O palavreado do deputado

José Horta Manzano

Parece que o nobre deputado que insultou os ministros do STF não é novato na matéria. De tão cabeluda, a notícia me deixou um tanto incrédulo. Será que não estão exagerando? – pensei. Não podia acreditar que um deputado tivesse tido a ousadia de soltar essa enxurrada de palavrões ao vivo e em cores, e ainda publicar nas redes. Pra conferir, fui dar uma espiada no vídeo.

Jesus, Maria, Josef! – como se exclamam os vienenses. Era pior do que eu imaginava. De onde está saindo essa gente? E quem é que vota num sujeito desse naipe? A resposta me parece simples: são eleitores que sentem afinidade com ele. Será que todos os parlamentares se exprimem assim?

Esse rapaz é exemplo flagrante de pessoa errada no lugar errado. Ele é membro do parlamento, palavra que deriva do latim medieval parabolare e carrega o sentido de conversar, discutir, argumentar. Nosso nobre deputado não foi feito para a função que exerce. Além do palavreado de várzea, seu discurso injurioso transpira intolerância. Não é homem aberto ao diálogo. Exige que sua vontade prevaleça sobre a dos demais.

Faz muito tempo que não vou ao Brasil. Da última vez em que passei por aí, ainda no século 20, não tive a impressão de que o povo se exprimisse com palavreado tão descomposto. Será que o brasileiro do século 21 proseia assim? A julgar pela assombrosa reunião ministerial de 22 de abril do ano passado, aquela que ficou famosa pelo inacreditável vídeo tornado público, o modo de expressão passa obrigatoriamente pela linguagem chula.

A mim, choca. Venho de um tempo em que éramos ensinados a fazer distinção entre diferentes contextos. Na frente de senhoras não se falava da mesma maneira que à mesa de um bar; com uma criança pequena não se usavam as mesmas palavras que se usariam com um adulto; ninguém se dirigia ao diretor da firma do mesmo modo como conversava com um colega. As situações eram compartimentadas. Parece que éramos mais flexíveis, habituados a amoldar nossa fala ao ambiente em que estivéssemos.

Fico com a impressão de que o brasileiro está perdendo essa agilidade mental. Eu gostaria de acreditar que o nobre deputado é caso isolado de um infeliz que não recebeu educação. Quando vejo, no entanto, que o mesmo comportamento se espalha desde o presidente da República até o mais obscuro assessor, tenho minhas dúvidas: acho que o caso dele não é tão isolado assim.

A rigidez não é boa arma pra alimentar o processo civilizatório. Indivíduos monoglotas, de pensamento único, de visão obtusa e, agora constato, de linguajar angustiantemente rasteiro compõem um povo monolítico, incapaz de entender o mundo e de se abrir a ele. É realmente uma pena.

O leite condensado e o rabo

José Horta Manzano

O pudim de leite de minha avó não levava leite condensado. Preparado com leite, ovos e açúcar, ia ao forno em banho-maria e lá ficava um bom tempo. Dava muito trabalho, mas o resultado era esplêndido, como se dizia na época. Nada a ver com esses pudins melequentos e enjoativos de hoje.

Estive pesquisando sobre a produção de leite condensado no Brasil. Aprendi que teve início nos anos 1920. Mas uma coisa é produzir, outra coisa é vender. Nos arquivos do jornal Folha de São Paulo, a primeira menção a esse produto só aparece, tímida, em 1933. Era então apresentado como alimento para “creanças, doentes e adolescentes”.

Em 1934, é citado mais duas vezes. No ano seguinte, aparece de novo uma vez só. É a prova de que estava ainda longe de se tornar artigo de consumo popular. Acostumadas ao leite fresco, as cozinheiras resistiram um bom tempo antes de adotar o produto enlatado. A difusão do leite condensado entre as donas de casa (é assim que se dizia na época) só ganhou força a partir dos anos 1950.

Na Europa, leite condensado não é produto de grande consumo. Nas raras vezes em que comprei, tive de perguntar pra saber em que gôndola estava escondido. Costuma ser apresentado em dois tipos de embalagem: latinha e tubo (do tamanho do tubo de maionese). Há ainda duas opções: com açúcar e sem. O que não contém açúcar é mais vendido que o adoçado.

A razão é simples. Em princípio, leite condensado é visto como substituto do leite fresco. Para pessoas que gostam de tomar café com pouquíssimo leite, não é interessante comprar leite de caixinha. Vai estragar antes de ser consumido. Esse cliente prefere comprar leite condensado de tubinho. Usa um pouco de cada vez, põe a tampa, e o produto não estraga.

Conforme o país e determinadas características de fabrico, a denominação varia: leite condensado, leite concentrado ou leite evaporado. Na culinária europeia, não é ingrediente constante. Continua sendo visto, não como um produto em si, mas como substituto do leite fresco. Não frequenta os livros de doçaria. É produto para se ter guardado no fundo da prateleira para alguma emergência.

Se, por milagre, minha avó ressuscitasse, havia de levar muitos sustos. Como primeira providência, ela certamente sairia correndo pra comprar um jornal, que sempre foi um hábito diário.

Havia de ficar encantada de encontrar um mundo bem mais colorido do que o que ela conheceu. É verdade que automóveis perderam a cor e se limitam hoje a preto, branco, tons de cinza e algum bordô. Em compensação, os jornais perderam a monotonia do preto e branco e são impressos em cores. A tevê também – que era um chuvisqueiro cinzento – ganhou cores vivas. E as roupas, então! Uma policromia!

No entanto, ele havia de ficar assustada de ver que o Brasil tem agora um presidente que solta palavrão em público. E palavrão pesado, daqueles que, quando aparecem no jornal, vêm com tarja preta.

E havia de ficar abismada de ler, por detrás da tarja acanhada, as palavras presidenciais. E havia de ficar aterrada ao perceber que o presidente sugeriu à imprensa enfiar leite condensado num lugar que, (apesar de ela não captar direito qual poderia ser), intuiu que fosse impublicável. E enfiar com lata e tudo!

Pasma com o desvio de finalidade de um produto que já foi precioso, raro e caro, não tenho dúvida: ela pediria imediatamente pra ser levada de volta ao lugar de onde veio. E remataria em seu mineirês do século 19: «Arre! Este mundo não serve mais pra mim não, gente. Me deixa muito aflita! Ocês, que são brancos, que se entendam. A conversa tá muito boa, mas eu já vou indo.»

Finura em francês

José Horta Manzano

Dizem que o francês é a língua do amor. Talvez seja, não posso garantir. Mas uma coisa é certa:

  • palavrão, em qualquer língua que seja, cai mal;
  • quando é usado para ofender a mãe de alguém, fere a decência;
  • quando é proferido com a veemência dos insanos, é hora de dar um passo atrás;
  • quando o ofensor é o presidente da República, é bom ir chamando a viatura;
  • quando um bando de boçais faz claque e acha graça, pode chamar o camburão.

 

Le Figaro, França

O Figaro, jornal francês de referência, tentou, bem ou mal, traduzir as palavras edificantes que o presidente da República do Brasil pronunciou outro dia perante seleta plateia – todos gente fina. A tradução ficou meio assim assim, porque traduzir palavrão não é fácil.

«Quand je vois la presse m’attaquer, disant que j’ai acheté 2,5 millions de boîtes de lait concentré. Allez vous faire foutre chez votre putain de mère. Cette putain de presse. Ces boîtes sont pour vous, la presse, pour vous les mettre au cul».

Vindo de doutor Bolsonaro, já nenhuma vilania nos surpreende. Mas fico imaginando os olhos arregalados dos franceses, que estão habituados a outro nível de comunicação pública, ao lerem a frase. Se ela tivesse sido pronunciada por um cafajeste qualquer, seria impressa com tarja preta, censurada para não ferir espíritos sensíveis. Dado que veio do presidente do Brasil, por dever de ofício, o jornal se viu na obrigação de publicar na íntegra.

E assim vai a vida. A cada dia que passa, lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Decoro

José Horta Manzano

Nos tempos em que os povos viviam em estado de guerra permanente, era natural que o melhor guerreiro se tornasse chefe. De Júlio César, os romanos esperavam que vencesse batalhas e conquistasse territórios – o que de fato ele fez.

Dois milênios mais tarde, Benito Mussolini e Adolf Hitler ainda seguiam na mesma linha. Tinham a guerra no ADN (=DNA) e só pensavam naquilo. O primeiro anexou a Líbia e a Etiópia; o segundo assenhoreou-se da Europa quase inteira. Fizeram ambos o que deles se esperava. O comportamento de ambos coincidia com o anseio do povo. Combinava com o Zeitgeist, o espírito do tempo.

Os tempos hoje são outros. No mundo civilizado do qual imaginamos fazer parte, guerra de conquista saiu de moda. No Brasil, tirando algum devoto fanatizado, ninguém teme invasão chinesa, americana ou russa. Nem muito menos argentina, preocupação permanente de certos generais cinquenta anos atrás.

Hoje vivemos um tempo de contração, de interiorização. Nosso almejo e nossas esperanças estão voltados para dentro. Nosso sonho é alcançar uma igualdade social finlandesa, com padrão cultural francês, grau de segurança escandinavo e nível econômico americano. Quem é que não gostaria?

O valor simbólico do presidente da República equivale ao dos reis de antigamente – aqueles que eram escolhidos porque mais fortes que os demais e mais ágeis nas artes da guerra. Nossos reis de hoje têm de estar capacitados a conduzir nosso povo em direção aos padrões finlandeses, franceses, escandinavos e americanos.

Por seu valor simbólico, o presidente deveria estar assentado num degrau acima dos demais. Em países adiantados, é o que costuma ocorrer. Em países adiantados, eu disse. Por desgraça, não é nosso caso. A desigualdade social vertiginosa que perpassa nossa sociedade faz que o presidente será tanto mais apreciado quanto mais dinheiro distribua à massa de eleitores.

Quanto ao resto, se tem qualidades ou não, pouco importa. Ele está liberado para fazer o que bem entender: roubar, mentir, transgredir, agredir, regredir, tanto faz. Tudo lhe será perdoado desde que a torneirinha de onde pingam os caraminguás continue aberta.

Só isso explica que o atual inquilino do Planalto se tenha permitido, quando da live de ontem, pronunciar grosserias que nunca, jamais, em tempo algum, se ouviram da boca de um presidente do Brasil. Fico até incomodado de reproduzir aqui as palavras do doutor. Se o distinto leitor já ficou sabendo, tudo bem. Se não, boto aqui abaixo a frase presidencial. Só que, para não chocar nem envergonhar ninguém, escrevo de cabeça pra baixo. Assim, só lê quem quiser.

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Pra quem estiver lendo no telefone, é só virar o aparelho. Pra quem estiver à frente de um computador, é mais complicado. Gire o monitor ou torça o pescoço. Se não conseguir, não tem importância, não estará perdendo grande coisa. Não passa de uma ousadia a mais daquele que não tem categoria para ocupar o lugar onde está.

Nota etimológica
Decoro vem do latim decórum – aquilo que convém, que combina bem. É derivação do verbo decére, convir. Denota conveniência de atos ou de coisas, atributos do homem honrado. Esse verbo também deu decente.

Sinônimos mais ou menos próximos de decoro são: decência, honradez, dignidade, compostura, equilíbrio, vergonha, reserva, resguardo, recato, integridade, nobreza, brio, probidade, respeitabilidade, lisura, retidão, seriedade, moralidade. A lista não é exaustiva.

Agora responda sinceramente: se a frase pronunciada pelo presidente na live de 8 de outubro de 2020 não é quebra de decoro, o que será?

Déficit de inteligência

José Horta Manzano

Nosso país nasceu torto, cresceu enrolado, está chegando enviesado à maturidade. A continuar assim, o futuro é sombrio. Mas este blogueiro é daqueles que ainda acreditam que o Brasil tem jeito. Ainda não acertamos o passo, mas há esperança. Não é coisa pra amanhã, mas nossos descendentes ainda hão de viver num país civilizado e justo.

Nos tempos em que o Lula rondava os 100% de popularidade (enquanto seus companheiros esvaziavam os cofres da nação), nunca escondi minha oposição àquela maneira de fazer política. Quando saíam aquelas pesquisas com a fabulosa taxa de popularidade de nosso guia, cheguei a me perguntar se eu era o último dos moicanos, aquele que se recusava a aderir ao preferido das multidões.

Ao longo dos anos, escrevi centenas de artigos de crítica frontal e aberta ao lulopetismo. Como resposta, em meio a frequentes mensagens de apoio, recebi um ou outro escrito de desagrado. Assim mesmo, as reações aborrecidas atinham-se a palavras veementes, nunca ofensivas. O tempo passou, o Lula saiu do noticiário e seus companheiros silenciaram.

O aventureiro da vez tem por nome Bolsonaro. Quanto aos dinheiros da nação, (ainda) não se tem notícia de ataque maciço. No entanto, há coisas que me incomodam imenso naquele que, por ironia, costumo chamar de doutor. O homem tem evidente déficit de inteligência(*), é ignorante, rasteiro, não tem capacidade intelectual para entender o que é o Brasil e para que serve um presidente. Com ele, todos os caminhos levam à catástrofe.

Desde que me convenci das más intenções de doutor Bolsonaro, escrevi dezenas e dezenas de artigos fortemente críticos. Meus leitores são inteligentes: a maioria nutre pelo presidente, em maior ou menor grau, certa prevenção (pra não dizer desconfiança). Assim mesmo, como é natural, um ou outro discorda do que digo, e não deixa de me fazer saber. É aqui que entra a diferença marcante entre os adoradores do Lula e os que chamam Bolsonaro de mito.

Lulistas eram veementes, mas não descambavam para a vulgaridade. Bolsonaristas parecem não conhecer limites: entram com os dois pés no peito, que é pra derrubar. Palavrões são seu modo habitual de se exprimir. Ofensas pessoais são seu modo habitual de argumentar.

Quando o atual pesadelo acabar – esperando que seja o mais breve possível –, os efeitos da freada serão intensos. Mais forte é o tranco, mais doído será o solavanco. Vamos torcer para que a alternativa ao bolsonarismo não seja a volta dos assaltantes nem a ascensão de um novo aventureiro qualquer. Segurem-se. É bom rezar novena e fazer promessa pra São Benedito. Não vai ser fácil.

(*) Déficit de inteligência
Normalmente, deve-se dizer que o homem é burro. Sinto-me, no entanto, incomodado de atribuir a pessoa tão nefasta o nome de bicho tão simpático. Prefiro dizer que o presidente é falto de inteligência. Chamar Bolsonaro de burro é fazer ofensa ao animal.

Entrou muda e saiu falando

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Este blogue faz questão de utilizar palavreado conveniente. Embora, por vezes, dê até vontade de baixar o nível, a gente evita descambar. É questão de respeito para com o distinto leitor.

Saiu ontem notícia com o título: «Marisa e Lulinha pedem indenização à União». Como é que é? Passado o susto, consegui trocar em miúdos.

Telefone 4Todos se lembram da gravação, difundida por toda a mídia brasileira, de edificante conversa telefônica entre dona Marisa da Silva ‒ aquela senhora de 66 anos que já foi a primeira-dama do Brasil durante oito anos ‒ e um dos filhos. Todos se lembram de que a espontaneidade da conversa banal revela a naturalidade com que mãe e filho se comunicam em linguajar grosseiro.

Pois acho indecente que gente desse tipo pleiteie que a União os indenize por danos morais que a divulgação das gravações lhes pudesse ter causado. Como é que é? Danos morais? A ordem dos fatores está invertida e, neste caso, altera o produto.

Lembremos, nunca é demais, que essa história de «exigir dinheiro da União» é forma chique de dizer «extorquir dinheiro dos brasileiros». As caixas da União são alimentadas com os impostos que todos pagamos, do primeiro ao último cidadão. Portanto, o “dinheiro da União” é nosso dinheiro.

Isso dito, vamos ao que penso. Na minha opinião, dona Marisa é quem devia ser processada por todos os brasileiros que tiveram de passar pelo constrangimento de ouvir palavrão pronunciado por antiga primeira-dama do país, pessoa de quem, no mínimo, se esperava recato.

Telefone 5Começo a compreender por que essa senhora, quando o marido exercia a chefia do Executivo, entrou muda e saiu calada, como se diz. Hão de ter-lhe recomendado que nunca abrisse a boca, de medo que alguma inconveniência pudesse escapar.

Estava eu nessas conjecturas quando apareceu meu amigo Sigismeno. Fazia tempo que não nos encontrávamos. Aproveitei para comentar com ele sobre minha indignação.

‒ Você viu, Sigismeno, esse cinismo de membros do clã de nosso guia reclamarem que paguemos indenização pelo despudor deles mesmos?

Meu amigo, que é menos ingênuo do que parece, tinha resposta pronta.

‒ Ora, mas você não se dá conta do ardil?

‒ Que ardil, Sigismeno?

‒ Mas é evidente, meu caro. Com tantos bilhões que esvoaçam por aí na esteira desses escândalos, não são os míseros trezentos mil reais exigidos que vão fazer diferença.

‒ Ué, mas por que então exigem esse reparo?

‒ É simples. Não passa de mais uma desastrada tentativa de desviar o foco das atenções. Como as notícias de rapinas, roubalheiras e escândalos vários não saem das manchetes, hão de ter imaginado que era boa ideia passar por vítimas. Mesmo sabendo que chocaram a nação com seu palavreado chulo, tentam mostrar-se ofendidos. Mas deu tudo errado. O pedido de indenização não rendeu mais que nota de rodapé. O foco continua, firme e forte, no que interessa: roubalheiras, traições e destituição iminente da presidente. E ainda vão perder o processo, pode ter certeza.

É mesmo. A sagacidade do Sigismeno continua me impressionando.

Colonização cultural

José Horta Manzano

Um dos recalques mais profundos de que sofrem certos integrantes de nosso «governo popular» é definido pela magistral locução complexo de vira-lata. Muitos figurões – entre os quais nosso guia – não conseguem se libertar desse sentimento de inferioridade que lhes corrói as tripas.

Cachorro 23O Lula, apesar de ser hoje um homem rico e de ter ocupado o posto mais importante da República, continua vendo um fosso entre ele e a «zelite». Convenhamos que, em grande parte, o culpado é ele mesmo.

Discurso 2Desde que subiu pela primeira vez numa caixa de sabão pra discursar na porta da fábrica onde trabalhava, passaram-se quase quarenta anos. Tempo para estudar, houve. Se nosso guia preferiu dedicar-se exclusivamente a assuntos que lhe pareceram mais lucrativos, foi por opção livre e consentida. Se ainda hoje é inculto, fala palavrão em público e gospe pro santo, que não se espante se a maioria o rejeita.

Arribado à presidência, seus áulicos o aconselharam a empreender ações firmes para liberar o povo dos grilhões da colonização estrangeira. Passaram a estigmatizar tudo o que lembrasse louros de olhos azuis. Abriram os braços a Ahmadinedjad, do Iran; a Chávez, da Venezuela; aos bondosos irmãos Castro, de Cuba; a Evo, da Bolívia. Para reforçar, sorriram a ditadores africanos.

Na cabeça dessa gente, o remédio para nos livrarmos do complexo de inferioridade é renegar a cultura ocidental, justamente aquela da qual fazemos parte.

Discurso 3Raciocínio míope. Antes de descartar uma camisa, convém ter outra à mão, caso contrário, periga-se sair à rua descamisado. Dado que ninguém pensou em providenciar camisa nova, continuamos usando a que ia ser jogada fora. Com furos, rasgos e remendos aumentados e visíveis.

Na França, uma das funções da Académie – instituição equivalente a nossa ABL – é sugerir termos e expressões para substituir empréstimos estrangeiros. Por conselho dos acadêmicos, não se diz marketing, mas mercatique. Não se fala em software, mas em logiciel. Ninguém jamais disse fax, mas télécopie. Email é conhecido como message électronique. E assim por diante. Certos neologismos pegam, outros não. C’est la vie.

Chamada Estadão, 29 jul° 2015

Chamada Estadão, 29 jul° 2015

A chamada que colhi hoje no Estadão mostra que a aproximação com Ahmadinedjad, Chávez, Castro & cia não surtiu efeito tangível no campo cultural. Continuamos colonizados. Food park, contêiner, food truck, bike food… um condensado de falta de imaginação!

A desenvoltura que muitos demonstram na hora de roubar é proporcional à timidez de que todos dão prova na hora de ousar expressões novas. É pena.

Politicamente incorreto

José Horta Manzano

Olho 1A gente imaginava que Big Brother – o Grande Irmão Controlador – fosse chegar de repente, na sequência de uma revolução. Os tempos atuais mostram que não é bem assim. Mudanças não caem do céu da noite pro dia. As novas modas vêm sorrateiras, de mansinho, e vão-se insinuando sem que ninguém se dê conta. Quando se abre o olho, o mundo já mudou. Sem avisar.

Houve tempo em que a gente podia falar como quisesse, usar as palavras e expressões que bem entendesse, com uma única exceção: palavrão. Nome feio não podia ser pronunciado na presença de gente de respeito. Fora isso, cada um podia falar como lhe agradasse.

Hoje já não é mais assim, como bem sabem meus distintos leitores. Certas palavras e certas expressões entraram para o índex, tornaram-se tabuísmo. A lista engrossa cada dia mais. E ai de quem tropeçar! Não se arrisca a levar um pito – periga ser processado ou, pior ainda, pode acabar preso.

Remexendo na memória, encontrei meia dúzia de músicas que, embora tenham feito grande sucesso em seu tempo, não poderiam mais ser lançadas hoje. Seus autores teriam sérios problemas.

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Anjos do Inferno

Anjos do Inferno

Boneca de pano (1950)
de Assis Valente (1907-1958)
Gravada por: Quatro ases e um coringa
Gravada por: Demônios da garoa

Trecho politicamente incorreto:
Um dia alguém a chamou de boneca
E ela, sendo mulher, acreditou

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Lamartine Babo

Lamartine Babo

O teu cabelo não nega (1931)
de Lamartine Babo (1904-1963) e Irmãos Raul e João Valença
Gravada por: Castro Barbosa

Trecho politicamente incorreto:
O teu cabelo não nega, mulata,
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata,
Mulata, eu quero teu amor

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David Nasser

David Nasser

Nega do cabelo duro (1941)
de David Nasser & Rubens Soares
Gravada por: Anjos do Inferno

Trecho politicamente incorreto:
Nega do cabelo duro
Qual é o pente que te penteia
(…)
‘Mise-en-plis’ a ferro e fogo
Não desmancha nem na areia

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Dircinha Batista

Dircinha Batista

Mulher que é mulher (1953)
de Klécius Caldas & Armando Cavalcanti
Gravada por: Dircinha Batista

Trecho politicamente incorreto:
A mulher que é mulher
Não deixa o lar à toa
A mulher que é mulher
Se o homem errar, perdoa.

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Jorge Goulart

Jorge Goulart

Cabeleira do Zezé (1964)
de João Roberto Kelly & Roberto Faissal
Gravada por: Jorge Goulart (1926-2012)

Trecho politicamente incorreto:
Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é? Será que ele é?
(…)
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!

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Linda Batista

Linda Batista

Nega maluca (1950)
de Evaldo Rui & Fernando Lobo
Gravada por: Linda Batista (1919-1988)

Trecho politicamente incorreto:
Tava jogando sinuca
Uma nega maluca me apareceu
Vinha com um filho no colo
E dizia pro povo
que o filho era meu
(…)
Até parece castigo
Ou então é influência da cor

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