Escolha seu candidato

José Horta Manzano

Você sabia?

Não sei se o distinto leitor já sabia. Quanto a mim, acabo de descobrir. Um apanhado de mais de vinte cabeças pensantes (e trabalhantes) se reuniu para dar uma mão ao eleitor brasileiro. Criaram um site ‒ politicos.org.br ‒ que avalia a atuação de senadores e deputados federais da legislatura atual.

Fazia tempo que eu matutava sobre o assunto. Como faço pra ficar por dentro da atuação de cada parlamentar? Entre senadores e deputados, são quase 600! Quando a gente só pode contar com o google, fica complicado, pra não dizer impossível.

O pessoal desse novo site faz o trabalho e entrega o prato pronto. Pra chegar à classificação final, levam em conta, entre outros pontos: a assiduidade de cada parlamentar, os gastos que faz por conta da viúva, os processos judiciais em que é réu, o voto que deu a cada lei, sua formação acadêmica, a frequência com que trocou de partido. Outros atos significativos de cada parlamentar podem também ser considerados.

Pontos positivos (ou negativos) são atribuídos. Na classificação atual, o parlamentar mais bem avaliado é doutor Lobbe Neto, deputado federal pelo PSDB/SP. Ele atinge a respeitável marca de 590 pontos. Na outra extremidade, o lanterninha é doutor Celso Jacob, deputado federal pelo MDB/RJ, autor da proeza de baixar a 1086 pontos negativos.

O site fornece ainda os dados pessoais de todos os parlamentares, incluindo data de nascimento, n° de CPF, formação acadêmica, endereço eletrônico. A classificação por quantidade de processos vai desde os que não respondem a nenhum até os que se encontram esmagados sob um calhamaço de acusações.

Com insistência, recomendo ao leitor que consulte o site antes de decidir. Ponha lá o nome de seu candidato e veja se o doutor (ou a doutora) merece realmente seu voto. Ah! E não se esqueça de espalhar a boa-nova. Vale a pena.

De bicicleta

José Horta Manzano

A queixa mais recorrente que se faz contra homens públicos é a de se dedicarem mais a benefícios pessoais e menos ao interesse da população. O modo de agir de grande parte dos representantes do povo é, de fato, desleal. Eleitos que foram para cuidar do bem comum, desvirtuam-se. Uma vez instalados nas confortáveis poltronas das casas legislativas, mandam para escanteio o interesse dos eleitores e passam a cuidar dos próprios.

Um exemplo atualíssimo é a reticência dos parlamentares em promover reformas no sistema previdenciário. Toda pessoa de bom senso, com um mínimo de informação, consegue entender que, do jeito que está, a regra atual não tem condições de se sustentar. Nem a médio prazo. É falência certa, débâcle pela qual todos pagarão: ativos e aposentados, válidos e inválidos, ricos e pobres.

Apesar dessa evidência estatística, suas excelências resistem. O interesse eleitoral imediato de cada um prevalece sobre o bem comum, hipotecando o futuro dos cidadãos. Se trancam a pauta e sonegam o voto, não é por convicção nem por ideologia. Respondem apenas à mesquinha estratégia de passar por simpáticos e assim aumentar a chance de reeleição.

O exemplo vem de cima. Queiram ou não, o comportamento das excelências que nos governam dá o tom. Desvios de conduta lá em cima incentivam atitudes tortas cá embaixo. Fica difícil exigir do zé povinho um comportamento aprumado quando a safadeza de figurões frequenta quotidianamente a mídia.

Estes dias, tornou-se pública a informação de que um cidadão, interessado em conquistar a coroa de recordista mundial de rapidez em bicicleta, conseguiu a impressionante façanha de circular em velocidade superior a 200km/h. O fato se deu no Paraná em novembro último. Parabéns ao campeão. Mas.. como é que ocorreu?

BR-277 sem espetáculo ciclista

Para atingir o recorde, não havia outro meio senão correr no vácuo de outro veículo. O governo do Paraná e a Polícia Rodoviária Federal se acumpliciaram para dar uma ajudazinha ao rapaz. Passando por cima do interesse dos usuários, autorizaram o fechamento de longo trecho de uma rodovia federal. O “espetáculo” teve lugar na BR-277, importante via expressa que liga Curitiba ao litoral. Em plena luz do dia, o tráfego foi interrompido ‒ nos dois sentidos ‒ por longos 20 minutos.

O poder público não se comoveu com a aflição do honesto cidadão que tivesse de apanhar um avião no aeroporto nem com o desespero da mulher prestes a dar à luz que não tivesse outro caminho para a maternidade. Tampouco pensaram em ambulâncias, veículos de bombeiros ou viaturas policiais que porventura tivessem premência de circular por ali. Sem mencionar o contratempo causado aos demais usuários, que são, ao fim e ao cabo, os que pagaram pela construção da estrada e continuam pagando pela manutenção.

Ainda falta muito para o dia em que o interesse público primará sobre conveniências pessoais.

Nota 1
Segundo o locutor televisivo que comentou o “evento”, faz tempo que esse ‘campeão’ ciclista foi banido de competições regulares por motivo de dopagem. Eis por que se dedica a outro tipo de espetáculos. Ficam aqui nossos parabéns às autoridades que patrocinaram a pavonada.

Nota 2
Tanto o recordista quanto as dezenas de veículos que o acompanhavam no eletrizante show circularam em flagrante excesso de velocidade. Não há registro de que algum deles tenha sido multado. Pontos na carteira? Isso é pra nós, que somos menos iguais.

Fiasco continental

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° maio 2016

Faz cinco séculos que as Américas portuguesa e espanhola se estranham. Na linha de fronteira que corria imprecisa por entre igarapés, pantanais e outros ermos, a ausência de contacto físico apartava lusos e castelhanos. Conviviam em paz relativa, embora sempre de costas uns para os outros, mais ou menos como irmãos brigados.

O ponto de encontro e de atrito maior sempre se situou na região Sul e nos entornos do Rio da Prata. Terra boa, gente pouca e clima ameno atraíram a cobiça dos colonizadores. A criação um tanto forçada da República do Uruguai foi concebida justamente para erigir estado-tampão entre os castelhanos e as antigas províncias lusas.

Assim mesmo, a desconfiança continuou. Não só persistiu mas acirrou-se à medida que Brasil e Argentina se fortaleciam, cada um por sua conta. No século XX, quando ditaduras assolaram ambos os países, a mútua suspeição atingiu o paroxismo. O cenário imaginado por dez entre dez generais de lá e de cá era um só: a iminência de guerra fratricida.

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Redevolvido o poder aos civis, os dois países se deram conta de que o mundo havia mudado. Estava chegada a hora de acabar com o belicismo e de enterrar o machado de guerra. Afinal, governos passam, gente nasce e morre, mas Brasil e Argentina estão condenados a continuar vizinhos ad aeternum.

Empunhando uma cuia de chimarrão à guisa de cachimbo da paz, Sarney e Alfonsín plantaram a semente do futuro Mercosul. A fundação propriamente dita só viria anos mais tarde, com a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991. No começo, a ideia era aproximar Brasil e Argentina. A incorporação do Paraguai e do Uruguai foi acessória, acréscimo pouco oneroso ao plano originário. A ideia da aproximação era boa, sem dúvida. Contudo, não foi levada adiante com maestria. A aliança se encharcou, por cacoete, de toda a burocracia ibérica tradicional. Desde o início, a importância dos considerandos superou, em muito, a dos finalmentes.

Assim mesmo, a instituição funcionou mal e mal até o advento do kirchnerismo lá e do lulopetismo cá. A partir de então, a coisa desandou de vez. A ambiciosa «união alfandegária» transformou-se em foro caricato de verborreia populista. A entrada ‒ pela porta dos fundos ‒ da bolivariana Venezuela foi a gota d’água, a consumação da débâcle.

Alfandega 1Aos trancos, o Mercosul completou o primeiro quarto de século esta semana. Ficou combinada a comemoração em Montevidéu. Esperava-se a presença prestigiosa do chefe de Estado de cada país-membro. Pois tirando o anfitrião uruguaio, nenhum presidente compareceu ao encontro. Nenhum! Foi demonstração cabal da insignificância do bloco, um fiasco de dimensões continentais.

Só não vê quem não quer: em 25 anos, nenhum acordo comercial significativo foi concluído com parceiros externos. Num evidente desvirtuamento de funções, as cúpulas vêm sendo politizadas. Outros blocos comerciais, longe de ser vistos como parceiros potenciais, são tratados como adversários. O exemplo mais recente de picuinhas que tomaram o lugar de tratativas proveitosas ocorreu durante a comemoração desta semana. Além do desprestígio gerado pela ausência dos presidentes convidados, a cúpula foi palco de embate digno de tumultuosa reunião de condomínio.

Embora nossa presidente não tenha dado o ar da graça, uma delegação de 20 parlamentares brasileiros compareceu. Num comportamento primitivo, os organizadores quiseram deixar patente seu desagrado com o processo de destituição que corre contra Dilma Rousseff. Para tanto, designaram, para a alentada delegação brasileira, uma fila de cadeiras situada ao fundo da sala. Trataram, assim, sócios fundadores como se não passassem de meros observadores, quase estranhos no ninho.

Parlasur Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Parlasur
Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Irritados com a ofensa, 17 dos 20 deputados brasileiros viraram as costas e abandonaram a cerimônia. Só permaneceram três estoicos parlamentares, decerto mais comprometidos com o Planalto. Pelos tempos que correm, não é delírio supor que a manobra tenha sido soprada justamente por autoridades ligadas ao Executivo brasileiro. É conhecido o ressentimento nutrido por certos assessores presidenciais obstinadamente apegados a ideologias empoeiradas.

Como se costuma dizer em ocasiões assim, chegou a hora de «discutir a relação». O Mercosul, do jeito que está, se exauriu. O bloco econômico se politizou e se afastou das funções para as quais foi criado. Que se retomem os objetivos originários. Ou que se apague o letreiro, se desmonte o picadeiro e se desarme o circo.

A confirmação da picaretagem

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Num tempo em que era principiante na política e suas bravatas ainda encantavam, o Lula chegou a dizer que havia «300 picaretas» na Câmara. O tempo passou, o antigo metalúrgico foi eleito à presidência da República e passou a acreditar que tinha alcançado o poder eterno, total e inamovível.

Surpreendentemente, no lugar de batalhar para limpar a Câmara dos elementos indignos que havia denunciado, preferiu aliar-se a eles para sustentar sua vaidade e sua sede de perenidade.

Não deu certo, como hoje sabemos. A soberba cegou nosso guia e não lhe permitiu enxergar que não se constrói edifício sem alicerces. O prédio ruiu. Humilhado, o taumaturgo hoje foge da Justiça e teme a prisão. Para escapar, empenha-se em aliciar aqueles mesmos que um dia chamou picaretas.

A crer no Placar do Impeachment, publicado pelo Estadão e atualizado continuamente, os parasitas oportunistas que se abrigam sob a cúpula da Casa do Povo não são tão numerosos como imaginava o líder hoje caído.

No momento em que escrevo, o inventário de votos declarados é o seguinte:

285 votos a favor da destituição da presidente
114 votos contra a destituição da presidente
114 em cima do muro

No total, chega-se aos 513 deputados. Em seu falatório peculiar e ambíguo, o Lula nunca explicou com clareza o que entendia por “picareta”. É lícito supor que se referisse à pouca honestidade e à falta de seriedade de parlamentares.

PicaretaO placar do Estadão parece indicar que os “picaretas” são muito menos numerosos do que apregoava o antigo presidente. Afinal, no momento grave que vive nosso país, é primordial que cada um se defina. Que sejam pelo sim, que sejam pelo não, o importante é que façam conhecer sua posição. Afinal, cada um deles está lá representando um naco da população.

Os que querem ver dona Dilma pelas costas são já 285 (55.5% do total). Os que preferem que tudo continue como está são 114 (22% do total). E o resto? Por incrível que possa parecer, 114 representantes do povo estão em cima do muro. São quase um em cada quatro! Estão aí os picaretas comprovados. Nesta altura dos acontecimentos, não ter definido seu voto é confissão de estar à venda, à disposição de quem der mais.

Indecisão 1Embora eu não compartilhe a visão dos que preferem que a senhora Rousseff continue presidente, respeito a opinião dos que se solidarizam com ela. Naturalmente, respeito também a posição dos que desejam que a quadrilha se vá. É inadmissível, no entanto, que um quarto dos deputados ainda esteja participando desse leilão indecente.

Até o Maluf já abriu seu voto! Que estão esperando os deputados Fufuca (MA), Salame (PA), Brasileiro (MG), Marreca (MA), Cabuçu (AP), Maniçoba (PE), Tiririca (SP), Garçon (RO), Tibé (MG)? Queiram ou não, terão de se exprimir. Ou faltar à sessão solene, atitude que lhes vai pespegar indelével etiqueta de fujões. Além de picaretas, naturalmente.