Presidente distraído

José Horta Manzano

Chefes de Estado, quando se visitam, levam presentes. Mortais comuns como você e eu podemos até saltar esse capítulo, mas altos dirigentes seguem o ritual como manda a tradição. Quando digo presentes, não falo de «lembrancinhas» compradas às pressas na barraquinha da esquina. Presidente, rei e todo mandatário que se preza costuma oferecer aos confrades presentes valiosos, impressionantes, marcantes, inconfundíveis e inesquecíveis.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

A revista Isto É desta semana traz um extrato de um relatório de fiscalização levado a cabo pelo TCU ‒ Tribunal de Contas da União. O documento de 40 páginas analisa, no detalhe, os presentes que o Lula e dona Dilma receberam de dirigentes estrangeiros, quando ainda estavam no poder.

A lei estipula que todo presente cujo valor supere cem dólares deverá ser incorporado ao patrimônio da União. Há lógica no dispositivo legal. Assim como quem presenteia o faz em nome de um Estado, o presenteado aceita o mimo em nome do País. Não é um mimo pessoal do ditador X ao Lula ou do caudilho Y a Dilma. É presente do povo do Kabrovistão ao povo brasileiro.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Medalhões não costumam chegar de mãos abanando. Muito menos trarão uma caneta esferográfica ou uma caixinha de bombons. Os objetos são importantes e, às vezes, de valor pra lá de elevado. A TCU apresenta a relação dos mimos recebidos pelos dois mais recentes presidentes do Brasil.

De 2003 a 2010, o Lula recebeu 568 presentes, dos quais apenas nove foram incorporados ao patrimônio público do país. Doutora Dilma foi presenteada, de 2011 a 2016, com 163 objetos, apenas seis dos quais foram declarados e transferidos ao patrimônio da União. Passando por cima da lei, os dois passaram a perna em nós todos e se apoderaram do que é nosso de direito.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Desconheço o valor total desses mimos. Assim mesmo, algo me diz que o conjunto dos 559 presentes que o Lula «esqueceu» de declarar e mandou embarcar nos 11 caminhões que carregaram suas tralhas quando deixou o Alvorada perigam valer mais que o triplex do Guarujá, o sítio de Atibaia e os pedalinhos de lata juntos. O MP tem de acrescentar essa «distração presidencial» ao processo.

Interligne 18h

É de lata
O trabalho do Tribunal de Contas é notável. O semanário que o publicou também merece aplauso. No entanto, ninguém é perfeito. A revista escorregou num galicismo ‒ sintaxe importada diretamente do francês sem passar pela alfândega.

Mencionou uma «bandeja em vidro» e um «elefante em ouro». Errou. Em português, para indicar a matéria de que um objeto é feito, usa-se a preposição de. Coroa de lata, doce de goiaba, urso de pelúcia, telhado de vidro. E, claro, elefante de ouro e bandeja de vidro.