Os três mosqueteiros

José Horta Manzano

Señor Mauricio Macri toma hoje as rédeas do governo da Argentina. O peculiar país em que vivem nossos hermanos conheceu avanços sociais e econômicos bem antes dos vizinhos. Cem anos atrás, já exibia níveis europeus de desenvolvimento.

Bastão presidencial

Bastão presidencial

Mas… nada nem ninguém é perfeito. Ao lado da evolução precoce – ou talvez justamente em virtude dela – a Argentina guardou traços que contradizem o amadurecimento e combinam mais com adolescência e suas crises. Um exemplo acaba de ser dado.

Certa de que seu afilhado político venceria as eleições, doña Cristina Fernández de Kirchner sentiu-se pra lá de frustrada quando saiu o resultado: a vitória era do adversário. Acostumada a ganhar sempre, sentiu-se inconformada. Feito criança, recusou-se a entregar o bastão presidencial, símbolo do poder, ao sucessor.

Mas as picuinhas não terminam aí. Diferentemente do resto do mundo, onde o mandato de um termina no momento em que ele transmite o poder ao outro, na Argentina a missão presidencial tem dia, hora e minuto para acabar. Consultados, os juízes sentenciaram que o mandato terminaria às 24 horas do dia 9 de dezembro.

Nem com boa vontade, passa-se o bastão à meia-noite. Com má vontade, então, pior ainda. A fixação oficial do horário aliviou a presidenta. Passaria o poder por procuração, não pessoalmente.

Errare humanum est

Errare humanum est

Pouco antes da meia-noite do dia nove, doña Cristina pronunciou discurso de despedida numa espécie de comício. Pareceu descontraída quando, logo de entrada, advertiu: «Vejam que não posso falar muito porque à meia-noite me transformo em abóbora.»

Entre outras frases, a mandatária soltou uma pérola:

«Evo Morales, Hugo Chávez y – siempre digo que parece el tercero de los tres mosqueteros – el compañero Inácio Lula da Silva supieron ver que la historia de América del Sur merecía un camino diferente.»
«Evo Morales, Hugo Chávez e – sempre digo que parece o terceiro dos tres mosqueteiros – o companheiro Inácio Lula da Silva souberam perceber que a história da América do Sul merecia um caminho diferente.»

Latim 2Com Brasil, Venezuela e Argentina a debater-se numa sinuca provocada por má governança, é o caso de recorrer de novo ao latim:

Errare humanum est, perseverare diabolicum.
Errar é humano; persistir no erro é diabólico.

Interligne 18h

PS: Dia 10 de dezembro, de zero hora até a posse de Macri, o país é governado interinamente pelo presidente do Senado. Num gesto puramente protocolar, dona Dilma viaja hoje para assistir à entronização. Serão seis horas e meia de avião (ida e volta) para apenas duas horas e meia em solo argentino.

Hermanos no muy amigos

José Horta Manzano

Tantas faz doña Cristina, tanto exige, tanto atravanca, que não deixa aos sócios outra saída senão a traição. Estou falando do Mercosul e de doña Cristina, presidente da vizinha Argentina.

by Vincent van Gogh (1853-1890), artista holandês

by Vincent van Gogh (1853-1890), artista holandês

Um drama como o que se desenrola estes dias na Grécia já aconteceu na Argentina, igualzinho, quinze anos atrás. Um coquetel explosivo à base de corrupção, incapacidade e má gestão gerou caos nas contas públicas. Na sequência, vieram crise política, calote nos credores, «corralito», recessão, desemprego.

A sobrevivência do país hermano, estes últimos anos, deve muito à indulgência com que tem sido tratado pelo governo brasileiro. Se já não era fácil lidar com o pranteado Nestôr Kirchner, o convívio com doña Cristina é ainda mais áspero.

Trigo 1A Argentina é vista pelo mundo com desconfiança, como se empesteada fosse. A reputação de seriedade que o país tinha levado um século para firmar escorreu pelo ralo. Vão-se passar décadas até que se recupere a credibilidade. Só a mão amiga do Brasil tem evitado desastre maior.

Mas até mão amiga se cansa. A burocracia, os empecilhos, os vaivéns estão esgotando a paciência de tradicionais importadores brasileiros de trigo argentino.

O jornal La Nueva, de Mar del Plata, fala da sinuca em que estão metidos os triticultores argentinos. O comércio com o país vizinho é tão entravado que os importadores brasileiros têm abandonado o trigo argentino em favor do americano e do canadense.

Para piorar, em gesto de reciprocidade dirigido à Rússia – que se tornou grande cliente de frigoríficos brasileiros – nosso Ministério da Agricultura decidiu incentivar a compra de trigo daquele país.

Taí. Nenhum «malfeito» fica eternamente impune. Mais dia, menos dia, a conta acaba chegando.

Trigo 2A Petrobrás, maior contribuinte da Receita Federal, ia pelo mesmo caminho da Argentina. Pelas mesmas razões. Se ainda está de pé, combalida mas viva, é porque a rapina foi descoberta a tempo, enquanto ainda se podia salvar alguma coisa. Mais uns aninhos e… babau! Se o escândalo não tivesse estourado a tempo, se tivesse durado até o fim do atual mandato presidencial, só haviam de sobrar-nos o olhos para chorar.

O gato e a lebre

José Horta Manzano

Não sou analista financeiro nem tenho lastro suficiente para me aprofundar na matéria. Assim mesmo, os anos e as experiências vividas não deixaram de me apurar o bom senso. Entre tantos incômodos, os anos maduros trazem, pelo menos, o consolo de enxergar com menos paixão.

Banco 2Fiz esse preâmbulo antes de falar da criação do Banco do Brics, assunto que me chamou a atenção estes últimos dias. Longe de ser banco de pobre, como alguns apressados poderiam deduzir, tem sócios de peso. Basta dizer que conta com a segunda potência comercial do planeta entre seus membros. É interessante notar que cada um dos sócios tem sua própria motivação para aderir ao empreendimento.

A Rússia, por exemplo, anda meio de birra com o resto do mundo por causa do conflito com a Ucrânia. Desde que anexou a Crimeia, vem sofrendo sanções econômicas da União Europeia e dos EUA. As punições são inócuas, é só questão de marcar um desacordo. Assim mesmo, a Rússia procura mostrar que está dando de ombros para o castigo. Nessa óptica, uma associação com outras economias poderosas é sempre bem-vinda.

Diferentemente de nossa hermana Cristina, o Brasil não precisa do socorro financeiro de bancos internacionais. Já temos apoio suficiente. Se dona Dilma achou tão importante a criação desse estabelecimento é por razões de imagem interna. Transmite ao povo a sensação de que nosso país tem dinheiro pra dar, emprestar e vender. E, mais que isso, dá a prova cabal de que, finalmente, não dependemos mais dos abominados capitalistas ocidentais. A artimanha funciona, tem muita gente que acredita.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Quanto à África do Sul, cujo PIB equivale à quarta parte do nosso, não se entende bem o que está fazendo nesse clube. Faria mais sentido incluir a Turquia e a Indonésia.

O PIB (PPP) brasileiro, pelas contas do FMI, equivale ao da Rússia. Já a China, com produção anual bruta quase seis vezes superior à nossa, precisa menos ainda de ajuda de bancos internacionais. Seu interesse é diferente do nosso e do da Rússia.

Banco 1Com dinheiro a escapar pelo ladrão, o Estado chinês tem vista de longo alcance. Por seu peso econômico, terá de facto a última palavra nas decisões da nova empresa. Para ser concedido, todo empréstimo terá de contar com o beneplácito de Pequim.

A China, sedenta de matérias-primas necessárias para sua afirmação, tenderá, naturalmente, a apoiar projetos de seu próprio interesse. Projetos visando a favorecer produção de soja no Brasil ou de gás na Sibéria serão aplaudidos em Pequim. Seu financiamento está garantido.

Se os estrategistas do Planalto imaginavam, com a criação do banco de fomento do Brics, alforriar-se da dependência dos investidores tradicionais, perigam decepcionar-se. Livram-se da suserania ocidental para enfeudar-se aos tecnocratas de Pequim.

Quem viver, verá. Posso me enganar, mas tenho a impressão de que estão comprando gato por lebre.

Coisa feia

José Horta Manzano

 

Vaia

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Ao ouvir as vaias de que os argentinos foram alvo durante o jogo contra a Holanda, em São Paulo, fiquei imaginando se os que vaiaram os hermanos não são os mesmos que dão de ombros quando dona Cristina, presidente do país vizinho, bloqueia negociações com o Brasil, demolindo o já combalido Mercosul e prejudicando nosso comércio exterior.