The clown

José Horta Manzano

«A clown elected twice to Brazil’s Congress under the slogan “It can’t get any worse” apparently feels that it did. He says he is too embarrassed by his fellow lawmakers to run again.»

«Um palhaço eleito duas vezes para o parlamento brasileiro com o slogan “Pior não fica” dá a entender que, sim, ficou pior. Decepcionado com os colegas parlamentares, ele declara que não vai mais se candidatar.»

Essa é a abertura do artigo em que o britânico Daily Mail comenta a fala de ontem do deputado Francisco Everardo Oliveira Silva ‒ o Tiririca. Com efeito, o jornal tem razão ao confirmar que a situação piorou. No entanto, omite o fato de nosso Tiririca, em sete anos de atuação como deputado federal, nunca ter subido ao púlpito para um pronunciamento.

Não consta que ele tenha apresentado projeto para coibir comportamentos que lhe pareciam aberrantes. Não consta que tenha alçado a voz para denunciar procedimentos fora de esquadro. Admira que tenha levado sete anos(!) para captar o que lhe ocorria à volta. Espanta mais ainda que sua reação seja dar as costas, abandonar a arena e deixar que outros resolvam o problema.

O palhaço mostrou que é puro produto do meio em que nasceu e cresceu. É o retrato «cuspido e escarrado»(*) do brasileiro médio. Contentou-se em usufruir das benesses do cargo, do confortável salário acrescido de penduricalhos, das passagens aéreas de favor, dos assessores e das secretárias, do auxílio-moradia, do gabinete em palácio, da imunidade parlamentar. Tranquilo, permaneceu no seu canto à espera de que “alguém” tomasse uma atitude.

A simplicidade e a passividade com que o palhaço encara a sociedade são o exemplo acabado da maneira como se comporta o grosso dos conterrâneos. Não se dando conta de que cada um faz parte do processo, limitam-se todos a reclamar, a espernear, a criticar, sem perceber que uma atitude proativa seria mais eficaz. O deputado Francisco Everardo fez exatamente o que faz a maioria, com o agravante de ter tido nas mãos o poder de influir nos rumos da nação. Acomodado, fez cara de paisagem e deixou que outros agissem.

É afligente, deputado! Decepcionados estamos nós. Desesperançados devem estar os quase dois milhões de cidadãos que lhe confiaram a incumbência de representá-los em Brasília. A atuação do nobre parlamentar mostrou que a diferença entre nosso Congresso e um picadeiro está cada dia mais tênue.

Expressão popular
(*) Há quem afirme que a pitoresca expressão «cuspido e escarrado» seja corruptela de «esculpido em [mármore de] Carrara». A hipótese é tentadora, mas parece-me pouco provável.

O que me faz desconfiar é o fato de a expressão correspondente na língua francesa ser justamente «craché» ‒ cuspido. Para dizer que o filho é a cara do pai, o francês dirá: «C’est le portrait craché de son père» ‒ é o retrato cuspido do pai.

E aí, como é que ficamos? Esculpido aqui e cuspido lá? Tenho minhas dúvidas.

Fiasco continental

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° maio 2016

Faz cinco séculos que as Américas portuguesa e espanhola se estranham. Na linha de fronteira que corria imprecisa por entre igarapés, pantanais e outros ermos, a ausência de contacto físico apartava lusos e castelhanos. Conviviam em paz relativa, embora sempre de costas uns para os outros, mais ou menos como irmãos brigados.

O ponto de encontro e de atrito maior sempre se situou na região Sul e nos entornos do Rio da Prata. Terra boa, gente pouca e clima ameno atraíram a cobiça dos colonizadores. A criação um tanto forçada da República do Uruguai foi concebida justamente para erigir estado-tampão entre os castelhanos e as antigas províncias lusas.

Assim mesmo, a desconfiança continuou. Não só persistiu mas acirrou-se à medida que Brasil e Argentina se fortaleciam, cada um por sua conta. No século XX, quando ditaduras assolaram ambos os países, a mútua suspeição atingiu o paroxismo. O cenário imaginado por dez entre dez generais de lá e de cá era um só: a iminência de guerra fratricida.

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Redevolvido o poder aos civis, os dois países se deram conta de que o mundo havia mudado. Estava chegada a hora de acabar com o belicismo e de enterrar o machado de guerra. Afinal, governos passam, gente nasce e morre, mas Brasil e Argentina estão condenados a continuar vizinhos ad aeternum.

Empunhando uma cuia de chimarrão à guisa de cachimbo da paz, Sarney e Alfonsín plantaram a semente do futuro Mercosul. A fundação propriamente dita só viria anos mais tarde, com a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991. No começo, a ideia era aproximar Brasil e Argentina. A incorporação do Paraguai e do Uruguai foi acessória, acréscimo pouco oneroso ao plano originário. A ideia da aproximação era boa, sem dúvida. Contudo, não foi levada adiante com maestria. A aliança se encharcou, por cacoete, de toda a burocracia ibérica tradicional. Desde o início, a importância dos considerandos superou, em muito, a dos finalmentes.

Assim mesmo, a instituição funcionou mal e mal até o advento do kirchnerismo lá e do lulopetismo cá. A partir de então, a coisa desandou de vez. A ambiciosa «união alfandegária» transformou-se em foro caricato de verborreia populista. A entrada ‒ pela porta dos fundos ‒ da bolivariana Venezuela foi a gota d’água, a consumação da débâcle.

Alfandega 1Aos trancos, o Mercosul completou o primeiro quarto de século esta semana. Ficou combinada a comemoração em Montevidéu. Esperava-se a presença prestigiosa do chefe de Estado de cada país-membro. Pois tirando o anfitrião uruguaio, nenhum presidente compareceu ao encontro. Nenhum! Foi demonstração cabal da insignificância do bloco, um fiasco de dimensões continentais.

Só não vê quem não quer: em 25 anos, nenhum acordo comercial significativo foi concluído com parceiros externos. Num evidente desvirtuamento de funções, as cúpulas vêm sendo politizadas. Outros blocos comerciais, longe de ser vistos como parceiros potenciais, são tratados como adversários. O exemplo mais recente de picuinhas que tomaram o lugar de tratativas proveitosas ocorreu durante a comemoração desta semana. Além do desprestígio gerado pela ausência dos presidentes convidados, a cúpula foi palco de embate digno de tumultuosa reunião de condomínio.

Embora nossa presidente não tenha dado o ar da graça, uma delegação de 20 parlamentares brasileiros compareceu. Num comportamento primitivo, os organizadores quiseram deixar patente seu desagrado com o processo de destituição que corre contra Dilma Rousseff. Para tanto, designaram, para a alentada delegação brasileira, uma fila de cadeiras situada ao fundo da sala. Trataram, assim, sócios fundadores como se não passassem de meros observadores, quase estranhos no ninho.

Parlasur Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Parlasur
Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Irritados com a ofensa, 17 dos 20 deputados brasileiros viraram as costas e abandonaram a cerimônia. Só permaneceram três estoicos parlamentares, decerto mais comprometidos com o Planalto. Pelos tempos que correm, não é delírio supor que a manobra tenha sido soprada justamente por autoridades ligadas ao Executivo brasileiro. É conhecido o ressentimento nutrido por certos assessores presidenciais obstinadamente apegados a ideologias empoeiradas.

Como se costuma dizer em ocasiões assim, chegou a hora de «discutir a relação». O Mercosul, do jeito que está, se exauriu. O bloco econômico se politizou e se afastou das funções para as quais foi criado. Que se retomem os objetivos originários. Ou que se apague o letreiro, se desmonte o picadeiro e se desarme o circo.

Em estado de dúvida

José Horta Manzano

Estádio é estádio. Arena é arena. Picadeiro é picadeiro. Palco é palco. Palanque é palanque. Não viria à ideia de ninguém dizer que a peça de teatro será apresentada no picadeiro do teatro. Não seria concebível relatar que, para pronunciar seu discurso, o candidato subiu à arena. Ficaria ridículo contar que o jogo de vôlei teve lugar no palanque.

Picadeiro é termo ligado ao circo. Palco traz à mente o teatro. Palanque lembra imediatamente um comício político. Arena é expressão intimamente conectada a tourada, corrida de bigas, luta de gladiadores. Estádio é construção ― geralmente de grandes dimensões ― onde se praticam esportes atuais, entre os quais o futebol.

O povo brasileiro, sabe-se lá por que, sempre foi bastante permeável a modismos vindos do estrangeiro. Cem anos atrás, a linguagem era recheada de palavras e expressões francesas, a língua de cultura da época. Hoje é vez do inglês. Amanhã, só Deus sabe o que virá.

Há neologismos bem-vindos. Quando falta uma palavra em nosso vocabulário, por que não adotar aquela que já nos vem prontinha do exterior? Comprar feito é tããão mais fácil que inventar um similar nacional, não é mesmo? No entanto, há modismos que perturbam. Um deles, muito em voga atualmente, é o surpreendente e repentino abandono do tradicional termo estádio, substituído pelo bizarro arena.

Será que os brasileiros logo estarão dizendo que, domingo que vem, vão à arena assistir a um jogo? Pode ser, melhor não botar a mão no fogo. Os franceses são mais duros na queda. Naquele país, ninguém jamais em tempo algum conseguiria impor uma novidade desse calibre. Stade continua significando estádio. Arènes (que é normalmente usada no plural) é a palavra empregada para designar um campo de touradas.

Le Monde ― o jornal mais prestigioso da França, traz, em sua edição datada de 12 dez° 2013, artigo de Nicolas Bourcier sob o título Le Brésil au stade du doute. A expressão contém um jogo de palavras. Stade tanto significa estádio como estado (=situação). Portanto, tanto se pode traduzir por O Brasil em estado de dúvida, como por O Brasil no estádio da dúvida. Trocadilhos e brincadeiras com palavras são comuns na imprensa francesa.

O texto, naturalmente, tece considerações sobre a próxima Copa do Mundo e sua organização. Menciona o espetáculo horripilante que se viu recentemente num estádio de Joinville. Fala também do acidente que dizimou uma parte do estádio dito Itaquerão. Relata atraso na construção dos estádios de Curitiba, Manaus e Cuiabá. Para coroar, conta que a previsão de custo das construções esportivas teve aumento de um bilhão de reais de um ano para cá. Diz ainda que o total de investimentos em infraestrutura deve ultrapassar os 25 bilhões de reais. No finalzinho do escrito, fica no ar uma dúvida maliciosa sobre a serenidade do clima no qual ocorrerá o megaevento do ano que vem.

O artigo de página inteira está engalanado por vários desenhos humorísticos. Estão aqui abaixo.

Le Monde ― 12 dez° 2013 página inteira

Le Monde ― 12 dez° 2013
Artigo completo

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Le Monde ― 12 dez° 2013 O texto

Le Monde ― 12 dez° 2013
O texto

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Le Monde ― 12 dez° 2013 "Ainda bem que estão todos em frente à tevê!" by Mix & Remix, desenhista suíço

Le Monde ― 12 dez° 2013
“Não vejo a hora em que eles se sentem todos em frente à tevê!”
by Mix & Remix, desenhista suíço

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Le Monde ― 12 dez° 2013 by Payam Borumand, desenhista iraniano

Le Monde ― 12 dez° 2013
by Payam Borumand, desenhista iraniano

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by Boligan, desenhista mexicano

by Boligan, desenhista mexicano

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by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

O custo da Copa 2014  –  by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

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by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

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