Quem diria

José Horta Manzano

Panelaço 1O próprio de um partido que nasceu com vocação para defender os trabalhadores é exatamente advogar em favor de seus tutelados, os que trabalham. E qual é a data mais emblemática de exaltação da classe laboriosa? O primeiro de maio, cáspite! De Moscou a Pequim, de Paris a Buenos Aires, a Festa do Trabalho é dia dedicado a mostrar conquistas e a expor anseios.

Desde os tempos de Getúlio Vargas, dirigentes brasileiros valeram-se da data para marcar presença e para mostrar quão identificados estavam com a causa dos que vivem do trabalho – a maioria dos cidadãos em suma. Não é ocasião que se perca.

Vaia 1Pois este ano, nossa presidente não ousará se mostrar diante de microfones de rádio nem à frente de câmeras de tevê. Desprezada e desprestigiada, foge de vaias, apupos e panelaços. Manda dizer que não está.

C’est tout un symbole! – diriam os franceses. É sintomático. É sinal dos tempos. É a comprovação de quanto o Partido dos Trabalhadores se apartou daqueles que eram a razão de sua existência. Como é que pode?

Agrupamentos políticos, quando sentem risco de degeneração, tomam iniciativas para reerguer-se. Mudam de nome, mandam dirigentes para o ostracismo, reconhecem erros, prometem fazer melhor, alteram programas, exibem humildade, mostram que se estão transformando.

Panelaço 2O partido ao qual (ainda) é afiliada nossa presidente é altivo e arrogante demais. Obstina-se a negar a evidência. Garante que nunca se desviou do caminho virtuoso. Recusa-se a encarar a realidade. Saúda membros condenados à cadeia como se heróis fossem. Persiste nos erros que o levaram à perdição e que perigam levá-lo à extinção.

É difícil de entender. Pensando melhor… talvez não seja tão difícil assim. Falta-lhes discernimento. Naquele clube, a limitação da capacidade mental não é exceção: é regra. As poucas ideias «brilhantes» têm vindo de marqueteiros, aqueles mercenários apolíticos que apenas emprestam seu talento contra pagamento. Infelizmente, tais «sacadas geniais» não passam de slogans vazios, sem amanhã, com prazo de validade limitado.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

A cada dia que passa, fica mais claro que o partido, em sua forma atual, não é viável. Se, na primeira Festa do Trabalho deste novo mandato, nossa dirigente já se sente obrigada a esconder-se atrás de um biombo para não sofrer panelaço, como enfrentará a mesma data no ano que vem? E no seguinte? E no outro? Não será fácil para ninguém. Nem pra ela, nem pra nós.

Museu do Lula

José Horta Manzano

Em 12 abril 2012, saía a decisão de mandar construir um museu de 10 mil metros quadrados bem no centro de São Bernardo, na coroa industrial de São Paulo. As obras, orçadas em 18 milhões, seriam financiadas com dinheiro do povo – cofres federais e municipais se cotizariam. O edifício estava previsto para ser entregue em um ano.

No oficial, tencionava-se recriar e homenagear o ambiente borbulhante dos anos 70 e 80, com greves e enfrentamentos, quando o Lula já mostrava dotes de hábil «agitador de massas», como se dizia na época. No paralelo, o intuito não declarado da obra era erguer um monumento à glória e à vaidade de nosso antigo e folclórico presidente. Aliás, desde aquele momento, o deselegante bloco de concreto já ganhou o apelido de Museu do Lula.

Se alguma intenção velhaca já estivesse germinando – penso em malfeitos programados – ninguém desconfiou. Ninguém tampouco se escandalizou com o desperdício de fundos públicos. Afinal, o montante era considerável e poderia ter sido mais bem empregado num hospital, numa escola ou numa creche.

Mas há que se reposicionar no contexto da época. Tenhamos em mente que o Brasil ainda não se tinha dado conta da sinuca em que os governos «populares» o haviam metido. Fosse hoje…

Pausa para deixar passar o tempo.

Interligne 18c

O Globo deste 26 abril 2015 volta ao assunto. Não deu outra. Constata-se que, passados três anos, o arcabouço da obra continua plantado ali, como elefante branco. Com o prazo de entrega estourado há mais de dois anos, suspeitas de irregularidades pesam sobre o empreendimento.

Foto O Globo - Michel Filho

Foto O Globo – Michel Filho

Mato e entulho se acumulam em frente à sede da prefeitura. O funcionário de um posto de gasolina situado próximo à obra revela que há tempos ninguém aparece por ali.

Fica no ar a impressão de que os fundos públicos destinados ao Museu do Lula tenham seguido o mesmo caminho tortuoso trilhado por dinheiro da Petrobrás.

Quantos empreendimentos serão ainda acrescentados à lista de obras suspeitas?

Prisão para todos

José Horta Manzano

by Arnaldo Angeli F°, desenhista paulista

by Arnaldo Angeli F°, desenhista paulista

Na nossa cultura ibero-americana, cadeia é lugar de pobre. Doutores e gente de boa estirpe costumam passar longe desse tipo de constrangimento. Costumavam – é melhor dizer. Antes do mensalão, contavam-se nos dedos os abastados que tinham passado uma temporada no xadrez. Precisavam, como mínimo, ter cometido crime de sangue. De uns tempos pra cá, a coisa mudou drasticamente.

Atualmente, prender gente fina tornou-se banal. Não se passa um dia sem que algum figurão vá em cana. Com algemas, de preferência. Vão para a cadeia tanto «heróis do povo brasileiro» quanto oportunistas chinfrins cujo único (e pequeno) deslize é ter-se aproveitado de uma distração da viúva para meter a mão no dinheiro público.

À vista da calamidade que vem assolando (e assombrando) altas esferas & agregados, antiga questão voltou à ordem do dia: os brasileiros são todos iguais perante a lei ou alguns seriam mais iguais que outros? Em miúdos: gente fina e ralé são obrigados a condividir o mesmo tipo de cela, nas mesmas condições?

Há quem ache que sim. Já outros consideram inaceitável a perspectiva de misturar bandidos de paletó e gravata com malfeitores de chinelo de dedo.

Em rigor, os princípios de isonomia e de igualdade prescritos pela Constituição devem primar sobre interesses de classe e de corporações. Se, quando livres, somos todos iguais, quando presos também deveríamos sê-lo.

by Arnaldo Angeli Filho desenhista paulista

by Arnaldo Angeli Filho
desenhista paulista

Há um braço de ferro em andamento entre o governo federal e o Ministério Público sobre o assunto. O MP questiona a constitucionalidade do artigo do Código de Processo Penal que regulamenta a matéria. Acredita ser inconstitucional reservar cela especial para certos cidadãos – os diplomados por escola dita «superior». Alarmado, o governo defende seus interesses por intermédio da Advocacia-Geral da União. Preconiza que o privilégio seja mantido.

Os jogadores ainda estão em campo, o que deixa em suspenso o resultado.

by Antônio Carlos de Paula Jr. (Junião), desenhista paulista

by Antônio Carlos de Paula Jr. (Junião), desenhista paulista

Quanto a mim, tendo a concordar com o Ministério Público. Muitas ações têm sido tomadas estes últimos anos para aplainar diferenças sociais. Está mais que na hora de extinguir esse privilégio que concede condições de encarceramento diferentes, dependendo do diploma que o condenado possa ter obtido. Se tal discriminação ficava bem um século atrás, o prazo de validade já venceu faz tempo.

As prisões são ruins? Que se melhorem as condições carcerárias. É por aí que se tem de começar.

Pensando bem, a abolição de privilégios reservados a figurões encarcerados é a melhor garantia de que, dentro de pouco tempo, os estabelecimentos penitenciários de nosso País vão melhorar – e muito!

Vexame renovado

José Horta Manzano

Embaixador da Pérsia apresenta credenciais ao rei Luís XV

Embaixador da Pérsia apresenta credenciais ao rei Luís XV

Diplomatas que servem no exterior costumam ser substituídos periodicamente. O rodízio é benéfico para a carreira – acrescenta preciosas linhas ao currículo. Cônsules, adidos e funcionários de segundo escalão são escolhidos livremente pelo país emissor e, em princípio, automaticamente aceitos pelo governo do país de destino.

Com embaixadores, o procedimento é mais formal, que diplomacia é cheia de tiques e de códigos. Antiga e cristalizada regra exige que o enviado de um governo seja oficialmente aceito pelo país onde exercerá sua função.

Meus cultos e distintos leitores se lembrarão de que, faz poucas semanas, dona Dilma deu vexame internacional ao recusar as credenciais do novo embaixador indonésio.

Mãe natureza foi avarenta ao atribuir sutileza a nossa bondosa mandatária. A falta de tacto de dona Dilma fez que ela ousasse a crueza de convocar o diplomata em palácio para, só então, informá-lo de que não seria recebido. Fossem outros os tempos, o ato constituiria casus belli: estariam reunidas as condições para declaração de guerra.

Sempre atento às proezas das altas esferas, o Diário do Poder traz deliciosa notícia, daquelas que corroboram o amadorismo e a ignorância que, cada dia mais, se esparramam pelos escaninhos da República.

Embaixada do Brasil em Madri

Embaixada do Brasil em Madri

Sem aderir aos métodos brutais de nossa presidente, o governo espanhol tem sutilmente protelado a aceitação das credenciais do novo embaixador que o Brasil designou para Madri. Nesse campo, delongas costumam ser sinal de que algo está errado. E realmente está.

Antônio Simões, o novo embaixador, é conhecido admirador do finado Hugo Chávez, de seus métodos autocráticos e daquilo que se costuma amenizar sob a expressão «bolivarianismo».

Não precisa ser especialista em relações internacionais para entender que Espanha e Venezuela não andam de beijos e abraços estes últimos anos. Basta lembrar do episódio protagonizado pelos que, à época, eram os respectivos chefes de Estado: o rei Juan Carlos e o coronel Chávez. Estou-me referindo ao inesquecível «¿Por qué no te callas?», lançado por El Rey ao venezuelano tagarela.

Vaidoso e presumido, o tiranete de Caracas nunca perdoou ao rei a afronta. Desde então, fez o que pôde para tornar mais difícil a vida de empresas espanholas estabelecidas na república bolivariana. Os quase dez anos que se passaram desde que Chávez foi desancado em público não foram suficientes para estancar ressentimentos. As relações entre Caracas e Madri continuam execráveis.

Palácio do Itamaraty

Palácio do Itamaraty

Por ingenuidade ou por ignorância – talvez por um misto dos dois – Brasília houve por bem fazer-se representar em Madri por um chegado ao «bolivarianismo». Enviar correspondência oficial ao governo argentino tratando as Malvinas de Falkland Islands não teria causado constrangimento maior. O elefante dançou na loja de porcelana.

Resumo da história: o novo embaixador tem escassa chance de ser aceito pelo governo espanhol. A diplomacia brasileira bem que podia ter ido dormir sem essa. Mas não tem jeito: o pior bronco é aquele que não quer aprender.

Coringão

José Horta Manzano

Você sabia?

Corinthians 4O nome dos times de futebol mais famosos do Brasil não é inusitado nem surpreende. Botafogo, Coritiba, Santos, Flamengo, Bahia, Internacional são de origem geográfica, a categoria mais comum. Vasco da Gama, Portuguesa, XV de Novembro homenageiam personagens, comunidades, fatos históricos. Palmeiras, Cruzeiro, Atlético, Operário, Juventude são nomes fáceis de entender, que combinam com o ambiente.

Ruínas de Corinto, Grécia

Ruínas de Corinto, Grécia

Mas… Corinthians? O nome de uma das mais tradicionais equipes do esporte nacional destoa. Qual seria a origem de denominação tão fora de contexto?

Uma rápida visita ao site do clube esclarece: a inspiração veio de uma equipe inglesa da época. Os cracks do Corinthian-Casuals Foot-ball Club excursionavam pelo Brasil naquele longínquo 1910. Fascinado pelo desempenho dos visitantes, um grupo de amigos decidiu montar uma equipe.

Futebol 5O nome se inspirava no movimento esportivo renascido com os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, disputados em 1896. O foot-ball, esporte novo, se inscrevia na efervescência do momento. Corinto – Kórinthos no original – era cidade da Grécia antiga. Importante na antiguidade, a localidade continua de pé, embora não passe hoje de pequeno burgo pouco expressivo.

Corinthians 3O nome do time inglês dava a medida do espírito informal do grupo. Corinthian-Casuals pode-se traduzir por «Corintianos Despreocupados» ou «Corintianos Informais». Os discípulos nacionais guardaram a referência olímpica, mas preferiram dispensar o qualificativo. Não se consideravam, certo, tão despretensiosos assim.

Nos primeiros anos, guardou-se o costume de dizer que aquela era a equipe dos corinthianos, como poderia ser dos atenienses, dos espartanos, dos romanos, dos cartagineses. Ao referir-se à esquadra, a imprensa mencionava «os Corinthians», sempre no plural. Mas durou pouco. Com o crescimento, o nome do clube logo caiu na boca do povo como palavra singular.

Corinthians 2A notícia de bestial carnificina da qual foram vítimas, este fim de semana, torcedores do clube repercutiu na imprensa internacional. A brutalidade deu-me a ocasião de constatar que, no exterior, o nome do time ainda é entendido como queriam os idealizadores de um século atrás. O portal do grupo RTL, por exemplo, refere-se aos “supporters des Corinthians” – torcedores dos Corinthians.

É pena que, como lembrança de 1910, só o nome tenha permanecido. O ambiente ingênuo, despreocupado e festivo foi-se.

Reflexo d’antanho – 1

Ahi vou eu transcrever umas explendidas observações, não de algum astronomo, mas de um typo que á vadiação allía a paciencia meticulosa de um sabio atomista:

CP 1890-0124A gallinha   – põe
A sogra      – oppõe
O assassino  – predispõe
O pagador    – repõe
O impostor   – impõe
A testemunha – depõe
O professor  – expõe
O insultante – indispõe
O viajante   – transpõe
O teimoso    – contrapõe
O chimico    – decompõe
O typographo – compõe
O malcreado  – descompõe
O incredulo  – suppõe
O recorrente – interpõe
O homem      – põe
Deus         – dispõe

Interligne 18h

Recortado da edição de 24 jan° 1890 do extinto Correio Paulistano.

O rádio e a taxa – corrigenda

José Horta Manzano

Não é de hoje que a inventividade brasileira é sufocada no nascedouro por falta de incentivo. Desde que o golpe encabeçado pelo marechal Deodoro destronou o imperador e desterrou toda a família, a criatividade dos brasileiros passou a ter mais dificuldade para eclodir.

Padre Landell de Moura

Padre Landell de Moura

Para desenvolver seu talento, nossos conterrâneos mais dotados – cientistas, atletas, artistas – terão muito mais chance se se transferirem ao exterior. Em solo pátrio, a probabilidade de desabrochar é escassa.

A não ser, evidentemente, que o interessado se faça acolher sob asas oficiais, como fez um certo senhor cujas empresas terminavam com um X. Em casos assim, o sucesso pode ser fulgurante. A derrocada também. Mas essa é já é uma outra história, que fica para uma outra vez.

Faz alguns dias, postei um artigo sobre as taxas que se costumam cobrar dos cidadãos na Europa pelo direito de receber emissões radiofônicas e televisivas. Eu sabia que as primeiras emissões regulares e organizadas de rádio tinham ocorrido nos anos 1920. Para complementar meu parco conhecimento do assunto, procurei me informar.

Num desses sites aos quais a gente recorre quando nos escapa um nome ou um detalhe, encontrei não só a data exata da primeira emissão de rádio, mas também o lugar onde foi gerada: 28 de março de 1914, no Palácio de Laeken, Bélgica. Reproduzi a informação.

Uma atenta e fiel leitora acaba de me puxar a orelha. Zeza Loureiro, coordenadora do prestigioso Portal dos Jornalistas, conhece o assunto bem melhor que eu. Contou-me que, bem antes da experiência belga, já havia ocorrido a primeira transmissão sem fio da voz humana. Adivinhem onde? Exatamente: foi no Brasil.

Landell 2Faz tempo que o jornalista Eduardo Ribeiro, figura maior da Editora Jornalistas & Cia, e o historiador e jornalista Hamilton Almeida batalham para divulgar fato interessantíssimo, do qual, tenho certeza, muitos nunca ouviram falar. Incansável, Hamilton já escreveu quatro livros sobre o assunto.

Pois saibam meus distintos leitores que, quinze anos antes da experiência belga, o padre porto-alegrense Roberto Landell de Moura já havia levado a cabo, em São Paulo, a primeira transmissão de voz. Foi exatamente dia 16 de julho de 1899. E olhe que a experiência não teve lugar no escurinho de um laboratório, não, senhor: foi em público, na presença de empresários, professores, cientistas, jornalistas. Foi um padre arteiro, sim, senhor!

Pronto, está feito o reparo. A cada um o que é de cada um.

Radio 7Em matéria de prestígio a talentos nacionais, a gente fica com a desagradável impressão de que, desde que o golpe militar de 1889 impôs o regime republicano, nunca mais apareceu mandatário à altura do imperador escorraçado.

Dou-lhes um só exemplo: não fosse o amparo visionário que Dom Pedro II ofereceu ao jovem Antônio Carlos Gomes, o músico campineiro teria passado a vida tocando no coreto provincial. Não seria reconhecido hoje como o maior compositor lírico das Américas. De 125 anos pra cá, muita coisa mudou no Brasil. Umas melhoraram, enquanto outras…

Vamos deixar pra lá. Dias mais razoáveis hão de vir. Espero.

Comprimento e largura

Carlos Brickmann (*)

Biblioteca 2História sem fim
Os casos vão longe. Numa reportagem de Turismo, fala-se num hotel-biblioteca para hóspedes que apreciam leitura. Esses hóspedes – e leitores – são submetidos logo na entrada da matéria a uma legenda, “Amantes de livros nunca vai para a cama sozinhos”. Sozinha, no singular, abandonada, só mesmo a concordância.

Mas continua: informa que no hotel há um ‘lounge’ chamado “Refúgio do Escritor”, que “à noite serve drinques com nomes ligados à literatura”.

Notável: o ‘lounge’ , que em português significa algo como sala de estar, é tão inteligente e prestativo que até serve drinques. Que maravilha!

E o leitor que aprecia livros, que gosta de leitura, que é que achará desse texto?

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Vício de origem
Lembra daquele documento que vazou da Secom, Secretaria de Comunicação do Governo Federal, e derrubou o ministro Thomas Traumann? No documento, defendia-se a interferência partidária no noticiário da Agência Brasil. Pois é. Em 3 de abril, às 11h46, matéria publicada pela Agência Brasil sob o título “Primeiro-ministro de Israel diz que Irã tem como único objetivo a bomba atômica”, era assinada pela Agência Lula.

Errinho bobo, nada além disso. O correto seria “Agência Lusa”. Mas imagine-se o que andava pela cabeça do redator para cometer esse errinho bobo.

Interligne 18b

Estudante 2Estudar é preciso
O grande Percival de Souza, já na época um dos maiores repórteres policiais do país, chegou à conclusão de que não poderia aperfeiçoar suas matérias sem aperfeiçoar-se em Direito. Entrou na faculdade e se formou. Em suas matérias, o juiz não “pede”, determina. Mandado é mandado, e mandato é mandato. A polícia prende, mas cumprindo ordens do juiz, que é quem expede o mandado. Incomum: ainda outro dia, um jornal de tevê de uma grande rede informava que a Polícia Federal estava “expedindo mandados de prisão”. Nesse turbilhão de operações, o que sai de informação incorreta é uma festa.

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Retalhos
● De um grande portal noticioso, ligado a grande grupo jornalístico:
“40% das policiais mulheres do país já sofreram assédio”
Se a frase fala das policiais, não fica claro que são mulheres?

Avião 7● De um importante portal noticioso, sobre chegada ao Brasil de novo modelo de jato de passageiros:
“O aparelho tem 64 metros de largura por 67 de comprimento”.
Ou seja, é praticamente quadrado. O primeiro avião do mundo com formato de caixote. (1)

● De importante coluna informativa de um grande jornal impresso:
“A ‘operação padrão’ dos agentes fiscais de rendas do Estado de São Paulo (…) provocou queda de 14% no número de autos de infração e de multas no primeiro trimestre. Foram 3.367 autuações por dívidas com impostos, ante 2.891 no mesmo período do ano passado”.
Este colunista é do tempo em que 3.367 era número maior que 2.891.

 

Rir 5Frases
● Da internauta Ludmila Rodrigues:
Acredito que a preguiça pode ser uma coisa boa. Se não fosse ela, eu estaria lá na cozinha quebrando a dieta.

● Do jornalista Sandro Vaia, sobre a rala manifestação da CUT em São Paulo no dia 7 de abril:
Hoje na Paulista, um transeunte distraído perguntou: o que é isso, jogo da Lusa?

● Do jornalista Luiz Weis, citando texto do ensaísta Charles Simic publicado em 1993 na revista americana The New Republic:
A atitude da mídia diante da complexidade dos assuntos é a mesma da Inglaterra vitoriana diante da sexualidade: uma coisa da qual as pessoas precisam ser protegidas.

● Do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, sobre as dificuldades do governo para aprovar o ajuste fiscal:
Responsabilidade fiscal é igual a sapato branco. Só é bonito no pé dos outros

Tres patetas 1● Do jornalista Palmério Dória:
Pepe Vargas está credenciado a compor um quadro como o quarto dos Três Patetas.

● Do jornalista Cláudio Humberto
O projeto nem foi aprovado, mas Dilma fez questão de ser a primeira a aderir à nova proposta de terceirização. Terceirizou a economia para o ministro Joaquim Levy e a política para o vice, Michel Temer.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais. O texto aqui reproduzido é fragmento da coluna.

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(1) Nota deste blogueiro
O jornalista citado por Brickmann atirou no que viu e acertou no que não viu. A distância que vai da ponta da asa de um avião à ponta da asa oposta não se diz «largura», mas envergadura. O mesmo vale para pássaros, que, por sinal, também têm asas.

Intriga intrigante

José Horta Manzano

Anestesiado pela inacreditável sucessão de escândalos de assalto ao erário, o brasileiro não tem tido tempo de digerir cada um deles. Mal terminado um episódio, lá vem outro mais contundente.

Dinheiro 1Como dizia o outro: um escândalo financeiro é uma catástrofe; centenas de escândalos são estatística. A gente se acostuma a tudo – é próprio do homem.

Faz dois dias, a polícia levou pra trás das grades o tesoureiro do partido que domina a política federal brasileira há 12 anos. O tesoureiro! O homem que cuida das finanças, do dinheiro que entra, do dinheiro que sai!

Foi levado algemado com as mãos nas costas – humilhação reservada para bandidos de alto coturno. E olhe que não foi decisão precipitada de um magistrado descabeçado. A ordem de prisão estava em banho-maria havia meses. Todos sabiam que, mais dia, menos dia, seria expedida.

Dinheiro lavagemDecretou-se também o encarceramento da esposa e da cunhada do figurão, sinal de que delinquir era um negócio de família. A esposa foi logo encontrada. Já a cunhada estaria num congresso no Panamá. Um congresso no Panamá…

Que coincidência. Ocorreu-me que José Dirceu de Oliveira e Silva – medalhão já julgado, condenado e apenado por crimes semelhantes – também operava (ainda opera?) empresas de fachada domiciliadas no Panamá. Más línguas chegam a dizer (e mentes malévolas chegam a pensar) que a cunhada tenha viajado às pressas pra pôr de molho uns trocados que a família havia guardado naquele país da América Central.

Deve ser intriga de gente invejosa.

Direito ou obrigação?

José Horta Manzano

Urna 5Em meu artigo O voto e a roda, publicado no Correio Braziliense um ano atrás, dei a visão que tinha, àquela altura, sobre a questão de voto facultativo x voto obrigatório. Hoje volto ao assunto.

Na França, como na maior parte das democracias, o voto é um direito do cidadão. Como todo direito, seu exercício é facultativo: vota quem quer. Se assim não fosse, seria obrigação. Os dois conceitos são excludentes: se é direito, não é obrigação; se for obrigação, deixa de ser direito.

Acontece que a participação da população francesa decresce a cada escrutínio. Já está nas cercanias de 50%. Na prática, apenas a metade dos cidadãos exerce o direito de dar sua opinião na hora de escolher presidente, deputados, prefeitos. Muitos julgam negativo esse desinteresse popular.

Urna 2Para remediar, entrou em pauta, estes dias, amplo debate sobre a matéria. Alguns acham oportuno acabar com o direito de votar, e torná-lo obrigação. Outros consideram que imposição do voto obrigatório desvirtuaria o princípio da democracia, onde cada um é livre de se exprimir – ou não.

Na França, qualquer fato político costuma assumir proporções gigantescas. Por um sim, por um não, figurões comparecem ao rádio e à tevê para dar opinião. Jornalistas, filósofos, sociólogos, atores, psicólogos, analistas, escritores, toda a nata da sociedade pensante espreme as meninges. Artigos inflamados e libelos pululam.

Como é de praxe, personalidades mais alinhadas com a esquerda veem com bons olhos a imposição do voto obrigatório. Mais Estado, mais obrigações, maior controle, mão firme e Big Brother em ação são traços distintivos do pensamento de socialistas, comunistas, trotskistas & afins.

Já os centristas e os que se afinam com a direita rejeitam a ideia. Menos Estado, maior liberdade individual, menos controle, menos imposições são características de liberais e de sociodemocratas.

Voto de cabresto

Voto de cabresto

Cada grupo tem seus argumentos. Todos devem ser ouvidos, pesados, avaliados. Há pontos positivos em ambas as visões.

Urna 7O voto obrigatório tem a vantagem indiscutível de alcançar número maior de eleitores. Em princípio, o resultado reflete melhor a pluralidade nacional. No entanto, muitos dos eleitores votam sem ter percepção exata do alcance do ato que estão praticando. O resultado pode ser desastroso, como já provou, no Brasil, a eleição de palhaços, modistas, artistas, futebolistas e outras figuras que, embora ultraconhecidas, não estão aptas a fornecer o trabalho que delas se espera.

O voto facultativo elimina, em teoria, essa obra de “engraçadinhos” que, desinformados e desinteressados, se abalam até à secção eleitoral unicamente por origação. Mas o voto opcional também tem seu lado sombrio. Em países como o Brasil, onde persistem, no seio da população, tremendas diferenças de nível financeiro, basta oferecer transporte, sanduíche, boné e camiseta para mobilizar multidões – que seguirão, naturalmente, a orientação de voto que lhes tiver sido dada.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Atenção: isso vale para todos os candidatos – não só para os daquele partido em que, tenho certeza, o distinto leitor pensou. Afinal, não precisa assaltar nenhuma petroleira pra reunir dinheiro suficiente pra sanduíche e camiseta.

Isso dito, como é que ficamos? Há prós e contras nas duas visões.

No fundo, no fundo, talvez convenha aguardar tempos melhores. No dia em o nível civilizatório do povo brasileiro se tiver aperfeiçoado, na hora em que cada um tiver consciência plena das consequências de sua escolha, será chegado o momento de revogar a obrigatoriedade do voto. Até lá, ainda tem chão.

A moça com nome de arroz

José Horta Manzano

Aconteceu quase dez anos atrás, mas alguns ainda hão de se lembrar. Assessorado por aquela moça que tinha nome de arroz, George Bush ocupava o trono de Lincoln. Orientado pelo impagável Amorim, o Lula inaugurava seu segundo mandato. Era janeiro de 2006.

Avião 6O companheiro Hugo Chávez, no apogeu de seu reino, esbanjava o dinheiro que – sabemos agora – viria a fazer muita falta a seus conterrâneos. Com o preço do petróleo em alta, metia a mãozona nos cofres da petroleira estatal e distribuía a companheiros, a chegados, aos bondosos irmãos Castro. Mandava malas de dólares ao mandatário argentino, o hoje pranteado Kirchner. Despachava avião oficial para buscar atletas cubanos refugiados no Brasil e devolvê-los a Cuba. Eram tempos de abundância e de seu corolário, a arrogância.

O hoje finado Chávez acabava de adquirir dos russos armamento às pencas. Era como se se preparasse para a guerra total. Aviões Sukhoi e mísseis tinham entrado na lista de compras . Estava ainda programada a aquisição de 36 aviões AMX e Super Tucano, fabricados pela Embraer, num atraente pacote de meio bilhão de dólares.

Caça Gripen - foto Saab

Caça Gripen – foto Saab

Eis senão quando… Mister Bush despejou balde de água fria. Fez saber que os aviões fabricados pela Embraer continham componentes americanos, o que lhe dava o direito de proibir toda comercialização que não lhe conviesse. Vender para a Venezuela estava fora de cogitação. Todo pedido seria vetado.

O anúncio não chegou a ser oficial, ficou nos bastidores. Mas o aviso foi dado. O fabricante brasileiro entendeu que não ia adiantar solicitar autorização americana, conforme reza o contrato: ela seria negada.

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A história periga se repetir. Como sabem todos os meus distintos e cultos leitores, o Brasil assinou contrato com a sueca Gripen para compra de 36 aviões de caça. Se nenhuma falcatrua, corrupção ou roubalheira for descoberta, os aparelhos serão fabricados nos próximos anos. Os suecos transmitirão parte da tecnologia à Embraer, o que permitirá à empresa paulista montar aparelhos do mesmo tipo. E até vendê-los ao estrangeiro.

Avião 11Em princípio, a encomenda da FAB terá sido entregue até o ano de 2023. A partir de então, a empresa brasileira poderá comercializar aparelhos por conta própria. No horizonte, a Argentina já despontou como cliente potencial. Mostrou interesse em adquirir 24 aviões. No entanto…

Bush, Chávez, o Lula e acólitos já se foram. Mas restam os contratos. Os aparelhos Gripen contêm componentes britânicos, fato que dá ao Reino Unido o direito de proibir toda venda de aviões a cliente que não for de seu agrado. E, sacumé, Inglaterra e Argentina não são amigos de infância – taí a Guerra das Falkland/Malvinas que não me deixa mentir.

Antes que ex-futuro vendedor e ex-futuro comprador percam tempo negociando o inegociável, o Reino Unido já fez saber que vetará toda venda de aviões militares à Argentina. Así son las cosas.

A galega

José Horta Manzano

Você sabia?

Gaita 2Se alguém lhe perguntasse qual foi o primeiro instrumento musical estrangeiro a chegar ao Brasil depois do descobrimento, que é que você responderia? A guitarra? A flauta? A trombeta? Que nada, tá gelado!

Muitos distintos leitores hão de se surpreender com o que vem agora. O primeiro instrumento – que veio já na esquadrilha de Pedro Álvares Cabral – não foi nenhum dos que mencionei acima. Foi a gaita. Quando digo gaita, refiro-me à gaita de foles ou gaita galega, não à gaita de boca. Agora vem a prova:

Gaita 3«Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita

Fragmento da carta que Pero Vaz de Caminha, escrivão da esquadra de Cabral, enviou a El-Rey D. Manuel I para dar a boa-nova do achamento de novas terras.

Gaita 4As origens desse instrumento de sopro se perdem na poeira do tempo. Indícios de sua existência já foram encontrados até junto à tumba de faraós que viveram cinco mil anos atrás.

Ao longo dos séculos, surgiram dezenas de variedades de gaita, engenhoso instrumento de sopro. Diferentemente de seus congêneres, que dependem do sopro direto do executante, a gaita de foles dispõe de uma bolsa onde o ar fica armazenado.

Portanto, o esforço do músico para encher a bexiga não corresponde necessariamente à saída do fluxo de ar. A vantagem é que a gaita de foles é capaz de produzir som contínuo, independentemente do ritmo de respiração do instrumentista. Nenhum outro instrumento de sopro permite essa façanha.

Gaita 1Desde a Antiguidade, cada região da Europa conheceu sua versão de gaita. Hoje em dia, ela está praticamente esquecida na maioria dos países. Ainda é cultuada no mundo celta: Escócia, País de Gales, Irlanda, Bretanha (França), Galiza (Espanha), norte de Portugal.

Gaita 5O portal La Voz de Galicia dá informação curiosa. O Brasil tem uma única fábrica de gaita de foles. Ela se encontra nos arrabaldes de São Paulo e produz meia dúzia de modelos diferentes. O fabricante, artesão que conta apenas com a ajuda da esposa, é autodidata.

Construir gaita dá trabalho e leva tempo. Quem estiver interessado, tem de entrar numa lista de espera de 6 meses. Robles Luques, o artesão, sonha com o dia em que o primeiro instrumento chegado ao País se popularizará.

O momento atual assenta como luva: com a “Pátria Educadora” em ação, Robles encontrará com facilidade o encorajamento e o financiamento que lhe fazem falta. Que os anjos digam amém.

No meio do caminho

«Uno de los grandes nudos en que se metió Brasil es precisamente esa nueva clase social que fue llevada a las puertas del paraíso de la clase media, pero no logró entrar. Quedó en el umbral, luego de haber conocido parte de sus bondades, pero sin librarse del universo de maldades que atormentaban su vida anterior.»

by Juan Arturo García Zelegón, desenhista nicaraguense

by Juan Arturo García Zeledón, desenhista nicaraguense

«Uma das enrascadas em que o Brasil se meteu é exatamente o fato de essa nova classe social ter sido levada às portas do paraíso sem conseguir entrar. Ficou no meio do caminho, vislumbrando parte das novas benesses, mas incapaz de se livrar do universo de maldades que atormentavam sua vida anterior.»

Interligne 18b

Fragmento luminoso do artigo analítico Qué le pasa a Brasil, publicado em 12 abr 2015 pelo diário argentino Página 12. A frase é certeira. A charge é do cartunista nicaraguense Juan Arturo García Zeledón – JAGZ.

Depois de certa idade…

Sylo Costa (*)

Meu saudoso pai, exemplo de sensibilidade, dizia sempre que “a felicidade está diretamente ligada à ignorância”. Não à ignorância da brutalidade, mas àquela ignorância do não saber. Papai era um cearense “retado”. Médico, formado na Bahia, terminou o curso com uma bolsa de estudos que lhe foi dada pelo Ministro da Educação Francisco Campos, que atendeu um pedido da turma de 1932, composta, de acordo com o convite de formatura em meu poder, por 73 formandos: 38 brancos, 17 negros, 14 baianos e quatro mulheres.

Panda albino

Coala albino

Bons tempos aqueles, em que não havia a perversidade da discriminação e podia-se brincar assim. Seu anel de grau foi presente dos colegas. Será que a sociedade em que vivemos comportaria esse modus vivendi? Hoje, quem chamar um negro de “negão” está discriminando o sujeito e pode ser processado na forma da lei, ou seja, aquilo que podia ser um tratamento carinhoso é crime hediondo. Pode-se xingar de fdp, ladrão, cavalo, égua etc. Mas bicha ou macaco é discriminação, e lá vai o perigoso criminoso para a cadeia.

Eu tinha dois amigos em Salinas que atendiam pelo nome de Negão. Um morreu, o outro está vivo e reside em São Francisco, lugar na barranca do Velho Chico, abençoado por Deus e bonito por natureza. Há muito não o vejo e não sei como chamá-lo quando o encontrar. Não que ele não entenda, mas outro “aragaço”(1) que, porventura, esteja por perto certamente vai reparar. O país está assim: um saco.

O Congresso Nacional, composto por homens, mulheres e muita gente boa, religiosos ou não, bichas e dissimulados, mensaleiros e ladrões comuns, está que é uma sensibilidade só… Agora, estão discutindo sobre maioridade. Uns querem que ladrõezinhos de 17 anos sejam tratados como “de menor”, outros mais pés no chão, não. Tanto faz bala 22 ou 38 para fazer defunto. Mas não.

Os desocupados de ongs, direitos humanos e outros modismos enchem o saco de qualquer um. Ô paiseco de… deixa prá lá. Se eu não estivesse com “idade avançada”, me mudaria para qualquer outro lugar onde não houvesse petistas de todas as espécies e padrecos comunistas disfarçados de intelectuais pregando aos incautos…

Cavalo albino

Cavalo albino

Agora, para completar o rol de sensibilidades de que estamos possuídos, alguns legisladores, pessoas que se dizem normais, querem tornar “crime hediondo” qualquer manifestação que expresse simpatia ou desejo pela volta dos militares, ou seja, mais ou menos o que acontece na Alemanha, onde não se pode, por outras razões, discutir sobre o Holocausto. Nossa liberdade de expressão está condicionada ao modismo desses brasileirinhos sensíveis que têm medo de polícia e de lobisomem…

Um dos sentimentos que mais me maltrata é a decepção, e eu vivo hoje, como brasileiro, decepcionado com a vida, não a minha vida, mas a vida vivida no Brasil, o que me faz lembrar um salinense ranzinza que, cerrando os dentes, dizia: “Ô Sylo, qué sabê? Se lugá fô lugá, isso aqui num é um lugá”. Também acho…

(*) Sylo Costa é homem político mineiro. Assina coluna semanal no jornal O Tempo.

(1) No norte de Minas Gerais, dá-se o nome de aragaço aos albinos.

Frase do dia — 235

«Em qualquer lugar do mundo, salvar uma vida é ato humanitário e reconhecido por toda a sociedade. Aqui, ele foi vilipendiado.»

Roger Pinto Molina, aquele senador boliviano que, perseguido por Evo Morales, procurou proteção na embaixada do Brasil em La Paz. Depois de mofar naquela repartição por um ano e meio, foi conduzido ao Brasil clandestinamente por um diplomata brasileiro condoído da sorte do refugiado.

Passado um ano e meio da chegada do senador a Brasília, o Itamaraty tomou a decisão de sancionar o diplomata salvador. Nenhuma decisão foi tomada com relação ao boliviano, que continua num limbo à espera de que lhe seja concedido asilo no Brasil.

O desabafo do senador boliviano faz referência ao ato do destemido diplomata brasileiro Saboia, cujas orelhas acabam de ser puxadas pelo Itamaraty.

Aberta a brecha

José Horta Manzano

Saiu ontem na Folha. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul entende que cadeirantes têm direito a viajar de avião de graça. Sob risco de arrumar um punhado de inimigos, digo o que penso: não concordo com a determinação do TJ.

Velhice 3Explico melhor. O tribunal não fez nada de errado, apenas aplicou a lei. Na verdade, é com a lei que não concordo. Não me parece boa ideia conceder privilégios a determinadas categorias de cidadãos em função deste ou daquele motivo aleatório. O benefício tem de estar relacionado com a carência.

Que se reservem assentos para idosos ou para gestantes faz sentido. O mimo se coaduna com a necessidade: viajar de pé é problemático para gestantes e para idosos. Já garantir passagem grátis a quem padece de certos males – deixando de lado outros enfermos – faz menos sentido.

A meu ver, essa lei, que já vigora há tempos em viagens rodoviárias interestaduais, entra na mesma senda torta das quotas para estudantes, anciãos, índios, menores de idade e outros reservatários.

Onibus 4Se se concede gratuidade de transporte a quem sofre deficiência visível – caso de quem se desloca em cadeira de rodas –, a coerência manda que o benefício seja também estendido a concidadãos que padecem de deficiência não visível. Se o cadeirante pode, também deve poder o diabético, o cardíaco, o reumático, o entérico, o maneta.

A moça a quem a arbitragem do TJ do Rio Grande garantiu bilhete grátis de avião é advogada e atleta de paracanoagem. O bom senso leva a crer que outros cidadãos de situação financeira bem mais precária também gostassem de viajar sem pagar.

Velhice 2Entendo que, até certo ponto, finanças podem ser critério de seleção: àquele que pode menos, dá-se mais. A priori, no entanto, velhice e defeito físico não deveriam justificar concessão automática de privilégio(*). Ser velho ou ser cadeirante não é sinônimo de estar mal de finanças.

A brecha dos privilégios, uma vez aberta, é difícil de colmatar. Sempre aparecerão grupos de cidadãos que julgam ter direitos mais amplos que os demais. É caminho imprevisível e perigoso, oposto ao espírito republicano.

Interligne 18c

ET: Etimologicamente, privilégio é lei privada, ou seja, lei feita especialmente para pequeno grupo de cidadãos.

Tiro ao Álvaro

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«Na rua Dr. Sebastião Pereira, foi visitada ao escurecer do dia 10 a casa onde reside uma familia numerosa, mas que naquella occasião se achava ausente quasi toda.

Pessoa da casa, vendo duas cabeças assomarem para fóra do nivel do muro, desfechou um tiro de revólver, que fez em cacarecos uma telha e nada mais.»

Interligne 18e

Deu no Correio Paulistano de 12 de março de 1891, quase 125 anos atrás.

Para quem acredita que agressividade e violência sejam novidade, está aí a prova de que o mal é bem mais antigo. Por duas «cabeças assomadas» atirava-se sem aviso prévio.

Persistente, o faroeste continua vivo e forte!

O jeito de dar um jeito

Dad Squarisi (*)

Feijoada 1Sim ou não? Nem uma coisa nem outra. Não gostamos de polarização nem de radicalizações. Preferimos o vamos ver. Ou o depende. Nossa natureza combina com a coluna do meio. Já inventamos até um verbo pra traduzir o casuísmo tupiniquim. É flexibilizar. Quer palavra mais chiclete? Afinal, pensamos, as coisas não precisam ser tão rigorosas.

Dar um jeito virou instituição. Tão brasileira quanto a feijoada. Tão antiga quanto Pedro Álvares Cabral. Tão poderosa quanto Deus e o diabo mancomunados. Com ela até as leis físicas balançam. Quem não se lembra da bravata do presidente Figueiredo? Contrariado, o general de plantão ameaçou revogar nada menos que a lei da gravidade.

Placa 14Jeitinho combina com improvisação, que rima com procrastinação. Sorri para a corrupção, abre as portas para o desperdício e faz a festa com o dinheiro público. Opõe-se a planejamento, a seriedade, a pesquisa de causas e busca de soluções efetivas. Em bom português: empurra com a barriga. Bater ponto final é coisa pra francês, alemão ou americano. Com eles é pão pão, queijo queijo. Com brasileiro, a coisa muda. Aqui há sempre um jeito de dar um jeito.

Os alunos não aprendem? Proíbe-se a reprovação. As estradas estão intransitáveis? Promove-se operação tapa-buraco. Governador dá calote em servidores e empresas? Vai a Miami estudar inglês. O povo sai às ruas gritar contra a má qualidade dos serviços públicos? Responde-se com reforma política. A Petrobrás se afunda em corrupção? Abraça-se o prédio da estatal.

Assalto 1Ops! A violência aumenta? Reduz-se a maioridade penal. É fácil, fácil. Muda-se a Constituição. Com a aprovação da PEC 171/93, os brasileiros respirarão aliviados. Vão se livrar das câmeras de segurança, retirar as grades das janelas, derrubar os muros da casa, sacar dinheiro nos caixas eletrônicos, tirar as joias do cofre, andar à noite sem medo, soltar as crianças na calçada. Afinal, os menores respondem por 0,9% dos crimes cometidos no país. Isso mesmo: menos de 1%. Que alívio!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Dilma e o contrato milionário

Cláudio Humberto (*)

A economia está em frangalhos, o governo aplica calote até em programas sociais, mas a presidente Dilma contratou por R$49 milhões a empresa “Shows Serviços de Festa”, com o objetivo de tornar mais festivos os seus eventos. O caso guarda certa semelhança com o Baile da Ilha Fiscal, em 1889, quando a realeza se divertia na mais luxuosa festa da história do Império às vésperas da Proclamação da República.

Ilha Fiscal 1Os R$ 49 milhões da empresa de festas contratadas por Dilma seriam suficientes para construir 530 casas populares ao custo de R$ 93 mil.

Pago com verba reservada ao socorro a flagelados da seca no Ceará, o Baile da Ilha Fiscal foi marcado pelo excesso e pela extravagância.

O Baile da Ilha Fiscal consumiu 10% do orçamento do Rio de Janeiro. A empresa de festas contratada por Dilma, o equivalente a 1,4 milhão de bolsas família.

(*) Cláudio Humberto, jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.