Os filhos da Igreja

José Horta Manzano

No tempo em que era rezada em latim, a missa era muito solene. Ninguém entendia nada do que dizia o padre, mas o rito impressionava. O único momento inteligível era a hora do sermão, quando o celebrante subia ao púlpito e fazia a pregação dominical.

Na Idade Média, época em que o falar popular não havia ainda adquirido status de língua de verdade, tanto a missa quanto o sermão eram ditos em latim. Em terras ibéricas, assim que chegava ao púlpito, o padre abria os braços e conclamava num vocativo cerimonioso: Filii Ecclesiæ! – Filhos da Igreja!. Era a forma habitual de dar boas-vindas aos presentes.

O tempo passou. Aquelas palavras, que soavam tão estranhas aos ouvidos do populacho, passaram a designar o conjunto dos que frequentavam a mesma igreja. Cada região reproduziu os sons conforme seu aparelho fonador lhe permitia. Depois de séculos de pronúncia flutuante, a formas dialetais acabaram desaparecendo, absorvidas pelo castelhano. Hoje, em espanhol e nas demais línguas faladas na Espanha, a saudação ritual ”Filii Ecclesiæ“ transformou-se em feligrés.

Já em Portugal, a pronúncia sofreu deformação maior. Como sabemos, a língua portuguesa tem um problema com a letra L. Volta e meia, ela acaba substituída por R. Como exemplo, o francês blanc e o espanhol blanco deram branco em português. Assim como: clou/clavo = cravo; plat/plato = prato; plage/playa = praia. E mais uma infinidade de palavras. A forma ibérica feligrés não foi exceção. Perdeu um L e ganhou um R. Virou freguês.

Além da deformação fonética, a antiga saudação eclesial conheceu também uma ampliação de sentido. Além de continuar designando o paroquiano, a palavra freguês passou a ser usada pra indicar os clientes de um estabelecimento qualquer. Ela tem ainda outro sentido, um tanto depreciativo. Dizemos freguês pra zombar do time de futebol que costuma perder para o nosso. Diz-se freguês também do indivíduo a quem o mesmo infortúnio acontece mais de uma vez, como aquele que é vítima de trombadinha pela enésima vez.

Com isso, os ”filhos da Igreja“ acabaram virando vítimas de assalto, quem diria! Sinal dos tempos.

Arroba

Dad Squarisi (*)

José Sarney lançou a moda. “Brasileiras e brasileiros”, saudava ele. As mulheres acharam a novidade simpática. O SBT aproveitou a onda. Pôs no ar a novela com o mesmo bordão. A partir daí, distinguir o gênero deixou de ser gesto de simpatia. Virou obrigação. “Meus amigos e minhas amigas”, dizia FHC. “Senhoras deputadas e senhores deputados”, cumprimentam Suas Excelências.

De obrigação, passou a obsessão. “Convidamos os presentes e as presentes para o coquetel”, dizem os mestres de cerimônia. “Os estudantes e as estudantes devem usar uniforme”, avisa a escola. “Senhor Paulo Silva e senhora Maria Silva”, substituiu nos convites a consagrada fórmula “Senhor e senhora Paulo Silva”.

Inovações correm soltas. “Car@s amig@s” escrevem enlouquecidos que decretaram o fim do gênero na língua. “Pessoas e pessoos”, escreveu o Millôr. “Povo e pova”, conclamou o Verissimo. “Humanidade e mulheridade”, ironizou um gaiato. “Seres humano e mulherano”, completou outro. “Mulher sapiens”, lançou Dilma.

Vamos combinar? Nesta alegre Pindorama, distinguir o feminino e o masculino não é questão de correção gramatical. Brasileiros, por exemplo, engloba homens e mulheres. Meus filhos, filhas e filhos. Os funcionários, funcionárias e funcionários. Gramaticalmente recebe nota 10. Mas, segundo as feministas, torna a mulher invisível. Com o feminino explícito, marca-se a igualdade dos dois gêneros. É questão de poder. Quem pode… aparece. Mas o exagero cansa. Ou não?

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Coringão

José Horta Manzano

Você sabia?

Corinthians 4O nome dos times de futebol mais famosos do Brasil não é inusitado nem surpreende. Botafogo, Coritiba, Santos, Flamengo, Bahia, Internacional são de origem geográfica, a categoria mais comum. Vasco da Gama, Portuguesa, XV de Novembro homenageiam personagens, comunidades, fatos históricos. Palmeiras, Cruzeiro, Atlético, Operário, Juventude são nomes fáceis de entender, que combinam com o ambiente.

Ruínas de Corinto, Grécia

Ruínas de Corinto, Grécia

Mas… Corinthians? O nome de uma das mais tradicionais equipes do esporte nacional destoa. Qual seria a origem de denominação tão fora de contexto?

Uma rápida visita ao site do clube esclarece: a inspiração veio de uma equipe inglesa da época. Os cracks do Corinthian-Casuals Foot-ball Club excursionavam pelo Brasil naquele longínquo 1910. Fascinado pelo desempenho dos visitantes, um grupo de amigos decidiu montar uma equipe.

Futebol 5O nome se inspirava no movimento esportivo renascido com os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, disputados em 1896. O foot-ball, esporte novo, se inscrevia na efervescência do momento. Corinto – Kórinthos no original – era cidade da Grécia antiga. Importante na antiguidade, a localidade continua de pé, embora não passe hoje de pequeno burgo pouco expressivo.

Corinthians 3O nome do time inglês dava a medida do espírito informal do grupo. Corinthian-Casuals pode-se traduzir por «Corintianos Despreocupados» ou «Corintianos Informais». Os discípulos nacionais guardaram a referência olímpica, mas preferiram dispensar o qualificativo. Não se consideravam, certo, tão despretensiosos assim.

Nos primeiros anos, guardou-se o costume de dizer que aquela era a equipe dos corinthianos, como poderia ser dos atenienses, dos espartanos, dos romanos, dos cartagineses. Ao referir-se à esquadra, a imprensa mencionava «os Corinthians», sempre no plural. Mas durou pouco. Com o crescimento, o nome do clube logo caiu na boca do povo como palavra singular.

Corinthians 2A notícia de bestial carnificina da qual foram vítimas, este fim de semana, torcedores do clube repercutiu na imprensa internacional. A brutalidade deu-me a ocasião de constatar que, no exterior, o nome do time ainda é entendido como queriam os idealizadores de um século atrás. O portal do grupo RTL, por exemplo, refere-se aos “supporters des Corinthians” – torcedores dos Corinthians.

É pena que, como lembrança de 1910, só o nome tenha permanecido. O ambiente ingênuo, despreocupado e festivo foi-se.