Os sem-passaporte

José Horta Manzano

Quando a situação se torna insustentável a ponto de o cidadão não ver outra saída senão abandonar a terra natal, surge a dúvida: para onde ir? Por razões culturais, políticas, linguísticas ou histórico-geográficas, cada povo tem preferências que lhe são próprias.

A maioria dos brasileiros, independentemente de origem étnica ou posição social, tende a olhar direto para os Estados Unidos. Faz um século que é assim. Por mais que Mr. Trump se aplique a desconstruir a imagem do país, os EUA continuam a ser vistos como terra prometida. Descendentes de japoneses, por seu lado, costumam ver na terra dos ancestrais um porto seguro. Há também conterrâneos nossos que se espalham por Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Portugal e tantos outros destinos.

Não é segredo para ninguém que a Venezuela atravessa o pior momento de sua história. Tirando a franja ligada à ditadura, a população pula miudinho. Ricos e pobres pelejam contra inflação de quatro algarismos, falta de alimentos e de remédios, altíssima taxa de desemprego, criminalidade. À vista de ingredientes tão explosivos, não espanta que haja mães entregando filhos a quem se dispuser a alimentá-los. Coisa de deixar de cabelo em pé.

Venezuelanos também sentem atração pelos Estados Unidos, mas não só. Por razões históricas e linguísticas, enxergam a Espanha e a América hispânica com simpatia. As estimativas atuais dão conta de que 250 mil deles elegeram a Espanha como lugar para iniciar vida nova. A América de fala espanhola tem a preferência de quase 800 mil venezuelanos, dos quais meio milhão se encontram na vizinha Colômbia. O total de expatriados beira 5% da população. É como se dez milhões de brasileiros tivessem optado pela emigração, uma enormidade.

Para acentuar o calvário de nossos vizinhos do norte, várias máfias se jogam sobre os infelizes como urubus sobre carniça. Uma das mais ativas é a que controla a emissão de passaportes. Agem de forma covarde e pra lá de maldosa. Para deixar o país, precisa ter passaporte, não é? Pois então, vamos assaltar os que buscam obter o documento ‒ pensam eles.

No serviço de emissão de passaportes situado na região leste de Caracas, age uma quadrilha de funcionários corruptos que extorquem milhares de dólares dos candidatos a obter o ansiado documento. Num país falido, o negócio é altamente rentável. Quem não quiser pagar, simplesmente não vai conseguir o documento. Pela via oficial, seu passaporte vai demorar mais de ano pra ficar pronto. Se vier um dia.

Coisa parecida acontece com venezuelanos residentes no exterior. Quando se dirigem ao consulado para renovar o passaporte, recebem a terrível notícia: a renovação é impossível. Por quê? As desculpas variam: pode ser por falta de papel, por falta de tinta, por falta de vontade, por falta de vergonha.

Desconfia-se que señor Maduro tenha dado ordem para impedir que expatriados retornem ao país. Cidadãos que vivem no exterior, menos expostos à demagogia oficial, tendem a se posicionar contra a ditadura vigente. Se dispuserem de passaporte, perigam voltar à pátria e votar contra o tiranete nas eleições que devem ocorrer em breve. Melhor mantê-los longe.

Ao fim e ao cabo, com passaporte vencido, os venezuelanos expatriados se veem em situação delicada. Ainda que se encontrem em situação regular no país em que vivem, a falta do documento lhes causa problemas no dia a dia. Ficam impedidos, por exemplo, de renovar visto de permanência, de encontrar emprego, de conseguir casa pra morar. Vê-se que, em ditaduras, o povo não passa de massa de manobra a serviço da nomenklatura.

Tinha razão o Lula presidente quando, ao assinar acordo entre a Petrobrás e a estatal venezuelana de petróleo, declarou que a Venezuela tinha «democracia em excesso». Sábias palavras de um visionário.

Matéria-cinza

José Horta Manzano

Tem notícias que parecem primeiro de abril. Esta de ontem entra na coleção: a entrega de passaportes está atrasada por falta de matéria-prima.

A previsão de normalização? Não, distinto leitor, não é para a semana que vem. Se tudo correr bem, lá pelo meio do ano voltamos à rotina. Daqui a três meses, se tudo der certo.

Chamada do Estadao, 25 abr 2016

Chamada do Estadao, 25 abr 2016

Uma mente maliciosa poderia até entender que, de tanto despachar gente fina para o exterior, anda faltando matéria-prima humana, daí a suspensão da emissão de documentos de viagem. Já não sobrou ninguém para expatriar.

Santo Erasmo

Santo Erasmo de Formia

Sabemos que não é isso. Se pudessem, muitos brasileiros, envergonhados com a baixeza onipresente, se mandariam definitivamente para a Florida. Por que Florida? Porque lá faz calor e nossos conterrâneos receiam o frio, ora.

Bem, se a matéria-prima faltante não é massa cinzenta, há de ser papel. Estou começando a sentir um cheirinho de Venezuela. Lá também começou assim, com falta de papel fino. O nível foi baixando e terminou faltando… papel higiênico.

Valei-nos, Santo Erasmo (≈253 ‒ ≈303), venerado protetor dos que padecem cólicas intestinais!

O rádio e a taxa – corrigenda

José Horta Manzano

Não é de hoje que a inventividade brasileira é sufocada no nascedouro por falta de incentivo. Desde que o golpe encabeçado pelo marechal Deodoro destronou o imperador e desterrou toda a família, a criatividade dos brasileiros passou a ter mais dificuldade para eclodir.

Padre Landell de Moura

Padre Landell de Moura

Para desenvolver seu talento, nossos conterrâneos mais dotados – cientistas, atletas, artistas – terão muito mais chance se se transferirem ao exterior. Em solo pátrio, a probabilidade de desabrochar é escassa.

A não ser, evidentemente, que o interessado se faça acolher sob asas oficiais, como fez um certo senhor cujas empresas terminavam com um X. Em casos assim, o sucesso pode ser fulgurante. A derrocada também. Mas essa é já é uma outra história, que fica para uma outra vez.

Faz alguns dias, postei um artigo sobre as taxas que se costumam cobrar dos cidadãos na Europa pelo direito de receber emissões radiofônicas e televisivas. Eu sabia que as primeiras emissões regulares e organizadas de rádio tinham ocorrido nos anos 1920. Para complementar meu parco conhecimento do assunto, procurei me informar.

Num desses sites aos quais a gente recorre quando nos escapa um nome ou um detalhe, encontrei não só a data exata da primeira emissão de rádio, mas também o lugar onde foi gerada: 28 de março de 1914, no Palácio de Laeken, Bélgica. Reproduzi a informação.

Uma atenta e fiel leitora acaba de me puxar a orelha. Zeza Loureiro, coordenadora do prestigioso Portal dos Jornalistas, conhece o assunto bem melhor que eu. Contou-me que, bem antes da experiência belga, já havia ocorrido a primeira transmissão sem fio da voz humana. Adivinhem onde? Exatamente: foi no Brasil.

Landell 2Faz tempo que o jornalista Eduardo Ribeiro, figura maior da Editora Jornalistas & Cia, e o historiador e jornalista Hamilton Almeida batalham para divulgar fato interessantíssimo, do qual, tenho certeza, muitos nunca ouviram falar. Incansável, Hamilton já escreveu quatro livros sobre o assunto.

Pois saibam meus distintos leitores que, quinze anos antes da experiência belga, o padre porto-alegrense Roberto Landell de Moura já havia levado a cabo, em São Paulo, a primeira transmissão de voz. Foi exatamente dia 16 de julho de 1899. E olhe que a experiência não teve lugar no escurinho de um laboratório, não, senhor: foi em público, na presença de empresários, professores, cientistas, jornalistas. Foi um padre arteiro, sim, senhor!

Pronto, está feito o reparo. A cada um o que é de cada um.

Radio 7Em matéria de prestígio a talentos nacionais, a gente fica com a desagradável impressão de que, desde que o golpe militar de 1889 impôs o regime republicano, nunca mais apareceu mandatário à altura do imperador escorraçado.

Dou-lhes um só exemplo: não fosse o amparo visionário que Dom Pedro II ofereceu ao jovem Antônio Carlos Gomes, o músico campineiro teria passado a vida tocando no coreto provincial. Não seria reconhecido hoje como o maior compositor lírico das Américas. De 125 anos pra cá, muita coisa mudou no Brasil. Umas melhoraram, enquanto outras…

Vamos deixar pra lá. Dias mais razoáveis hão de vir. Espero.