Eletricidade

Independência energética – 1
Faz uma semana, foi inaugurado o mais longo cabo submarino de transmissão de eletricidade. Com seus 720km de comprimento, liga a Grã-Bretanha à Noruega, e custou uma fortuna. Segundo o anúncio oficial, “os dois reinos podem, a partir de agora, compartilhar suas energias renováveis”.

Num momento em que o preço mundial do gás está nas alturas, a novidade é bem-vinda. A troca de eletricidade funciona de modo singular. Quando venta forte na Inglaterra (país onde o que não falta é vento), as turbinas eólicas giram a todo vapor. Nessas horas, a produção de eletricidade é superior ao consumo. Como ensinou doutora Dilma, não é possível estocar vento. Nessas horas de superprodução, o cabo serve para exportar eletricidade para a Noruega a preços de liquidação. Na Noruega não venta tanto.

Enquanto consome a eletricidade inglesa, a Noruega deixa que a chuva e o derretimento da neve encham suas barragens. Assim que estão cheias e de novo prontas para produzir energia, é hora de fazer o caminho inverso. O excesso vai, pelo mesmo cabo, para a Grã-Bretanha, levando força e luz a precinho camarada. Na Grã-Bretanha, a topografia não permite a construção de barragens importantes.

O sistema é um achado. É daquele tipo de ideia que a gente se pergunta por que não pensaram antes.

 

 

Independência energética – 2
Na semana que passou, foi inaugurado o maior parque solar do estado de São Paulo. Construído por uma empresa de origem portuguesa, é o quinto entre os maiores parques brasileiros. Situado às margens do Rio Tietê, no oeste do estado, necessitou investimento de 750 milhões de reais e gera energia suficiente para suprir as necessidades de 750 mil pessoas.

Fazendo as contas, dá 1000 reais por habitante. É uma quantia que, no final, não me parece elevada, tendo em vista os benefícios. Se, por hipótese, se decidisse produzir energia solar suficiente para os 200 milhões de brasileiros, seria necessário investir 200 bilhões de reais – o que não me parece exagerado. (Com os bilhões constantemente surrupiados do Tesouro Nacional, daria pra cobrir o território nacional de parques solares. Rapidinho.)

É claro que meu devaneio é teórico, pois há que pensar ainda na transmissão da energia gerada. Há que lembrar ainda que, na hora de consumir energia, certas indústrias são bem mais gulosas. Por seu lado, não se pode esquecer que já existe uma rede instalada de produção de eletricidade.

Tendo em mente que gás e petróleo são fontes de energia fadadas a sumir do cardápio dentro em breve, está mais que na hora de decidir o caminho a seguir quando a energia fóssil estiver aposentada.

Em teoria, o Brasil é um país que não precisava usar nem uma gota de petróleo nem de gás. Para extrair energia solar, temos sol o ano inteiro – o que nem sempre ocorre em outros lugares.

Quanto à água, se sobrar alguma depois que Bolsonaro passar, poderemos continuar explorando a energia hidroelétrica.

Embora não possa ser estocado (Doutora Dilma dixit), temos muito vento. Não dá pra guardar vento no bolso, mas dá pra conservar energia em baterias, por exemplo.

Nosso país tem tudo o que precisa pra abandonar toda fonte de energia fóssil. Tenho certeza de que o caminho é esse. Por enquanto, está um pouco complicado, mas assim que o capitão desaparecer e deixar de atrapalhar, vamos dar passos largos na boa direção.

A briga de vizinhos e o relógio

José Horta Manzano

Você sabia?

Eu me lembro que, quando era criança, havia um relógio em casa. Um só. Soberano, reinava pendurado na parede do corredor. Empoleirado lá em cima, dominava o ambiente. Dono e senhor do tempo, ditava o ritmo da família.

Hoje não é mais assim. A gente vive rodeado de relógios. Tem o do celular, o do computador, o do micro-ondas, o de pulso, o de cabeceira, o do rádio, o do banheiro, o do carro, o de cima da geladeira, aquele que anda esquecido no fundo da gaveta em pré-aposentadoria. Ah, e tem ainda o do corredor, bastante deprimido com tanta concorrência.

Em princípio ‒ digo bem: em princípio ‒, todos deveriam marcar a mesma hora, questão de coerência. Na prática, todavia, a teoria se perde. Ao marcar um minuto a mais ou a menos que o vizinho, parece que cada um dos reloginhos faz questão de afirmar a própria singularidade. Um resto de rebeldia adolescente, sem dúvida.

Lá pelo meio de janeiro, notei que o relógio do forno elétrico andava meio preguiçoso. Fugindo ao costume de empatar com o do rádio, deu de atrasar. Começou com um minuto. Uma semana depois já atrasava dois minutos que, dias mais tarde, já eram três. Imaginei que o mecanismo estivesse sofrendo de reumatismo em razão da velhice. Achei até curioso que relógio também sofresse esses achaques.

Mas a coisa foi piorando. Na segunda semana de fevereiro, quando a defasagem já atingia seis minutos, resolvi dar uma colher de chá ao ancião: acertei o relógio. Não deu uma semana, e o rebelde já corria, penosamente, dois minutos atrás da hora certa. Cheguei a pensar em trocar de forno, mas uma reflexão mais profunda me acalmou. Não vale a pena usar canhão pra caçar pardal.

Eis senão quando fiquei sabendo da razão desse desarranjo. Nulo em física, não tenho condições de explicar tim-tim por tim-tim. Vou-lhes vender o peixe pelo preço que paguei. O problema vem de uma briga de vizinhos que ocorre a dois mil quilômetros daqui, lá pelas bandas da Península Balcânica.

Para entender, precisa saber duas coisas. A primeira é que a rede elétrica europeia é toda interligada, providência bastante prática. Quando um país não tem como responder a um aumento da demanda interna, compra energia dos vizinhos. Esse toma lá dá cá se faz de maneira semiautomática. A segunda informação é que o Kosovo, pequena província que se separou unilateralmente da antiga Iugoslávia, não é reconhecido pela Sérvia como país independente. Os dois vivem mostrando a língua e tentando passar rasteira mutuamente.

Em meados de janeiro deste ano, o Kosovo decidiu privar a Sérvia do excedente de energia. Só para atazanar o vizinho, as autoridades kosovares preferiram desperdiçar eletricidade em vez de ceder ao vizinho, como manda o figurino. Esse pequeno incidente gerou reflexo no sistema de distribuição da Europa inteira. A frequência da rede, normalmente de 50 herz, baixou a 49,996 herz. Essa minúscula variação não altera em nada a potência da eletricidade. Lâmpadas continuam acendendo e motores funcionam sem problema.

Acontece que relógios elétricos ‒ isso eu não sabia ‒ são regulados pela frequência. Se ela foi maior que 50 herz, os bichinhos adiantam. Se for menor, atrasam. Daí o descompasso de reloginhos de forno e de despertadores ligados na tomada. Os governos europeus estão atualmente empenhados em reconciliar os vizinhos bicudos. Não há perigo de estourar uma guerra, mas permanece o risco de muito cidadão continuar chegando atrasado ao trabalho.

Visto de cá, visto de lá

José Horta Manzano

PoteauVisto de cá
Nossos conterrâneos roraimenses vivem no único Estado da Federação apartado da rede elétrica nacional. Por motivos que vêm de longe, um convênio entre Brasília e Caracas prevê que as necessidades elétricas de Roraima sejam supridas pela Venezuela.

O acerto funcionou enquanto certa normalidade reinava no país vizinho. As necessidades energéticas roraimenses não sendo enormes, o fornecimento não costumava gerar problema para os venezuelanos.

Desde que o viés populista ‒ dito «bolivarianismo» ‒ passou a dar as cartas no país caribenho, a situação começou a desandar. Desvios de recursos e sucateamento da infraestrutura provocaram desorganização geral. A energia elétrica destinada a Roraima não escapou dos efeitos do desmonte.

O portal Ecoamazônia nos informa sobre o aperto por que vem passando o meio milhão de habitantes do Estado do Norte brasileiro. Transformaram-se em reféns da crise venezuelana. Estão submetidos ao mesmo racionamento que castiga os hermanos.

Monte Roraima

Monte Roraima

Residências, escritórios, fábricas, cinemas, sorveterias, lavanderias e todos os que dependem da energia elétrica estão contabilizando dores de cabeça e perdas financeiras. Enquanto tudo funcionava, ninguém se preocupou. Agora que os apagões se multiplicam, fica evidente a falta de visão dos que tomaram a decisão de se submeter à dependência estrangeira.

Rede de distribuição não se constrói em 24 horas. Por um bom tempo, nossos conterrâneos ainda hão de sentir os efeitos daninhos de uma escolha pela qual não são responsáveis. Ainda que Roraima não seja um Estado de excepcional importância econômica na União, seus habitantes merecem, como todos os outros, ser bem tratados. Chegou a hora de investir na interligação com a rede nacional.

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Roraima 2Visto de lá
Artigo deste 8 de maio do diário venezuelano El Impulso grita: «Venezuela regala a Brasil electricidad de venezolanos». Na visão de nossos vizinhos, a eletricidade que lhes falta está sendo «dada de presente» ao Brasil.

Reclamam que, enquanto vende energia ao Brasil por preço irrisório, a Venezuela compra eletricidade da Colômbia pelo dobro do valor. Não sou especialista no assunto. No entanto, entendo que trato é trato. Se o preço combinado foi esse, combinado está. Aliás, se alguém não está cumprindo a obrigação no presente caso é justamente a Venezuela.

Viva o bolivarianismo!