Esse negócio de direita e esquerda

José Horta Manzano

«O povo, de maneira geral, não entende esse negócio de direita e esquerda.»

Numa síntese feliz, doutor Marcio França, governador em exercício de São Paulo, matou o coelho. A entrevista saiu hoje no Estadão. Tem razão, o doutor. Enquanto em outras terras é primordial colar na testa de cada político a etiqueta do campo a que pertence, no Brasil a coisa não é tão rigorosa. Nosso panorama pluripartidário é menos rígido, bem mais ameboide.

Entre nós, o conceito de fidelidade partidária passa ao largo do Parlamento. Político que, no percurso ‘profissional’, já tiver mudado três, quatro ou cinco vezes de partido não será menos considerado que outro que tiver permanecido fiel ao primeiro amor. A fidelidade não agrega valor ao currículo de nosso homem público.

Uma foto icônica tirada faz uns cinco anos mostra doutor Haddad, um dos atuais pretendentes à Presidência, ladeado por Lula da Silva e por doutor Paulo Maluf. Sabe-se que o Lula é o símbolo maior da ‘esquerda’ brasileira, tal como a torcida caviar a enxerga. Por seu lado, doutor Maluf é, desde os anos 1970, a encarnação da adesão à ditadura, aos generais, a tudo o que, em qualquer cartilha, constitui a ‘direita’. Assim mesmo, poucos se escandalizaram com a imagem, tanto que doutor Haddad foi eleito, logo em seguida, prefeito da maior capital do País.

Tenho constatado, nestes dias que se sucedem ao primeiro turno das eleições brasileiras, grande preocupação por parte da mídia europeia. Artigos de fundo, mesas-redondas, entrevistas, debates se organizam em torno do resultado do voto de domingo passado. É unânime a opinião de que uma «maré conservadora» está lambendo as praias do país e ameaça tragar o território inteiro. É voz corrente que o Brasil se inscreve na crescente lista de países que se deixam enfeitiçar pelo canto de sereia da extrema-direita. Doutor Bolsonaro vem sendo comparado à francesa Marine Le Pen, ao italiano Matteo Salvini e até ao perigoso Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria.

Os europeus andam assustados com o crescimento de movimentos identitários, separatistas e xenófobos que pipocam por toda parte. Catalunha, Países Vascos, Itália do norte, Bélgica de fala holandesa, Escócia são regiões onde boa parte da população anseia pela independência. Movimentos independentistas somados a governos de extrema-direita compõem coquetel explosivo. Daí a preocupação que muitos sentem ao ver o Brasil descambar ‒ na análise deles ‒ para a perigosa ladeira do extremismo.

Enganam-se os que analisam dessa maneira. Se tendências extremistas há entre os dois finalistas de nossa corrida eleitoral, são mais marcadas no campo de doutor Haddad que no de doutor Bolsonaro. Para convencer-se, basta dar uma espiada no programa de governo preconizado pelo Partido dos Trabalhadores, uma proposta autoritária, estatizante, corporativista, excludente, racialista, liberticida, retrógrada. A rechaçar absolutamente.

Mas não tem jeito. Cada um enxerga o mundo através dos próprios óculos. É perda de tempo tentar ensinar a um europeu que o Brasil não é exatamente como ele imagina. E vamos em frente, que atrás vem gente.

A galega

José Horta Manzano

Você sabia?

Gaita 2Se alguém lhe perguntasse qual foi o primeiro instrumento musical estrangeiro a chegar ao Brasil depois do descobrimento, que é que você responderia? A guitarra? A flauta? A trombeta? Que nada, tá gelado!

Muitos distintos leitores hão de se surpreender com o que vem agora. O primeiro instrumento – que veio já na esquadrilha de Pedro Álvares Cabral – não foi nenhum dos que mencionei acima. Foi a gaita. Quando digo gaita, refiro-me à gaita de foles ou gaita galega, não à gaita de boca. Agora vem a prova:

Gaita 3«Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita

Fragmento da carta que Pero Vaz de Caminha, escrivão da esquadra de Cabral, enviou a El-Rey D. Manuel I para dar a boa-nova do achamento de novas terras.

Gaita 4As origens desse instrumento de sopro se perdem na poeira do tempo. Indícios de sua existência já foram encontrados até junto à tumba de faraós que viveram cinco mil anos atrás.

Ao longo dos séculos, surgiram dezenas de variedades de gaita, engenhoso instrumento de sopro. Diferentemente de seus congêneres, que dependem do sopro direto do executante, a gaita de foles dispõe de uma bolsa onde o ar fica armazenado.

Portanto, o esforço do músico para encher a bexiga não corresponde necessariamente à saída do fluxo de ar. A vantagem é que a gaita de foles é capaz de produzir som contínuo, independentemente do ritmo de respiração do instrumentista. Nenhum outro instrumento de sopro permite essa façanha.

Gaita 1Desde a Antiguidade, cada região da Europa conheceu sua versão de gaita. Hoje em dia, ela está praticamente esquecida na maioria dos países. Ainda é cultuada no mundo celta: Escócia, País de Gales, Irlanda, Bretanha (França), Galiza (Espanha), norte de Portugal.

Gaita 5O portal La Voz de Galicia dá informação curiosa. O Brasil tem uma única fábrica de gaita de foles. Ela se encontra nos arrabaldes de São Paulo e produz meia dúzia de modelos diferentes. O fabricante, artesão que conta apenas com a ajuda da esposa, é autodidata.

Construir gaita dá trabalho e leva tempo. Quem estiver interessado, tem de entrar numa lista de espera de 6 meses. Robles Luques, o artesão, sonha com o dia em que o primeiro instrumento chegado ao País se popularizará.

O momento atual assenta como luva: com a “Pátria Educadora” em ação, Robles encontrará com facilidade o encorajamento e o financiamento que lhe fazem falta. Que os anjos digam amém.

Com a Escócia

José Horta Manzano

A voz da razão prevaleceu, melhor assim. Certas coisas fazem sentido, outras, não. Não fazia sentido a Escócia apartar-se do Reino Unido. A meu ver, tirando o orgulho de ter um país pra chamar de seu, todos saíam perdendo nessa história. Sentimentos nacionalistas têm lugar e hora ― não era hora nem lugar.

Embora ache que os escoceses tenham feito a escolha certa, compreendo o anseio que certos territórios acariciam de deixar de fazer parte de determinado Estado. É o caso da Ucrânia oriental, principalmente a região de Donetsk e Lugansk. São territórios tradicionalmente povoados por russoparlantes.

Regiões europeias onde vigora sentimento separatista

Regiões europeias onde, segundo certas fontes, vigora sentimento separatista

Enquanto a União Soviética esteve de pé, pouco importava a que «república» pertencesse o território. De toda maneira, as ordens vinham de Moscou. As quinze repúblicas que formavam União estavam lá pra inglês ver. Tinham menos valor ainda que os Estados que compõem a cambaleante «federação» brasileira.

No dia em que a valente URSS se despedaçou, os problemas vieram à tona. Os russos, que formam a maioria dos habitantes de certas regiões da Ucrânia, tornaram-se, da noite para o dia, estrangeiros. Está aí a semente da briga atual.

É compreensível que os países europeus se unam na defesa das atuais fronteiras russo-ucranianas, ainda que, artificiais, elas não respondam a critérios étnicos e linguísticos. Se abrirem exceção para o leste ucraniano, estarão abrindo as comportas para reivindicações identitárias e independentistas dentro de suas próprias fronteiras. E a Europa está polvilhada por regiões, grandes ou pequenas, que sonham em ser países autônomos.

Regiões europeias onde vigora sentimento separatista

Regiões europeias onde, segundo outras fontes, vigora sentimento separatista

O Norte da Itália tem anseio de tornar-se independente. O novo Estado já tem até nome: Padânia, em alusão ao Rio Po, coluna dorsal da região. Córsega, País Vasco, Catalunha, Tirol do Sul, Transnístria são territórios que, há tempos, reivindicam independência ou autonomia.

A força do sentimento secessionista em cada região varia segundo as fontes. Mas é compreensível que, uma vez abertas as porteiras, a manada tenda a estourar. No fundo, foi bom que os escoceses tenham sido comedidos. Mais vale não bulir com gato que está dormindo.

Com ou sem a Escócia?

José Horta Manzano

Você sabia?

UK sem Escócia

UK sem Escócia

Neste momento em que os habitantes da Escócia estão decidindo, pelo voto, se querem continuar membros do Reino Unido ou se preferem seguir caminho separado, convém lançar uma vista d’olhos a alguns aspectos da questão.

Para começar, vamos lembrar que a mui fotogênica bandeira do Reino Unido é formada pela superposição de três símbolos nacionais: a Cruz de São Jorge (que representa a Inglaterra), a Cruz de Santo André (emblema da Escócia) e a Cruz de São Patrício (que simboliza a Irlanda). O esquema é este aqui:

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Caso o sim seja majoritário e os escoceses (re)conquistem a independência perdida séculos atrás, o Reino Unido será amputado de alguns símbolos fortes. Alguns deles:

A bandeira
Pela lógica, a Cruz de Santo André ― o azul da bandeira ― deverá ser apagado. O novo lábaro perderá seu charme. Ficará assim:

Union Jack sem Escócia

Union Jack sem Escócia

James Bond
Sean Connery, que estrelou os primeiros filmes do célebre agente secreto britânico, é escocês. E se orgulha disso. Prova é, que milita num partido nacionalista escocês. James Bond passará a fazer parte do inconsciente coletivo de outro país, não mais do Reino Unido.

Personagens famosos
Outra pessoas famosas, que a gente costuma considerar «inglesas», são, na verdade escocesas.
Interligne vertical 10Andy Murray, tenista
Jackie Stewart, legendário piloto de Fórmula I
Alex Ferguson, treinador e ícone do futebol britânico
Sir Robert Watson-Watt, inventor do radar
Lord Kelvin, físico que deu nome à Escala Kelvin
Adam Smith, pai da moderna Economia
David Hume, filósofo
Alexander Fleming, descobridor da penicilina
Tony Blair, antigo primeiro-ministro do Reino Unido
Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes
Jimmy Clark, piloto de Fórmula I

Johnnie Walker
A marca legendária do uísque iria por água abaixo ― ou por uísque abaixo(*). Não só o Johnnie, mas todo o prestígio da bebida escocesa por excelência.

O pico
O pico mais elevado do Reino Unido (na Europa) está na Escócia. É o Monte Ben Nevis, de cerca de 1350m de altitude. O Reino Unido verá sua altitude rebaixada.

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E olhe lá: isso tudo sem mencionar que a quase totalidade das reservas britânicas de petróleo se encontram em águas escocesas. Aí, sim, vai doer no bolso. Enfim, eles, que são britânicos, que se entendam. Visto assim de longe, parece briga de somenos importância. E acho que é.

Interligne 18c(*) Observação etimológica
O termo whiskey/whisky é redução da expressão gaélica uisge beatha, que significa «água de vida». Uisge/uisce é água nas línguas celtas.
Supõe-se que a expressão seja um decalque do latim medieval aqua vitae. Confronte-se com o francês moderno eau de vie, com o italiano acquavite, com o escandinavo aquavit.