Falta de tacto ou desaforo?

José Horta Manzano

Não me canso de apontar a enxurrada de erros primários que tem encharcado nossa diplomacia desde que o «governo popular» se aboletou no Planalto. O inspirador de grande parte dessas iniciativas calamitosas é senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, assessor que dispõe de cadeira cativa: entrou em função no primeiro governo do Lula e está lá até hoje.

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Pode até nem parecer, mas esse senhor não é nenhum ignorantão. Estudou, tem formação. Seu problema – que acaba apequenando a diplomacia brasileira – é a fixação numa ultrapassada visão terceiro-mundista. Seu pensamento ficou ancorado no mundo dos anos 1960 e 1970, quando Nasser, Indira Gandhi e Tito tentavam escapar (sem realmente conseguir) da dualidade da Guerra Fria. Hoje, essa dicotomia não faz mais sentido.

Política externa não é o forte do Lula nem de dona Dilma. Tanto ele quanto ela decidiram abandonar esse importante espaço. Na falta de luminares, sobrou para senhor «Top-top». Que fazer? Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

Interligne 18c

Cônsules e embaixadores são enviados temporários. Dependendo das normas e da conveniência do Estado que representam, permanecem alguns meses ou alguns anos em cada missão. Em seguida, como numa dança de cadeiras, são removidos e despachados a outro país.

O posto de embaixador de Israel em Brasília vagou. O primeiro-ministro daquele país decidiu indicar senhor Dani Dayan para preencher o cargo. O governo brasileiro foi informado. Em princípio, o país receptor dá sua aprovação ao cabo de duas ou três semanas. Neste caso, passadas oito semanas, nosso Planalto se fecha num silêncio ensurdecedor.

Em artigo de 10 dez° 2015, o jornal The Times of Israel acredita ter entendido a razão da atitude de Brasília. O embaixador designado é notório ativista conhecido por seu empenho na causa da implantação de colônias israelenses na Cisjordânia ocupada.

Relações internacionais by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Relações internacionais
by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Ao que tudo indica, em julho de 2014, quando tratou o Brasil de «anão diplomático», o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores israelense não estava usando figura de linguagem. Estava realmente expressando a convicção dos mandachuvas daquele país. A designação do novo embaixador é a prova flagrante.

Se enviassem esse senhor para um país pequeno e inexpressivo, o fato passaria despercebido. Nomeá-lo para representar Israel no Brasil é, no mínimo, falta de tacto. Na pior das hipóteses, é desaforo.

Grande e populoso, nosso país conta com importante comunidade de confissão judaica. Além disso, Brasília já mostrou sua desaprovação quanto à persistência de Israel na política de implantação de colônias em território ocupado.

As credenciais do novo embaixador dificilmente serão acolhidas pelo Planalto. Desta vez, justiça seja feita, não se pode atirar pedra no “top-top”. A aceitação desse diplomata seria interpretada como conivência com a ocupação da Cisjordânia, atitude que o atual governo brasileiro desaprova. E eu também.

Frase do dia — 278

«Em 1906, graças aos investimentos feitos em saneamento básico e saúde pública pelo governador Jorge Tibiriçá, que poderia dar aulas de modernidade a 9 entre 10 políticos brasileiros de hoje, São Paulo comemorou a extinção da febre amarela e da varíola na capital.

Agora, com apenas 13 anos de PT, aí estão São Paulo e o Brasil afundados na dengue, na chicungunha, na zika, na microcefalia e na síndrome de Guillain-Barré galopantes…»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em seu blogue Vespeiro.

O dilmês em seu apogeu

Ruy Castro (*)

Presidente 9 Getulio VargasGetulio Vargas começava seus discursos com um longo, lento e sofrido “Trabalhadooooores do Brasil…” – ele pronunciava zil, não zíu – e não precisava dizer mais nada. Jânio Quadros falava português do século 17 com sotaque de PRK-30(*). Renunciou à presidência da República e se explicou: “Fi-lo porque qui-lo.”

E Lula habituou-se a mentir, desmentir-se, dizer e desdizer-se com tal ênfase que ainda o levam a sério. Mas, à sua maneira, todos davam o recado. Já Dilma Rousseff, diante do menor improviso, acerta caneladas em palavras, períodos e significados.

No fim de semana, Dilma declarou que esperava “integral confiança” de seu vice Michel Temer. O que significava? Que Temer tinha “integral confiança” nela. Na verdade, Dilma, com seu estilo patafísico de falar e governar, queria dizer que ela, sim, é que tinha “integral confiança” nele. Michel Temer entendeu e, para não perder tempo, respondeu que, ao contrário, Dilma “nunca confiou” nele. Pronto, deu-se a crise.

Presidente 10 Janio QuadrosAposto que, nos anos 60, quando deveria estar lendo “A Moreninha”, “A Mão e a Luva” ou “O Guarani”, clássicos românticos da literatura e então modelos de como falar e escrever, a menina Dilma estava mergulhada nos manuais de Althusser, Plekhanov e Lukàcs, ásperos vade-mécuns do marxismo, traduzidos do espanhol.

Isso pode ter forjado o seu jeitão de caminhar, abrindo caminho com os ombros, e principalmente sua crespidão mental.

Muita gente pensa bem, mas se exprime mal. Dilma congrega o pior dos dois mundos. O histórico disso está no recente “Dilmês – O Idioma da Mulher Sapiens”, de Celso Arnaldo Araujo, um apanhado crítico e altamente documentado das batatadas de Dilma, de seus tempos de superministra de Lula até agora.

Hoje, este é um livro sério e preocupante. No futuro, será um clássico do humor brasileiro.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista.

(*) PRK-30 era programa humorístico transmitido pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro nos idos de 1940-1950. Lauro Borges e Castro Barbosa comandavam.
(Nota deste blogueiro)

Os três mosqueteiros

José Horta Manzano

Señor Mauricio Macri toma hoje as rédeas do governo da Argentina. O peculiar país em que vivem nossos hermanos conheceu avanços sociais e econômicos bem antes dos vizinhos. Cem anos atrás, já exibia níveis europeus de desenvolvimento.

Bastão presidencial

Bastão presidencial

Mas… nada nem ninguém é perfeito. Ao lado da evolução precoce – ou talvez justamente em virtude dela – a Argentina guardou traços que contradizem o amadurecimento e combinam mais com adolescência e suas crises. Um exemplo acaba de ser dado.

Certa de que seu afilhado político venceria as eleições, doña Cristina Fernández de Kirchner sentiu-se pra lá de frustrada quando saiu o resultado: a vitória era do adversário. Acostumada a ganhar sempre, sentiu-se inconformada. Feito criança, recusou-se a entregar o bastão presidencial, símbolo do poder, ao sucessor.

Mas as picuinhas não terminam aí. Diferentemente do resto do mundo, onde o mandato de um termina no momento em que ele transmite o poder ao outro, na Argentina a missão presidencial tem dia, hora e minuto para acabar. Consultados, os juízes sentenciaram que o mandato terminaria às 24 horas do dia 9 de dezembro.

Nem com boa vontade, passa-se o bastão à meia-noite. Com má vontade, então, pior ainda. A fixação oficial do horário aliviou a presidenta. Passaria o poder por procuração, não pessoalmente.

Errare humanum est

Errare humanum est

Pouco antes da meia-noite do dia nove, doña Cristina pronunciou discurso de despedida numa espécie de comício. Pareceu descontraída quando, logo de entrada, advertiu: «Vejam que não posso falar muito porque à meia-noite me transformo em abóbora.»

Entre outras frases, a mandatária soltou uma pérola:

«Evo Morales, Hugo Chávez y – siempre digo que parece el tercero de los tres mosqueteros – el compañero Inácio Lula da Silva supieron ver que la historia de América del Sur merecía un camino diferente.»
«Evo Morales, Hugo Chávez e – sempre digo que parece o terceiro dos tres mosqueteiros – o companheiro Inácio Lula da Silva souberam perceber que a história da América do Sul merecia um caminho diferente.»

Latim 2Com Brasil, Venezuela e Argentina a debater-se numa sinuca provocada por má governança, é o caso de recorrer de novo ao latim:

Errare humanum est, perseverare diabolicum.
Errar é humano; persistir no erro é diabólico.

Interligne 18h

PS: Dia 10 de dezembro, de zero hora até a posse de Macri, o país é governado interinamente pelo presidente do Senado. Num gesto puramente protocolar, dona Dilma viaja hoje para assistir à entronização. Serão seis horas e meia de avião (ida e volta) para apenas duas horas e meia em solo argentino.

Latim de botequim

José Horta Manzano

Caesar 1Este blogueiro é do tempo em que ainda se aprendia latim na escola. Aprendia é modo de dizer.  A língua era ensinada, mas aprender, que é bom, eram outros quinhentos. A matéria era um espantalho para muitos de nós. Um belo dia, seu ensino passou a ser considerado supérfluo, e a língua foi abolida do currículo. É pena. Fácil, não era. Mas tinha lá sua utilidade.

Faz uns dias, o vice-presidente de nossa República enviou carta à mandatária-mor. Embora digam que o figurão tem estatura de estadista, o tom da missiva está longe de demonstrá-lo. A ladainha de reclamações pessoais é constrangedora. Apesar do tom de funcionário chorão, o texto começa justamente com uma frase na língua de Cícero. Não se sabe se dona Dilma entendeu ou se teve de se socorrer junto a assessores. Pouco importa.

A frase latina que senhor Temer deitou no papel é:

Interligne vertical 14Verba volant, scripta manent.
Palavras voam, escritos ficam.

Um pouco alterada, a frase é conhecida de todos os que um dia já arriscaram uma fezinha na Paratodos, o Jogo do Bicho. O mote da contravenção mais difundida, conhecida e tolerada é justamente: “vale o escrito”.

Data venia, tenho de botar reparo na citação do vice-presidente. É verdade que alguns conceitos foram poupados pela passagem dos dois milênios que nos separam do auge do Império Romano. Outros, no entanto, envelheceram. A máxima citada é daquelas que precisam ser adaptadas aos novos tempos. A versão 2.0 deverá ser algo como:

Interligne vertical 14Scripta manent, sed igne delebuntur. Verba volant, sed nube captabuntur.
Os escritos ficam, mas serão destruídos pelo fogo. As palavras voam, mas serão aprisionadas por uma nuvem (=cloud).

Interligne 18f

PS: Nas aulas do velho professor Biral, que dava o melhor de si para nos iniciar nos mistérios da língua latina, nem sempre fui o aluno mais atento. Para o caso de o mestre, na nuvem de onde hoje nos espia, torcer o nariz para minha tradução, peço-lhe desculpas antecipadamente.

Frase do dia — 277

«Por não roubar (embora deixe que roubem) nem ter contas no exterior (embora tenha admitido durante a campanha que guardava dinheiro “no colchão”), a presidente julga-se dona de reputação ilibada e, por isso, merecedora de toda confiança.

Mostra-se desonesta, porém, quando mente e deixa que seus auxiliares mintam. Para ganhar a eleição de 2010, embarcou na falácia de Lula sobre a excelência de sua capacidade administrativa. Para se reeleger, em 2014, criou uma fábula segundo a qual a oposição, se vencedora, jogaria o Brasil na recessão e no retrocesso. Foi desmentida pelos fatos.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 9 dez° 2015.

Meus parabéns!

José Horta Manzano

Quando um povo elege chefe de Estado ou de governo, é praxe que mandatários de outros países enviem ao eleito mensagem de congratulações. É mais raro que se envie mensagem aos perdedores.

Bem, isso é o que costuma ocorrer no mundo real. No entanto, em certos bolsões que vivem num limbo, fora do tempo, num universo de fantasia, as coisas não funcionam como no resto do globo.

Unk 03Señor Nicolás Maduro, o pouco talentoso mandachuva venezuelano, sofreu derrota acachapante nas eleições de domingo passado. Que não seja por isso. Señor Raúl Castro, número um da gerontocracia cubana, mandou-lhe mensagem de fã entusiasta e admirativo(*).

Para conferir, fui direto à fonte: recortei a notícia do mui oficial diário Granma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Ponho a mensagem logo aqui abaixo. Clara, ela dispensa tradução. Dado que ainda estamos num país livre, o distinto leitor está autorizado a esboçar, ao final da leitura, um sorriso zombeteiro. Francamente, tem gente que não tem medo do ridículo.

Interligne vertical 12Estimado Maduro:

He seguido, minuto a minuto, la extraordinaria batalla que han dado y escuché con admiración tus palabras.

Estoy seguro de que vendrán nuevas victorias de la Revolución Bolivariana y Chavista bajo tu dirección.

Estaremos siempre junto a ustedes.

Un abrazo

Raúl Castro Ruz

Interligne 18h

(*) Não há notícia de que alguma mensagem de parabéns tenha sido enviada aos vencedores das eleições.

O pote de mágoa

José Horta Manzano

Temer 2Fez furor hoje a carta que senhor Temer enviou a dona Dilma. O fato dá que pensar. Antes de prosseguir, quero deixar claro que não jogo no time de nenhum dos dois. Para mim, ambos – como dizia minha avó – são do tipo que não fede nem cheira.

Senhor Temer afirma que a carta é pessoal. O fato de ter permitido seu vazamento à imprensa desmente toda intenção de discrição. Fica claro que, longe de ser pessoal, a missiva visa o grande público.

Senhor Temer assevera que o desabafo já devia ter sido feito há tempos. Então, por que esperou? E por que, diabos, se decidiu justamente agora?

Carta 1Senhor Temer fala em lealdade, qualidade que não combina com a política. Os atores do andar de cima são movidos a manobras, golpes, traições, conchavos, propinas, troca de favores, conciliábulos, conspirações, conluios, acordos. Lealdade, francamente, é conceito desconhecido.

Senhor Temer menciona, entre outros protestos, o fato de apaniguados seus terem sido maltratados por dona Dilma. Num ato falho, o vice desvela o fundo do pensamento: queixa-se de a presidente ter-se recusado a ratificar seu nepotismo explícito.

Em pelo menos dois trechos da carta aberta, senhor Temer deixa claro que dona Dilma e ele são as «duas maiores autoridades do país». Ao mesmo tempo, queixa-se de que «o governo» tenciona provocar cisão no PMDB. Ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. O missivista precisa, de uma vez por todas, assumir seu posto. Ou faz parte do «governo» ou não.

Dilma Lula TemerAo final, fica uma pergunta intrigante. O vice-presidente confessa ter-se sentido figura decorativa durante os quatro anos do primeiro mandato. A pergunta é: por que, raios, aceitou candidatar-se de novo?

Uma derradeira consideração. Descontente e frustrado que está, carregar o fardo imposto pelo cargo deve ser-lhe insuportável. Em vez de continuar guardando mágoa em pote, o caminho mais adequado para senhor Temer seria a renúncia. Por que não se decide? Será por abnegado espírito público?

Lembrete a todos os políticos que cerram fileiras contra o impeachment da presidente

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O Brasil, ao menos em teoria, é uma democracia representativa. Isso significa que todos aqueles que foram eleitos por nós – seja no Executivo, seja no Legislativo – são única e exclusivamente representantes de nossos valores, ideais, crenças e sonhos, não detentores de fatias do poder.

Bilhete 1O dicionário informa que democracia é o sistema de governo no qual o povo exerce soberania e também o sistema político cujas ações atendem aos interesses populares. É fundamental lembrar a todos vocês que, se neste momento, a expressiva maioria daqueles que os elegeram não se sente mais representada, só há uma conclusão inexorável: não estamos mais vivendo uma democracia representativa.

Congresso 2Já demos seguidas mostras de descontentamento e profundo cansaço com as aberrações perpetradas por políticos que aprenderam a se servir do Estado ao invés de servirem a ele. Já deixamos claro em nossas manifestações públicas que queremos o poder de volta para nossas mãos para que possamos criar novas formas de representação. Ainda que muitos de vocês aleguem terem ouvido “a voz das ruas”, é preciso convir que pouquíssimas mudanças ocorreram de fato.

Urna 10Assisto agora com horror, nojo e incredulidade as manifestações de tantos de vocês arvorando-se em defensores da legalidade constitucional e vomitando palavras de ordem como “golpe nunca mais”. Outros, cheios de tardios pruridos éticos, optando por declarar-se contrários ao impeachment até que o Judiciário comprove a existência de crime de responsabilidade. Ora, senhores, toda essa falácia só serve para distrair as atenções. Atarantados com tantos e tamanhos escândalos, certamente vocês esqueceram que nem tudo o que é legal é moral. Se lhes apraz participar desse triste espetáculo, por favor não nos convidem a fazer parte da plateia.

Manif 26Lícito é supor que os que assumem essa posição já delinearam formas de o nosso país sobreviver à catástrofe política, econômica e social que nos submergiu. Que já encontraram maneiras de persuadir os cidadãos a se deixarem governar por mais três anos por aqueles que não nos respeitam, não nos ouvem e nos espoliam. Que já estão prontos para estender a mão ao governo federal sem pedir em troca nenhum ministério, nenhuma secretaria, nenhuma autarquia, nenhuma nova fatia de verbas. Que podem garantir que já estão aptos a colocar em prática de imediato os projetos prometidos de educação, saúde, segurança e emprego.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fim de ciclo

José Horta Manzano

De uns dez dias pra cá, parece que os ventos mudaram de quadrante pelas bandas da América do Sul. Fazia já tanto tempo que a coisa andava degringolando, que a gente já estava ficando desesperançado. Agora parece que uma luzinha apareceu lá no fim do túnel. É tênue, mas alumia.

Brasil
Começou no Brasil dia 25 de novembro. Foi quando, em acontecimento extremamente raro nesta República, um senador – no exercício de seu mandato – foi parar na cadeia(*). Parece pouco? Não é. Há que lembrar que nosso país já nasceu dividido em castas. Entre elas, a dominante sempre foi integrada pelos abastados, pelo clero e pelos amigos do rei.

America do Sul 1Se clérigo não é, o líder do PT no senado, hoje encarcerado, é integrante de carteirinha da turma do andar de cima. É lícito também supor que esteja ‘bem de vida’, pra não dizer podre de rico. A prisão do figurão deu mais uma prova de que a lei se aplica também aos que dela, ainda não faz muito tempo, costumavam escapar.

Dias depois, a Câmara Federal, (ainda) presidida pelo folclórico senhor Cunha, acolheu pedido de destituição da mal-amada presidente da República. Um espanto! Que o voto final expulse ou mantenha a mandatária é de somenos. A notícia boa é que as instituições continuam funcionando. Figurões sentem-se hoje mais vigiados do que no passado.

Argentina – símbolos

Argentina – símbolos

Argentina
Domingo passado, a eleição de señor Macri ao «sillón de Rivadavia» (como é chamado o trono presidencial argentino) fez cair o pano final sobre a ópera-bufa encenada durante 12 anos pelo exótico casal Kirchner. Ponto para o mundo e especialmente para o Brasil!

Venezuela
Neste fim de semana, chegou outra notícia alvissareira. Mostrando haver despertado de longo torpor, os hermanos venezuelanos deixaram explícito seu repúdio ao modo «bolivarianista» de governar. Ao renovar a assembleia nacional, deram maioria a antichavistas.

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No mundo globalizado em que vivemos, governos que tentam sair dos trilhos encontram resistência no plano internacional. Precisam procurar aliados e juntar forças. Essa é justamente uma das principais razões pelas quais o Lula e seus aspones fecharam os olhos a iniquidades cometidas na Venezuela, em Cuba, na Argentina. Precisavam de aliados.

Tunel 1O que vemos hoje é prenúncio do fim de um ciclo. Brasil, Argentina e Venezuela – todos com a economia cambaleante – buscam horizontes mais arejados, livres do mofo de ideologias falecidas.

O estrago feito durante a última década é grande. Assim mesmo, chegaremos lá. O céu se está desanuviando.

Interligne 18h

(*) Há um antecedente. Ocorreu em 1963, quando o senador Arnon de Mello (pai de Fernando Collor de Mello) trocou ofensas com um desafeto, sacou o revólver, atirou e… feriu mortalmente um suplente de senador que teve a infelicidade de estar no lugar errado na hora errada. O assassino ficou alguns meses preso para, em seguida, ser inocentado e solto. Não perdeu sequer o mandato.

Retrato do governo

Elio Gáspari (*)

Train 4

«O trem-bala, delírio da doutora, era para ficar pronto para a Copa de 2014 ou, o mais tardar, para a Olimpíada de 2016. Felizmente, até as empreiteiras fugiram da maluquice. Apesar disso, o governo criou uma estatal para gerenciar a grande obra.

Não se fala mais em trem-bala, mas a estatal, chamada de Empresa de Planejamento e Logística, mudou de propósito e está aí, firme e forte. Funciona em dois andares de um edifício em Brasília e acaba de trocar sua diretoria.

Fazer trem é coisa difícil. Para criar uma estatal, bastam caneta e tinta. Fechá-la é impossível.»

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Tripartidarismo

José Horta Manzano

Este domingo, vota-se na França. O povo está sendo convocado para eleger os dirigentes das 13 grandes regiões (um tanto artificiais) em que o país está dividido. Estes últimos tempos, por razões de economia, Paris decidiu fusionar antigas regiões. Das dezenas que, séculos atrás, compunham o país, resta apenas uma dúzia de conjuntos heterogêneos, verdadeira colcha de retalhos.

Regiões da França

Regiões da França

Região é escalão intermediário entre município e governo central. Dado que a organização política da França é unitária e não federativa, o grau de independência da região é bastante limitado. Nenhuma delas conta com Constituição, nem assembleia, nem Justiça independente. Entram na competência regional o transporte, a assistência às empresas, o zoneamento territorial, a gestão ecológica do lixo, o aprendizado dos jovens, a formação profissional.

Tradicionalmente, o mundo político francês se divide entre direita e esquerda. As últimas décadas têm levado os dois campos a convergir a ponto de as diferenças se tornarem quase imperceptíveis. Assim mesmo, ainda é importante, na cabeça de cada um, que cada político se encaixe numa etiqueta: ou é de esquerda ou é de direita.

Assemblee nationale 1

Até os anos 1970-1980, ainda eram numerosos os cidadãos que haviam vivido os horrores da guerra. Estava viva a consciência de que regimes populistas haviam arrastado o continente à catástrofe. Até aqueles anos, idéias de extrema-direita não tinham a menor chance de prosperar.

Mas o tempo passou, os antigos se foram, novas gerações que não conheceram a guerra são os adultos de hoje. Para estes, a paz é estado natural, automático, quase obrigatório. A guerra desapareceu do rol das preocupações.

As desgraças que a extrema-esquerda causou na União Soviética e na Europa Oriental só terminaram em 1989, com a queda do Muro de Berlim. O fato é recente e todos, assustados, se lembram. Como resultado, os partidos de extrema-esquerda (comunistas) sumiram do mapa.

Já a debacle que a extrema-direita (nazistas e fascistas) acarretou é antiga, acabou faz 70 anos, todos tendem a esquecer. Como filme de terror, a história esquecida tende a se repetir. De uns anos pra cá, mais e mais cidadãos aderem ao populismo nacionalista. Em todos os países do continente.

Esquerda tradicional, direita tradicional, extrema-direita populista

Esquerda tradicional   –   Direita tradicional   –   Extrema-direita populista

Pela primeira vez na história, a França periga conhecer nova partilha política. A crer nas sondagens, o tradicional bipartidarismo já era. Viva o tripartidarismo! Direita tradicional, esquerda tradicional e uma extrema-direita populista ressuscitada dominarão a paisagem política do país nos próximos anos.

Cidadãos equilibrados torcem para que o desvario dos conterrâneos não chegue ao desatino de entregar o poder central a extremistas populistas. Como bem sabem norte-coreanos, cubanos e venezuelanos, todo extremismo é daninho.

Frase do dia — 276

«O PT que, quando estava na oposição, prometia enforcar o último político fisiológico nas tripas do último empresário corrupto é o mesmo que franqueou a administração pública a diversas quadrilhas, em troca do pedágio que irrigaria os cofres petistas.»

Editorial do Estadão, 5 nov° 2015.

Porta aberta

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 dez° 2015

Vicente CelestinoNo longínquo ano de 1946, com vozeirão potente que caracterizava cantores da era anterior à chegada do microfone, Vicente Celestino lançou a toada Porta Aberta. Fez sucesso retumbante. Falava da porta de uma igreja que, simbolicamente, se abria para acolher de volta uma ovelha desgarrada, um vivente abandonado pela sorte.

Toda casa costuma ter porta. À discrição do dono, visitas são recebidas ou rechaçadas. A porta se abre para os bem-vindos, cheguem eles para visita de médico, para algumas horas ou até para pousar. Quanto aos indesejados, que procurem outra freguesia. Dono não é obrigado a permitir entrada a quem não lhe convém.

Porta 1Assim como igrejas e casas, país soberano também tem porta. Virtual, ela não está presa por gonzos a nenhum batente. Os nacionais, que têm franqueada a saída do país e a volta a ele, quase não se dão conta da sutil barreira. É que não lhes faz falta nenhuma autorização especial, o que não ocorre com estrangeiros.

Afora casos especiais em que a livre passagem tenha sido sacramentada por tratados – como acontece entre alguns países da União Europeia –, não se entra em terra estrangeira como se adentra o botequim da esquina. Nem todos os viajantes são iguais perante inspetor de alfândega e polícia de fronteiras.

Trafic 4Caso o viajante seja titular de passaporte emitido por país com o qual foi assinado acordo de liberação de visto, terá direito a entrar como turista, por período limitado, sem exercer atividade remunerada. No Brasil e na maior parte do mundo, a permanência padrão é de 90 dias. Na hipótese de o estrangeiro vir a trabalho ou estar planejando longa estada, é imperativo ter obtido previamente visto específico emitido por representação consular brasileira.

Visando a regrar a exigência de documentos, o Brasil – nação soberana e responsável – assinou, ao longo dos anos, convenções com a quase totalidade dos países. Esses acordos, fruto de tratativas cuidadosas, respondem a interesses mútuos. Cidadãos de numerosos países estão dispensados de visto para visita turística de até 90 dias a nosso país. Por razões ligadas à segurança do território e dos habitantes, o Estado brasileiro decidiu não conceder a mesma facilidade a todos. Cidadãos de determinados países só pisarão nosso chão se estiverem munidos de visto obtido no estrangeiro.

Não é segredo para ninguém que a política econômica dos últimos anos deixou o país em estado calamitoso. Rapinagem crônica e gestão arrevesada esvaziaram as burras. Para remediar, nosso governo anda no sufoco, raspando fundo de gaveta e matando cachorro a grito. Na esperança de incrementar o número de turistas que acudirão aos JOs 2016, mentes iluminadas imaginaram suspender a exigência de visto de entrada… para cidadãos de todos os países!

Passaporte 2Sancionada por dona Dilma, a lei já está em vigor. Vale até setembro do ano que vem. Abriu-se um hiato de dez meses durante os quais nosso país virou casa de mãe joana: entra quem quiser. O Brasil abre mão de um dos atributos maiores da soberania tão cara a nosso governo popular: o direito de filtrar a entrada do território. Durante quase um ano, passa qualquer um. Entre sem bater, minha gente, que a boca é livre!

Num mundo assolado por atentados, ataques terroristas e migrações de proporções bíblicas, a decisão é, no mínimo, temerária. Os caraminguás que um hipotético acréscimo de turistas trará não compensam a amplificação dos riscos. Um atentado perpetrado durante os JOs sairá bem mais caro que os dólares adicionais.

Passaporte 1A outra ameaça evidente é a de um acréscimo descontrolado da imigração ilegal. Sem a triagem do visto prévio, qualquer um vai poder se achegar. Ninguém é capaz de predizer o volume desse afluxo. Não é impossível que, daqui a um ano, tenhamos recebido milhões de estrangeiros aos quais, em circunstâncias normais, teria sido negado o visto. É lícito supor que centenas de milhares de viventes abandonados pela sorte – como cantava Vicente Celestino – aproveitem a porta aberta, entrem e não queiram mais sair. Estará armada uma sinuca de bico.

Um quarto de século atrás, o socialista Michel Rocard, então primeiro-ministro da França, pronunciou frase célebre: «La France ne peut pas accueillir toute la misère du monde» – a França não pode acolher toda a miséria do mundo. O Brasil tampouco. No intuito de vestir um santo, estamos despindo outro. Com todos os problemas que já temos, não precisamos correr atrás de mais um. Arrombada a porta, minha gente, será tarde pra botar tranca.