Eleição eletrizante

José Horta Manzano

Urna 5Você, que achou que a diferença de votos entre Dilma e Aécio no segundo turno da última eleição foi apertada, ficaria excitadíssimo com o que está acontecendo no Peru. A coisa por lá anda eletrizante.

Já faz alguns anos que o país vizinho, à semelhança do Brasil, instituiu o sistema de dois turnos de votação para escolher o presidente do Executivo. A excelente lição vinda da França foi adotada em boa hora.

Domingo passado, realizou-se o segundo turno. Pois imagine que, até a noite de terça-feira, contabilizados 99,1% dos votos, ainda não era possível afirmar qual dos dois candidatos era o vencedor. Diferença de pouco mais de 50 mil votos os separava. Aritmeticamente, nenhum deles podia se proclamar ganhador.

2016-0608-01 La RepublicaFalta ainda apurar o voto dos peruanos do estrangeiro. Aparentemente transportados em canoa a remo, os boletins só devem chegar a Lima pelo fim desta semana. Vai ser necessário contar até a última cédula para para ter certeza. De todo modo, voto no papel é mais confiável que voto virtual, que vigora no Brasil. Caso haja dúvida, é sempre possível recontar.

A vitória será apertada. O desenlace vai deixar marcas e exigirá, do vencedor, gestos concretos de apaziguamento. Sem ser especialista em política peruana, fiquei reconfortado com a declaração de um dos candidatos ‒ Pedro Pablo Kuczynski, PPK para os íntimos. Por sinal, é considerado pelos institutos de pesquisa como virtual vencedor.

Lima, Peru

Lima, Peru

Em declaração reproduzida pelo periódico El Comercio, señor Kuczynski foi incisivo: «Nuestra posición sobre Venezuela es absolutamente categórica. Ha habido una elección que la ganó el partido de oposición y ahora el gobierno está usando artimañas para invalidar el voto popular» ‒ Nossa posição sobre a Venezuela é absolutamente categórica. O partido de oposição ganhou a eleição, e agora o governo está usando artimanhas para invalidar o voto popular.

Nem o Itamaraty de Serra, que tenta desamarrar a política externa indigente herdada do finado governo, chegou a ser tão claro, tão visceral e tão contundente com relação à truculência imposta por señor Maduro a seu castigado povo.

As boas intenções do quase presidente do Peru, por si, não serão suficientes para inflectir o desvario dos mandatários de Caracas. Mas darão contribuição certeira para trazer de volta a civilização ao continente.

Europa e Brasil: parceria contestada

José Horta Manzano

Como todo agrupamento de gente que bota os miolos pra tabalhar, também o Parlamento Europeu é percorrido por correntes de pensamento diversas e muitas vezes divergentes. Os 751 componentes vão desde os que sentem saudades de Mussolini até os que gostariam de ressuscitar Stalin. Entre esses extremos, todos os matizes da política estão presentes.

Faz anos que o Brasil ‒ atado ao Mercosul ‒ tenta conseguir regime de parceria preferencial com o bloco europeu. A lentidão da negociação deve-se a corpo mole de ambos os lados. Do lado nosso, é aquela bagunça que se conhece: querelas entre Brasil e Argentina, suspensão do Paraguai, entrada perturbadora da Venezuela, ideologização do grupo.

Parlamento europeu

Parlamento europeu

Do lado europeu, o interesse pela negociação é escasso. As exportações brasileiras para a Europa constituem-se basicamente de produtos agrícolas. A Europa, embora nem todos se deem conta, é grande e tradicional produtor agrícola. Até frutos tropicais vêm sendo produzidos nas redondezas. Com sucesso.

Temos hoje bananas das Canárias (Espanha) e da Martinica (França). Abacates são israelenses ou espanhóis. Laranjas e outros cítricos vêm da Itália e da Andaluzia. Come-se arroz italiano, tailandês ou americano. Vagem, hortaliças e feijão são cultivados na Lombardia. A Holanda, apesar da alta densidade populacional, encontra espaço para ser o maior fornecedor de tomates e pimentões do continente. Não sobra muito para o Brasil exportar além da gabiroba e outros produtos de minguada demanda. Estou exagerando, mas não muito.

Chegou ontem intrigante notícia. Um grupo representando pouco menos de 5% dos deputados do Parlamento Europeu apresentou moção exigindo que as negociações entre a UE e o Mercosul sejam suspensas. Os peticionários, figurinhas carimbadas da assembleia, argumentam que o afastamento de Dilma Rousseff seja sinal de um golpe urdido por parlamentares corruptos.

Parlamento europeu

Parlamento europeu

A meu ver, a petição tem motivação complexa. Há numerosos ingredientes nesse molho. Por trás da moção, há parlamentares alinhados com a extrema esquerda ‒ gente que, apesar de já ter deixado pra trás a juventude, conservou os ideais incendiários dos anos 70. Há também apoio conivente dos grandes produtores agrícolas europeus ‒ com a França na linha de frente ‒ que não veem no Brasil uma solução, mas um sério concorrente.

Há ainda os maria vai com as outras, aqueles que enxergam os acontecimentos brasileiros como quem observasse um golpe de Estado na Birmânia. Tanto faz como tanto fez. Afinal, para um parlamentar da Estônia ou da Eslováquia, pouco interessa o que estiver acontecendo em Brasília, desde que o tomate continue a lhe ser servido na salada. Situa-se nesse grupo a esmagadora maioria dos parlamentares. Não têm visão exata do que ocorre na política brasileira.

É precisamente aí que entra a necessidade de o Brasil acionar lobby ativo junto ao Parlamento Europeu. A ação do chanceler Serra é um começo promissor. Esclarecer, explicar, insistir, convencer ‒ eis a chave que poderá abrir o mercado. A suspensão forçada do Paraguai para permitir a entrada fraudulenta da Venezuela no Mercosul, quatro anos atrás, não comoveu a UE. Mais que isso, diante do evidente atropelo dos fundamentos da democracia venezuelana, não se ouve um pio dos europeus. Como é possível que uma mudança de governo clara e dentro das regras, como a que ocorre no Brasil atual, possa ser contestada?

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

A movimentação proativa do atual governo brasileiro está na direção certa e deve ser intensificada. Se a decisão for deixada unicamente nas mãos da UE, a parceria privilegiada com o Brasil periga não se concretizar tão cedo. Será que estaríamos dispostos a contribuir para exterminar o futuro?

Visto de cá, visto de lá

José Horta Manzano

PoteauVisto de cá
Nossos conterrâneos roraimenses vivem no único Estado da Federação apartado da rede elétrica nacional. Por motivos que vêm de longe, um convênio entre Brasília e Caracas prevê que as necessidades elétricas de Roraima sejam supridas pela Venezuela.

O acerto funcionou enquanto certa normalidade reinava no país vizinho. As necessidades energéticas roraimenses não sendo enormes, o fornecimento não costumava gerar problema para os venezuelanos.

Desde que o viés populista ‒ dito «bolivarianismo» ‒ passou a dar as cartas no país caribenho, a situação começou a desandar. Desvios de recursos e sucateamento da infraestrutura provocaram desorganização geral. A energia elétrica destinada a Roraima não escapou dos efeitos do desmonte.

O portal Ecoamazônia nos informa sobre o aperto por que vem passando o meio milhão de habitantes do Estado do Norte brasileiro. Transformaram-se em reféns da crise venezuelana. Estão submetidos ao mesmo racionamento que castiga os hermanos.

Monte Roraima

Monte Roraima

Residências, escritórios, fábricas, cinemas, sorveterias, lavanderias e todos os que dependem da energia elétrica estão contabilizando dores de cabeça e perdas financeiras. Enquanto tudo funcionava, ninguém se preocupou. Agora que os apagões se multiplicam, fica evidente a falta de visão dos que tomaram a decisão de se submeter à dependência estrangeira.

Rede de distribuição não se constrói em 24 horas. Por um bom tempo, nossos conterrâneos ainda hão de sentir os efeitos daninhos de uma escolha pela qual não são responsáveis. Ainda que Roraima não seja um Estado de excepcional importância econômica na União, seus habitantes merecem, como todos os outros, ser bem tratados. Chegou a hora de investir na interligação com a rede nacional.

Interligne 18c

Roraima 2Visto de lá
Artigo deste 8 de maio do diário venezuelano El Impulso grita: «Venezuela regala a Brasil electricidad de venezolanos». Na visão de nossos vizinhos, a eletricidade que lhes falta está sendo «dada de presente» ao Brasil.

Reclamam que, enquanto vende energia ao Brasil por preço irrisório, a Venezuela compra eletricidade da Colômbia pelo dobro do valor. Não sou especialista no assunto. No entanto, entendo que trato é trato. Se o preço combinado foi esse, combinado está. Aliás, se alguém não está cumprindo a obrigação no presente caso é justamente a Venezuela.

Viva o bolivarianismo!

Fiasco continental

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° maio 2016

Faz cinco séculos que as Américas portuguesa e espanhola se estranham. Na linha de fronteira que corria imprecisa por entre igarapés, pantanais e outros ermos, a ausência de contacto físico apartava lusos e castelhanos. Conviviam em paz relativa, embora sempre de costas uns para os outros, mais ou menos como irmãos brigados.

O ponto de encontro e de atrito maior sempre se situou na região Sul e nos entornos do Rio da Prata. Terra boa, gente pouca e clima ameno atraíram a cobiça dos colonizadores. A criação um tanto forçada da República do Uruguai foi concebida justamente para erigir estado-tampão entre os castelhanos e as antigas províncias lusas.

Assim mesmo, a desconfiança continuou. Não só persistiu mas acirrou-se à medida que Brasil e Argentina se fortaleciam, cada um por sua conta. No século XX, quando ditaduras assolaram ambos os países, a mútua suspeição atingiu o paroxismo. O cenário imaginado por dez entre dez generais de lá e de cá era um só: a iminência de guerra fratricida.

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Redevolvido o poder aos civis, os dois países se deram conta de que o mundo havia mudado. Estava chegada a hora de acabar com o belicismo e de enterrar o machado de guerra. Afinal, governos passam, gente nasce e morre, mas Brasil e Argentina estão condenados a continuar vizinhos ad aeternum.

Empunhando uma cuia de chimarrão à guisa de cachimbo da paz, Sarney e Alfonsín plantaram a semente do futuro Mercosul. A fundação propriamente dita só viria anos mais tarde, com a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991. No começo, a ideia era aproximar Brasil e Argentina. A incorporação do Paraguai e do Uruguai foi acessória, acréscimo pouco oneroso ao plano originário. A ideia da aproximação era boa, sem dúvida. Contudo, não foi levada adiante com maestria. A aliança se encharcou, por cacoete, de toda a burocracia ibérica tradicional. Desde o início, a importância dos considerandos superou, em muito, a dos finalmentes.

Assim mesmo, a instituição funcionou mal e mal até o advento do kirchnerismo lá e do lulopetismo cá. A partir de então, a coisa desandou de vez. A ambiciosa «união alfandegária» transformou-se em foro caricato de verborreia populista. A entrada ‒ pela porta dos fundos ‒ da bolivariana Venezuela foi a gota d’água, a consumação da débâcle.

Alfandega 1Aos trancos, o Mercosul completou o primeiro quarto de século esta semana. Ficou combinada a comemoração em Montevidéu. Esperava-se a presença prestigiosa do chefe de Estado de cada país-membro. Pois tirando o anfitrião uruguaio, nenhum presidente compareceu ao encontro. Nenhum! Foi demonstração cabal da insignificância do bloco, um fiasco de dimensões continentais.

Só não vê quem não quer: em 25 anos, nenhum acordo comercial significativo foi concluído com parceiros externos. Num evidente desvirtuamento de funções, as cúpulas vêm sendo politizadas. Outros blocos comerciais, longe de ser vistos como parceiros potenciais, são tratados como adversários. O exemplo mais recente de picuinhas que tomaram o lugar de tratativas proveitosas ocorreu durante a comemoração desta semana. Além do desprestígio gerado pela ausência dos presidentes convidados, a cúpula foi palco de embate digno de tumultuosa reunião de condomínio.

Embora nossa presidente não tenha dado o ar da graça, uma delegação de 20 parlamentares brasileiros compareceu. Num comportamento primitivo, os organizadores quiseram deixar patente seu desagrado com o processo de destituição que corre contra Dilma Rousseff. Para tanto, designaram, para a alentada delegação brasileira, uma fila de cadeiras situada ao fundo da sala. Trataram, assim, sócios fundadores como se não passassem de meros observadores, quase estranhos no ninho.

Parlasur Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Parlasur
Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Irritados com a ofensa, 17 dos 20 deputados brasileiros viraram as costas e abandonaram a cerimônia. Só permaneceram três estoicos parlamentares, decerto mais comprometidos com o Planalto. Pelos tempos que correm, não é delírio supor que a manobra tenha sido soprada justamente por autoridades ligadas ao Executivo brasileiro. É conhecido o ressentimento nutrido por certos assessores presidenciais obstinadamente apegados a ideologias empoeiradas.

Como se costuma dizer em ocasiões assim, chegou a hora de «discutir a relação». O Mercosul, do jeito que está, se exauriu. O bloco econômico se politizou e se afastou das funções para as quais foi criado. Que se retomem os objetivos originários. Ou que se apague o letreiro, se desmonte o picadeiro e se desarme o circo.

Feriado bolivarianista

José Horta Manzano

Petroleo 1Desde que o desvario bolivarianista deu início ao desmonte da Venezuela, nossos infelizes vizinhos passaram a viver sob perfusão.

Médicos, remédios e espiões vieram de Cuba. Do Brasil, veio esteio político e não seria espantoso se fosse um dia revelado que até auxílio financeiro tenha sido providenciado com nosso dinheiro público. A Rússia forneceu aviões e armamento.

Bem ou mal, o país foi levando, embalado por bravatas e amordaçado por repressão e cerceamento. Mas as coisas mudam com o tempo. No caso particular da república bolivariana, a evolução foi brutal. O barateamento do preço do petróleo, única fonte de renda do país, arruinou as finanças. Fanfarronices deixaram de sustentar ilusões.

A Rússia, que também tira da exportação de petróleo boa parte de seu sustento, também sofreu. Seu desempenho como padrinho da Venezuela apequenou-se.

Cuba, como se sabe, foi convidada pelo Grande Irmão do Norte a voltar a fazer parte da comunidade das Américas. Os bondosos irmãos Castro, que esperavam por isso havia meio século, não se fizeram rogar. Entre Venezuela e EUA, não hesitaram.

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Quanto ao Brasil, a cúpula política está preocupada em salvar a própria pele e escapar à prisão. Sobra pouco tempo para pensar em socorrer hermanos em dificuldade.

O resultado está aí: o país vizinho está à míngua, cada vez mais devagar, quase parando. A última novidade, não fosse trágica, seria quase engraçada: as semanas venezuelanas ganharam mais um dia de folga. A partir de agora, as sextas-feiras passam a ser dias feriados. Farão companhia aos sábados e aos domingos. Está instituída a semana de quatro dias.

Vela 1Fosse prodigalidade de um Estado rico, seria até novidade bem-vinda. Mas não é. A razão da paralisação do país três dias por semana é a escassez de energia elétrica e de água. Quando se sabe que a Venezuela está entre os maiores produtores de petróleo do planeta, tem-se a medida do descalabro criado por iluminados governantes.

Quatro fontes são as principais responsáveis pela produção de eletricidade: o petróleo, a energia nuclear, o carvão e a energia hidroelétrica. Na Venezuela, o petróleo é abundante. Mas requer investimento em infraestrutura de refino e de transmissão, fatores descurados estes últimos anos. O resultado está aí: com matéria prima para dar e vender, nossos vizinhos são obrigados a deixar de trabalhar e a espantar, com luz de vela, a escuridão.

Bravatas e desleixo costumam ter efeito desastroso.

Tenemos que salvar a Brasil

José Horta Manzano

Dilma e EvoA degringolada do regime instalado no Planalto enche de esperança oito em dez brasileiros. Se, para vencer, bastasse torcer, o jogo estaria jogado.

Naturalmente, o surgimento de vencedores pressupõe a existência de perdedores. De cabelo em pé, políticos, apadrinhados, apaniguados & congêneres têm perdido o sono com a perspectiva de orfandade iminente e inexorável.

Preocupados que estamos com os acontecimentos nacionais, nem sempre nos damos conta de que a onda de choque atravessa fronteiras. Do outro lado da cerca, nossos vizinhos nos observam com especial atenção. Exatamente como ocorre quando elefante visita loja de porcelana, uma mexida “del gigante de Latinoamérica” faz tremer todo o continente.

Nosso hermanos, surpresos com a evolução acelerada da crise brasileira, têm reações contrastadas. Enquanto Argentina e Chile mantêm atitude reservada, outros governos são mais explícitos.

Dilma e MaduroSeñor Mujica, antigo presidente do Uruguai, acredita «que Lula é inocente e que o querem castigar». Evo Morales, aquele que gostaria de se eternizar na presidência da Bolívia, requereu que a organização Unasur realize com urgência uma reunião de cúpula para «defender la democracia en Brasil, para defender a Dilma, para defender la paz, para defender al compañero Lula y a todos los trabajadores».

Señor Maduro, caudilho da Venezuela, é o mais preocupado de todos. Não bastasse estar sendo acossado por um povo cansado, empobrecido e desiludido, ainda tem de conviver com o irremediável afastamento de Cuba, a antiga ilha compañera, atraída irresistivelmente por Obama.

Lula e ChavezNa assembleia de Caracas, o (enfraquecido) bloco chavista denuncia o «golpe de Estado» que se prepara no Brasil e dá apoio a Dilma e a Lula. Como de costume, estão convencidos de que os imperialistas norte-americanos, inimigos de sempre, estão por detrás dessa trama.

A políticos bem-intencionados, como o uruguaio Mujica, pode-se conceder a escusa de não estar a par dos meandros do que acontece no Brasil. Por seu lado, figurões como Morales e Maduro têm outra motivação. Abalados por percalços e derrotas recentes, veem com desespero o desmoronamento do regime lulopetista. Sabem que serão atingidos pelas ondas de nosso tsunami nacional. E que dificilmente sobreviverão.

O recado está dado

José Horta Manzano

Antes de tomar uma ação incisiva, daquelas que não deixam possibilidade de retorno, a gente costuma soltar um balão de ensaio. É como na hora de atravessar um riacho ‒ a gente pisa cada pedra com cuidado, até encontrar o caminho seguro, o caminho das pedras.

Nas recentes eleições gerais, o povo venezuelano deixou clara sua preferência. De cada três eleitores, dois deram seu voto a candidato antichavista. Isso foi algumas semanas atrás. Se votassem de novo hoje, vista a vertiginosa degradação da economia, era bem capaz de a derrota do regime ser mais acachapante.

Congresso venezuelano, Caracas

Congresso venezuelano, Caracas

Apesar dos esperneios e das firulas de señor Maduro e seus áulicos, a nova maioria sente-se cada dia mais forte. Sabe que tem respaldo popular. O regime bolivariano está com os dias contados. Fruta podre não se aguenta muito tempo no galho ‒ mais dia, menos dia, acaba no chão.

A nova assembleia de Caracas ‒ que não convém mais chamar de oposição, tão alentado é o número de deputados ‒ tem como objetivo encerrar os considerandos e partir para os finalmentes.

Antes de agir, estão consultando, como se deve. Não há que temer desagradar ao governo de países adiantados. Europa e EUA verão com bons olhos a saída de cena dos compañeros bolivarianos. Quanto aos vizinhos, não se imagina que Colômbia, Peru, Chile ou Argentina se incomodem com o afastamento de Maduro & companhia.

Mas… ai, ai, ai… falta o Brasil. Maior economia da região e apoiador desabrido do populismo instaurado por Chávez, o Planalto pode se vexar. Risco de guerra atômica não há, mas o bom senso recomenda concórdia e paz entre vizinhos. Como reagirá Brasília a uma reviravolta em Caracas?

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Na minha opinião, dona Dilma e todos os que a cercam estão mais é preocupados em esquivar acusações e afastar o risco de ser levados algemados. Os deputados antichavistas sabem disso, mas, assim mesmo, decidiram lançar um balão de ensaio.

Comunicaram oficialmente ao Executivo e ao Legislativo brasileiros a decisão de “pôr fim proximamente” ao governo de Nicolás Maduro. É o jornal uruguaio El Pais que dá a notícia. Caso nenhuma reação venha do Planalto nos próximos dias, o silêncio será considerado como sinal verde.

Ficamos aqui na torcida organizada.

Frase do dia — 282

«Já que fala tanto em democracia, Dilma precisa urgentemente resgatar a cláusula democrática da Unasul e do Mercosul contra a ingerência ditatorial do Executivo e do Judiciário sobre o Legislativo na Venezuela. Ou Dilma toma a dianteira, ou a liderança brasileira vai continuar sangrando, com o Brasil a reboque da Argentina de Mauricio Macri.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 13 jan° 2015.

Frase do dia — 281

Validade vencida
«O governo brasileiro apontou as agressões da Venezuela à democracia com pelo menos dez anos de atraso. Neste aspecto, perdeu a liderança para o argentino Mauricio Macri.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 6 jan° 2016.

Ocasiões perdidas

José Horta Manzano

Alca 1Estávamos no começo dos anos 1990. A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento do Império Soviético marcavam o fim da Guerra Fria. Meio estonteado, o planeta se reorganizava militar e economicamente.

Tomando como espelho o sucesso da Comunidade Econômica Europeia, estrategistas de Washington imaginaram aplicar o mesmo princípio a todas as Américas. O objetivo da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) era derrubar paulatinamente barreiras alfandegárias e transformar o continente num enorme e poderoso mercado comum.

O intento era ambicioso, portanto, a adesão dos principais atores era crucial ‒ os países menores acompanhariam por inércia. O problema é que o plano colidia frontalmente com a ambição de alguns líderes populistas que despontavam na América Latina. Assim mesmo, a ideia progrediu, bem ou mal, até a desastrosa cúpula de Mar del Plata, realizada em 2005.

Cúpula de Mar del Plata, 1995

Cúpula de Mar del Plata, 2005

Naquela altura, a Venezuela já estava manietada por Chávez. Na Argentina, Kirchner já comandava o barco. Para completar o trio, o Brasil tinha o Lula na presidência. No posto de assessor de nosso guia, já estava o inoxidável Marco Aurélio «top-top» Garcia, exatamente aquele que, ressentido e rancoroso, estacionou nos anos 1970 e rumina, desde então, seu antiamericanismo primário.

Nenhum dos três ‒ nem Chávez, nem Kirchner, nem o Lula ‒ via com bons olhos a aliança de livre comércio. A seu modo, cada um deles tinha o objetivo de se tornar protagonista dos novos tempos. A parceria com os EUA atrapalhava os planos. Juntos, bombardearam a Alca e despacharam o projeto de aliança comercial para o espaço.

Nafta

Nafta

O México, mais ajuizado e mais realista, preferiu ignorar ideologias ultrapassadas. Aliou-se aos EUA e, junto com o Canadá, formaram a Nafta ‒ versão regional da natimorta Alca ‒ restrita aos três grandes países da América do Norte. O mercado comum norte-americano continua de pé. Vai de vento em popa, obrigado. Os três sócios estão satisfeitos.

Enquanto isso, na América do Sul, tudo deu errado. A baixa do preço do petróleo aliada ao desastre administrativo de Chávez e de seu sucessor rebaixaram a Venezuela a um patamar indigente. A roubalheira e a gestão calamitosa travaram o avanço do Brasil e da Argentina.

E quem é que acaba ganhando com isso? O México, minha gente, aquele que, dez anos atrás, fez a boa opção. Artigo publicado no diário El Financiero (equivalente mexicano de nosso Valor Econômico) leva título significativo: «As penas do Brasil seriam uma bênção para o México

Menção é feita ao recente rebaixamento da nota de risco do Brasil, fato que levará obrigatoriamente importantes fundos de investimento a livrar-se de títulos brasileiros. Calcula-se que muitos bilhões de dólares serão retirados de papéis brasileiros e tomarão rumos mais seguros. Não precisávamos de mais essa.

Boa parte dessa bolada será investida no México, única nação latino-americana cuja inflação está abaixo da meta. A economia do país deve crescer 2.5% este ano e 2.8% em 2016 ‒ que inveja! Este ano, o peso mexicano desvalorizou-se 13% com relação ao dólar, enquanto o real caiu assustadores 32%.

Assim é a vida ‒ nada sai de graça. Mais cedo ou mais tarde, opções obtusas acabam cobrando a conta. Estamos todos pagando pela ignorância e pela miopia de uns poucos. Qualquer dia, a casa cai.

Fugiu de medo

José Horta Manzano

Este último fim de semana, importante reunião de cúpula do Mercosul teve lugar na capital paraguaia. Como se sabe, porém, grandes decisões costumam ser acertadas em reuniões de corredor e de sala de café, dificilmente em encontro de chefes de Estado.

Mercosul 5Cúpula solene, com aquela imensa mesa retangular ao redor da qual se sentam mais de cem pessoas, com todo aquele aparato, aquelas reverências, aqueles convidados ilustres, não é lugar propício para discussões. Cada figurão já vem com discurso pronto, escrito, burilado, ensaiado. Não há surpresa, a atmosfera é modorrenta.

Desta vez, no entanto, havia expectativa de ebulição. Señor Macri, recém-empossado presidente da Argentina, já havia deixado claro que cobraria de señor Maduro, presidente da Venezuela, mudança radical de atitude com relação à democracia em geral e a presos políticos em particular.

Mercosul 6Receoso de passar vergonha em público, ainda por cima em terra estrangeira, Maduro renunciou à viagem na última hora. Dilma, Mauricio Macri (Argentina), Tabaré Vazquez (Uruguai) e Horacio Cartes (Paraguai) ‒ os chefes de Estado do Mercosul ‒ estavam lá. Até Michèle Bachelet, presidente do Chile, compareceu. A deserção do brutamontes venezuelano foi gritante e pegou pra lá de mal.

De pouco adiantou ter fugido. Cumprindo o que havia prometido, Macri balançou o coreto ao pedir publicamente «por la pronta liberación de los presos políticos en Venezuela». Para enfatizar seu pensamento, acrescentou que «no puede haber lugar para la persecución política por razones ideológicas ni la privación ilegítima de la libertad por pensar distinto». Mais claro, impossível. Dona Dilma deve ter engolido em seco.

Como se sabe, não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. O castigado povo argentino, finalmente, começa a avistar luz no fim do túnel. Ainda vai demorar pra chegar lá, mas estão em boas mãos. Resta-nos a esperança de que os bons (e novos) ares de Buenos Aires soprem em nossa direção e nos ajudem a livrar-nos dos miasmas que nos sufocam.

O lado folclórico da cúpula ficou por conta de dona Dilma. Apesar de pronunciar discurso já escrito e de estar sendo atentamente vigiada pelo inefável assessor Marco Aurélio «top-top» Garcia, tropeçou.

Na intenção de prestar homenagem ao Paraguai, país que organizava a reunião, declarou: «O povo e o governo brasileiros têm, pelo povo e pelo governo uruguaio (sic), uma grande amizade.» Desculpou-se em seguida, mas o mal estava feito.

Senhora Rousseff acrescentou uma pérola a seu (já extenso) rosário.

Interligne 18h

PS: Notei que nenhum dos participantes se servia de fone de ouvido, daqueles que costumam transmitir tradução simultânea. Cada um falava sua língua e os outros que se virassem. Fico aqui a me perguntar até que ponto dona Dilma terá entendido o que diziam os hermanos. E, principalmente, até que ponto os hermanos terão entendido a fala claudicante de dona Dilma.

América del Sur

José Horta Manzano

Faz 13 anos que nosso governo popular vem se esforçando para integrar o Brasil no clube das nações sul-americanas. É verdade que, desde que os primeiros portugueses aportaram, demos as costas para nossos vizinhos. Nunca nos identificamos com os hermanos. No nosso imaginário, nosso ideal sempre foi outro, situado a milhares de quilômetros daqui.

No entanto, analisando de mais perto e comparando nosso comportamento com o dos vizinhos, não há como escapar da conclusão: não somos tão diferentes assim.

A mentira, por exemplo, é defeito comum a todos os governantes da região, vício que costuma passar batido. Cuba é o arquétipo desse comportamento ‒ faz cinquenta anos que os Castros embalam seus concidadãos com inacreditáveis lorotas.

Ultimamente, o mau costume tem-se alastrado pelo subcontinente. Chávez, Kirchner, Correa, Evo, Maduro mantêm-se à custa de cascatas de falsidade e de muita conversa fiada. Sem mencionar nosso inefável Lula, naturalmente. Nosso guia adotou o mesmo caminho indigente.

A apropriação indébita da coisa pública é outro defeito. Em outras palavras, falo do roubo, em proveito próprio, daquilo que pertence a todos. Dizem as más línguas que a fortuna dos irmãos Castro, devidamente encafuada em lugar seguro, totaliza bilhões. Quanto aos outros, pouca gente conhece o montante exato da riqueza de cada um. Mas todos desconfiam.

O mais recente exemplo de assalto aos bens do contribuinte acaba de ser dado por doña Cristina, que deixou a presidência da Argentina faz alguns dias. A mandatária e seus áulicos deram um verdadeiro rapa. Sumiram computadores, móveis, eletrodomésticos, equipamentos. Para completar a herança maldita, deixaram veículos presidenciais com multas não pagas. Nem água quente havia na Casa Rosada quando Mauricio Macri assumiu.

Interessante será notar que a mídia argentina, ressabiada com possíveis represálias de correligionários da antiga presidente, não deu eco a esses «malfeitos». Quem noticiou foram jornais chilenos e espanhóis.

Essa rapina me fez recordar a declaração surpreendente dada em 2002 por Jorge Batlle, então presidente do Uruguai, sobre a honestidade de seus vizinhos. O homem declarou textualmente: «Los argentinos son una manga de ladrones, del primero hasta el último» ‒ os argentinos são um bando de ladrões, do primeiro ao último.

Foi sentença pesada, sô! Ofendeu um povo inteiro, sem deixar brecha pra exceção nenhuma. Nem nosso amado guia, em seus mais desatinados pronunciamentos, ousou ir tão longe.

Pra abrandar, há que jogar água nessa fervura. Melhor será dizer que muitos argentinos ‒ assim como muitos brasileiros, muitos uruguaios, muitos venezuelanos ‒ são desonestos. Mas não todos. Pelo menos, espero.

A força dos passaportes

José Horta Manzano

Você sabia?

Símbolo de passaporte biométrico

Símbolo de passaporte biométrico

Passaporte, palavra tomada emprestada do francês passeport, é o livreto que cidadãos devem levar consigo ao atravessar fronteiras. Na origem, esse documento não se referia a pessoas, mas a mercadorias.

Na Europa do final da Idade Média, a precariedade das estradas e os perigos que as rondavam desencorajavam viagens terrestres. O transporte de bens era feito principalmente por via fluvial ou marítima. Assim, para deixar o lugar de origem e chegar ao destino, toda mercancia tinha de passar por portos ‒ daí o nome do documento.

A intensificação das trocas comerciais deu, aos poderosos e aos que detinham posições estratégicas, a ideia de cobrar pela passagem ou pela estadia de barcos. Bulas, ofícios, cartas de transporte e documentos vários foram surgindo. Entre eles, o passeport, que atestava que a mercadoria estava nos conformes.

Em nossos dias, documentos específicos continuam a ser emitidos para bens que cruzam fronteiras: conhecimento aéreo ou marítimo, fatura comercial, licença de importação ou de exportação. Já o termo passaporte perdeu a conotação comercial e passou a designar o documento que autoriza indivíduos a viajar de um país a outro.

Passaporte 1Em princípio, todos os passaportes são iguais. Na prática, uns são mais iguais que outros. A força do documento de viagem é medida pelo número de países cuja fronteira o titular pode atravessar sem precisar de visto. Quanto maior for o número de países aos quais um passaporte dá acesso sem necessidade de visto, mais «forte» será considerado o documento.

Um portal especializado analisa os passaportes emitidos por 199 países e os classifica pelo número de portas que cada um abre sem precisar pedir licença. Nestes últimos 13 anos, o governo brasileiro tentou aproximação com países olhados com desconfiança pelo resto do mundo. Falo de Irã, Cuba, Coreia do Norte, Guiné Equatorial, Venezuela. Apesar disso, nossa classificação (ainda) não parece ter sido prejudicada.

Classificados por ordem de «força», os passaportes dos EUA e do Reino Unido aparecem em primeiro lugar. Seus titulares podem entrar em 147 países sem pedir visto. Na segunda posição, empatam Alemanha, França e Coreia do Sul, com 145 países. Logo em seguida, em terceiro, aparecem Itália e Suécia, com 144 passes livres.

Passaporte brasileiro 2O Brasil surge em 17° lugar, empatado com Romênia e Mônaco. Cidadãos brasileiros podem visitar 128 países sem necessidade de visto. Os numerosos empates, porém, podem falsear a compreensão. Será mais claro dizer que cidadãos de 41 países são mais livres que nós na hora de viajar.

Mas há pior. Todos os outros componentes do Brics concedem a seus cidadãos passaporte menos poderoso que o nosso. Um russo tem direito de visitar apenas 98 países sem pedir visto. Um sul-africano pode viajar a 84 países; um chinês, a 74; um indiano, a somente 59. É um dos raros quesitos em que ultrapassamos os outros ditos emergentes.

Quem estiver interessado na lista completa deve clicar aqui.

Wishful thinking

José Horta Manzano

Nossa língua é rica. Infelizmente, a deterioração do ensino básico tem negado aos mais jovens a chave do baú. O vocabulário encolhe, palavras-ônibus engolem termos específicos, a transmissão das ideias vai ficando mais complicada. A dificuldade de compreensão contamina até altas esferas: exemplo típico é o de nossa presidente, cujos pronunciamentos absconsos exigem interpretação.

Na Suíça, cada região fala a própria língua. Isso, no entanto, não causa particulares tensões – faz séculos que tem sido assim. Pelo contrário, costuma-se até brincar dizendo que os suíços se entendem bem justamente porque não se compreendem. É galhofa, mas não deixa de ter lá seu fundo de verdade. Talvez venha a se tornar realidade no Brasil de amanhã.

Na estrada 04A línguas germânicas, que muitas vezes dispensam preposições, têm características sintéticas. São, assim, mais maleáveis. Em inglês, por exemplo, com duas palavras exprimem-se conceitos complexos, daqueles que exigiriam uma linha de explicação em nosso idioma. É o caso de wishful thinking.

Ao pé da letra, a tradução «pensamento desejoso» não transpõe a ideia exata. Precisaria verter como «formular conceitos que levam a tomar decisões baseadas menos na realidade e mais no desejo que temos de que algo se concretize». Trabalhoso, não? Pra remediar, ficamos com o original mesmo. É verdade que a conhecida fórmula: “me engana, que eu gosto” exprime, com ironia, pensamento semelhante. Mas não é exatamente a mesma coisa, além de a expressão ser longa demais.

Evidenciando uma característica de nossos tempos, a cada dia pilhas de exemplos de wishful thinking despontam no horizonte político brasileiro. Topei com dois deles esta semana. O primeiro foi proferido por nosso guia. De visita à Espanha, onde chegou a ser recebido pelo rei, disse, sem corar, que «é um luxo para o Brasil ter uma presidente da qualidade da Dilma». Exemplo acabado de wishful thinking.

2015-1211-01 TeleSurOutro belíssimo espécime fez manchete no portal da venezuelana TeleSur, a chamada ‘tevê do Chávez’. Dando uma forcinha a nossa mandatária, noticiaram que «aumenta apoyo a Dilma Rousseff ante juicio político» – cresce apoio a Dilma Rousseff diante de julgamento político.

Quem conta um conto aumenta um ponto. Ou subtrai, dependendo da conveniência.

Meus parabéns!

José Horta Manzano

Quando um povo elege chefe de Estado ou de governo, é praxe que mandatários de outros países enviem ao eleito mensagem de congratulações. É mais raro que se envie mensagem aos perdedores.

Bem, isso é o que costuma ocorrer no mundo real. No entanto, em certos bolsões que vivem num limbo, fora do tempo, num universo de fantasia, as coisas não funcionam como no resto do globo.

Unk 03Señor Nicolás Maduro, o pouco talentoso mandachuva venezuelano, sofreu derrota acachapante nas eleições de domingo passado. Que não seja por isso. Señor Raúl Castro, número um da gerontocracia cubana, mandou-lhe mensagem de fã entusiasta e admirativo(*).

Para conferir, fui direto à fonte: recortei a notícia do mui oficial diário Granma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Ponho a mensagem logo aqui abaixo. Clara, ela dispensa tradução. Dado que ainda estamos num país livre, o distinto leitor está autorizado a esboçar, ao final da leitura, um sorriso zombeteiro. Francamente, tem gente que não tem medo do ridículo.

Interligne vertical 12Estimado Maduro:

He seguido, minuto a minuto, la extraordinaria batalla que han dado y escuché con admiración tus palabras.

Estoy seguro de que vendrán nuevas victorias de la Revolución Bolivariana y Chavista bajo tu dirección.

Estaremos siempre junto a ustedes.

Un abrazo

Raúl Castro Ruz

Interligne 18h

(*) Não há notícia de que alguma mensagem de parabéns tenha sido enviada aos vencedores das eleições.

Fim de ciclo

José Horta Manzano

De uns dez dias pra cá, parece que os ventos mudaram de quadrante pelas bandas da América do Sul. Fazia já tanto tempo que a coisa andava degringolando, que a gente já estava ficando desesperançado. Agora parece que uma luzinha apareceu lá no fim do túnel. É tênue, mas alumia.

Brasil
Começou no Brasil dia 25 de novembro. Foi quando, em acontecimento extremamente raro nesta República, um senador – no exercício de seu mandato – foi parar na cadeia(*). Parece pouco? Não é. Há que lembrar que nosso país já nasceu dividido em castas. Entre elas, a dominante sempre foi integrada pelos abastados, pelo clero e pelos amigos do rei.

America do Sul 1Se clérigo não é, o líder do PT no senado, hoje encarcerado, é integrante de carteirinha da turma do andar de cima. É lícito também supor que esteja ‘bem de vida’, pra não dizer podre de rico. A prisão do figurão deu mais uma prova de que a lei se aplica também aos que dela, ainda não faz muito tempo, costumavam escapar.

Dias depois, a Câmara Federal, (ainda) presidida pelo folclórico senhor Cunha, acolheu pedido de destituição da mal-amada presidente da República. Um espanto! Que o voto final expulse ou mantenha a mandatária é de somenos. A notícia boa é que as instituições continuam funcionando. Figurões sentem-se hoje mais vigiados do que no passado.

Argentina – símbolos

Argentina – símbolos

Argentina
Domingo passado, a eleição de señor Macri ao «sillón de Rivadavia» (como é chamado o trono presidencial argentino) fez cair o pano final sobre a ópera-bufa encenada durante 12 anos pelo exótico casal Kirchner. Ponto para o mundo e especialmente para o Brasil!

Venezuela
Neste fim de semana, chegou outra notícia alvissareira. Mostrando haver despertado de longo torpor, os hermanos venezuelanos deixaram explícito seu repúdio ao modo «bolivarianista» de governar. Ao renovar a assembleia nacional, deram maioria a antichavistas.

Interligne 28a

No mundo globalizado em que vivemos, governos que tentam sair dos trilhos encontram resistência no plano internacional. Precisam procurar aliados e juntar forças. Essa é justamente uma das principais razões pelas quais o Lula e seus aspones fecharam os olhos a iniquidades cometidas na Venezuela, em Cuba, na Argentina. Precisavam de aliados.

Tunel 1O que vemos hoje é prenúncio do fim de um ciclo. Brasil, Argentina e Venezuela – todos com a economia cambaleante – buscam horizontes mais arejados, livres do mofo de ideologias falecidas.

O estrago feito durante a última década é grande. Assim mesmo, chegaremos lá. O céu se está desanuviando.

Interligne 18h

(*) Há um antecedente. Ocorreu em 1963, quando o senador Arnon de Mello (pai de Fernando Collor de Mello) trocou ofensas com um desafeto, sacou o revólver, atirou e… feriu mortalmente um suplente de senador que teve a infelicidade de estar no lugar errado na hora errada. O assassino ficou alguns meses preso para, em seguida, ser inocentado e solto. Não perdeu sequer o mandato.

Efeito Orloff

José Horta Manzano

Até algumas décadas atrás, os brasileiros se sentiam um tanto complexados com relação aos argentinos. Bem antes de nós, nossos vizinhos deram mostra de se aproximar da civilização.

Não conheceram a escravidão. Alcançaram a independência antes de nós. Receberam importante fluxo migratório antes do Brasil. Sabe-se que o PIB per capita argentino era o quarto do planeta cem anos atrás.

Bandeira Brasil ArgentinaEm 1913, Buenos Aires inaugurou sua primeira linha de metrô – apenas doze anos depois de Paris! O de São Paulo só viria 60 anos mais tarde. A mesma defasagem ocorreu na imprensa especializada. A primeira revista dedicada ao público feminino apareceu na Argentina em 1922. As brasileiras tiveram de esperar quarenta anos para folhear o primeiro similar nacional.

Parafraseando o bordão criado pelo marqueteiro de uma indústria de bebidas, costuma-se dizer que o Brasil é a Argentina amanhã. Em claro: mudanças acontecem primeiro na Argentina, para, em seguida, contaminar o Brasil. Não há prova científica disso, mas a afirmação está longe de ser absurda.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Considerando as declarações do candidato recém-eleito para a presidência do país vizinho, é bom torcer para o efeito Orloff voltar a funcionar desta vez. O homem tem características importantes. Já atinge o trono presidencial na qualidade de multimilionário. Ele não precisa do cargo para enriquecer: já tem dinheiro saindo pelo ladrão. Lembremos que nenhum de nossos presidentes era imensamente rico ao chegar à presidência. Eu disse ao chegar.

Mais que isso, o mandatário dá mostras de ter mente arejada, sem ranço de defuntas ideologias nem sombra de autoritarismo. Entendeu que país rico e desenvolvido dá maiores chances aos cidadãos. Numa demonstração da importância que dedica ao relacionamento entre nossos países, comprometeu-se a brindar o Brasil com sua primeira viagem oficial depois de eleito.

Chamada jornal La Nación, 23 nov° 2015

Chamada jornal La Nación, 23 nov° 2015

Posicionou-se firmemente contra as arbitrariedades cometidas pelos mandachuvas da maltratada Venezuela. Recebeu a mulher de señor Leopoldo López, opositor venezuelano, condenado a mais de 12 anos de cadeia em processo de cartas marcadas.

Declarou que pedirá a exclusão da Venezuela do Mercosul em virtude das agressões à democracia cometidas pelo governo bolivariano. Tem intenção de acelerar o entrosamento do bloco e de pressionar para que cheguemos a acordos comerciais com a Europa, com os EUA e com os países andinos. Um programa de dar vertigem!

Mercosul 4Vivemos um momento peculiar, com uma Argentina de cabeça erguida e aberta ao mundo, uma Venezuela em adiantado processo de decomposição, uma República Cubana em via de reintegrar a confraria dos bons amigos dos EUA, uma China em franca desaceleração. Temos excelentes chances de sacudir a poeira, tirar os pés do atraso e seguir o caminho que o mandatário do país hermano nos convida a trilhar.

Durmam tranquilos, cidadãos. O efeito Orloff logo vai-se fazer sentir.

Nem tudo o que parece é

José Horta Manzano

Dilma Obama 3Quem tem acompanhado os passos erráticos da política externa brasileira destes últimos treze anos já se convenceu de que, definitivamente, o Brasil se divorciou dos EUA. O terceiro-mundismo tornou-se marca característica do atual governo.

A malfadada aproximação com Irã, Venezuela, Nicarágua reforçou a intenção de afirmar nossa «independência política». A abertura de embaixada na Coreia do Norte e na Guiné Equatorial – países cujo povo sobrevive há décadas sob ditadura tirânica – deu ao mundo sinal claro de que o Brasil era a nova locomotiva da diplomacia, o exemplo a ser seguido, o farol dos povos oprimidos.

Em matéria de política internacional, nossa atitude de confronto não levou a nada. Foi desperdício de tempo, esforço, dinheiro e prestígio. Como já dizia o outro, o Brasil é um anão dipolomático. Em briga de gigantes, anões não têm grande chance. Pior: no campo econômico, colhemos resultado desastroso.

Nos últimos dez anos, nossas exportações de manufaturados diminuíram. Em 2005, representavam 0,85% do comércio mundial. Em 2014, desceram a 0,61% das trocas globais, uma insignificância. Foi um tombo de quase 30%, que nos rebaixou à 32a. colocação. Nessas horas, ser amigo do peito de Venezuela, Irã, Coreia do Norte e Guiné Equatorial não é de grande ajuda.

Marinha 1No entanto, por debaixo do pano, sem que ninguém faça muito alarde, continuamos cooperando com o Grande Satã, sabia? Justamente no campo militar, quem diria. Não acredita? Pois é verdade. A informação vem da Revista Forças Armadas.

O Brasil está sediando atualmente, de 15 a 24 de novembro, manobras conjuntas que reúnem oito países americanos. Nos primeiros três dias, o adestramento militar se desenvolve na Ilha do Governador; em seguida, o exercício continua na Ilha da Marambaia. Além do Brasil, sete países participam: EUA, Canadá, Chile, Colômbia, México, Peru e Paraguai. Alguém notou a ausência absoluta de todo e qualquer resquício bolivariano?

Dilma Obama 2Pois assim é. Há o discurso para a plateia e a realidade da qual não se pode escapar. Na hora do vamos ver, a fanfarrice típica de alguns vizinhos folclóricos não serve pra nada. Nosso país teria tudo a ganhar se o Planalto, imitando a Marinha do Brasil, trocasse a ideologia pelo pragmatismo. Está na hora de virar a página do ressentimento e pular, de pés juntos, no século XXI.

Falam de nós – 15

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Violência em foco
Assalto 1Ao dar a notícia do enésimo tiroteio ocorrido no Rio de Janeiro este ano, a RTBFRadio Televisão Belga de expressão francesa – dá ênfase ao fato de estarmos a menos de um ano da abertura dos Jogos Olímpicos de verão. Que terão lugar, como todos sabem, na cidade de São Sebastião.

O artigo ressalta que nosso país, com média de 29 assassinatos anuais por 100 mil habitantes, é um dos mais violentos do mundo. Pela definição da ONU, taxa superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes indica violência endêmica.

O Rio que se prepare. Durante estes meses que nos separam da abertura dos JOs, suas tripas estarão expostas à análise planetária.

Santana é nosso!
Rumores corriam na Argentina de que o ‘mago’ João Santana, marqueteiro titular do Partido dos Trabalhadores, estaria fazendo um bico na campanha de señor Scioli, candidato kirchnerista à presidência da república hermana.

O diário portenho La Nación traz a resposta firme e peremptória vinda do Brasil: «Nem João Santana nem ninguém de sua equipe estão participando da campanha de Daniel Scioli.»

O esclarecimento vem em boa hora. Señor Macri, candidado de oposição, tem boas chances de vencer o pleito. Marqueteiro nenhum deseja carregar no currículo uma eleição perdida.

2015-1103-01 La NacionNunca é tarde pra consertar
A veneranda BBC dá destaque ao pedido de destituição da presidente da República, apresentado por Hélio Bicudo. Como sabem todos, o doutor Bicudo é petista pentito. Pentito é termo italiano usado para designar todo aquele que, tendo feito parte de organização criminosa, se regenerou.

Desigualdade social
O diário Tages Anzeiger, um dos maiores jornais suíços, faz um balanço das perspectivas turísticas do país. Tendo em vista que o câmbio atual sobrevaloriza o franco suíço, uma temporada nas montanhas francesas ou austríacas sai bem mais em conta.

Nada se pode fazer contra a cotação da moeda, é verdade. Mais vale ir buscar categorias de turistas com poder aquisitivo suficiente para enfrentar um passeio pelas neves helvéticas.

Promotores turísticos espicham o olho para essa clientela afortunada. E onde é que vão buscar essas pérolas raras? Especialmente em dois improváveis países: na China e… no Brasil. Quem diria, hein!

Expo 1Brasil leiloado
Fim de semana passado, depois de seis meses, a Exposição Universal de Milão (Itália) fechou as portas. Pouco comentada no Brasil, a feira italiana atingiu o incrível patamar de 20 milhões de visitantes, uma cifra enorme. Cada país montou pavilhão, como é costume. O do Brasil foi um dos mais visitados, tendo recebido 5,3 milhões de pessoas.

O que mais chamava atenção no pavilhão brasileiro era uma rede suspensa sobre a qual o público podia caminhar. Não sei se a intenção dos organizadores terá sido transmitir a sensação de areia movediça e de insegurança que caracteriza nosso país. Será apenas coincidência.

Fato é que, terminada a exposição, os pavilhões foram a leilão. Orgulhoso, o jornal La Provincia di Lecco, da cidade homônima situada a 65km de Milão, informa que o pavilhão brasileiro foi arrebatado por uma empresa local especializada em montagem de eventos. O lance final foi de um milhão e oitocentos mil euros, bem abaixo do custo de construção.

Manif 10Cada qual como lhe convém
A emissora estatal venezuelana de tevê Telesur, também conhecida como «tevê do Chávez», dá em manchete, com visível alívio, a notícia de que o Exército Brasileiro descarta toda possibilidade de golpe de Estado contra dona Dilma.

A tevê destaca que os militares não têm intenção de se alevantar, em que pesem os continuados escândalos de corrupção.

Fiel a sua missão de guardiã do bolivarianismo – mas um tanto esquizofrênica –, a emissora inclui fotos e vídeos de manifestações em que alguns gatos pingados, vestidos de vermelho, protestam contra o ajuste fiscal decidido pelo próprio governo de dona Dilma. Vá entender…

No entiendo

José Horta Manzano

Você sabia?

Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos do pão branco.
Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho.
Criamos os animais, mas não comemos a carne (…) (*)

Imigração 6Assim, em poucas e comoventes palavras, um imigrante italiano respondeu a um ministro de seu país, que ralhava contra conterrâneos que abandonavam a terra natal em busca de dias melhores no estrangeiro.

No século decorrido entre 1850 e 1950, a Itália viu partir 30 milhões de cidadãos em busca de dias melhores. A maior parte deles veio dar com os costados em terras americanas – Brasil, Argentina e EUA em especial. A Itália é, com folga, o país europeu que maior contingente de emigrantes despachou.

Ninguém jamais saberá o número exato dos que que lá saíram. Mais difícil ainda será afirmar, com precisão, o destino de cada um. Que dizer, então, da contagem dos descendentes, os «oriundi»? Na falta de dados exatos, restam as estimativas.

Os Missionários de São Carlos – os escalabrinianos – são uma congregação religiosa italiana que se dedica, entre outras missões, a assistir os italianos dispersos pelo planeta. São os mais bem aparelhados para fornecer estimativa sobre o número de originários da península.

Segundo a congregação, o Brasil abriga a mais numerosa comunidade de «oriundi», calculada em mais de 27 milhões de pessoas. Em seguida, vêm a Argentina (20 milhões) e os EUA (17 milhões). Os demais países seguem bem atrás – o quarto colocado, a França, não abriga mais que 4 milhões de descendentes.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Estatística não é o ponto forte do Brasil. Assim mesmo, costuma-se dizer que, nos anos 1920, metade dos habitantes da cidade de São Paulo era estrangeira. Desse contingente, metade eram italianos. Se não for verdade, não estamos longe.

Uma curiosidade: a população de nossa hermana República Argentina é constituída de 47% de «oriundi», um de cada dois habitantes do território. Sem sombra de dúvida, é o mais italiano dos países. Além da Itália, naturalmente.

Imigração 7Ainda hoje, sobrevivem por volta de duzentos periódicos editados em língua italiana fora da Itália. Nestes tempos de internet, praticamente todos abandonaram a edição em papel para dedicar-se unicamente à versão digital. A maioria espaçou a tiragem: de diária, passou a semanal; de semanal, passou a mensal. E assim por diante.

Na Venezuela, que conta com um milhão de descendentes, algumas publicações resistem. Entre elas, La Voce (= A Voz), diário fundado em 1950, hoje disponível unicamente online. Resiste em todos os sentidos.

Corajoso, o quotidiano dá notícia da incrível erosão da popularidade de dona Dilma. Talvez, por ser dirigido a público específico, seja menos visado pela truculência dos mandatários. Ou, mais provável, os censores – ignorantes por natureza – não estão em condições de entender nenhuma língua estrangeira. Melhor assim.

Interligne 18c

(*) Citação afixada no Museu da Imigração, em São Paulo. O museu nasceu em 1887 como Hospedaria de Imigrantes. Para ali eram encaminhados os recém-chegados, que desembarcavam em Santos sem lenço e sem dinheiro, mas cheios de esperança e prontos pra arregaçar as mangas.