Força do hábito

Dora Kramer (*)

Em 2005, quando Duda Mendonça admitiu à CPI dos Correios que havia recebido dinheiro “por fora” pelos serviços prestados à campanha de Luiz Inácio da Silva em 2002, o PT chorou de arrependimento em praça pública, o então presidente cogitou não concorrer à reeleição no ano seguinte e próceres da oposição acionaram a tecla “deixa-disso” a fim de não provocar ações contra Lula que, na concepção tucana, morreria politicamente de inanição. Quem viveu viu o tamanho do forrobodó.

Lula discursoAgora, João Santana diz o mesmo e mais um pouco e não causa o menor espanto. A antiga oposição, hoje governo, faz de conta que o tema não lhe diz respeito. A reação na seara petista é apenas um leve desconforto por Dilma Rousseff. A candidata, que teve a campanha financiada do modo relatado por Santana, joga a culpa no partido a fim de manter a pose de “mulher honesta”.

De onde, nesses onze anos decorridos entre os dois episódios, o PT além da reputação perdeu a capacidade de se envergonhar.

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(*) Dora Kramer é jornalista, analista política e escritora. O texto acima foi extraído de artigo publicado no Estadão de 3 ago 2016.

Vote bem

José Horta Manzano

Amanhã vamos votar. O Brasil inteiro já está sabendo, mas não custa reproduzir aqui um trecho da reportagem publicada pela revista Veja deste fim de semana.

Interligne vertical 12«Desde que Duda Mendonça, o marqueteiro da campanha de Lula em 2002, admitiu na CPI dos Correios ter recebido pagamentos de campanha no exterior (10 milhões de dólares), pairam sobre o partido suspeitas concretas da existência de dinheiro escondido em paraísos fiscais.

Para os interrogadores de Alberto Youssef, no entanto, essas dúvidas estão começando a se transformar em certeza. O doleiro não apenas confirmou a existência das contas do PT no exterior como se diz capaz de ajudar a identificá-las, fornecendo detalhes de operações realizadas, o número e a localização de algumas delas.»

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Se você ainda não sabia, agora sabe. Vote bem. E que os anjos digam amém.

Revista Veja 1Adendo
Quero acrescentar uma consideração. Pouco depois de o teor da reportagem ter passado a conhecimento público, um destacamento de uma cinquentena de vândalos – possivelmente contratados às pressas – dirigiu-se às cercanias do edifício-sede da revista.

Os mandantes encomendaram a surrada tática de investir contra o mensageiro a fim de desviar a atenção do conteúdo da mensagem. Distrai-se o porteiro enquanto os assaltantes passam.

Vista a urgência, com a hora agá batendo à porta, os militantes desprezaram a moda antiga de protestar – cartazes, faixas, megafone e slogans. Lançaram logo mão de maneira moderna mais impactante: picharam paredes e emporcalharam o chão com baciadas de papel picado.

Limpadores de rua 2Ao fim e ao cabo, a manifestação confirma que os acusados sentiram o golpe. Sabiam que todo feitiço acaba virando contra o feiticeiro, mas não esperavam que o retorno do bumerangue viesse tão rápido. E em hora tão incômoda.

Resultado prático: sobrou para varredores, garis e outros funcionários humildes. Serão obrigados a limpar a sujeira deixada por representantes dos que foram apanhados com a mão no saco. Ironicamente, a manifestação há de ter servido para aumentar a tiragem da revista.

Ah, se ao menos os limpadores pudessem varrer também a corrupção…