Coringão

José Horta Manzano

Você sabia?

Corinthians 4O nome dos times de futebol mais famosos do Brasil não é inusitado nem surpreende. Botafogo, Coritiba, Santos, Flamengo, Bahia, Internacional são de origem geográfica, a categoria mais comum. Vasco da Gama, Portuguesa, XV de Novembro homenageiam personagens, comunidades, fatos históricos. Palmeiras, Cruzeiro, Atlético, Operário, Juventude são nomes fáceis de entender, que combinam com o ambiente.

Ruínas de Corinto, Grécia

Ruínas de Corinto, Grécia

Mas… Corinthians? O nome de uma das mais tradicionais equipes do esporte nacional destoa. Qual seria a origem de denominação tão fora de contexto?

Uma rápida visita ao site do clube esclarece: a inspiração veio de uma equipe inglesa da época. Os cracks do Corinthian-Casuals Foot-ball Club excursionavam pelo Brasil naquele longínquo 1910. Fascinado pelo desempenho dos visitantes, um grupo de amigos decidiu montar uma equipe.

Futebol 5O nome se inspirava no movimento esportivo renascido com os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, disputados em 1896. O foot-ball, esporte novo, se inscrevia na efervescência do momento. Corinto – Kórinthos no original – era cidade da Grécia antiga. Importante na antiguidade, a localidade continua de pé, embora não passe hoje de pequeno burgo pouco expressivo.

Corinthians 3O nome do time inglês dava a medida do espírito informal do grupo. Corinthian-Casuals pode-se traduzir por «Corintianos Despreocupados» ou «Corintianos Informais». Os discípulos nacionais guardaram a referência olímpica, mas preferiram dispensar o qualificativo. Não se consideravam, certo, tão despretensiosos assim.

Nos primeiros anos, guardou-se o costume de dizer que aquela era a equipe dos corinthianos, como poderia ser dos atenienses, dos espartanos, dos romanos, dos cartagineses. Ao referir-se à esquadra, a imprensa mencionava «os Corinthians», sempre no plural. Mas durou pouco. Com o crescimento, o nome do clube logo caiu na boca do povo como palavra singular.

Corinthians 2A notícia de bestial carnificina da qual foram vítimas, este fim de semana, torcedores do clube repercutiu na imprensa internacional. A brutalidade deu-me a ocasião de constatar que, no exterior, o nome do time ainda é entendido como queriam os idealizadores de um século atrás. O portal do grupo RTL, por exemplo, refere-se aos “supporters des Corinthians” – torcedores dos Corinthians.

É pena que, como lembrança de 1910, só o nome tenha permanecido. O ambiente ingênuo, despreocupado e festivo foi-se.

Coerência no futebol

José Horta Manzano

Panico 1Outro dia, ao perder para a Alemanha por 7 a 1, nossa equipe nacional de futebol deu susto em todo o mundo. Nem o mais ousado dos videntes, nem o mais pernudo dos polvos teria previsto placar tão elástico.

É difícil encontrar explicação. Quando sobrevém um acontecimento fora de toda previsão e de todo controle, costumamos falar em acidente. Foi a palavra mais utilizada para descrever a hecatombe.

Os ingleses se referiram ao fato como mishap. Os franceses tanto usaram mésaventure como accident de parcours. Quanto aos italianos, deram preferência a disavventura. E os espanhóis disseram percance.

Bom, isso valeu para o 7 a 1. Assim como raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar, a segunda derrota seguida da Seleção muda o cenário.

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

O fato de o «scratch»(*) nacional perder de goleada dois jogos consecutivos ― em Copa do Mundo jogada em casa! ― já não se encaixa mais no departamento de acidentes. Os bilhões de telespectadores que assistimos aos lances principais desta Copa estamos a nos perguntar se os termos da explicação não estariam invertidos.

Sim, agora tudo parece indicar que, se acidente houve, foi o resultado dos primeiros jogos da Seleção. Agora dá pra entender o que estava por detrás daquelas vitórias sofridas, estreitinhas, acudidas por pênaltis inexistentes, resolvidas na loteria do tiro ao alvo e salvas por bolas na trave.

Passarinho 2Pensando bem, até que há lógica nisso tudo. Nosso país, por decisão de seus perspicazes e ilibados líderes, caminha em marcha forçada para se tornar uma Venezuela. Nessa perspectiva, dispor de equipe nacional de futebol de padrão Fifa não combina. A lógica elementar exige que nosso futebol se aproxime do padrão bolivariano.

É o que está acontecendo. É coerente e faz sentido.

Interligne 37l

(*) Scratchera um dos nomes que se dava ao grupo de jogadores selecionados para representar o futebol do País. Falo do tempo em que o Brasil era respeitado em campo. Falo daquela época em que a simples visão de uma camisa amarela fazia qualquer adversário engolir em seco.