Presidente distraído

José Horta Manzano

Chefes de Estado, quando se visitam, levam presentes. Mortais comuns como você e eu podemos até saltar esse capítulo, mas altos dirigentes seguem o ritual como manda a tradição. Quando digo presentes, não falo de «lembrancinhas» compradas às pressas na barraquinha da esquina. Presidente, rei e todo mandatário que se preza costuma oferecer aos confrades presentes valiosos, impressionantes, marcantes, inconfundíveis e inesquecíveis.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

A revista Isto É desta semana traz um extrato de um relatório de fiscalização levado a cabo pelo TCU ‒ Tribunal de Contas da União. O documento de 40 páginas analisa, no detalhe, os presentes que o Lula e dona Dilma receberam de dirigentes estrangeiros, quando ainda estavam no poder.

A lei estipula que todo presente cujo valor supere cem dólares deverá ser incorporado ao patrimônio da União. Há lógica no dispositivo legal. Assim como quem presenteia o faz em nome de um Estado, o presenteado aceita o mimo em nome do País. Não é um mimo pessoal do ditador X ao Lula ou do caudilho Y a Dilma. É presente do povo do Kabrovistão ao povo brasileiro.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Medalhões não costumam chegar de mãos abanando. Muito menos trarão uma caneta esferográfica ou uma caixinha de bombons. Os objetos são importantes e, às vezes, de valor pra lá de elevado. A TCU apresenta a relação dos mimos recebidos pelos dois mais recentes presidentes do Brasil.

De 2003 a 2010, o Lula recebeu 568 presentes, dos quais apenas nove foram incorporados ao patrimônio público do país. Doutora Dilma foi presenteada, de 2011 a 2016, com 163 objetos, apenas seis dos quais foram declarados e transferidos ao patrimônio da União. Passando por cima da lei, os dois passaram a perna em nós todos e se apoderaram do que é nosso de direito.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Desconheço o valor total desses mimos. Assim mesmo, algo me diz que o conjunto dos 559 presentes que o Lula «esqueceu» de declarar e mandou embarcar nos 11 caminhões que carregaram suas tralhas quando deixou o Alvorada perigam valer mais que o triplex do Guarujá, o sítio de Atibaia e os pedalinhos de lata juntos. O MP tem de acrescentar essa «distração presidencial» ao processo.

Interligne 18h

É de lata
O trabalho do Tribunal de Contas é notável. O semanário que o publicou também merece aplauso. No entanto, ninguém é perfeito. A revista escorregou num galicismo ‒ sintaxe importada diretamente do francês sem passar pela alfândega.

Mencionou uma «bandeja em vidro» e um «elefante em ouro». Errou. Em português, para indicar a matéria de que um objeto é feito, usa-se a preposição de. Coroa de lata, doce de goiaba, urso de pelúcia, telhado de vidro. E, claro, elefante de ouro e bandeja de vidro.

Organização dos Estados Americanos

José Horta Manzano

Desde que os primeiros europeus aportaram no continente americano, começaram a surgir estabelecimentos estáveis e permanentes. Ingleses, franceses, portugueses, espanhóis, holandeses se fixaram ao longo da costa.

Com o passar do tempo, colônias inglesas, portuguesas e espanholas se mostraram mais vigorosas que as demais. À custa de muito enfrentamento e muita briga ‒ tudo temperado com boa pitada de vaidades pessoais ‒ as colônias primitivas foram-se sentindo cada dia mais fortes para pleitear independência da metrópole. Após pouco mais de três séculos de colonização, a maior parte do território tinha alcançado independência. Uma vintena de novos Estados havia surgido.

OEA 1A linha histórica comum a todos incentivou-os a criar um foro de encontro e discussão. A ideia, que já vinha das primeiras décadas do século 19, foi tomando corpo com os anos. A forma atual foi sacramentada com a adoção da Carta de 1948, quando todos os países americanos independentes aderiram à Organização dos Estados Americanos.

Por seu peso econômico e militar, os EUA sempre representaram papel importante no bloco. No entanto, tirando um ou outro esporádico atrito aqui e ali, essa situação não incomodou a maioria. Isso durou até o fim do século 20.

Os anos 2000 trouxeram mudanças significativas que viriam balançar o coreto. Governantes populistas e pseudonacionalistas pipocaram em diversos países do continente. Venezuela, Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Honduras, Nicarágua sofreram as agruras que esse tipo de medalhões costuma gerar. Pouco a pouco, os regimes vão caindo de podres. Mas as consequências da corrupção e da incompetência se farão sentir por muitos anos.

OEA 2No auge do movimento populista, dirigentes se mancomunaram na defesa de seus interesses. Como outros governantes autoritários registrados pela História, julgavam-se inamovíveis e definitivamente instalados. Nosso guia juntou-se aos pranteados Chávez e Kirchner para fundar uma nova organização. No fundo, funcionaria exatamente como a OEA, com uma grande diferença: os EUA não seriam admitidos no clube.

E assim foi feito. Criou-se a Unasur, que as más línguas apelidam de União dos Cucarachas. Lula, Chávez, Kirchner & companhia exultaram por ter mandado a OEA para escanteio. Enfim, livres dos imperialistas!

Interligne 18h

Estes dias, em desespero de causa, os advogados de dona Dilma estão queimando os gravetos de que ainda dispõem para alimentar fogareiro moribundo. Algum assessor, brilhante como os demais, teve a genial ideia de denunciar, pela milésima vez, o «golpe» desferido contra a (ainda) presidente.

Diabo 3Para obter maior eco internacional, foi escolhida naturalmente a Unasur, certo? Errado, distinto leitor. Engolindo cobras, lagartos e jacarés, apelaram para… a Organização dos Estados Americanos. Ai, ai, ai… Pedir socorro aos odiados «loiros de olhos azuis», que vergonha! Só faltava isso.

Nossa idolatrada líder declarou, um dia, que, nas eleições, «se faz o diabo». Agora fica claro que não é só nas eleições

Frase do dia — 312

«O julgamento de Dilma, de acordo com a Constituição, vai ocorrer sob a presidência do presidente do STF. É de conhecimento público que Ricardo Lewandowski não chegou à Suprema Corte pelos seus dotes jurídicos. Foi escolhido por razões paroquiais, de São Bernardo do Campo, onde começou sua carreira política.

Se Rui Barbosa foi chamado de Águia de Haia, Lewandowski pode ser considerado o ministro da rota do frango com polenta — região de restaurantes daquela cidade onde se saboreia essa iguaria. E, suprema ironia da História, será ele que vai presidir o impeachment. Mais ainda, vai presidir o sepultamento político do seu amigo Luiz Inácio Lula da Silva.»

Marco Antonio Villa, historiador, em artigo publicado no jornal O Globo, 9 ago 2016.

O gato comeu

Jorge Bastos Moreno (*)

«Ah, herança, essa maldita herança! É o que todo novo governo carrega do antecessor. Geralmente, são obras inacabadas, cofres vazios e um bando de promessas não cumpridas.

O governo Temer, com ajuda do TCU e do Itamaraty, acaba de fazer levantamento parcial do “patrimônio” deixado pelos governos Lula e Dilma.

Lula presente roubado 1O TCU identificou o desaparecimento de cinco mil itens, entre os quais seis obras de arte valiosíssimas. E o Itamaraty descobriu que pelo menos 700 presentes recebidos de governos estrangeiros deixaram de ser registrados, como manda lei, na lista de patrimônio da União.»

Interligne 18h

(*) O jornalista Jorge Bastos Moreno mantém coluna no portal O Globo. O excerto é de artigo publicado em 6 ago 2016.

Força do hábito

Dora Kramer (*)

Em 2005, quando Duda Mendonça admitiu à CPI dos Correios que havia recebido dinheiro “por fora” pelos serviços prestados à campanha de Luiz Inácio da Silva em 2002, o PT chorou de arrependimento em praça pública, o então presidente cogitou não concorrer à reeleição no ano seguinte e próceres da oposição acionaram a tecla “deixa-disso” a fim de não provocar ações contra Lula que, na concepção tucana, morreria politicamente de inanição. Quem viveu viu o tamanho do forrobodó.

Lula discursoAgora, João Santana diz o mesmo e mais um pouco e não causa o menor espanto. A antiga oposição, hoje governo, faz de conta que o tema não lhe diz respeito. A reação na seara petista é apenas um leve desconforto por Dilma Rousseff. A candidata, que teve a campanha financiada do modo relatado por Santana, joga a culpa no partido a fim de manter a pose de “mulher honesta”.

De onde, nesses onze anos decorridos entre os dois episódios, o PT além da reputação perdeu a capacidade de se envergonhar.

Interligne 18c

(*) Dora Kramer é jornalista, analista política e escritora. O texto acima foi extraído de artigo publicado no Estadão de 3 ago 2016.

Frase do dia — 309

«Essa reação do Lula não tem nenhuma originalidade, porque instintivamente todo político no mundo quando é pilhado praticando corrupção diz que é perseguido político. Eu acho que a ONU não vai levar em consideração esse tipo de pedido que não tem originalidade nenhuma.»

Modesto Carvalhosa, jurista e escritor, ao pronunciar-se sobre o pedido de socorro que o Lula dirigiu à ONU. A entrevista integral está no Estadão de 31 jul° 2016.

Frase do dia — 308

«Obstrução de Justiça ao tentar evitar delações premiadas contra amigos e contra si, ocultação de patrimônio no caso do sítio e do triplex, suspeita de palestras fictícias para empreiteiras, envolvimento do filho na Zelotes… tudo isso, que já não é pouco, é apenas parte da história. Os investigadores estão comendo o mingau pelas bordas, até chegar ao centro, fervendo.

No centro, podem estar as perigosas relações do Lula com o exterior, particularmente com Portugal, Angola, Cuba e países vizinhos. E o calor vem da suspeita – com a qual a força-tarefa da Lava a Jato trabalha – de que Lula seja o cérebro, o chefe da “organização criminosa”.

No mensalão, ele passou ao largo e José Dirceu aguentou o tranco. No petrolão, pode não ter a mesma sorte – nem escudo.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 31 jul° 2016.

Lula aciona ONU ‒ 2

José Horta Manzano

Nota
Este artigo retoma o tema de ontem. Pra poder acompanhar, é interessante dar uma espiada, nem que seja de relance, no post anterior. É esse que aparece logo abaixo.

Interligne 28a

Lula caricatura 2Vamos dar continuação a nossa conversa de ontem. Falávamos sobre o Lula, esse pedregulho incontornável, essa figura que invariavelmente aparece na origem (ou no epílogo) de nossas mazelas atuais.

Eu dizia que a ONU, além de não ter poder para intervir na querela, tem problemas mais importantes a cuidar. A última coisa que gostariam é de arrumar briga com o Brasil, o que aconteceria se se intrometessem em nossos problemas internos.

Convenhamos: para uma entidade que lida com conflitos planetários, com milhares de mortos, com milhões de refugiados, com tensões políticas e com perigo nuclear, não faz sentido perder tempo com a choradeira de nosso guia.

Mandaram logo o aviso: aqui ninguém dá carteirada. O caso do demiurgo vai entrar no fim de uma fila em que já estão uns 500. Apanhe a senha na entrada, se faz favor. Deixaram claro que ia levar pelo menos dois anos. Com isso, praticamente enterraram o assunto.

Diferentemente do que a defesa do Lula parece acreditar, a ONU dispõe de equipe eficiente de observadores. Como você e eu, também eles estão a par do que se passa no Brasil. Macaco velho não mete a mão em cumbuca.

Lula caricatura 2aAo tentar acionar a ONU, o Lula desclassificou a Justiça brasileira. Deu-se mal. A reação dos magistrados veio no mesmo dia: entrou para a lista dos réus no vendaval de escândalos que varre o país. Com duas particularidades. A primeira é que seu caso não foi parar nas mãos do temido Sérgio Moro, numa prova de que há outros juízes e procuradores sérios no país. A segunda é que a acusação é bem mais pesada do que a propriedade clandestina de triplex ou de pedalinho de lata. O ex-presidente responde agora por obstrução de Justiça, crime bem mais grave.

Um Lula visivelmente abalado houve por bem dar resposta. Não lhe ensinaram que, em certas ocasiões, mais vale se eclipsar. Fez-se de desentendido. Perante plateia amestrada, esquivou-se da acusação mais grave e ateve-se a repetir que não possuía imóvel registrado em seu nome, lenga-lenga que todos já ouviram.

Lula caricatura 2Mal aconselhado ‒ ou «alterado», segundo as más línguas ‒, ameaçou candidatar-se à presidência do Brasil em 2018. Sim, distinto leitor, até o próprio Lula já se deu conta de que o espectro de sua volta ao poder soa como ameaça. Foi como se dissesse: «se insistirem nas investigações, posso até voltar».

A meu ver, errou. Deu ideias aos juízes. Entregou o ouro aos bandidos, como se diz. Ativou o risco de ser condenado à perda dos direitos civis. Numa demonstração de que vive desligado da realidade, está cutucando a onça com vara pra lá de curta.

Lula aciona ONU

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Assombrado com a ordem de prisão, cada dia mais nítida, o batalhão de advogados do Lula implora à ONU que faça alguma coisa para proteger o antigo mandatário.

Não por acaso, usei o verbo implorar. O Brasil, como país soberano, dispensa tutela de organismos estrangeiros ou supranacionais. Se nem o Mercosul tem poder de influenciar nossas instituições, menos ainda terá a Organização das Nações Unidas. O Lula há de estar em pânico, o que explica estar arriscando as últimas fichas na empreitada. Acaba de dar passo perigoso.

Há duas possibilidades: a ONU tanto pode aprovar como reprovar o funcionamento da Justiça brasileira. Caso considere o processo isento e honesto, Lula terá perdido definitivamente a batalha ‒ quiçá a guerra. Caso considere que o ex-presidente é vítima de jogo de cartas marcadas, como numa «república de bananas», nosso Judiciário se sentirá, com razão, afrontado, ofendido e desafiado.

Lula caricatura 2aNinguém gosta de se sentir afrontado, nem ofendido, muito menos desafiado. O orgulho nacional será atingido. Nossos magistrados se sentirão todos insultados. Esse sentimento periga voltar-se contra o acusado, surtindo efeito contrário ao que estava sendo buscado.

É verdade que o Lula não tem muitas opções. Como cônjuge de cidadã italiana, deve ter imaginado poder um dia, em caso de necessidade, refugiar-se na Itália. O caso Pizzolato freou seus ardores. A Itália provou que, quando lhe parece justo, não hesita em extraditar os próprios cidadãos.

Caso consiga escapar das garras do juiz Moro, como tem tentado, quem garante que nosso guia não cairá nas mãos de magistrado ainda mais rigoroso? Moro não é o único juiz competente e tenaz.

Lula caricatura 2Se escolher deixar o país e estabelecer-se em alguma ilha paradisíaca, estará abrindo o flanco para os EUA pedirem ‒ e obterem ‒ sua extradição. Transação internacional de dinheiro sujo ou limpo costuma transitar por aquele país. No escândalo que emaranha Lula, Petrobrás, Mensalão, Eletrobrás, BNDES & companhia, não será difícil encontrar fundamento jurídico para pedido de extradição. Bilhões de dólares roubados aqui transitaram por lá.

Sobra ainda a possibilidade de o Lula pedir asilo político a algum país. (Quem garante que a eventualidade já não tenha sido sondada?) Não vai ser fácil encontrar abrigo. Se ninguém quis acolher um simples Snowden, quem abrigará um Lula? A Bolívia ou a Venezuela talvez? Pode ser um caminho. Pelo menos, enquanto não caírem os respectivos governos.

Vão ainda duas ou três reflexões. A primeira, mais evidente, é quanto ao custo do batalhão de advogados. Quem paga? Estarão todos trabalhando por amor a um acusado desvalido?

Outra observação é quanto à escolha do escritório de Mister Robertson, jurista australiano especializado em direitos humanos, que conta com Salman Rushdie e Julian Assange entre seus clientes. Não é um fantástico cartão de visitas.

Lula caricatura 2aO escritor britânico Salman Rushdie sobrevive há quase 30 anos, sob rigorosa proteção policial, a uma ordem de assassinato expedida pelo bondoso (e já finado) aiatolá Khomeini. Quanto a Mister Assange, esconde-se há quatro anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres. Visto o histórico da banca de advocacia de Mister Robertson, não fica claro o que podem fazer pelo Lula.

Penso ainda no foro competente para julgar nosso ex-presidente. Por enquanto, é acusado comum. Na inimaginável eventualidade de dona Dilma voltar à presidência, o Lula poderia até ser nomeado ministro, o que lhe daria direito a ser julgado pelo STF. Ainda assim, não é concebível que a maioria de nossos magistrados-mores se pronunciem pela total inocência do indiciado. Nenhum deles vai querer entrar para a História com reputação manchada.

Uma saideira: ninguém garante que as informações vazadas até agora representam a totalidade dos indícios e das provas. Debaixo desse angu ainda deve ter muita carne.

Interligne 18c

Observação
Para quem acaba de chegar de Marte, aqui está a notícia no Estadão e na Folha de São Paulo.

Autoilusão

José Horta Manzano

Uma chamada do Estadão de 27 de jan° me chamou a atenção. Falo de uma sintomática declaração do presidente do CIO ‒ Comité International Olympique. Ao desembarcar no Rio, Herr Bach foi logo deixando claro: «Temos inteira confiança no Brasil». Hmmm…

JO 2016Alguém imagina a autoridade máxima do esporte mundial soltando frase assim logo antes do início dos Jogos Olímpicos de Londres? Algo do tipo «Temos inteira confiança no Reino Unido»?

Quando um dirigente insiste em afirmar o que deveria ser evidente é mau sinal. Soa menos como convicção e mais como o que os ingleses chamam «wishful thinking», uma interpretação dos fatos que não traduz a realidade como ela é, mas como gostaríamos que fosse.

Chamada Estadao, 27 jul° 2016

Chamada Estadao, 27 jul° 2016

Na hora me vieram à mente duas imagens. A primeira é a de um certo ex-presidente que ousa duvidar haver «nessepaiz» viv’alma mais honesta que ele. Ao dar-se conta de que ninguém mais lhe dá crédito, o enjeitado líder sentiu necessidade de soltar a frase lapidar.

A segunda imagem é a de certa presidente afastada que, embora tenha ocupado funções de mando nos últimos 13 anos, insiste em considerar-se alheia a todo o descalabro que se instalou no país. «Sou mulher honesta, não cometi crime e nunca me vali de caixa 2.»

Autoilusão.

Olimpíada e cheiro de cavalo

José Horta Manzano

João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999) foi o mais recente militar a ocupar a chefia do Executivo. Último presidente da série iniciada em 1964, não se pode dizer que tenha sido pessoa de fino trato. A ele, atribuem frases pra lá de politicamente incorretas. Eis algumas:

  • «Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo.»
  • «Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.»
  • «Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.»

Essa é pequena parte da coleção. Há coisa bem mais apimentada. No entanto, ninguém é totalmente branco nem inteiramente preto. Entre os dois extremos, todos carregamos nuances de cinza. O general Figueiredo não era exceção. Entre as barbaridades que pronunciou, há pelo menos uma que fez muito bem ao Brasil.

Cavalo 1A Copa do Mundo de 1986 estava programada para ter lugar na Colômbia. Graves desordens naquele país obrigaram a Fifa a procurar, de última hora, novo país-sede. João Havelange, então chefão do futebol mundial, propôs a João Figueiredo que o Brasil acolhesse o Campeonato.

Desprezando a «honra» que a fabulosa proposta oferecia ao país, o mal-humorado presidente deu resposta curta e grossa a Havelange: «Você já viu uma favela no Rio de Janeiro ou uma seca no Nordeste? Acha que eu vou gastar dinheiro com estádio de futebol?» A frase foi confirmada, anos depois, pelo neto do general.

A Copa foi para o México e a página foi virada. Os anos passaram. O Brasil, acreditando nas juras de honestidade de um grupo que parecia ter moralidade acima da média, foi ludibriado. Caiu na rede de um bando de criminosos que conseguiram assaltar o país por longuíssimos 13 anos.

Figueiredo pode ter sido ignorante, mas mostrou ter mais apreço por seu país do que o finado governo. E pensar que o lulopetismo se dizia «popular e voltado ao social». Quanta hipocrisia!

O general presidente, embora chucro, deu-se conta de que o Brasil tinha outras prioridades além do futebol. Recusou e bateu pé. Já o demiurgo populista, igualmente chucro, deu-se conta de que Copa do Mundo e Jogos Olímpicos abriam excelente oportunidade para negócios. E para obscuras transações.

Sondagem DataFolha, jul° 2016

Sondagem DataFolha, jul° 2016

O resultado é um Brasil empobrecido que ainda espera, pires na mão, os benefícios que a Copa 2014 devia ter trazido. Que espere sentado.

Infelizmente, a coisa continua: ainda temos pela frente um evento mundial, os Jogos Olímpicos Rio 2016. A Folha de São Paulo ‒ jornal que não pode ser acusado de oposição sistemática ao lulopetismo ‒ revela que 63% dos brasileiros (dois em cada três) consideram que a Olimpíada vai trazer mais prejuízos que benefícios.

Só que agora é tarde, minha gente. A quem elegeu o Lula, sobram os olhos pra chorar. A quem não votou nele, sobra a esperança de que tudo vai passar. Um dia, ainda hemos de sair do buraco.

Pesquisa eleitoral

José Horta Manzano

O Instituto Datafolha publicou estes dias o resultado de recente sondagem das intenções de voto para as eleições presidenciais previstas para 2018. Foi proposto aos entrevistados que escolhessem um nome entre os diferentes candidatos que se haviam apresentado às eleições de 2014.

Apesar dos escândalos trazidos à tona pela Operação Lava a Jato, nosso guia ainda aparece entre os bem cotados. É resultado surpreendente. Quem vem acompanhando o descalabro revelado de um ano para cá tem direito a ficar boquiaberto, sem entender o que possa estar se passando na cabeça dos eleitores.

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

No entanto, um exame mais acurado pode explicar a incongruência. O distinto leitor, que está certamente indignado e enojado com a ladroagem e com a rapina, há de imaginar que todos os conterrâneos estejam a par dos acontecimentos. Pois não é assim. Nem todos os brasileiros estão antenados.

A prova é que 1/3 dos pesquisados (um em cada três!) sequer sabe quem é o presidente da República em exercício. A pergunta não foi feita, mas não é impossível que muitos cidadãos acreditem que o Lula ainda ocupa o posto máximo.

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Por mais que procuremos disfarçar e fazer de conta que não enxergamos, a realidade, teimosa, deixa clara a perniciosa estratificação ‒ econômica, social e cultural ‒ da população de nosso país. Um terço dos brasileiros não faz a menor ideia do que está ocorrendo. E por que é assim?

A resposta me parece evidente: porque sempre foi, ué! A preocupação com o social, declarada e louvada por nossos mandatários, embora prometesse mundos e fundos, não mostrou os efeitos apregoados.

Variados programas de inserção, bolsas diversas, estabelecimento de quotas para desvalidos, auxílio financeiro a famílias, acesso à casa própria, intercâmbio universitário, facilitação de crédito & companhia estão longe de ter sido eficientes. Se trouxeram geladeira e automóvel a numerosos cidadãos, não lhes incutiram o sentimento de pertencimento à nação. De cada três brasileiros, pelo menos um vive fora da realidade. Não estão nem aí ou, pior, não estão em condições de «estar aí».

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Más línguas diriam que o objetivo dos que nos governaram por 13 anos era exatamente esse: manter o povo, de propósito, na ignorância. Recuso-me a acreditar que fosse essa a intenção do lulopetismo. O resultado, desgraçadamente, é esse. Está aí a pesquisa a escancarar o alheamento de parte importante da população.

Que caminho seguir para integrar todos no mundo pensante? Não tenho a resposta. Nem que a tivesse, não teria meios de agir sozinho. A pergunta vai continuar no ar à espera do dia em que mandatários bem-intencionados confiem a especialistas a missão de debruçar-se sobre o problema e encontrar solução.

Os cães ladram

José Horta Manzano

Quando a insistência é demasiada, a gente desconfia. Entre milhares de erros e de passos em falso cometidos pela dupla Lula/Dilma, com assistência de assessores duvidosos, está a facilitação da entrada da Venezuela no Mercosul. Um erro monumental.

Não é demais lembrar como se deu a entrada do novo sócio. As regras do clube estipulam que novos membros sejam obrigatoriamente aceitos pelos demais ‒ por unanimidade. No caso venezuelano, Brasil, Argentina e Uruguai já havia concordado. Último dos moicanos, o Senado paraguaio resistia. Entrava mês, saía mês, e nada de aprovarem a entrada de Caracas.

Mercosul 4À época, o presidente do país era Monsenhor Lugo. Rabo de saia, o eclesiástico era acusado de haver transgredido em repetidas ocasiões o voto de castidade. Libidinagem não costuma derrubar presidente; má gestão, sim.

Foi justamente por não tê-lo considerado capaz de continuar à frente do país que o congresso paraguaio o destituiu da presidência. O impedimento, embora tenha sido processado a toque de caixa, não feriu as disposições da Constituição paraguaia.

Doña Cristina Kirchner e doutora Dilma Rousseff não entenderam assim. Numa intromissão descabida em assuntos internos do país vizinho, argumentaram que a destituição do monsenhor tinha sido inconstitucional. De castigo, presentearam o Paraguai com um ano de suspensão do Mercosul.

País suspenso não é sinônimo de país excluído. Ainda que temporariamente impedido de participar dos debates rotineiros, o Paraguai manteve seu estatuto de membro fundador e de integrante do Mercosul. Toda decisão que exigisse unanimidade dos membros teria de contar com o voto guarani. Cristina e Dilma passaram por cima dessas miudezas. Valeram-se da suspensão para abrir a porta para a Venezuela. A porta dos fundos, na verdade.

Não ficou claro até hoje por que razão Brasil e Argentina se empenharam tanto para emplacar a Venezuela como sócia. Há quem alegue razões de ideologia. Fico de pé atrás. Nem Cristina nem Dilma nem os respectivos partidos são lá paradigmas em matéria ideológica. A aliança entre Lula e Maluf que o diga. A meu ver, embaixo desse angu tem carne. Conhecendo os protagonistas, é lícito desconfiar que a insistência se prenda a obscuras transações.

Mercosul 3Já emperrado por lutas intestinas, nosso infeliz Mercosul não precisava de um sócio malvisto por dez entre dez democracias do planeta. Não se pode dizer que o bloco tenha ganhado com a entrada do sócio problemático. A mais recente enrascada está acontecendo estes dias.

Em princípio, pelo sistema de rodízio, Caracas deveria assumir, pelos próximos seis meses, a presidência do Mercosul. O desconforto dos demais sócios é palpável. Entregar a presidência ao caudilho Maduro? Ninguém concorda. Reuniram-se em Montevidéu pra discutir sobre o assunto. A Venezuela não foi convidada. Assim mesmo, para aflição dos demais, a ministra de Relações Exteriores apareceu de surpresa.

Como em filme cômico, os enviados de outros países evitaram encontrá-la. Foi o retrato acabado de um bloco inerte, sem ação, sem importância, sem escapatória, sem futuro.

No fundo, no fundo, pouco importa que a presidência pro tempore seja exercida por este ou por aquele sócio. De qualquer modo, as discussões que se travam nessas cúpulas lembram aqueles cães que ladram sem se dar conta de que caravanas passam, avançam e progridem. Que continuem ladrando, tanto faz.

Cara de paisagem

José Horta Manzano

Melhor fazer cara de paisagem.

Deixa como está pra ver como fica.

Faz de conta que não é comigo.

Cocô, quanto mais se mexe, mais fede.

Não estou nem aí.

A arma mais contundente é o desprezo.

Interligne 28a

Todas as línguas têm uma coleção de ditos que giram em torno do mesmo assunto. Apesar disso, tem gente que não aprendeu a lição. Eu aprendi faz muitos anos.

Numa certa época, eu tinha um chefe muito chato. Severo, insistente, difícil de suportar. Como não sou de levar desaforo pra casa, costumava contestar toda ordem que colidisse com minha maneira de ver. Vivíamos, assim, em constante estado de beligerância, feito cão e gato, cada um com quatro pedras no bolso, pronto a atirar. A coisa ia de mal a pior até o dia em que um colega me deu um conselho pra lá de útil.

Tribunal«Quando o chefe lhe pedir pra fazer alguma coisa, ainda que você não esteja de acordo, não discuta. Faça de conta que concorda, diga que vai fazer e pronto» ‒ disse ele.

«Mas e se eu concordar, vou ter de fazer mesmo sem ter vontade, não?» ‒ respondi.

E ele: ‒ «Não, não necessariamente. Faça de conta que você concordou. Não reclame. Não discuta. Não conteste. Se você deixar de transformar cada conversa em conflito, pode escrever: meia hora depois de pedir, o chefe terá esquecido do assunto. E não virá cobrar.»

E não é que funciona, gente? Desde então, já testei inúmeras vezes. Não costuma falhar. Quanto menor importância se der ao assunto, mais rapidamente ele sairá da atualidade. Dito assim, parece uma evidência. No entanto, há gente que parece não ter entendido.

Estes dias, em manifestação de rua, apareceu um boneco inflável que, embora não esteja identificado, lembra muito o presidente do STF. As decisões de qualquer tribunal sempre alegram uns e desagradam outros. É da vida. O STF não escapa desse ritual.

Pixuleco 7Quanto ao boneco, nenhuma reação seria de esperar de parte dos juízes-mores, figuras ilustres que, imagina-se, estão acima dessas estudantadas. Em situações como essa, mais vale fazer cara de paisagem. Dois dias depois, com a avalanche de fatos novos que se atropelam, ninguém mais se lembraria do boneco.

O augusto tribunal não entendeu assim. Pediu que a PF investigue e faça luz sobre hipotética «campanha difamatória». Na hora, ficou claro que… a carapuça tinha servido.

Resumo da ópera
O boneco, que nada mais é que manifestação bem-humorada, ainda vai dar pano pra mangas. Enquanto o povo vai-se esquecendo de outros bonecos ‒ o do Lula e o de dona Dilma ‒ esse aí pode ter vindo pra ficar.

Frase do dia — 304

«Certas coisas só o tempo explica. No início do primeiro governo Lula, Marcelo Odebrecht estava para assumir a presidência da empresa. Durante um almoço, em São Paulo, falou do então presidente como quem se refere a uma divindade.

O homem perfeito, no lugar certo, na hora exata. Faria um governo irrepreensível. Na ocasião não ficou claro o motivo de amor tão incondicional. Hoje está explicado: era condicionado.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 19 jun 2016.

Competição de malandros

José Horta Manzano

Este aqui levou 150 milhões. Aquele ali devolveu 70 milhões. O empresário X confessou ter dado 200 milhões de propina. O empresário Y reconhece generosidade de 90 milhões. A mulher do Cunha, só de comprinhas pessoais feitas com dinheiro de bolso, gastou um milhão. Estamos falando de dólares em todos os casos.

Perto desses, os malfeitos conhecidos de Luiz Inácio da Silva, apontado por muitos como o «capo di tutti i capi», são irrelevantes. Um sítio com pedalinhos de lata e um apartamento num feio edifício de frente para uma praia apinhada. Mais uns caraminguás ciscados pelos herdeiros. Francamente, algo está fora de esquadro.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Duas hipóteses podem ser propostas. A primeira supõe que o antigo sindicalista tenha sido ludibriado ‒ levado no bico, como ele diria. Companheiros mais espertos enchiam os bolsos com o grosso da rapina enquanto ele era feito de bobo, entretido com migalhas, como índio iludido com lantejoulas. Se assim for, nosso guia há de estar mordendo os dedos de raiva por ter sido tão ingênuo.

A segunda hipótese presume que o sítio e o apê não sejam senão cortina de fumaça que esconde gigantesco tesouro muito bem enrustido.

Se eu tivesse de escolher entre as duas hipóteses, ficaria com a segunda. Costumo duvidar da propalada inteligência de nosso guia, mas não chego a acreditar que seja um bocó de mola.

Seja qual for a resposta, saberemos um dia. De qualquer maneira, Luiz Inácio, já setentão, não parece ter boas perspectivas de tranquilidade nos anos que lhe restam. Que seja arquimilionário ou apenas proprietário duns pedalinhos de lata tanto faz. Ver desmoronar sua imagem e escorrer pelo ralo seu projeto megalômano é punição dantesca.

Samba da benção

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 maio 2016

Ninguém nasceu sabendo. Geração espontânea, só em ficção científica. Ao nascer, trazemos apenas as sementes do que poderá ser. A germinação depende de muitos fatores. O ser humano é produto dos que o antecederam e contribuíram para gerá-lo. O mesmo vale para coisas e fatos. Toda situação descende de uma fieira de acontecimentos que a precederam e que acabaram por provocá-la.

A ingratidão é defeito muito sério. Convém reconhecer e guardar apreço por tudo e por todos os que contribuíram para uma chegada a bom porto. O distinto leitor há de ter na memória o Samba da bênção, fruto de feliz parceria. Nasceu em 1963, num lampejo genial de Vinícius de Morais e Baden Powell. O primeiro escreveu, o segundo musicou.

Baden e ViniciusO miolo da composição encerra longa declamação, popularizada na voz do poeta diplomata, que saúda e pede a bênção a predecessores e mestres antigos, sem os quais a obra nunca teria existido. É excelente exemplo de gratidão e de reconhecimento.

Nosso país vive um momento grave, desses que não advêm mais que uma ou duas vezes a cada século. Por obra da evolução tecnológica, a tevê já não se resume a exibir novelas pra contentar o bom povo. Tampouco o telefone se limita a bate-papos. Ambos desenvolveram capacidades nunca dantes sonhadas. Informam e formam uma população cada dia mais politizada. O caminho é sem volta.

A nova mídia, impiedosa e voraz, transpassa barreiras antes intransponíveis e respinga até em grotões. Em poucos minutos, redes sociais atingem um contingente de brasileiros que nem mil dos antigos comícios conseguiriam alcançar. Hoje, todos sabem de tudo e já começam a se inteirar dos comos e dos porquês da coisa pública. As descobertas nem sempre são agradáveis. De vez em quando, alguma coisa boa até que aparece. Mas, convenhamos, em matéria de gestão do Estado, a aspereza das notícias espanta. A cada vez, a gente acha que bateu no fundo do poço, mas o dia seguinte se encarrega de adiar o sonho: o fundo é sempre mais fundo.

Poço 1Nem tudo é miséria, no entanto. Vamos olhar para o lado bom das coisas. Vamos fazer como Baden e Vinícius. Saudemos os arautos dos novos tempos.

Primeiro, vamos saudar a evolução da mídia, sem a qual ainda estaríamos imersos nas trevas. Pedimos a bênção também à inflação devorante que nos martirizou até vinte anos atrás. Sem ela, não saberíamos dar valor à estabilidade que nos acariciou até um passado assaz recente.

E que dizer, então, do incomparável «coup de théâtre» de Roberto Jefferson, raio em céu sereno, gesto sem o qual a tevê teria continuado, modorrenta, a transmitir novelas e amenidades? Sua bênção, companheiro!

Também hão de nos conceder bênção os guerreiros do povo brasileiro! Não fosse a ação ousada e altruísta daquela gente visivelmente desapegada de bens materiais, a pátria estaria ainda à espera de uma hipotética passionária. Homens destemidos, punho levantado diante da adversidade, que imagem mais linda! Aprendemos muito com eles. Terão nossa eterna gratidão.

Piramide 2E como ficam os grandes empreiteiros? O trabalho beneditino, discreto e continuado desses visionários foi componente pra lá de importante pra nos conduzir aonde chegamos. Hão de deixar rastro indelével. Sua bênção, companheiros!

Graças especiais temos de render a nossa presidente hoje afastada, mulher de pulso, que, contra ventos e marés, levou ao paroxismo a doutrina recebida de seu patrono. Não fosse por seu encarniçamento, o Brasil nunca teria chegado aonde chegou. Sua bênção, mãe e madrinha!

Lula caricatura 2aDeixei para o fim o mais importante, o guia maior, ironicamente base e topo da mesma pirâmide. Em trinta anos de ascensão, transformou-se em catalisador. Agregou gente fina, outros nem tanto. Em sua órbita gravitaram muitos: este em busca de fama, aquele à cata de fortuna, uns querendo um trampolim, outros certos de que o poder do chefe lhes garantiria proteção eficaz e eterna. Por um tempo, cada um imaginou ter encontrado o caminho das pedras. Saravá!

A todos os que mencionei ‒ e aos milhares que a exiguidade do espaço me impede de nomear ‒, peço a bênção. Podem todos eles orgulhar-se de nos ter ensinado o que fazer. E, principalmente, o que não fazer.

Vaticinam as profecias que, antes que a Grande Transformação venha conjurar a mediocridade, há que surgir monstros. Está aí o sinal dos novos tempos: um festival de monstros e de monstruosidades ‒ só não vê quem não quer. Que os cidadãos de bem retenham a lição, antes que este Samba da bênção se converta em Samba do cruz-credo.

Escapamos de boa

José Horta Manzano

Não sei se algum de meus leitores terá tido paciência para ler as 10 páginas do documento alinhavado pelo Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, reunido dia 17 de maio em Brasília.

O papel traz algumas particularidades. Dando mostra de que não acredita no retorno ao poder da presidente afastada, o diretório já marca, para o mês de novembro, encontro extraordinário para discussão do tema «Os desafios partidários para o próximo período», que pode ser tomado como previsão de derrota.

PT resolução 1Como seria de esperar, o Partido do Trabalhadores mostra estar de péssimo humor. Mesmo sem saber direito a quem atribuir a culpa, prova ser mau perdedor. Afinal, quem é que gosta de perder?

O documento retoma a desgastada e empoeirada retórica de antigos tempos. O texto vem coalhado de expressões tais como «velhas oligarquias», «reacionários», «forças conservadoras».

Interligne 18b

Uma leitura mais atenta revela o estado de espírito:

Nós & eles
A palavra «esquerda» é mencionada 7 vezes contra apenas 3 menções para a «direita».

Traição
«Golpe» ou «golpista» é o termo mais saliente. Aparece nada menos que 17 vezes em 10 páginas, perto de 2 vezes por página. É o cavalo de batalha do partido na atualidade. Resumo da ópera: quem não for da nossa opinião é golpista ou traidor. O raciocínio da companheirada é binário. Se não for sim, só pode ser não. No meio, não há nada.

Reação
A reação mais evocada pelo documento é o apelo à «luta» (7 aparições) e ao que resta de «popular» (14 vezes) nestes tempos de smartphone para todos.

Dilma e Lula 4Ídolos
Deveras interessante é o fato de «Dilma» e «presidenta» aparecerem 19 vezes, enquanto «Lula» e «ex-presidente» são mencionados apenas 7 vezes. Nosso guia mostra estar sendo relegado a segundo plano até dentro do próprio partido. Em número de menções, empata até com «Temer» e «ilegítimo».

Corrupção
A palavra «corrupção» aparece uma única vez. É no pedaço em que os dirigentes do partido se queixam de a Operação Lava a Jato se ter focalizado “seletivamente” sobre eles. O assunto que predomina há dois anos não merece mais do que essa menção “en passant”.

Interligne 18b

Aparelhamento fracassado
O mais inquietante, no entanto, vem no parágrafo que reproduzo logo abaixo. Em poucas linhas, o partido mostra-se arrependido de não ter alcançado total aparelhamento das Forças Armadas, do Itamaraty e da mídia.

Lenin 1«Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal; modificar os currículos das academias militares; promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação.»

Como se vê, o aparelhamento podia ter sido ainda mais abrangente. Cruz-credo! Escapamos de boa.

Frase do dia — 300

«Lulistas & caterva se reuniram por dois dias para uma “autocrítica” que impressiona pelo caradurismo. Em vez de “roubamos, deixamos roubar e ainda fracassamos na gestão”, escreveram nas entrelinhas algo como “roubamos e fracassamos, mas a culpa é dos outros”.»

Cláudio Humberto, bem informado jornalista, no Diário do Poder, 18 maio 2016.

Passo maior que a perna

José Horta Manzano

De criança, a gente costumava cantar:

Passa, passa três “vez”
O último que ficar
Tem mulher e filhos
Que não pode sustentar

Ah, essa sabedoria popular é… sabida! Os antigos já entendiam que só deve formar família quem tiver condições de a sustentar. Quem não tem competência não se estabelece, como diz o outro.

A ignorância e a ingenuidade de nosso guia causaram estragos profundos. Sua megalomania, à qual vassalos submissos diziam amém, atingiu em cheio a imagem do Brasil no exterior. A olhos estrangeiros, nosso país se apequenou.

O Lula e a sucessora mandaram criar 17 (dezessete!) embaixadas. Estão todas situadas em países pequenos, com os quais temos discretas relações políticas e comerciais. Só nas Antilhas e no Caribe ‒ sem contar estados maiores, como Cuba, República Dominicana e Haiti ‒ temos dez embaixadas. Estão em países que a gente não conhece nem de nome: Nassau, Antigua & Barbuda, St-Kitts e Nevis, Santa Lucia, Barbados, Granada, Dominica e por aí vai.

Ciranda 1Até na Coreia do Norte, o Lula abriu embaixada. Na época, havia 6 brasileiros no país, 3 dos quais formavam a família do embaixador. Os outros três eram funcionários da representação. Não se tem notícia de que a “colônia” tenha aumentado.

Meus distintos leitores hão de ter ficado sabendo, estes últimos meses, de vexames dados por numerosas representações brasileiras no exterior. Algumas não tinham recursos nem para aluguel, conta de telefone, salário de funcionário, despesas do dia a dia. Uma humilhação.

A decisão de instalar uma fileira de representações prendia-se à falsa premissa de que a quantidade de bandeiras nacionais içadas no exterior dava prova cabal de que o Brasil se havia tornado país importante. Uma pirotecnia. Um rojão que deu chabu.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Sob nova direção, o Ministério das Relações Exteriores acaba de encomendar estudo da relação entre os custos e os benefícios dessa megalomania. É provável que embaixadas ociosas sejam extintas.

Os caminhos para demonstrar a força de um país são outros, mais árduos. Experiências calcadas no amadorismo acabam custando caro aos cofres públicos ‒ que, ao fim e ao cabo, são alimentados pelos impostos de todos nós.