A lógica de Mr. Trump

José Horta Manzano

Cão que ladra não morde ‒ diz o povo sabido. De fato, convém desconfiar de quem vocifera. O mais das vezes, agressividade verbal não passa de fachada, escudo de proteção, sinal certeiro de fragilidade interior. Quanto mais exaltado for o discurso, menor importância lhe deve ser concedida. Gesticulação hostil não costuma ser característica de pessoa inteligente. Em nosso país, tivemos, não faz tanto tempo, um presidente que se encaixava bem nesse perfil. Aliás, o personagem, embora desmascarado, continua firme na encenação inútil.

Quando da campanha eleitoral, Mr. Trump impressionou muitos de seus conterrâneos. Seu discurso verborrágico e agressivo seduziu boa parte do eleitorado, tanto que conseguiu ser eleito para o cargo de presidente.

O homem, infelizmente, não tem demonstrado ser dono de inteligência brilhante. É uma pena. Já chegou à chefia do Executivo americano carregando um passivo de promessas eleitoreiras praticamente impossíveis de ser cumpridas. A história do muro de três mil quilômetros, por exemplo, uma bobagem para enganar trouxa. O então candidato chegou a convencer ingênuos eleitores de que a grande ameaça para o bem-estar do país vinha de imigrantes clandestinos, pobres e descalços. E muita gente acreditou.

Mr. Trump acaba de dar mais uma prova de despreparo e de incapacidade para ocupar o cargo para o qual foi eleito. Ao anunciar que não vai cumprir o compromisso assumido por seu país, sacramentado quando seu predecessor assinou o acordo sobre o clima, mostrou que, além de irresponsável, é particularmente pobre em matéria cinzenta.

by Vicente Freitas de Araújo (1955-), desenhista cearense

De fato, para quem martelou slogans do tipo «America first» (os EUA primeiro) e «Make America great again» (ressuscitar a grandeza dos EUA), a loucura que o presidente acaba de cometer é de um inacreditável primarismo. Conseguiu, com uma declaração, pôr contra si os demais 194 países que assinaram o acordo ‒ uma façanha!

Os resultados imediatos são:

 • o repúdio unânime de todos os governos

 • a antipatia dos habitantes do planeta

 • o crescimento da importância política da China, que se apressou em reafirmar a firme intenção de manter a palavra dada

 • a desconfiança de aliados outrora fiéis, como os europeus, que ficaram todos com um pé atrás.

Nem Freud, num dia de bom humor, conseguiria acompanhar o raciocínio de Mr. Trump. Seja qual tenha sido a intenção do extravagante presidente, ele acaba de embarcar em canoa furada. Mostrou os limites de sua lógica.

Monsieur Hollande, ex-presidente da França, resumiu em poucas palavras: «Trump rejette l’avenir» ‒ Trump manda o futuro às favas.

Um dia, será julgado pelos próprios netos.

Passo maior que a perna

José Horta Manzano

De criança, a gente costumava cantar:

Passa, passa três “vez”
O último que ficar
Tem mulher e filhos
Que não pode sustentar

Ah, essa sabedoria popular é… sabida! Os antigos já entendiam que só deve formar família quem tiver condições de a sustentar. Quem não tem competência não se estabelece, como diz o outro.

A ignorância e a ingenuidade de nosso guia causaram estragos profundos. Sua megalomania, à qual vassalos submissos diziam amém, atingiu em cheio a imagem do Brasil no exterior. A olhos estrangeiros, nosso país se apequenou.

O Lula e a sucessora mandaram criar 17 (dezessete!) embaixadas. Estão todas situadas em países pequenos, com os quais temos discretas relações políticas e comerciais. Só nas Antilhas e no Caribe ‒ sem contar estados maiores, como Cuba, República Dominicana e Haiti ‒ temos dez embaixadas. Estão em países que a gente não conhece nem de nome: Nassau, Antigua & Barbuda, St-Kitts e Nevis, Santa Lucia, Barbados, Granada, Dominica e por aí vai.

Ciranda 1Até na Coreia do Norte, o Lula abriu embaixada. Na época, havia 6 brasileiros no país, 3 dos quais formavam a família do embaixador. Os outros três eram funcionários da representação. Não se tem notícia de que a “colônia” tenha aumentado.

Meus distintos leitores hão de ter ficado sabendo, estes últimos meses, de vexames dados por numerosas representações brasileiras no exterior. Algumas não tinham recursos nem para aluguel, conta de telefone, salário de funcionário, despesas do dia a dia. Uma humilhação.

A decisão de instalar uma fileira de representações prendia-se à falsa premissa de que a quantidade de bandeiras nacionais içadas no exterior dava prova cabal de que o Brasil se havia tornado país importante. Uma pirotecnia. Um rojão que deu chabu.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Sob nova direção, o Ministério das Relações Exteriores acaba de encomendar estudo da relação entre os custos e os benefícios dessa megalomania. É provável que embaixadas ociosas sejam extintas.

Os caminhos para demonstrar a força de um país são outros, mais árduos. Experiências calcadas no amadorismo acabam custando caro aos cofres públicos ‒ que, ao fim e ao cabo, são alimentados pelos impostos de todos nós.

O segredo é a alma do negócio

José Horta Manzano

Nosso governo insiste em provar seu amadorismo. Faz questão de que o mundo saiba que o Brasil ― o mesmo Brasil que pretende fazer parte do primeiro escalão das nações ― não dispõe de serviços de inteligência. O raciocínio dos que nos governam é simples, quase simplório: não temos inimigos, portanto, a quem interessaria espionar-nos?

Espionagem by Cam - Ottawa Citizen

Espionagem
by Cam – Ottawa Citizen

Segundo essa filosofia de boteco, ou «cês tá com nóis» ou «cês tá contra nóis». É certo que não estamos em guerra (militar) contra ninguém, daí a dedução lógica: «eles tá tudo com nóis». E pronto. Pra que gastar dinheiro com proteção de dados? Mais vale utilizar melhor as verbas que escaparem do roubo e da corrupção. Que sejam investidas para angariar votos e para garantir o pirão aos comensais de sempre.

Com o devido estardalhaço, dona Dilma anunciou neste domingo a implantação de um sistema nacional de email criptografado. Com isso ― acredita ela ― as autoridades estarão a salvo de toda espionagem. Duas perguntas ficam no ar.

A primeira: por que razão o governo esperou que a porta fosse arrombada para só então pensar em botar tranca? A segunda: que é que faz crer aos luminares do Planalto que os novos sistemas garantirão a inviolabilidade das mensagens?

Vasques 1

Espionagem
by Edgar Vasques, desenhista gaúcho

O fato de não se terem prevenido contra espionagem reafirma ― se necessário fosse ― o despreparo de um governo cujo objetivo único é a conservação do poder. Dado que o empenho em autofortalecer-se preenche todos os minutos dos dirigentes, é compreensível que não lhes sobre tempo para cuidar do funcionamento do País, ocupação para a qual foram escolhidos. O salário que lhes pagamos é justamente destinado a sustentar uma equipe que zele pelo País. Assim deveria ser, pelo menos.

Quanto à crença de que um sistema de criptografia seja suficiente para proteger segredos oficiais, devo concluir que bom-senso e um pouquinho de cultura histórica andam fazendo uma falta danada aos que ocupam os mais altos postos de nossa hierarquia política. Se dona Dilma se tivesse interessado em saber o que já foi tentado no campo da dissimulação de mensagens ― desde o tempo dos pombos-correio até hoje ― seus pronunciamentos seriam menos bombásticos e mais humildes. Melhor até que nem se pronunciasse.

Enigma ― máquina de criptografar

Enigma ― máquina de criptografar

No começo dos anos 20, matemáticos alemães desenvolveram uma máquina eletromecânica, a superfamosa Enigma, destinada a encriptar comunicações. Uma versão reforçada foi preparada, sob encomenda do governo nazista, especificamente para comunicações militares. A criptagem da Enigma era reputada inviolável.

Pois hoje sabemos que um trio de matemáticos poloneses conseguiu quebrar o código da máquina alemã. E fizeram isso já antes de a Segunda Guerra estourar! Assim, graças àqueles pré-históricos hackers, os britânicos já tinham sido informados com antecedência sobre o ataque «de surpresa» que a Alemanha desferiria à Polônia, dando início à guerra mundial. Naturalmente, todos aparentaram surpresa, de modo a deixar que os alemães acreditassem que suas mensagens continuavam indevassadas.

Códigos, cifragens, criptogramas são feitos para serem quebrados. Todo Estado dotado de serviços de inteligência sabe disso.