De bom tamanho

José Horta Manzano

Señor Leopoldo López, cidadão venezuelano que não compactua com os rumos «bolivarianos» que estão sendo impostos a seu povo, estava na cadeia havia ano e meio à espera de julgamento.

Manif 2Seu crime? Opor-se ao descalabro que tomou conta de seu país, outrora pacífico e promissor. Organizou passeatas, liderou manifestações, difundiu centenas de tuítes. Os guias da «revolução» não apreciaram nadinha. Disseram que o rapaz fazia apologia da violência, que suas palavras configuravam incitação à selvageria.

Depois de deixar que ele mofasse numa masmorra por quase dois anos, submeteram-no a um daqueles processos que fazem lembrar os expurgos stalinistas dos anos 30. A acusação pediu 14 anos de prisão e 14 anos obteve. Um jogo de cartas marcadas.

Justiça 3Catorze anos por delito de opinião, distinto leitor. Nosso vizinho (e sócio no Mercosul!) anda cada dia mais parecido com a China, o Irã, a Arábia Saudita, a Rússia, a Coreia do Norte, países onde nenhuma dissensão é tolerada.

Se a sentença que desabou sobre o infeliz cidadão não tiver sido decisão política, que terá sido?

Interligne 18b

Ocorre-me um episódio que fez barulho, no Brasil, alguns meses atrás, mas que já anda meio esquecido. No meio de tanta turbulência, é natural que detalhes desçam pelo ralo. Vale a pena repescar este aqui.

Lula e Fidel 2Quando começou a se dar conta de que a vaca ia indo direto pro brejo, nosso guia ficou furioso. Um belo dia, olhos dardejantes, num discurso inflamado, convocou um tal de Stédile par pôr em ação seu «exército». Todos os jornais deram a notícia.

Concluindo: se os tuítes de señor López foram incitação à selvageria, a ameaça de nosso guia também foi. Que pena merece o autor? Será que catorze anos estariam de bom tamanho?

300 + 1

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 11 set° 2015

Chamada do Estadão, 11 set° 2015

Não vejo motivo para espanto, que não é só deputado que advoga em nome de outros. Tem até ex-presidente(!) que se tornou lobista de construtora. Que faz um lobista? Defende os interesses de seus mandantes.

Se faltava encontrar o elo entre nosso guia e os «300 picaretas» que ele um dia denunciou, não precisa procurar mais: a conexão agora está clara. São 300 picaretas… mais um.

Falam de nós – 11

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

«Se pensava che la sua ricandidatura alle prossime presidenziali fosse una passeggiata, Luiz Inacio Lula da Silva si è sbagliato.»

«Se imaginava que sua candidatura à próxima eleição presidencial fosse um passeio, Luiz Inácio Lula da Silva se enganou.»

Bluewin, portal de Swisscom – a mais importante operadora suíça de telecomunicações –, em artigo publicado em língua italiana em 5 set° 2015.

O sete de setembro aqui e ali

José Horta Manzano

Sete de setembro não é feriado na França. Esta segunda-feira é dia como qualquer outro. O presidente da República, François Hollande, está concedendo entrevista coletiva a uma plateia de jornalistas. O formato é clássico: primeiro, fala o presidente; em seguida, jornalistas fazem perguntas.

A popularidade das personalidades políticas francesas é aferida mensalmente. A do presidente, embora seja bem superior aos 7% de dona Dilma, não vai além de 26% dos entrevistados. Um presidente impopular.

François Hollande 7Entrevistas coletivas presidenciais na França são organizadas duas vezes por ano. Ainda que a aprovação do presidente esteja lá no fundo, não há previsão de panelaço. Nem de colheraço. Os céus de Paris não perigam ver boneco inflado vestido de presidiário.

É permitido concluir que as vaias de que dona Dilma é obrigada a fugir não são unicamente fruto da baixa popularidade. O peso da roubalheira é que é insuportável. O sentimento de ter sido assaltado causa frustração e revolta. Eis o cerne da bronca dos brasileiros.

Irracionalidade emocional

José Horta Manzano

Tudo o que é comum, diário, corriqueiro, habitual passa batido. Os brasileiros com menos de 40-45 anos não conheceram a ditadura. Para esse segmento da população, democracia faz parte do quotidiano. Diferentemente de dez ou quinze anos atrás, há cada dia mais conterrâneos nessa situação.

Essa constatação explica a dificuldade que têm os jovens brasileiros em se identificar com expressões que contenham a palavra democracia. Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza – dizemos. No entanto, quem comeu melado a vida inteira não se lambuza mais. Quem passou a vida sob regime democrático só conhece o outro lado de ouvir falar.

Memorial às vítimas do comunismo

Memorial às vítimas do comunismo

Nomes como o Memorial da Democracia, que o Lula acaba de lançar, fazem pouco sentido para a população mais jovem. Por que «memorial»? Memorial, memória, lembrança, recordação são palavras de sentido similar. Algo que já se foi merece ser recordado. Algo que deixou de existir merece ser lembrado. Não é – por enquanto – o caso do regime democrático no Brasil.

Quando não faz sentido, um nome torna-se irrelevante. Memorial da Escravidão faria sentido. Memorial do Brasil-Colônia faria sentido. Memorial do Império faria sentido. Memorial da Democracia só fará sentido no dia em que a democracia tiver desaparecido de nosso horizonte. Pelo momento, não há previsão de que isso aconteça. E, se acontecer, o nome do memorial será rapidamente censurado pelos novos donos do poder.

Memorial às vítimas do Holocausto projeto

Memorial às vítimas do Holocausto
projeto

Era o que eu tinha a dizer sobre esse nome de curto alcance. Vamos agora nos ater a uma frase pronunciada pelo dono do lugar no discurso de lançamento. Nosso guia disse que as manifestações contra seu partido e contra o governo mostram uma «irracionalidade emocional da sociedade».

As palavras de nosso amado líder são pesadas, mas ocas de significado. O que ele disse soa bonito, mas faz tanto sentido quanto chamar seu novo prédio de ‘memorial’. Contesto a afirmação de que o momento atual seja «delicadíssimo». O momento é encorajante e auspicioso. Mostra que o gigante adormecido levantou a pontinha do cobertor. Ainda não se sabe se levantará de vez – o tempo dirá.

Memorial às vítimas do 11/9 projeto

Memorial às vítimas do 11 de setembro
projeto

A verdade nua e crua é que a sociedade brasileira viveu anos de «irracionalidade emocional», sim. Mas foi justamente quando nosso guia presidia aos destinos da nação. Foi na época em que ele, seus áulicos e seu partido ainda ludibriavam oito entre dez conterrâneos.

Hoje, felizmente, acabou. O que o dono do ‘memorial’ chama de «irracionalidade emocional» nada mais é que um despertar moral da nação. Ele sabe disso, razão pela qual se mostra tão angustiado.

Trabalho escravo

José Horta Manzano

Interligne vertical 13Interligne vertical 13«Em Angola, segundo as reclamações trabalhistas, vários operários adoeceram, alguns com suspeita de febre tifoide, em razão das péssimas instalações sanitárias nas obras e das condições de higiene precárias na cozinha do canteiro. Como os banheiros eram distantes do local de trabalho e permaneciam cheios e entupidos, operários eram obrigados a evacuar no mato. A água não era potável, e a comida, muitas vezes, estragada. Na cozinha, era comum a presença de ratos e baratas.»

Esta aí um trecho do relato feito pelo jornal O Globo sobre trabalho escravo em Angola. “Coisa de país africano atrasado” – pode ser a primeira reação de quem lê. Pois não é bem assim, distinto leitor.

O fato é que, por detrás dessa barbaridade, está o dedinho… adivinhe de quem? De nosso conhecido Grupo Odebrecht, sim, senhor.

Por meio de uma nebulosa de empresas, a empreiteira baiana associou-se a uma empresa angolana cujos proprietários são dois generais e o próprio vice-presidente daquele país. É acerto de bom tamanho. Deram as mãos para construir uma usina açucareira.

Escravidao 1Os operários – 400 homens de origem humilde, aliciados em vários estados brasileiros – foram despachados para a África para trabalhar em condições análogas às da escravidão. Passaporte confiscado e vigias armados reforçam a suspeita de que o ambiente estava mais pra campo de concentração do que pra parque de diversão.

Denúncia ao MPT (Ministério Público do Trabalho) rendeu frutos: julgado, o conglomerado Odebrecht foi condenado a pagar indenização de 50 milhões de reais. Ainda não definitiva, a sentença admite recurso.Lula caricatura 2

Não é impossível que o negócio tenha sido intermediado por conhecido figurão que atua como lobista da empreiteira baiana. Sabe-se que o homem em questão andou intermediando operações do grupo em terras africanas. Em Angola, especificamente.

Na sentença proferida, um detalhe me surpreende. O montante exigido da empresa condenada é chamado de indenização. Todo dicionário confirma que indenizar é ressarcir, compensar alguém por um mal que lhe tenha sido causado. O Ministério Público do Trabalho reserva-se o direito de reverter os milhões para projetos e iniciativas, assim como para dar publicidade à decisão de justiça.

Corrente 1Se assim for, indenização não será. O nome adequado para esse tipo de condenação é multa. No meu modesto entender, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Nada impedia que o conglomerado, além de ser multado, também tivesse sido condenado indenizar a parte prejudicada.

Com a decisão, os 400 infelizes que sofreram na pele a cupidez, a ganância e a avareza dos megaempresários (e de seus lobistas) ficarão a ver navios. Certas decisões de justiça são, no mínimo, curiosas.

Não dá mais tempo

José Horta Manzano

Não se pode dizer que nosso guia tenha subido na vida trabalhando duro. Antes de atingir a idade de 40 anos, já tinha deixado de bater ponto. Daí pra diante, dedicou-se a deitar falatório enquanto os companheiros cuidaram do resto. E que resto!

Tempos Modernos (1936), Charles Chaplin

Tempos Modernos (1936), Charles Chaplin

Esse percurso peculiar há de lhe ter dado a impressão de que o mundo funciona na base da força do pensamento. Basta desejar – e vociferar quando necessário – para moldar presente e futuro. Insistindo em sofismas, nosso guia tentou mudar até o passado, um assombro! Por um momento, houve gente que chegou a acreditar.

Esporte 2Hoje, tudo isso acabou. Afinal, nenhum mal é eterno. Alguns anos atrás, no entanto, quando «fez o diabo» para conseguir que os Jogos Olímpicos de 2016 fossem atribuídos à cidade do Rio de Janeiro, nosso demiurgo ainda vivia num mundo de fantasia.

Há de ter acreditado que bastava um sopro seu para garantir o sucesso dos atletas brasileiros. A designação do Rio de Janeiro foi considerada um fim em si, uma conquista, uma glória, o coroamento de admirável percurso político pessoal.

Esporte 3Desmancha-prazeres, o destino ousou contrariar o que parecia ser favas contadas. O vergonhoso desempenho da seleção nacional de futebol no Campeonato Mundial de 2014 despejou um balde de água gelada em muitas esperanças. Mensalão, petrolão e generalizada incompetência governamental lavaram a jato a glória pré-contabilizada.

O resultado é que os JOs 2016 perderam o encanto antes mesmo de começar. Faltando menos de um ano, pouco se fala neles. A julgar pelos resultados do Campeonato Mundial de Atletismo – que se desenrola estes dias em Pequim – dos duzentos e tantos milhões de habitantes de que dispõe, o Brasil não conseguiu espremer um número expressivo de atletas.

Esporte 1Com amor-próprio mais enraizado que o nosso, a China – país de pouco peso no esporte até então – trabalhou duro para brilhar nas Olimpíadas de Pequim, em 2008. E brilhou. No quadro de medalhas, apareceu em primeiro lugar, à frente de mastodontes como os EUA e a Rússia. Das 302 medalhas de ouro possíveis, abocanharam 51, uma façanha.

Em relato desta semana, o portal esportivo da televisão pública francesa apregoa em manchete: «Le Brésil sans relief à Pékin un an avant les Jeux Olympiques de Rio»o Brasil irrelevante em Pequim um ano antes dos Jogos Olímpicos do Rio.

JO 2016Do jeito que vão as coisas, podemos ir-nos preparando para mais um vexame transmitido ao vivo em escala planetária. É pena. Quem sabe um dia aprendem que, para as coisas funcionarem, não basta desejar: há que trabalhar.

Pensando bem – 8

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Começou já faz uns trinta anos.
Discursou em caixa de sabão.
Desde então, contou muita mentira,
Melhorou vestindo casimira,
Foi subindo, ganhou eleição.

Lula caido

Tanto fez que o povo acreditou
E por ele teve devoção.
Mas um dia o povo se cansou
(Neste mundo, tudo é passageiro)
Descobriram que era trapaceiro.
Não deu outra: foi jogado ao chão.

Me segura, que eu vou!

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 28 ago 2015

Chamada do Estadão, 28 ago 2015

Ainda que mal pergunte, o que quer dizer “se necessário”? Necessário para quem, cara-pálida?

As palavras de nosso guia soam como ameaça, né não? Esperamos todos que não “seja necessário”. Xô, te esconjuro!

Falam de nós – 9

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Como podem imaginar meus distintos leitores, as manifestações populares de 16 de agosto tiveram repercussão planetária. Dou-lhes, aqui abaixo, um apanhado das manchetes internacionais.

AlemanhaStern, maior revista europeia de atualidades
«Hunderttausende Brasilianer fordern Präsidentin Rousseff zum Rücktritt auf»
Centenas de milhares de brasileiros exigem renúncia da presidente Rousseff

SuíçaAgefi, jornal financeiro suíço
«Brésil: manifestations dans plus de 200 villes contre Dilma Rousseff»
Brasil: manifestações em mais de 200 cidades contra Dilma Rousseff

Suécia – Dagens Nyheter, jornal de referência
«Den brasilianska medelklassen protesterade i går i 239 städer i landet och krävde president Dilma Rousseffs avgång»
A classe média brasileira protestou ontem em 239 cidades do país e reivindicou afastamento da presidente Dilma Rousseff

América Latina – BBC de Londres, edição latino-americana
«“Brasil está siendo destruido”: lo que dicen los manifestantes anti-Rousseff»
Brasil está sendo destruído: é o que dizem os manifestantes anti-Rousseff

Alemanha – Frankfurter Allgemeine Zeitung, jornal importante
«Hunderttausende fordern Rousseffs Amtsenthebung»
Centenas de milhares exigem deposição de Rousseff

Manif 23Reino Unido – BBC de Londres, edição em inglês
«Brazilian protesters call for President Dilma Rousseff’s impeachment»
Manifestantes brasileiros clamam por impedimento da presidente Dilma Rousseff

Itália – Gruppo 24 Ore
«Brasile, destra in piazza per l’impeachment della Rousseff»
Brasil: a direita nas ruas pelo impeachment de Rousseff

França – Le Monde, jornal de referência
«Des centaines de milliers de Brésiliens disent ‘dehors’ à Dilma Rousseff»
Centenas de milhares de brasileiros dizem ‘fora’ a Dilma Rousseff

China – South China Morning Post, de Hong Kong
«Hundreds of thousands rally in Brazil to demand president’s resignation amid corruption scandal»
Centenas de milhares agrupam-se no Brasil para exigir renúncia da presidente em meio a escândalo de corrupção

Dinamarca – Jornal Fyens
«Hundredtusinder kræver præsidents afgang i Brasilien»
Centenas de milhares reivindicam afastamento da presidente do Brasil

Manif 24France Info – Rádio pública francesa
«Brésil: 900.000 manifestants réclament le départ de Dilma Rousseff»
Brasil: 900.000 manifestantes clamam pelo afastamento de Dilma Rousseff

Nova Zelândia – New Zealand Herald
«Anti-government protesters take to streets across Brazil»
Manifestantes contra o governo ganham as ruas em todo o Brasil

Suíça – Blick, o jornal de maior tiragem no país
«Massenproteste setzen Brasiliens Präsidentin unter Druck»
Protestos maciços põem a presidente do Brasil sob pressão

Bélgica – La Libre Belgique, jornal belga de referência
«Brésil: 400.000 manifestants exigent le départ de la présidente Rousseff»
Brasil: 400.000 manifestantes exigem afastamento da presidente Rousseff

Canadá – Métro, jornal em língua francesa
«Manifestations antigouvernementales au Brésil»
Manifestações antigovernamentais no Brasil

Manif 25Holanda – De Volkskrant, jornal diário
«Opnieuw massale protesten tegen Braziliaanse president»
De novo, protestos maciços contra presidente do Brasil

Suíça – Neue Zürcher Zeitung, jornal de referência
«Aufmarsch gegen eine paralysierte Präsidentin»
Concentração contra uma presidente paralisada

Holanda – NOS, portal informativo
«Weer massale protesten in Brazilië»
Novos protestos de massa no Brasil

Portugal – Expresso, diário lisboeta
«“Fora Dilma”, gritaram novamente os brasileiros»

Dose dupla

José Horta Manzano

Tem certas notícias que, embora capazes de indignar qualquer cidadão em tempos normais, passam despercebidas na cachoeira de escândalos atuais. Parecem fatos menores. Não são.

Meus atentos leitores devem-se lembrar de signor Pizzolato, aquele membro da gangue do Mensalão que, na iminência de ser despachado à Papuda, muniu-se de documento de familiar morto e, sob identidade usurpada, escapou para a Itália.

Prisioneiro 2O sentimento de invulnerabilidade que a dupla cidadania lhe propiciava, no entanto, murchou. Não demorou muito, foi preso pela polícia daquele país. Faz anos que signor Pizzolato trava batalha contra sua extradição para o Brasil. Enquanto isso, continua preso. Se se tivesse entregado à Polícia Federal brasileira, já estaria livre da silva, constrangido apenas por uma imperceptível tornozeleira.

Apesar disso, continua lutando contra a extradição, Por algum motivo será. Não sou especialista em briga de bandidos nem em código de honra de marginais. Assim mesmo, desconfio que o temor de signor Pizzolato não seja exatamente o de ser mandado para o xadrez. Afinal, já faz tempo que ele vive atrás das grades. O medo há de ser outro. Melhor não entrar nesse terreno.

Pizzolato 6 camburaoSeja como for, o episódio tem rendido muita humilhação para o Brasil. Quando o Lula decidiu negar à Itália a devolução de signor Cesare Battisti – terrorista condenado por envolvimento em quatro assassinatos –, usou o pretexto de o extraditando não ser homicida comum, mas criminoso político. Não enxergo diferença, mas parece que o Lula enxergou.

Prison 5Já a Itália, antes de devolver signor Pizzolato, mandou vistoriar prisões brasileiras. Deixou claro que não acredita na boa-fé das autoridades federais, segundo as quais o cidadão será abrigado em estabelecimento penitenciário de padrão Fifa.

O portal d’O Globo informa que o governo italiano despachou representante para inspecionar, in loco e pessoalmente, as instalações onde Pizzolato ficará hospedado.

Isso significa duas coisas. Primeiro, que consideram o Brasil como país de segunda ordem, onde prisões ainda mantêm padrões medievais. Segundo, que não têm confiança nas garantias oferecidas por nossas autoridades – preferem mandar alguém de confiança conferir. É vexame em dose dupla.

A estranha escolha de Lula

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa (*)

Lula, o sabe-tudo, deveria rezar em praça pública: “Eu pecador me confesso…”

Como é que ele teve coragem de nos enfiar goela abaixo essa senhora capaz de, em relação ao Pronatec, declarar num palanque: “Não vamos colocar uma meta e quando atingirmos ela, nós dobraremos a meta”.

Além do dilmês que arrebenta com nossa língua, dona Dilma não se acanha em dizer que quando atingirmos o nada, vamos multiplicá-lo por dois?

by Alberto Correia de Alpino F° Desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°
Desenhista capixaba

Ele a escolheu, dizem, por ter ficado fascinado pelo modo como ela pilotava um laptop. É o tal negócio, em terra de cego quem tem um olho é rei…

Dona Dilma, além de perita em manejar as novas tecnologias e no uso do Power Point, é uma feminista daquelas de não ter pejo em pedir – bem, tentou exigir, mas nessa não levou a melhor – que todos os seus auxiliares se dirijam ou se refiram a ela como “a presidenta”.

Fiquei à espera de um auxiliar mais atilado que lhe dissesse: «Isso eu só faço se a senhora chamar o Lula de “presidento”». Mas qual, esperei em vão.

Em julho do ano passado, uns três meses antes da reeleição, durante a campanha para a qual dona Dilma e seu marqueteiro fiaram histórias do arco da velha para enrolar o distinto eleitorado – com o maior sucesso, diga-se a bem da verdade – uma mulher, analista de um banco de grande porte, o Santander, cujo dono era um amigão do Lula, fez jus ao cargo que ocupava e ao salário que recebia e advertiu, por e-mail, seus clientes preferenciais sobre as previsões que fazia para um segundo governo Dilma Rousseff.

Sinara Polycarpo Figueiredo, a analista, em uma mensagem eletrônica, dizia que uma eventual reeleição da presidente pioraria o quadro econômico no país. Que a bolsa iria cair, os juros subir e o câmbio se desvalorizar. Ou seja, a economia iria se deteriorar.

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

Lula, ao ser informado da análise, com a categoria que lhe é peculiar, em um discurso na 14ᵃ plenária da Central Única dos Trabalhadores, ressaltou que não há outro país em que o Santander lucre tanto como no Brasil e questionou ainda o fato da funcionária que escreveu o informe ter chegado a um cargo de chefia: “Essa moça que falou [isso] não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma Rousseff. Manter uma mulher dessas em cargo de chefia é sinceramente… Pode mandar embora e dar o bônus dela pra mim, que eu sei como é que eu falo”, completou.

Conselho que o Santander, com a rapidez dos que amam o poder, seguiu de imediato. Demitiu a analista! Não sei se deu o bônus ao Lula. Quero crer que não chegou a tanto.

Não sou, nem nunca fui, feminista. Minha teoria é a seguinte: somos diferentes, os homens das mulheres, em dezenas de coisas, todas da maior importância. Menos intelectualmente. Nesse caso, tendo as mesmas condições para desenvolver nosso intelecto, somos absolutamente iguais.

Mas se eu fosse uma ardente feminista, o que eu faria diante de uma mulher que, evidentemente, entendia do que falava, como agora está fartamente provado? Ia convidá-la para fazer parte de minha equipe, ora se ia…

by Nélson Nunes Martins, desenhista mineiro

by Nélson Nunes Martins,
desenhista mineiro

Não se trata de acreditar em bola de cristal ou em querer bancar a profetisa do passado, mas de um fato comprovado: o cliente do Santander que seguiu os conselhos de Sinara se deu bem. Os clientes do Lula quebraram a cara.

Segundo matéria no Estadão de 28/12/2014, Sinara Polycarpo Figueiredo entrou com ação na Justiça do Trabalho contra o Santander. Não sei no que deu esse processo. Mas de uma coisa eu sei: torço por Sinara.

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(*) Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora, tradutora e escritora, é filha do grande Adoniran Barbosa. Escreve semanalmente para o Blog do Noblat, alojado no portal d’O Globo.

Nuremberg

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° ago 2015

Em 1961, o já maduro e magistral ator Spencer Tracy protagonizou o filme Julgamento em Nuremberg. Somente quinze anos haviam decorrido desde o fim da guerra, e a lembrança do horror e das atrocidades ainda estava presente em todos os espíritos. Além de acentuar a tensão, as imagens em preto e branco, paradoxalmente, conferem ao drama cores vigorosas. Nuremberg 2A obra cinematográfica retrata um dos numerosos processos penais que Nuremberg sediou entre 1946 e 1949, cada um deles organizado para julgar uma categoria de incriminados.

Daquela feita, os réus eram magistrados alemães que, desdenhando todo senso de justiça e atendo-se crua e comodamente ao ordenamento jurídico nazista, haviam condenado – amiúde à pena capital – gente reconhecidamente inocente. Por conveniência e por poltronaria, haviam-se vergado ao catecismo oficial, iníquo e distorcido, desonrando assim a nobre função para a qual haviam sido formados.

Todos os acusados acabaram sentenciados à pena de prisão perpétua. A cena final traz um diálogo entre o presidente do tribunal – encarnado justamente por Spencer Tracy – e um dos juízes condenados. Em meio minuto, pronunciam frases lapidares, daquelas que valem pelo filme inteiro.

O condenado não pede absolvimento, mas implora ao presidente que procure ao menos compreender suas motivações. Numa tentativa de descarregar a consciência, alega jamais ter imaginado que a incriminação de um inocente aqui, outro ali pudesse se multiplicar e fazer que a coisa «chegasse ao ponto a que chegou».

A réplica do protagonista é fulminante: «Herr Janning, a coisa “chegou ao ponto a que chegou” desde a primeira vez em que o senhor condenou à morte um homem sabidamente inocente.» Pano rápido e pausa pra reflexão.

Spencer Tracy (1900-1967), ator americano

Spencer Tracy (1900-1967), ator americano

A conclusão é universal. Cristalina, decorre de trivial bom senso: juiz ímprobo é juiz ímprobo desde o primeiro julgamento desonesto. Por analogia, criminoso é criminoso desde a primeira transgressão. Assassino, que tenha matado um ou dez, assassino será desde o primeiro homicídio. Ladrão, que tenha afanado um real ou um milhão – nestes tempos de inflação, mais vale dizer um bilhão –, ladrão será desde o primeiro roubo. Ponto e basta.

No Brasil, de uns tempos para cá, a Justiça parece ter despertado de letargia secular. Coisas nunca dantes vistas vêm-se sucedendo num crescendo alucinante. Parlamentares de alta estirpe e empresários-mores são acusados, indiciados, processados. Alguns são até despachados à prisão. Um espanto! O povo hesita entre assombro e júbilo.

Escorados na doutrina que garante terem sido ladrões todos os mandachuvas deste País desde os tempos de Tomé de Souza, os acusados insistem em minimizar malfeitos cometidos. Botam fé na condescendência com que o povo costuma brindar os poderosos.

Mas o próprio termo «malfeito», tão utilizado estes últimos anos, é um despropósito. Nossa língua é vasta e generosa – há que dar a cada coisa o nome que a coisa tem. Contravenção é contravenção, delito é delito, crime é crime. Indo mais longe, cada crime tem nome específico. «Malfeito», genérico demais, não deve ser usado como palavra-ônibus.

Nuremberg 3Até o termo corrupção, de tanto ser rebatido, está se desgastando e perdendo substância. Assalto ao erário não é corrupção, é assalto ao erário. Rapina na Petrobrás não é corrupção, é rapina na Petrobrás. Contrato superfaturado de companhia estatal não é corrupção, é peculato. Outros eufemismos estão em voga e vêm sendo bovinamente repercutidos por espíritos pouco críticos. Quem forja dossiê falso não é aloprado, é caluniador. Quem falsifica contas públicas não dá pedaladas, comete estelionato e prevaricação.

Numa referência canhestra a fatos dos quais tem apenas conhecimento de ouvir falar, o Lula comparou, dia destes, a «elite» brasileira aos ‘nazistas que criminalizavam o povo judeu’. Rematado disparate, é conversa pra dar nó nos miolos. Como tem feito ultimamente, nosso declinante mandatário deitou essa inacreditável falação diante de plateia amestrada e previamente convicta. É verborragia a descartar sem sequer desempacotar.

Petrobras 3Em vez de martelar essa tal elite, assombração intangível que tanto parece incomodá-lo, nosso antigo presidente deveria mandar passar, em sessão privada, o Julgamento em Nuremberg. Que escolha a mais confortável de suas residências e convide os companheiros mais chegados para apreciar. Importante: que prestem todos especial atenção ao diálogo final. Sem muito esforço, entenderão que tanto é ladrão o que vai à vinha quanto o que fica à porta.

Vox populi

José Horta Manzano

Desagradado com o teor do artigo de capa da mais recente edição da revista Veja, Luiz Inácio da Silva mandou dizer que vai processar os autores do texto.

A notícia foi repercutida por dezenas de veículos. Achei interessante percorrer os comentários de leitores. Francamente, não são simpáticos ao antigo presidente. Vox populi, vox Dei – a voz do povo é a voz de Deus. Aqui está um apanhado do que colhi por aí.

Comment 3Interligne vertical 11bJornal O Tempo
Em vez de processar revista, que tal explicar as acusações? Se jornalista tem que se pautar pela verdade, político não?

Portal Conjur
Basta olhar feio para “Álvares Cabral” do séc. XXI, que ele processa.

Rede Brasil Atual
Mas quando a mesma revista Veja apresentou matéria contra o presidente Collor, o sr. Lula utilizou a mesma revista como referência…

Portal Imprensa
Odorico Paraguaçu: «Vamos botar de lado os entretantos e partir para os finalmentes.»

Jornal O Tempo
Pressuposto para sofrer dano moral é o ofendido ter moral.

Comment 2Interligne vertical 11bPortal Vox
O maior dano moral que o País já sofreu foi no dia em que elegeram esse canalha presidente da República, o maior ato de estupidez coletiva de uma nação!

Diário do Grande ABC
Nossa, coitado! E ainda é petulante.

Jornal O Povo
É ele quem deveria indenizar a revista por danos morais.

Portal Conjur
Será que o Judiciário será igualmente rigoroso com o assédio processual do ex-presidente?

Rede Brasil Atual
Todos sabemos que Lula é ladrão desonesto, pois ninguém enriquece como ele e sua trupe. Vá enganar os trouxas, safado! Votei nele a vida toda e fui enganada. Quero que o País me perdoe por ter colocado essa corja no poder.

Diário de Pernambuco
Impressionante! Um ladrão recorrendo à Justiça!

Comment 1Interligne vertical 11bYahoo Notícias
E eu? Posso processar o Congresso e a campanha mentirosa da Dilma?

Jornal O Povo
Moral? E ele sabe o que é isso? Quem mente e rouba toda uma nação não tem moral.

Rede Brasil Atual
Enquanto este monstro da corrupção estiver vivo, não haverá paz nem tranquilidade neste país.

Portal Brasil 247
Guerreiro do povo brasileiro…corrupto até a medula.

Yahoo Notícias
Mercenário! Até caindo tenta levar alguma coisa.

Colonização cultural

José Horta Manzano

Um dos recalques mais profundos de que sofrem certos integrantes de nosso «governo popular» é definido pela magistral locução complexo de vira-lata. Muitos figurões – entre os quais nosso guia – não conseguem se libertar desse sentimento de inferioridade que lhes corrói as tripas.

Cachorro 23O Lula, apesar de ser hoje um homem rico e de ter ocupado o posto mais importante da República, continua vendo um fosso entre ele e a «zelite». Convenhamos que, em grande parte, o culpado é ele mesmo.

Discurso 2Desde que subiu pela primeira vez numa caixa de sabão pra discursar na porta da fábrica onde trabalhava, passaram-se quase quarenta anos. Tempo para estudar, houve. Se nosso guia preferiu dedicar-se exclusivamente a assuntos que lhe pareceram mais lucrativos, foi por opção livre e consentida. Se ainda hoje é inculto, fala palavrão em público e gospe pro santo, que não se espante se a maioria o rejeita.

Arribado à presidência, seus áulicos o aconselharam a empreender ações firmes para liberar o povo dos grilhões da colonização estrangeira. Passaram a estigmatizar tudo o que lembrasse louros de olhos azuis. Abriram os braços a Ahmadinedjad, do Iran; a Chávez, da Venezuela; aos bondosos irmãos Castro, de Cuba; a Evo, da Bolívia. Para reforçar, sorriram a ditadores africanos.

Na cabeça dessa gente, o remédio para nos livrarmos do complexo de inferioridade é renegar a cultura ocidental, justamente aquela da qual fazemos parte.

Discurso 3Raciocínio míope. Antes de descartar uma camisa, convém ter outra à mão, caso contrário, periga-se sair à rua descamisado. Dado que ninguém pensou em providenciar camisa nova, continuamos usando a que ia ser jogada fora. Com furos, rasgos e remendos aumentados e visíveis.

Na França, uma das funções da Académie – instituição equivalente a nossa ABL – é sugerir termos e expressões para substituir empréstimos estrangeiros. Por conselho dos acadêmicos, não se diz marketing, mas mercatique. Não se fala em software, mas em logiciel. Ninguém jamais disse fax, mas télécopie. Email é conhecido como message électronique. E assim por diante. Certos neologismos pegam, outros não. C’est la vie.

Chamada Estadão, 29 jul° 2015

Chamada Estadão, 29 jul° 2015

A chamada que colhi hoje no Estadão mostra que a aproximação com Ahmadinedjad, Chávez, Castro & cia não surtiu efeito tangível no campo cultural. Continuamos colonizados. Food park, contêiner, food truck, bike food… um condensado de falta de imaginação!

A desenvoltura que muitos demonstram na hora de roubar é proporcional à timidez de que todos dão prova na hora de ousar expressões novas. É pena.

Atenção ao Zé

Cláudio Humberto (*)

by Renato L. C. Aroeira desenhista carioca

by Renato L. C. Aroeira
desenhista carioca

Após haver abandonado José Dirceu nos tempos do julgamento do mensalão e não se ter mais preocupado com ele desde então, o ex-presidente Lula recomendou à cúpula do PT, esta semana, “dar atenção ao Zé”, seu antigo ministro da Casa Civil. Ele teme que Dirceu feche acordo de delação premiada para não voltar à cadeia.

Até lulistas “religiosos” concordam: eventual delação de Dirceu pode levar Lula a conhecer o significado de um longo período na Papuda.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Eu também vou nessa!

José Horta Manzano

Herança maldita

É o que se depreende dos mais recentes «vazamentos» da turma do lulopetismo. Dois dias atrás, a notícia veio tímida, velada, à boca pequena, envergonhada. Já ontem, desavergonhou-se.

Senhor Okamoto (amigão do Lula) e senhor Jacques Wagner (ministro de dona Dilma) deram as mãos para declarar em uníssono: “Queremos nos aconselhar com FHC!” Salientaram o fato de diálogo entre presidente em exercício e antecessores ser normal.

Não precisava. Estamos acostumados à prática. Confabulações entre dona Dilma e o Lula são constantes. Qualquer motivo tem servido pra um deles pular num jatinho amigo e correr se aconselhar com o outro. Tanto ela vai a São Bernardo como ele voa a Brasília, tanto faz. Acontece a toda hora.

Novidade mesmo é ver os companheiros, acuados e com água pela cintura, pedir ajuda a FHC. O «nós» que, derrotado, pede arreglo ao «eles»! Nunca se viu nada parecido na história dessepaiz.

Chamada da Folha de SP, 24 jul° 2015

Chamada da Folha de SP, 24 jul° 2015

Ao se dar conta do que acontecia, dona Dilma reservou seu bilhete na aventura. Eu também vou nessa!

Para conversar, não há necessidade de anunciar pela imprensa. De toda maneira, simpatia e prestígio não se costumam transferir. Se a turma do «nós» tem a intenção de surrupiar um pouco da credibilidade do «eles», estão perdendo tempo. O poço em que se meteram é tão profundo que todos os ex-presidentes reunidos – vivos e falecidos – não teriam força pra puxá-los de volta.

Inimigo de meu inimigo é meu amigo

José Horta Manzano

Chamada da Folha de SP, 23 jul° 2015

Chamada da Folha de SP, 23 jul° 2015

«Lula busca FHC pra discutir criseA manchete da Folha parece dar recado definitivo: o Lula desce do pedestal e se curva a aconselhar-se com o antecessor, justamente aquele que lhe deixou «herança maldita».

A interpretação da notícia pode não ser tão simples. Em política, meandros são difíceis de navegar, frases são difíceis de descodificar.

Dos a dos 1Pode ter sido balão de ensaio, vazamento intencional lançado para verificar como estão os ventos. Nesta hipótese, o Lula estaria testando a reação popular em face de eventual aproximação com o antecessor.

Pode ter sido vazamento não controlado. Mensageiros e intermediários nem sempre conseguem guardar segredo sobre a missão que se lhes confiou. Neste caso, o desmentido acanhado do escritório político do Lula faz sentido.

Pode ter sido recado dirigido ao próprio FHC na intenção de testar se as marteladas que recebeu do PT durante todos estes anos não fecharam definitivamente as portas a todo achegamento.

Pode ser a prova de que o Partido dos Trabalhadores já deu por perdida a aliança com o PMDB. Neste caso, estaria sondando a receptividade do PSDB para um apaziguamento.

Dos a dos 2Pode haver outras explicações. Uma coisa é certa, porém: ao fim e ao cabo, fica comprovado velho ditado tupiniquim segundo o qual “mais alto é o coqueiro, maior é o tombo”. Quem previsse, sete ou oito meses atrás, que o Lula um dia buscaria apoio de FHC seria tomado por maluco. No entanto, taí o tombo, quem diria…

Pensando bem, seria muito engraçado – não sorria, que não é impossível – se PSDB e PT se coligassem para enfrentar o PMDB, adversário comum. Em política, especialmente no Brasil, pode-se esperar de tudo.

Frase do dia — 254

«Amigos de Lula o defendem com a desculpa de que ele procede como ex-presidentes dos Estados Unidos que ganham a vida na condição de lobistas e palestrantes. É fato que ganham. Com algumas diferenças.

A menor: ex-presidentes americanos não escondem o lobby que fazem. Lula, sim.

A maior: ex-presidente americano não pode ser candidato a mais nada. Lula pode.

Que tal devolvermos ao poder um ex-lobista de empreiteiras que enriqueceu a serviço delas? Já pensaram? Não seria algo promíscuo? Ou deveras arriscado?»

Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 20 jul° 2015.

Do contra

José Horta Manzano

Condecorações são marcas de distinção que o Estado – ou uma de suas instituições – outorga àqueles cuja obra seja considerada relevante num campo específico. É honraria grande. Como em outras esferas, a raridade confere importância. Quanto menor for o número de condecorados, tanto maior será o valor da homenagem.

No Brasil, principalmente estes últimos anos, condecorações têm sido concedidas por atacado, nem sempre a cidadãos que tenham feito por merecê-las. Emblemática foi a atribuição da Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, a mais destacada honraria do Itamaraty, a quatro senhoras cuja contribuição às relações exteriores do Brasil ainda está por ser revelada.

Medalha 5Dia 20 abril 2010, em cerimônia pra lá de surreal, foram agraciadas com a grã-cruz: dona Erenice Guerra, de triste memória, então chefe da Casa Civil; dona Ana Maria Amorim, esposa de Celso Amorim; dona Mariza Campos, esposa do então vice-presidente, José Alencar; dona Marisa Letícia da Silva, mulher do Lula.

A mais recente safra de insígnias foi concedida dia 10 junho 2015, pouco mais de um mês atrás. Desta vez, foi a medalha da Ordem do Mérito da Defesa. A distribuição a granel incluiu: Eduardo Cunha, presidente da Câmara; Jacques Wagner, ministro da Defesa; Ricardo Lewandowski, presidente do STF.

Medalha 6É interessante notar que, salvo erro ou omissão, o ministro Joaquim Barbosa, que também presidiu o STF, não teve direito à honraria. Nem durante o exercício de suas funções, muito menos depois.

Os nomes mencionados neste artigo hão de despertar, no distinto leitor, a pergunta da qual não se pode fugir: quais terão sido os relevantes serviços prestados por essa gente à diplomacia ou à defesa do País? Por que estão sendo agraciados? A resposta fica por conta da convicção íntima de cada um.

Medalha 7O leitor mais atento talvez tenha notado um detalhe picante nas fotos que reproduzo. Todos os condecorados com a Ordem do Mérito da Defesa portam a faixa com as cores verde, branca e azul na ordem correta, de baixo para cima. Um deles, sabe-se lá por que, veste a faixa pelo avesso.

É senhor Lewandowski, presidente do Poder Judiciário, vejam só. De lá a deduzir que esse senhor age na contramão do espírito do tempo, basta dar um passo. Alguns já deram.