Inadequação vocabular ‒ 10

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 4 nov° 2018

As consequências nefastas das notícias falsas são tema da redação do Enem este ano. Na chamada do Estadão, o ‘sobre’ sobra.

O tema é a própria manipulação. Melhor será dizer: ‘O tema da redação do Enem é a manipulação de usuários na internet’.

Inadequação vocabular ‒ 8

José Horta Manzano

E a febre do defender continua. Eta modismo persistente! Já me insurgi, em artigo de três anos atrás, contra o uso abusivo desse verbo. Mas não tem jeito. Defender virou ônibus: sempre cabe mais um.

O uso insistente de um único verbo para expressar situações diferentes é, no fundo, sintoma de pobreza vocabular. O natural de uma língua é enriquecer com o passar do tempo. Novos vocábulos vão-se juntando aos existentes até formar um léxico gigantesco. Estranhamente, a língua brasileira, em lugar de se tornar mais rica, empobrece. Para cada novo vocábulo que entra no circuito, uma dúzia dos antigos sai da boca do povo pra recolher-se na poeira dos dicionários. É pena.

Chamada Estadão 27 ago 2018

Volto a sugerir ao distinto leitor que, caso esteja pra cair na tentação de usar defender no sentido de preconizar, pense em substitui-lo por outro mais sugestivo.

Na chamada do Estadão, ficaria mais elegante dizer, por exemplo, que «Dallagnol propõe não votar em envolvidos…». Essa é apenas uma possibilidade. Há dezenas. Uma lista (não exaustiva) de verbos que podem ‒ nesse caso e com vantagem ‒ substituir defender está aqui:

Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

Cada um deles carrega nuance diferente. Na hora de usar, basta escolher o que melhor convier.

Ah! É bom ter sempre em mente o que doutor Dallagnol “defende”. Votar em corrupto? Só faltava.

Inadequação vocabular ‒ 7

José Horta Manzano

Folheando um dos grandes quotidianos nacionais, topo com uma colorida foto que ilustra uma matéria sobre a retomada do ritmo de consumo.

Em primeiro plano, aparece uma vistosa banca ‒ ou gôndola, como se deve dizer ‒ carregada de frutas. Em cima, em letras brancas sobre fundo vermelho, está escrito com todas as letras «Frutas Exóticas».

Debaixo do cartaz, distingo goiabas e, se não me traem os olhos, mamões. Fica claro que quem determinou classificar goiabas e mamões como «frutas exóticas» ignora o significado da palavra.

O Sherlock aqui reconstruiu o caminho da esquisitice. O gerentão da empresa, pessoa viajada, há de ter visitado dúzias de supermercados de França, Oropa e Bahia. Em todos eles, sob a indicação «frutas exóticas», encontrou goiabas, papaias, mangas, abacates. Logo, deduziu que a denominação se referia a essa classe de frutos. Não hesitou em reproduzir, na própria loja, as palavras que soam tão chiques.

Bobeou. Exótico, do latim exoticus, carrega o prefixo grego exô (o ex latino), que indica fora de. A palavra se aplica àquilo que vem de fora, que não é daqui, que é forasteiro ou de origem estrangeira.

Na Europa, na América do Norte e em toda região de clima temperado, goiabas e mamões não crescem. Têm de ser importados. Como vêm de fora, são ditos «frutos exóticos».

No Brasil, não é assim. Em virtude do clima, as frutas tropicais são justamente as mais comuns. Para nós, exóticos são frutos como o abricô (damasco), a avelã, o mirtilo e outras raridades.

Comprimento e largura

Carlos Brickmann (*)

Biblioteca 2História sem fim
Os casos vão longe. Numa reportagem de Turismo, fala-se num hotel-biblioteca para hóspedes que apreciam leitura. Esses hóspedes – e leitores – são submetidos logo na entrada da matéria a uma legenda, “Amantes de livros nunca vai para a cama sozinhos”. Sozinha, no singular, abandonada, só mesmo a concordância.

Mas continua: informa que no hotel há um ‘lounge’ chamado “Refúgio do Escritor”, que “à noite serve drinques com nomes ligados à literatura”.

Notável: o ‘lounge’ , que em português significa algo como sala de estar, é tão inteligente e prestativo que até serve drinques. Que maravilha!

E o leitor que aprecia livros, que gosta de leitura, que é que achará desse texto?

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Vício de origem
Lembra daquele documento que vazou da Secom, Secretaria de Comunicação do Governo Federal, e derrubou o ministro Thomas Traumann? No documento, defendia-se a interferência partidária no noticiário da Agência Brasil. Pois é. Em 3 de abril, às 11h46, matéria publicada pela Agência Brasil sob o título “Primeiro-ministro de Israel diz que Irã tem como único objetivo a bomba atômica”, era assinada pela Agência Lula.

Errinho bobo, nada além disso. O correto seria “Agência Lusa”. Mas imagine-se o que andava pela cabeça do redator para cometer esse errinho bobo.

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Estudante 2Estudar é preciso
O grande Percival de Souza, já na época um dos maiores repórteres policiais do país, chegou à conclusão de que não poderia aperfeiçoar suas matérias sem aperfeiçoar-se em Direito. Entrou na faculdade e se formou. Em suas matérias, o juiz não “pede”, determina. Mandado é mandado, e mandato é mandato. A polícia prende, mas cumprindo ordens do juiz, que é quem expede o mandado. Incomum: ainda outro dia, um jornal de tevê de uma grande rede informava que a Polícia Federal estava “expedindo mandados de prisão”. Nesse turbilhão de operações, o que sai de informação incorreta é uma festa.

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Retalhos
● De um grande portal noticioso, ligado a grande grupo jornalístico:
“40% das policiais mulheres do país já sofreram assédio”
Se a frase fala das policiais, não fica claro que são mulheres?

Avião 7● De um importante portal noticioso, sobre chegada ao Brasil de novo modelo de jato de passageiros:
“O aparelho tem 64 metros de largura por 67 de comprimento”.
Ou seja, é praticamente quadrado. O primeiro avião do mundo com formato de caixote. (1)

● De importante coluna informativa de um grande jornal impresso:
“A ‘operação padrão’ dos agentes fiscais de rendas do Estado de São Paulo (…) provocou queda de 14% no número de autos de infração e de multas no primeiro trimestre. Foram 3.367 autuações por dívidas com impostos, ante 2.891 no mesmo período do ano passado”.
Este colunista é do tempo em que 3.367 era número maior que 2.891.

 

Rir 5Frases
● Da internauta Ludmila Rodrigues:
Acredito que a preguiça pode ser uma coisa boa. Se não fosse ela, eu estaria lá na cozinha quebrando a dieta.

● Do jornalista Sandro Vaia, sobre a rala manifestação da CUT em São Paulo no dia 7 de abril:
Hoje na Paulista, um transeunte distraído perguntou: o que é isso, jogo da Lusa?

● Do jornalista Luiz Weis, citando texto do ensaísta Charles Simic publicado em 1993 na revista americana The New Republic:
A atitude da mídia diante da complexidade dos assuntos é a mesma da Inglaterra vitoriana diante da sexualidade: uma coisa da qual as pessoas precisam ser protegidas.

● Do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, sobre as dificuldades do governo para aprovar o ajuste fiscal:
Responsabilidade fiscal é igual a sapato branco. Só é bonito no pé dos outros

Tres patetas 1● Do jornalista Palmério Dória:
Pepe Vargas está credenciado a compor um quadro como o quarto dos Três Patetas.

● Do jornalista Cláudio Humberto
O projeto nem foi aprovado, mas Dilma fez questão de ser a primeira a aderir à nova proposta de terceirização. Terceirizou a economia para o ministro Joaquim Levy e a política para o vice, Michel Temer.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais. O texto aqui reproduzido é fragmento da coluna.

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(1) Nota deste blogueiro
O jornalista citado por Brickmann atirou no que viu e acertou no que não viu. A distância que vai da ponta da asa de um avião à ponta da asa oposta não se diz «largura», mas envergadura. O mesmo vale para pássaros, que, por sinal, também têm asas.

De transposições

José Horta Manzano

Notícias recentes vêm confirmar que, no Brasil, transposição ― conceito da vez ― nos cria dois problemas: um estratégico e um semântico.

Do lado estratégico
A dita «transposição do Rio São Francisco» expõe, para quem quiser ver, o resultado do descaso secular com que nossos dirigentes têm encarado a governança.

Tecnologia existe há muito tempo. O Canal de Suez foi escavado 150 anos atrás, entre 1859 e 1869, e o Canal do Panamá abriu suas comportas para o primeiro navio há exatos 100 anos. Se, no Brasil, o paliativo para as secas do Nordeste se resumiu a cavoucar açudes, não terá sido por falta de tecnologia, mas por abundância de negligência.

Nascente do São Francisco

Nascente do Rio São Francisco

Apareceu, estes dias, nova «transposição», a ser arquitetada em regime de urgência urgentíssima. O caso agora é mais grave. A rarefação da água atinge a maior metrópole do país. No sufoco, surgiu a ideia de fazer vir água do Rio Paraíba do Sul.

Temos aí outro exemplo acabado de pouco caso. Setenta anos atrás, São Paulo já tinha passado a marca de 2 milhões de habitantes. Não cresceu da noite para o dia. Se nada se fez até hoje, foi por pura incapacidade de planejamento.

Para piorar, a obra levará 14 meses, quando faltam apenas 3 meses para o grande circo da «Copa das copas» montar seu picadeiro. Bala perdida na rua e água sumida no hotel ― taí um buquê de boas-vindas pra turista nenhum botar defeito.

Do lado semântico
O dicionário ensina que transpor (ou fazer uma transposição) significa mudar de um lugar para outro. Não é, que se saiba, o efeito desejado. Não está nos planos do mais descabeçado de nossos dirigentes transferir as águas do São Francisco para novo leito. Tampouco o Paraíba do Sul deverá deixar de correr de São Paulo até sua foz nos Campos dos Goitacases.

Bacia do Paraíba do Sul Fonte: Agência Nacional de Águas

Bacia do Rio Paraíba do Sul
Fonte: Agência Nacional de Águas

A palavra «transposição» está sendo utilizada erroneamente. A língua oferece numerosas opções bem mais adequadas. Partição, bipartição, tripartição, subdivisão, partilha, repartição, divisão, repartimento, redistribuição são algumas delas. Há outras.

Que fazer? O descaso ― com a governança e com a língua ― parece fazer parte da paisagem do país. Não muda nunca.

Inadequação vocabular ― 5

José Horta Manzano

Como ontem, um novo artigo do Estadão voltou a me surpreender hoje. É assinado por Ricardo Brito, da sucursal em Brasília. O texto gira em torno do lugar que a homofobia deve ocupar no Código Penal Brasileiro. Mas não só. O jornalista discorre também sobre endurecimento da pena mínima para condenados por homicídio. Vamos nos concentrar na inadequação vocabular.

A expressão «criminalização da homofobia» é mencionada duas vezes, o que exclui toda eventualidade de deslize involuntário. Considero a expressão inadequada. E vou-lhes dizer por quê.

2013-1218-01 Estadão

Chamada do Estadão
18 dez° 2013

A Constituição Federal em vigor, promulgada em 1988, é estranhamente apelidada de «cidadã», o que deixa subentendido que nenhuma das anteriores o tenha sido. Não é bem assim. Mas vamos deixar esse assunto para outra ocasião. Pois bem, o Inciso IV do Art° 5 da Carta atual prevê a livre manifestação do pensamento. O Inciso VI do mesmo artigo reforça a posição do legislador. Reafirma a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença.

Homofobia é nome composto de duas raízes gregas: homo (=igual) e phobos (=medo, aversão). Etimologicamente, deveria significar o medo daquilo que é igual, mas a língua se encarregou de restringir esse helenismo ao campo sexual. Todos entendemos que homofobia é o medo de tudo o que diz respeito à homossexualidade. Aversão, horror, repulsa ― o distinto leitor pode escolher o termo de sua preferência.

Acontece que essa palavra está sendo usada inadequadamente por uma comissão especial do Senado. O artigo nos informa que o assunto em pauta é a criminalização da homofobia. Se assim for, é melhor sustar os trabalhos imediatamente, porque a Constituição garante, pelos artigos que mencionei, a liberdade de consciência e a manifestação do pensamento.

A homofobia é um sentimento, um estado de espírito, um olhar que diz respeito unicamente ao foro íntimo de cada cidadão. Cerceá-la será inconstitucional. Nem mesmo a exteriorização desse pensamento é passível de punição, dado que é expressamente permitida pela Lei Maior. Cada um é livre de cultivar sentimento homofóbico. Pode até, na medida do decoro enquadrado pela lei, manifestar seu pensamento.

A repulsa é sentimento rigorosamente pessoal. Situações, ambientes e pessoas tanto podem parecer atraentes como repulsivos, dependendo da personalidade do observador. Uma coxa de rã, uma tourada em Sevilha, uma execução pública em Teerã, um gafanhoto grelhado com molho de chocolate, uma parada gay são comidas e espetáculos que, se atraem uns, causam horror a outros. Mas estão todos dentro da lei e dos bons costumes ― de seus respectivos países, evidentemente.

Nossa Constituição não admite que o simples fato de sentir aversão por algo ou por alguém possa ser criminalizado. Portanto, inadequado será falar em criminalização da homofobia. Que se corrija. Que se fale em criminalização de atos homofóbicos.

Em termos caseiros, fica assim: pode até pensar mal, mas não vale maltratar. Pode até rogar praga, mas nunca jogue pedra na Geni.

Inadequação vocabular ― 4

José Horta Manzano

Esta chamada do Estadão deste 17 dez° 2013 me inspira duas observações. Uma tem a ver com a forma e a outra, com o fundo.

Formulação inadequada Estadão, 17 dez° 2013

Formulação inadequada
Estadão, 17 dez° 2013

A forma
Suponho que todos entendam quando o jornal apregoa que Haddad «diminui idade». Mas, convenhamos, a formulação é tortuosa. Há maneiras mais convenientes de descrever o fato. No fundo da lógica, por mais poderes que tenha, o prefeito da megalópole jamais logrará «diminuir» a idade de ninguém. Nem aumentá-la, evidentemente.

Todos dirão que «a nova estrada diminui o percurso». É forma legítima, dado que a distância entre o ponto de partida e o de chegada realmente diminuiu. Diremos também que, devido à queda de uma barreira, o percurso aumentou, ou seja, encompridou, alongou-se, obriga os viajantes a percorrer maior número de quilômetros. A forma respeita o fundo.

Já quando nos referimos a um ponto determinado do dia, do mês, do ano ou da vida de alguém, os verbos diminuir e aumentar caem mal. Veja só. Se, por uma razão qualquer, o avião que devia decolar à 8 horas tiver de decolar às 7 horas, ninguém dirá que o horário foi «diminuído». O vice-versa também vale. Se o avião das 7h sair às 8h, não vale dizer que o horário foi «aumentado».

No caso do primeiro avião, diremos que o horário foi adiantado, antecipado, avançado. No segundo caso, melhor será dizer que o voo foi atrasado, recuado, protelado. A língua oferece oportunidades múltiplas de escolher um verbo adequado.

Pois o caso da idade «diminuída» pelo prefeito segue a mesma lógica. Ao estender a cidadãos de 60 anos o benefício que já era concedido aos mais maduros, o mimo estará sendo adiantado, antecipado, avançado.

A chamada estará mais bem escrita assim: «Idade para viagem gratuita de idoso será antecipada». Todos entenderão, e a lógica agradecerá.

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O fundo
Esquecendo minúcias estilísticas, tenho, como cada um, minha opinião pessoal quanto a esse benefício. É possível que não seja compartilhada por muita gente, que cada um enxerga com seus próprios óculos.

A velhice, ainda que um marketing desjeitoso lhe tasque o horripilante e hipócrita epíteto de «melhor idade», não costuma ser o período mais agradável da vida. Longe disso.

Sensível diminuição da capacidade física, aumento da fragilidade, sentimento de insegurança são atributos ligados ao passar dos anos. Não precisava juntar mais um «benefício» que soa mais como estigma. Em princípio, o sujeito não empobrece pelo simples fato de ter envelhecido.

Que se concedam benefícios pecuniários aos necessitados, acho certo. O que me perturba é que se associe velhice a pobreza. Deve-se conceder desconto nas passagens ― até gratuidade, se esse for o desejo dos cidadãos ― a quem demonstre estar vivendo em condições financeiras precárias. Aos velhos, já lhes bastam os inconvenientes da idade. Chega a ser ofensivo pespegar-lhes automaticamente a etiqueta de necessitados.

No fundo, o ideal mesmo é que cada um possa prover dignamente a seu próprio sustento, sem depender de favores especiais da comunidade. Mas ainda temos um bom caminho pela frente até chegar lá. Não dá para antecipar, nem adiantar, nem avançar.