Eleição vem aí – 2

José Horta Manzano

Os habitués deste espaço sabem, e os que por aqui passeiam vão perceber, que elogios a políticos, se faço, são parcos. O que se encontra em cada esquina são críticas. Em nosso país, surpresas boas andam escassas. A política do Brasil é como um livro aberto que a gente folheia de trás pra diante. Quando anunciam fato novo, a gente já sabe como é que vai terminar. (E o final nem sempre é feliz.)

Começaram as entrevistas, os debates e as sabatinas em que candidatos são “cozinhados”. Soube de que um deles, filho de um político que está atualmente recolhido ao conforto de sua mansão, a cumprir pena de prisão, que levou uma “cola” rabiscada na palma da mão esquerda. Como se vê, o afinco com que se lançam à conquista do Planalto é tão sincero que, sem a colinha, podia até esquecer seus argumentos.

Outro dia, teve um que mostrou duas fraldas às câmeras, cada uma levando escrito o nome de um dos candidatos majoritários. Não sorriu. Concluo que, dada a sisudez do rapaz, estivesse exibindo as duas últimas fraldinhas que usou. Talvez pra provar que já não é criança, sei lá.

À vista desses debates de nível rasteiro, não me interessei pelo que foi dito ou não foi dito nos debates. Isso durou até dois ou três dias atrás, quando li uma chamadazinha no jornal comentando o desempenho de um candidato desconhecido, um certo Augusto Cury. O texto era elogioso, o que aguçou minha curiosidade e me fez procurar saber mais.

Encontrei no youtube um vídeo oferecido pela rede Band contendo a participação completa desse candidato no debate do canal, uma tertúlia empobrecida pela ausência de três fujões: Lula, Flávio B. e Zema.

A falta dos tenores foi providencial: permitiu que a voz de candidatos menores fosse ouvida. O candidato Augusto Cury me impressionou. É um médico psiquiatra, com mestrado e doutorado, que nunca se envolveu com política. Deixou bem claro que, sendo multimilionário, não procura enriquecer agora, pois já não precisa.

A experiência prática que lhe falta é preenchida por ideias claras e firmes em matéria de educação, redistribuição de renda, política fiscal. Não quero dar aqui a impressão de estar fazendo propaganda eleitoral em favor desse senhor. O que me encantou na fala dele foi o discurso em tom civilizado, sem adjetivos desnecessários, sem um pingo de agressividade, sem um palavrão sequer.

Faz muito tempo que não ouvia uma fala desse naipe saindo da boca de um candidato à Presidência. Estava quase acostumado a ataques abaixo da cintura, que podem render cliques, mas não acrescentam nada ao embate de ideias.

Pensei que, entre os seis principais candidatos, esse senhor me parece, de longe, o mais bem intencionado. Nos dias que correm, sinceridade e boas intenções são pra lá de importantes. Se nenhuma catástrofe ocorrer daqui até o dia do primeiro turno, já sei pra quem vai meu voto

Efeito Orloff

José Horta Manzano

Até algumas décadas atrás, os brasileiros se sentiam um tanto complexados com relação aos argentinos. Bem antes de nós, nossos vizinhos deram mostra de se aproximar da civilização.

Não conheceram a escravidão. Alcançaram a independência antes de nós. Receberam importante fluxo migratório antes do Brasil. Sabe-se que o PIB per capita argentino era o quarto do planeta cem anos atrás.

Bandeira Brasil ArgentinaEm 1913, Buenos Aires inaugurou sua primeira linha de metrô – apenas doze anos depois de Paris! O de São Paulo só viria 60 anos mais tarde. A mesma defasagem ocorreu na imprensa especializada. A primeira revista dedicada ao público feminino apareceu na Argentina em 1922. As brasileiras tiveram de esperar quarenta anos para folhear o primeiro similar nacional.

Parafraseando o bordão criado pelo marqueteiro de uma indústria de bebidas, costuma-se dizer que o Brasil é a Argentina amanhã. Em claro: mudanças acontecem primeiro na Argentina, para, em seguida, contaminar o Brasil. Não há prova científica disso, mas a afirmação está longe de ser absurda.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Considerando as declarações do candidato recém-eleito para a presidência do país vizinho, é bom torcer para o efeito Orloff voltar a funcionar desta vez. O homem tem características importantes. Já atinge o trono presidencial na qualidade de multimilionário. Ele não precisa do cargo para enriquecer: já tem dinheiro saindo pelo ladrão. Lembremos que nenhum de nossos presidentes era imensamente rico ao chegar à presidência. Eu disse ao chegar.

Mais que isso, o mandatário dá mostras de ter mente arejada, sem ranço de defuntas ideologias nem sombra de autoritarismo. Entendeu que país rico e desenvolvido dá maiores chances aos cidadãos. Numa demonstração da importância que dedica ao relacionamento entre nossos países, comprometeu-se a brindar o Brasil com sua primeira viagem oficial depois de eleito.

Chamada jornal La Nación, 23 nov° 2015

Chamada jornal La Nación, 23 nov° 2015

Posicionou-se firmemente contra as arbitrariedades cometidas pelos mandachuvas da maltratada Venezuela. Recebeu a mulher de señor Leopoldo López, opositor venezuelano, condenado a mais de 12 anos de cadeia em processo de cartas marcadas.

Declarou que pedirá a exclusão da Venezuela do Mercosul em virtude das agressões à democracia cometidas pelo governo bolivariano. Tem intenção de acelerar o entrosamento do bloco e de pressionar para que cheguemos a acordos comerciais com a Europa, com os EUA e com os países andinos. Um programa de dar vertigem!

Mercosul 4Vivemos um momento peculiar, com uma Argentina de cabeça erguida e aberta ao mundo, uma Venezuela em adiantado processo de decomposição, uma República Cubana em via de reintegrar a confraria dos bons amigos dos EUA, uma China em franca desaceleração. Temos excelentes chances de sacudir a poeira, tirar os pés do atraso e seguir o caminho que o mandatário do país hermano nos convida a trilhar.

Durmam tranquilos, cidadãos. O efeito Orloff logo vai-se fazer sentir.