Luiz Inácio: a grande bobeada

José Horta Manzano

O doutor Jorge Messias, advogado-geral da União, não foi aprovado pelo Senado para vestir a toga e ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal. A imprensa, que andava desconfiada de que isso pudesse acontecer, já tinha pesquisado e até elaborado uma listinha com o nome daqueles poucos que precederam Messias na desconfortável situação de ter levado bomba.

Desconfortável é o mínimo que se possa dizer, dado que a lista é curta e que o atual AGU é apenas o sexto pretendente rejeitado desde que a primeira Constituição republicana entrou em vigor. E olhe que as cinco ocorrências anteriores datam do século 19, no longínquo 1894, governo de Floriano Peixoto.

A soberba de Lula da Silva não tem emenda. Nosso presidente ainda vive nos eflúvios de seus dois primeiros mandatos, quando sua estrela brilhava forte e ele ganhava todas. Só que os tempos seguiram adiante, inexoráveis, mesmo Luiz Inácio fazendo força pra não aceitar. Na vida, quem fica pra trás dança – e Luiz Inácio tem levado um baile atrás do outro. Contradanças em grande parte evitáveis.

Embora a Constituição não obrigue, as escolhas das últimas décadas tinham sido feitas pelo presidente, sim, mas baseado numa lista tríplice elaborada por quem entende do recado (STJ, OAB). Assim, o presidente exercia sua prerrogativa de indicar um nome, mas evitava a suspeita de estar se baseando em proximidade ideológica ou amizade pessoal.

Traído pela soberba, Lula bobeou. Esnobou Rodrigo Pacheco, candidato de consenso que provavelmente teria sido aprovado sem tropeço. Dispensou lista tríplice e anunciou que seu candidato era o AGU. Esse tipo de decisão arrogante só funciona quando o chefe do Executivo está em posição de força, seja por ter excelentes níveis de aprovação, seja por estar longe de período eleitoral. Ora, Lula está amargando aprovação péssima, e estamos a cinco meses das eleições. Em momentos assim, é imprudente confiar apenas em ecos da popularidade passada. Ministro do STF é cargo cobiçadíssimo. Os não escolhidos se sentem frustrados, tem muita gente botando olho gordo e espetando bonecos de pano à moda vodu.

Além disso, depois que as pesquisas começaram a indicar a viabilidade da candidatura do filho de Bolsonaro, os braços ameboides do Congresso passaram a se estender para o dito “01”. A partir desse momento, o espírito do Parlamento se tornou hostil ao presidente. A tendência é negar todo pedido vindo de sua parte e escamotear todo favor que se lhe pudesse ser feito.

O presidente Lula está, pois, em posição delicada com relação aos parlamentares. Estes últimos têm a força da avidez que nunca sacia. Nesses termos, um Lula fragilizado perde toda atratividade. Suas Excelências preferem acariciar quem está na crista da onda.

O candidato Jorge Messias poderia talvez ter sido aprovado pelos senadores seis meses atrás. Em vez de titubear, Lula deveria tê-lo logo mandado à forja, enquanto o filho de Bolsonaro não passava de candidato folclórico em que ninguém botava fé. Aquele era o momento, mas Luiz Inácio deixou passar.

Do modo que as coisas estão, vai ser difícil uma nova indicação de Lula ser aprovada antes das eleições. Caso o presidente não seja reeleito e, em seu lugar vier um presidente bolsonarista, seja o filho de Jair ou um outro, em breve tempo o equilíbrio de forças terá vergado para outra vertente. Os ministros estarão, em maioria, sintonizados com ideias reacionárias ou, pior, de extrema direita.

Não se sabe se era o que Suas Excelências desejavam, mas é o caminho que hoje parece mais bem atapetado. Com pedrinhas de brilhante.

Escapamos de boa

José Horta Manzano

Não sei se algum de meus leitores terá tido paciência para ler as 10 páginas do documento alinhavado pelo Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, reunido dia 17 de maio em Brasília.

O papel traz algumas particularidades. Dando mostra de que não acredita no retorno ao poder da presidente afastada, o diretório já marca, para o mês de novembro, encontro extraordinário para discussão do tema «Os desafios partidários para o próximo período», que pode ser tomado como previsão de derrota.

PT resolução 1Como seria de esperar, o Partido do Trabalhadores mostra estar de péssimo humor. Mesmo sem saber direito a quem atribuir a culpa, prova ser mau perdedor. Afinal, quem é que gosta de perder?

O documento retoma a desgastada e empoeirada retórica de antigos tempos. O texto vem coalhado de expressões tais como «velhas oligarquias», «reacionários», «forças conservadoras».

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Uma leitura mais atenta revela o estado de espírito:

Nós & eles
A palavra «esquerda» é mencionada 7 vezes contra apenas 3 menções para a «direita».

Traição
«Golpe» ou «golpista» é o termo mais saliente. Aparece nada menos que 17 vezes em 10 páginas, perto de 2 vezes por página. É o cavalo de batalha do partido na atualidade. Resumo da ópera: quem não for da nossa opinião é golpista ou traidor. O raciocínio da companheirada é binário. Se não for sim, só pode ser não. No meio, não há nada.

Reação
A reação mais evocada pelo documento é o apelo à «luta» (7 aparições) e ao que resta de «popular» (14 vezes) nestes tempos de smartphone para todos.

Dilma e Lula 4Ídolos
Deveras interessante é o fato de «Dilma» e «presidenta» aparecerem 19 vezes, enquanto «Lula» e «ex-presidente» são mencionados apenas 7 vezes. Nosso guia mostra estar sendo relegado a segundo plano até dentro do próprio partido. Em número de menções, empata até com «Temer» e «ilegítimo».

Corrupção
A palavra «corrupção» aparece uma única vez. É no pedaço em que os dirigentes do partido se queixam de a Operação Lava a Jato se ter focalizado “seletivamente” sobre eles. O assunto que predomina há dois anos não merece mais do que essa menção “en passant”.

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Aparelhamento fracassado
O mais inquietante, no entanto, vem no parágrafo que reproduzo logo abaixo. Em poucas linhas, o partido mostra-se arrependido de não ter alcançado total aparelhamento das Forças Armadas, do Itamaraty e da mídia.

Lenin 1«Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal; modificar os currículos das academias militares; promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação.»

Como se vê, o aparelhamento podia ter sido ainda mais abrangente. Cruz-credo! Escapamos de boa.

O PT e a modernidade

«Em geral, se quer atribuir esse antipetismo [paulista] a uma posição conservadora. Eu penso que é o contrário. O PT não está conseguindo dialogar com o contrário do que eles dizem, que é a modernidade de São Paulo.

Se pegar São Paulo como metáfora do capitalismo brasileiro, é o estado com a maior presença de desenvolvimento econômico, onde a classe média é muito expressiva, gente que opera sabendo que o que ela tem se deve ao próprio esforço e não a benesses do Estado, do governo ou de quem quer que seja.

Esse eleitorado tem sido muito maltratado pelo discurso petista. De certo modo, a maioria da população de São Paulo tem esse éthos empreendedor, individualista. O paulista tem sido tratado em bloco como se fosse reacionário, de direita.

Eu acredito que isso é um grande equívoco do PT, que explica não só o crescimento de Aécio, como a vitória de Alckmin.»

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Excerto de entrevista concedida por Milton Lahuerta ao jornal O Globo. O entrevistado é coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp. Para ler o texto integral, clique aqui.