caixa automático para movimentar pequenas quantias, tenha cartão de crédito e até talão de cheque, dê ordens de pagamento a torto e a direito. Combina com os usos e costumes de banco de varejo, que está aí justamente pra isso.

Já bancos privados e bancos de investimento fogem a esse figurino. Pra começar, nada de abrir agência em cada esquina. Não costumam ter mais que meia dúzia de representações, espalhadas por meia dúzia de países. Nada de guichês. Nada de portas abertas ao grande público. Nada de letreiro no frontispício. Não dão cartão de crédito nem emprestam dinheiro. A função deles é gerir a fortuna do cliente, cuidar bem dela e fazê-la frutificar.

Cidadão que sempre viveu na opulência sabe disso desde criancinha. Os que batalharam duro e, aos poucos, amealharam uns cobrinhos também acabam conhecendo e se familiarizando com esse ramo específico da banca. Já aqueles que enricaram de repente, por veredas nem sempre confessáveis, têm dificuldade em perceber a nuance.

Banco 6Estes dias, toda a mídia revelou que a mulher do presidente da Câmara é, como o marido, cliente de banco privado na Suíça. Más línguas dizem até que os milhões ali depositados têm origem ilícita. Cruz-credo! Fato é que a referida senhora utilizava a conta como se estivesse lidando com o Bradesco da esquina.

Dinheiro lavagemFez numerosas transferências para pagar escola, academia, curso particular, gastos de cartão de crédito. A moça deu bandeira. Ao persistir na insólita movimentação, acabou dando na vista. Controladores internos do banco hão de ter-se dado conta da falta de traquejo daqueles clientes. O comportamento anômalo revelou que se encaixavam no perfil dos que lidam com riqueza recente, presumivelmente oriunda de corrupção. Foram postos em observação. Tudo o que bancos suíços não querem, agora que o secular segredo ruiu, é agasalhar fortunas de origem duvidosa.

Dinheiro voadorNo caso da família do presidente da Câmara, a movimentação atípica foi considerada altamente suspeita e gerou denúncia ao Ministério Público helvético. Uma vez lançada, a bola de neve não parou mais de rolar. Foi-se avolumando e veio a público. Para senhor Cunha, a ameaça maior não é a perda do mandato, que isso é o de menos. O risco é ser presenteado com uma temporada na Papuda. A mão dos juízes anda um bocado pesada ultimamente.

Dinheiro fácil traz sensação de poder, segurança e solidez. É sensação falsa. Como diz o povo: dinheiro mal ganho, dinheiro mal gasto.