Nem tudo o que parece é

José Horta Manzano

Dilma Obama 3Quem tem acompanhado os passos erráticos da política externa brasileira destes últimos treze anos já se convenceu de que, definitivamente, o Brasil se divorciou dos EUA. O terceiro-mundismo tornou-se marca característica do atual governo.

A malfadada aproximação com Irã, Venezuela, Nicarágua reforçou a intenção de afirmar nossa «independência política». A abertura de embaixada na Coreia do Norte e na Guiné Equatorial – países cujo povo sobrevive há décadas sob ditadura tirânica – deu ao mundo sinal claro de que o Brasil era a nova locomotiva da diplomacia, o exemplo a ser seguido, o farol dos povos oprimidos.

Em matéria de política internacional, nossa atitude de confronto não levou a nada. Foi desperdício de tempo, esforço, dinheiro e prestígio. Como já dizia o outro, o Brasil é um anão dipolomático. Em briga de gigantes, anões não têm grande chance. Pior: no campo econômico, colhemos resultado desastroso.

Nos últimos dez anos, nossas exportações de manufaturados diminuíram. Em 2005, representavam 0,85% do comércio mundial. Em 2014, desceram a 0,61% das trocas globais, uma insignificância. Foi um tombo de quase 30%, que nos rebaixou à 32a. colocação. Nessas horas, ser amigo do peito de Venezuela, Irã, Coreia do Norte e Guiné Equatorial não é de grande ajuda.

Marinha 1No entanto, por debaixo do pano, sem que ninguém faça muito alarde, continuamos cooperando com o Grande Satã, sabia? Justamente no campo militar, quem diria. Não acredita? Pois é verdade. A informação vem da Revista Forças Armadas.

O Brasil está sediando atualmente, de 15 a 24 de novembro, manobras conjuntas que reúnem oito países americanos. Nos primeiros três dias, o adestramento militar se desenvolve na Ilha do Governador; em seguida, o exercício continua na Ilha da Marambaia. Além do Brasil, sete países participam: EUA, Canadá, Chile, Colômbia, México, Peru e Paraguai. Alguém notou a ausência absoluta de todo e qualquer resquício bolivariano?

Dilma Obama 2Pois assim é. Há o discurso para a plateia e a realidade da qual não se pode escapar. Na hora do vamos ver, a fanfarrice típica de alguns vizinhos folclóricos não serve pra nada. Nosso país teria tudo a ganhar se o Planalto, imitando a Marinha do Brasil, trocasse a ideologia pelo pragmatismo. Está na hora de virar a página do ressentimento e pular, de pés juntos, no século XXI.

O que nos separa e o que nos une

Cabeçalho 3Myrthes Suplicy Vieira (*)

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Estarrecida com os recentes atentados ocorridos em Paris e, consequentemente, incapacitada de articular em palavras toda minha tristeza e solidariedade às vítimas, resolvi repassar a vocês as sábias palavras proferidas por minha cachorra mais velha:

Cachorro 2“O mal também está entre nós. O mal é irracional e, nesse sentido, animal. Como toda pulsão instintiva, ele age de forma devastadoramente intempestiva e inesperada. Não há como prever nem deter sua força destruidora. Só resta aos atingidos recolher-se por um tempo, lamber as feridas e ponderar sobre as próprias fragilidades. Depois, aos poucos, retomar a vida cotidiana com uma compreensão mais abrangente da responsabilidade de cada um no sentido de enfrentar de peito aberto os perigos que nos rondam.

Cachorro 7Há, no entanto, algumas diferenças importantes entre a forma humana e animal de agir maldosamente que eu gostaria de explorar por alguns instantes. Em primeiro lugar, nós animais somos incapazes de planejar uma ação, seja ela boa ou má. Vivemos exclusivamente no aqui e no agora, reagimos apenas aos estímulos que se nos apresentam de imediato. Em segundo lugar, os sinais de que algo ruim está prestes a eclodir são mais inequívocos entre nós. Quando um cachorro penetra em nosso território com o rabo erguido e não se deixa cheirar pelos demais, não há como ignorarmos o alerta vermelho. Não importa se o agressor em potencial é um pitbull descontrolado e todos os demais assustados chihuahuas, a reação virá de pronto na forma de rosnados, latidos e união de forças da matilha para perseguir o agressor prepotente.

Crédito: Yogi.centerblog.net

Crédito: Yogi.centerblog.net

Nem sempre nossa estratégia de sobrevivência dá certo, tenho de confessar. Às vezes, a força do adversário é descomunalmente desproporcional e, quando isso acontece, só nos resta lançar mão de um último recurso instintivo. Nós nos deitamos de barriga para cima, esticamos o pescoço para trás, deixando nossas jugulares expostas à sanha do atacante. Pode parecer um gesto tresloucado de nossa parte, mas funciona: o ataque é interrompido instantaneamente. Equivale ao que vocês chamam de ‘jogar a toalha’, gritar que a luta está terminada, que estamos nos rendendo. Para nós, não há vergonha nem humilhação nessa tomada de decisão, uma vez que entendemos que a continuidade da luta implicaria a utilização de recursos que contrariam mesmo a natureza mais selvagem. Uma coisa é medir forças para garantir a sobrevivência do indivíduo e outra, bem distinta, é recorrer à violência gratuita na tentativa de preservar nossa raça ou nossa espécie.

Cachorro 19Em terceiro lugar, somos alheios à mágoa e ao ressentimento. Cada novo encontro entre nós é, literalmente, um recomeço. Só somos capazes de guardar a memória do cheiro de quem nos agrediu anteriormente e associar esse cheiro à lembrança de dor física. Mesmo assim, quando o sentimos novamente, não tomamos a iniciativa de contra-atacar. Tentamos mais uma vez nos aproximar e, caso sejamos repelidos agressivamente, eriçamos nossos pelos, rosnamos, retesamos nossos músculos, abaixamos nossas cabeças e as patas da frente, levantamos nossas caudas, engolimos o medo e partimos para a luta, mesmo que ela seja mais uma vez desigual.

Crédito: Ellem.ca

Crédito: Ellem.ca

Respeito a necessidade que vocês humanos sentem de identificar as causas de cada ataque que sofrem, ainda que não acredite pessoalmente na eficácia dessa atitude. O que a própria vida já deve ter-lhes ensinado é que algumas vezes é preciso não entender, admitir o pasmo, passar recibo da sofrida perplexidade que um ataque como esse provoca. Também não me parece promissor desqualificar o comportamento de quem os ataca de surpresa, pelas costas, como “não humano”. Ele é humano, sim, infelizmente. Apenas quando vocês puderem admitir que a natureza humana é, por definição, imperfeita, já que é metade de bicho racional e metade irracional e, portanto, comporta os gestos de maior grandeza e benevolência, assim como os mais covardes e cruéis, é que alguma forma de mudança poderá começar a se delinear.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Temos, entretanto, um traço em comum que pode realimentar a esperança de dias mais felizes para vocês. Tanto entre humanos quanto entre animais, não é preciso ensinar nossos filhotes a amar. Basta que o outro se aproxime de nós com docilidade, seja no corpo ou na voz, para que nosso sistema de retribuição seja acionado de imediato.

Apesar dessa herança filogenética comum, é triste constatar que, para que um filhote humano chegue a cultivar o ódio, as lições dos adultos têm de vir de forma sistemática. É realmente uma pena que isso aconteça na sua espécie. Só posso lamentar que vocês ainda não tenham desenvolvido a capacidade de ignorar o passado e o futuro e de se ater ao cheiro do presente”.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.