Liberou geral

José Horta Manzano

Se gritar “pega, ladrão!”, não fica um, mermão

As manifestações populares de junho deixaram patente que o gigante está despertando. Na esteira do prenúncio destes novos tempos, o venerando Senado nacional trata de atualizar seu regimento interno.

O regulamento antigo tem mais de 40 anos, data de uma época em que o colosso adormecido ainda roncava em berço esplêndido. Não havia internétchi. Não havia feicibúqui. A informação circulava mal. Só os muito enfronhados sabiam o que realmente acontecia atrás das portas dos gabinetes. Naturalmente, as portas sempre tiveram ouvidos, mas esses ouvidos não tinham bocas. Governava-se em circuito fechado.

Até o fim do século XX, esse sistema, bem ou mal, se manteve. Com as avenidas de informação abertas pela rede mundial de computadores, segurar notícias dentro de um círculo de companheiros ficou cada dia mais complicado. Acabou dando no que deu. Os protestos de junho podiam já ter acontecido em 2010, 2012. Poderiam também esperar para estourar em 2014 ou 2015. Quis o destino que 2013 fosse o ano do amadurecimento.

Figuras públicas estão sendo obrigadas a rever às pressas seus comportamentos. O que era normal e aceito até ontem ― talvez por não ser de conhecimento público ― é hoje divulgado, censurado, reprimido, fustigado. Vejam o caso do governador do Rio de Janeiro. Como todos os seus pares que dispunham de um helicóptero, fazia dele uso em deslocamentos profissionais ou privados, tanto faz. Teve de abandonar essa prática, sob pena de linchamento.

Vejam também o caso de nosso inefável ex-presidente. Dizem as más línguas que sua família se valia de avião das Forças Aéreas Brasileiras ― custeados pelo povo brasileiro ― para fins prosaicos tais como levar a cadelinha ao veterinário ou conduzir a primeira-dama para uma sessão de brushing. Tiveram sorte de ter perpetrado essas leviandades antes do despertar do gigante. Fosse hoje, sei não…

Da atual presidente, não se tem notícia de que assim esteja procedendo. Melhor para ela. Já tem feito trapalhadas suficientes.

Senatus populusque romanus O Senado e o povo romano

Senatus populusque romanus
O Senado e o povo romano

Mas eu falava do Senado da República. É uma instituição de respeito. Já o nome é imponente: senado… Etimologicamente, é palavra muito antiga. O sânscrito conhecia a raiz sanas/sanaka, utilizada para designar pessoa de idade avançada. O radical se espalhou pelas línguas europeias. Aparece em lituano, nos idiomas celtas, nos falares germânicos e, naturalmente, nas línguas latinas.

Senex era como os latinos chamavam o velho. Senium era a velhice. Senil, que não tinha a carga pejorativa que carrega hoje, era a qualidade do que é velho. O Senado romano era instituição formada por homens de idade madura, encharcados daquela sabedoria que só os anos trazem. Todas as civilizações costumam respeitar o discernimento e o bom-senso que a velhice traz. Da mesma família etimológica também fazem parte sênior, senhor, senhorio, assenhorear.

Senado romano

Senado romano

Já faz algum tempo que nosso Senado se desviou da finalidade para a qual foi instituído. Era para ser um colégio de sábios respeitados aos quais se vem pedir conselho. Desviaram-se das regras. E o que é que se faz num caso desses? Dá-se uma guinada e volta-se ao bom caminho, não é mesmo? Qual… O uso do cachimbo deixou torta a boca de suas excelências. Converter-se a bons hábitos dá muito trabalho. Há meio bem mais simples: afrouxam-se as regras de conduta!

O senador maranhense Lobão, figurinha carimbada da política brasileira das últimas décadas, é o relator do projeto de mudanças no regimento interno do Senado. Colegas seus, preocupados com a corrosão que a imagem da instituição vem sofrendo perante a opinião pública, acharam que seria importante incluir entre as regras de conduta o compromisso de agir dentro da ética.

Andreza Matais, do Estadão, nos informa que o senador Lobão vetou a novidade. Não lhe parece relevante. O lobo mau não faria diferente.

Está ajudando a convocar novas ondas de protesto.

Interligne 37h

Frase do dia – 19

Interligne vertical 10«Um país que construiu mais sedes que eram exigidas, estádios com dinheiro público e, em alguns casos, em lugares sem um time de futebol. O relato poderia ser uma explicação sobre o comportamento do Brasil para a Copa 2014. Mas, na realidade, é a situação de Portugal quando se preparou para sediar a Eurocopa de 2004.»

Jamil Chade, in Estadão 5 ago 2013

Vale a pena ler o artigo inteiro.

Miscelânea 07

José Horta Manzano

Briga de bandido

Certas coisas são tão notórias e evidentes, que não precisam mais ser mencionadas. Pelo contrário: mais vale fingir que não existem e mudar de capítulo.

A Folha de São Paulo nos relata a continuação da encrenca ligada a falcatruas em licitações para o metrô de São Paulo. Conforme já comentamos neste blogue três semanas atrás, a Siemens andou botando a boca no trombone para denunciar que foi passada pra trás em alguma dessas concorrências viciadas.

Note-se que o gigantesco complexo industrial, maior empregador privado da Alemanha, está implantado no Brasil há mais de um século, desde 1905. De repente, em 2013, se dão conta de que falta lisura às licitações para serviços públicos.

Caminhão Siemens

Caminhão Siemens

Isso parece mais briga de bandido, despeito de concorrente passado pra trás.

Aqui entre nós, que ninguém nos ouça: a Siemens, como outras grandes empresas alemãs, é acusada de ter colaborado com o regime nazista. Pior que isso, afirmam alguns que se serviu de mão de obra escrava durante a Segunda Guerra.

Se assim for ― e é bem provável que tenha sido ― temos aí um excelente exemplo do roto falando do rasgado.

Interligne 37e

O roto pelo rasgado

Reportagem do Estadão, assinada por Fernando Gallo, informa que o governador de São Paulo efetuou uma substituição na chefia do Arquivo Público do Estado. Dispensou o antigo titular, afiliado ao PT. Em seu lugar, empoleirou um afiliado ao PSDB.

Desconheço a qualificação tanto do recém-demitido quanto do recém-admitido. O que me parece lamentável é que a direção do órgão técnico encarregado de zelar por nossa parca memória histórica seja tratado com tal leviandade.

Arquivo público não é sinecura de que se valham os governantes de turno para mimosear amigos e correligionários.

Só falta o governador de São Paulo se sair com a mesma justificativa usada por nosso inefável ex-presidente: se todos fazem assim, por que não eu?

Quando se pretende dar lições de moral aos outros, mais vale andar na linha. O governador está cobrindo sua casa com telhas de vidro.

Interligne 37e

Rasgou a fantasia

Encantaram-se todos com a notícia de que o prefeito de um município do interior paulista havia renunciado ao mandato por «descobrir» que o salário era insuficiente. Todos aplaudiram, acharam maravilhoso que um cidadão recusasse a se vergar à corrupção para aumentar seus ganhos.

Quanto a mim, fico aqui meio cismado. Por que, diabos, esse senhor esperou tanto tempo para rasgar a fantasia? É médico de formação, portanto, supõe-se que conheça as operações básicas e que esteja capacitado a agir dentro de um mínimo de coerência.

Ajuda financeira

Prefeito honesto

Com que então, o digníssimo senhor prefeito não se preocupou com o salário da função antes de se candidatar? E por que terá esperado quase um ano para renunciar? Esperava conseguir, uma vez eleito, algum «favor especial» que, no final, não lhe foi concedido? Será que não passou pela cabeça do digníssimo prefeito que sua renúncia está causando transtorno aos quase 20 mil habitantes do município, cidadãos estes que não são obrigados a aturar seus saltos de humor?

De gente assim prefiro manter distância. Quando se assume uma responsabilidade, vai-se até o fim. O ato cometido por esse senhor é por demais leviano para meu gosto.

Interligne 37e

A frase do dia – 15

Interligne vertical 10«Ninguém mais liga para ela, que não sabe se expressar direito e, quando começa a falar, parece que vai dar um cascudo em alguém, coitadinha. Eu fico com pena, é muito duro, às vezes eu penso que ela está ali, querendo fazer pose de cáiser prussiano, mas com vontade de chorar, é desumano.»

João Ubaldo Ribeiro, discorrendo sobre dona Dilma in Estadão, 28 julho 2013

Miscelânea 06

José Horta Manzano

Autostrada italiana 1935

Autostrada italiana 1935

Proporcional
A Itália reclama para si a invenção da estrada de rodagem ― em seu conceito moderno, entenda-se. Na Europa, foram realmente os primeiros, já nos anos 1920, a se darem conta da necessidade de construir estradas exclusivas para veículos automotores. Entre rebanhos de cabras, carroças de feno, carros de boi, bicicletas e pedestres, os automóveis tinham crescente dificuldade em se locomover nas estradas de então.

Em 1924, foi inaugurada a primeira dessas novas vias, a Milano-Laghi, 84 quilômetros entre Milão e a região dos lagos lombardos. As características principais desse novo tipo de estrada já estavam lá: duas pistas duplas separadas por um canteiro central, proibição de circulação a todo veículo não motorizado, cobrança de uma taxa de passagem ― o pedágio.

Hoje a Itália conta com 6500km dessas estradas exclusivas, enquanto a França tem 9600km e a Alemanha, 11700km. A rede suíça totaliza 1400km. Os italianos dizem autostrada. Em alemão, é Autobahn. Os franceses conhecem como autoroute. Já os espanhóis preferem autopista. Em Portugal, também dizem auto-estrada. No Brasil, não há um nome específico. Fala-se em estrada duplicada, em rodovia com pedágio. Acredito que autoestrada ou via expressa pudesse ser uma boa tradução. Quem tiver melhor ideia, que se manifeste.

Via expressa atual

Via expressa moderna

Quase cem anos depois da abertura da primeira autostrada europeia, o Estadão nos informa que, neste sábado 27, a rodovia SP-340 «ganha»(sic) pedágio por trecho. É realmente um ganho! A cobrança da taxa de circulação passa a ser proporcional à distância percorrida. Isso sempre pareceu evidente para os europeus, desde os pioneiros de 100 anos atrás. Mas não aos responsáveis brasileiros.

Antes tarde que nunca.Interligne 18b

Suplentes
Artigo de Victor Vieira publicado neste 27 de julho volta ao assunto dos suplentes de senador. Dentre os 81 titulares, 16 são suplentes, criaturas sem voto, escolhidas por dedaço entre os familiares ou conhecidos dos senadores. Isso significa que 20% dos representantes dos Estados não foram eleitos pelo povo, um inconcebível absurdo.

Para o caso de impedimento de um senador, há somente duas soluções viáveis:
1) Deixar vaga a cadeira até que o titular retorne ou, no caso de não retornar, até a próxima eleição.
2) Organizar nova eleição no Estado representado pelo senador.

Que se aproveite a onda das reformas que apontam por aí e que se tome uma decisão. O que não podemos é continuar com esse sistema clânico, descendente direto do conceito medieval das capitanias hereditárias. Um senador não pode «terceirizar» seu cargo. O eleito é ele e não um de seus familiares, homens de confiança ou… capangas.

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A vantagem de Maria
A notícia fala dos problemas judiciários de Dominique Strauss-Kahn, ex-futuro candidato à presidência da França. Não me cabe aqui tomar partido. Eles, que são brancos, que se entendam.

O que me surpreende é o desaparecimento de uma palavra de nossa língua. Não li todos os avisos mortuários dos últimos 50 anos, portanto não sei quando ela faleceu. O fato é que sumiu de circulação.

O artigo conta que DSK está sendo processado pelo crime de proxenetismo. Em seguida, o jornalista sente-se obrigado a explicar, com meia dúzia de palavras, o que vem a ser essa palavra.

É aí que sinto a falta que fazem as palavras falecidas. Antigamente, dizia-se lenocínio. E todos sabiam o que era, não precisava maiores explicações. Quando proxenetismo entrou na língua portuguesa, já fazia alguns séculos que se dizia lenocínio.

Está aí uma substituição inútil e trabalhosa. Esquece-se a palavra antiga, elege-se uma nova. E, a cada vez que aparece, tem de ser acompanhada de sua definição.

Como dizia o outro: ― que vantagem Maria leva?Interligne 18b

Bandeiras queimadas by Miguel Schincariol, AFP

Bandeiras queimadas
by Miguel Schincariol, AFP

La gloria en llamas
Nos anos 60, na véspera da inauguração de uma exposição espanhola em Milão, na Itália, houve uma passeata de protesto. Os manifestantes reclamavam contra o regime franquista que regia a Espanha já fazia mais de 25 anos. No auge dos protestos, atearam fogo a bandeiras espanholas.

Indignado com o que acabava de acontecer, um jornalista espanhol, hoje já falecido, usou de toda a sua verve para escrever um inflamado artigo que fez história no jornalismo ibérico. Foi lá que, referindo-se à bandeira, utilizou a expressão «la gloria en llamas», a glória em chamas. E o artigo terminava prevenindo aqueles «que se divertem brincando com fogo».

Nesta sexta-feira, irresponsáveis se divertiram queimando a bandeira brasileira e a paulista. A bandeira é o símbolo maior de um país. Atear fogo a ela equivale a ofender todo um povo. É insulto de gravidade extrema, como se tivessem cuspido na cara de todos nós. A bandeira não é símbolo da presidente, nem do congresso, nem da prefeitura. É a representação de todos os brasileiros. Quero crer que os iconoclastas sejam brasileiros também. Assim, terá sido a primeira vez que vejo manifestantes ofendendo a si próprios. Nonsense total.

Nestes tempos de visita papal, cabe lembrar o sempre atual versículo 23:34 do Evangelho de Lucas: «Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem».

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O papa e o protesto

José Horta Manzano

Os franceses têm resposta pra tudo. A cada aumento de imposto ― fato que acontece com bastante frequência na terra deles ― sempre aparece alguém no rádio ou na televisão para repetir que trop d’impôt tue l’impôt, imposto demais mata o imposto.

Com isso querem dizer que todo exagero é pernicioso. Impostos elevados demais são um convite à evasão e até à fraude. Têm razão. Nunca convém abusar, sob pena de ver o resultado irremediavelmente comprometido.

Faz um mês, o Brasil fervia. Centenas de milhares de manifestantes pacíficos saíam espontaneamente às ruas. Sem bandeiras, sem comando unificado, sem orientação partidária, sem carros de som, sem uniformes e sem estímulo oficial. Alguns portavam cartazes artesanais onde exprimiam seu anseio, sua reclamação, seu fastio.

Se algum dos 200 milhões de brasileiros lhe disser que, duas semanas antes, já havia previsto os protestos, não acredite: estará mentindo. Nenhum de nós imaginou que esse tipo de fenômeno fosse de novo possível num Brasil sedado havia mais de 10 anos. Mas aconteceu e foi útil.

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Numa certa altura da vida, tive um chefe que eu admirava e respeitava. Era o dono da empresa. Vez por outra, no meio do dia, ele saía. Nunca dizia aonde ia, mas costumava lançar, já na soleira da porta, a frase ritual: «Pode ser que eu volte no fim da tarde». Às vezes, voltava mesmo. O mais das vezes, não. Mas, entre nós, ficava a dúvida. Voltará ou não? Será que posso ir-me embora um pouco mais cedo? Será que ouso ausentar-me uma meia horinha para tomar sorvete na esquina?

O fato é que a técnica do chefe funcionava. Ninguém arriscava fazer o que não devia. O homem ia, mas o chicotinho ficava dependurado na parede.

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As passeatas de junho foram uma advertência gritante. Todos os figurões entenderam, mas cada um reagiu a seu modo. O mais visado, o pai de todos, escondeu-se e, pusilânime, fez-se de morto e sumiu de circulação. Outros, que não tinham como escapar, tomaram decisões vistosas, mas atabalhoadas e desconexas. Houve ainda quem desafiasse a voz das ruas e continuasse, como antes, requisitando aviõezinhos da FAB como se estes fizessem parte de seu patrimônio privado. Levaram uma advertência em regra.

Agora, que estão todos avisados, precisa dar uma pausa para meditação. Os mandarins brasileiros não vão tomar juízo da noite para o dia, que os vícios são muito antigos e já criaram raízes. O importante é que todos agora sabem que o mundo mudou e que as coisas não são mais como antes. Todo gesto, toda conversa, todo movimento é susceptível de ser vigiado, descoberto e divulgado.

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Papa Francisco

Papa Francisco

Papa Francisco deve desembarcar no Rio nesta segunda-feira, logo mais à tarde, em sua primeira viagem fora da Itália. Algumas mentes pouco iluminadas estão convocando incautos para protestar contra isto e aquilo durante a visita papal. É besteira grossa.

Primeiro, porque uma manifestação desse tipo pode ser interpretada como hostilidade ao visitante. Não cai bem. Além de mostrar sua falta de educação, os manifestantes perigam emitir sinais incoerentes. Desfilar diante do indivíduo A para manifestar seu descontentamento com o indivíduo B? Não faz sentido.

Segundo, porque os microfones e as câmeras do mundo inteiro que estarão postadas estes dias em volta do visitante transmitirão ao mundo a imagem de um povo baderneiro, pouco sério e dificilmente governável. A longo prazo, uma imagem desse naipe só pode ser prejudicial. Vai assustar futuros turistas e afugentar investidores. Contribuirá para que o planeta enxergue o Brasil com antipatia.

Terceiro ― e talvez mais importante: o exagero é prejudicial. As duas semanas de manifestações juninas foram uma advertência séria. Governo, ministros, senadores, deputados, prefeitos, governadores entenderam que o chicotinho está dependurado na parede. Não precisa açoitar ninguém, pelo menos não por enquanto.

Tenhamos paciência. Vamos dar tempo ao tempo. Não nos precipitemos. Vamos deixar que nossos mandachuvas tomem as providências urgentes. Depois, veremos. Trop d’impôt tue l’impôt.

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Interligne vertical 4Observação indignada e envergonhada

O senhor Eduardo Paes, prefeito da mui nobre cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro permitiu-se ofender um país inteiro. Chamou os franceses de vagabundos. E não fez isso numa conversa de botequim, mas durante uma entrevista coletiva, ao responder a um questionamento de uma equipe da televisão francesa.

Não conheço o prefeito do Rio. No entanto, ao ler essa notícia, entendi que não deve ser o homem mais inteligente da política brasileira. E olhe que os políticos brasileiros não primam pela inteligência nem pela cultura! A ofensa pública e gratuita que ele cometeu é acachapante. Mesmo sem ser carioca, sinto-me envergonhado.

Casus belli, ma non troppo

O Estadão, um dos três maiores diários brasileiros, dedicou um de seus editoriais deste 18 de julho à humilhação a que o Brasil foi submetido pela Bolívia quando da inspeção de que foram alvo três aviões da FAB em La Paz.

Este blogue já tinha analisado esse incidente no artigo Autolouvação, de 17 de julho. Nós classificamos a agressão na categoria de casus belli, aqueles capazes de provocar uma guerra. O Estadão é mais suave em suas conclusões. Melhor assim.

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Intermediários inúteis

José Horta Manzano

Os religiosos diriam «aqui se faz, aqui se paga».

Espíritos mais científicos lembrariam que toda ação engendra reação oposta e de igual intensidade.

Franceses explicariam que não se pode, ao mesmo tempo, ter a manteiga e o dinheiro da manteiga.

Os antigos já sabiam que não se pode ter tudo na vida.Interligne 18b

Todos têm razão. Está aí, em versões variadas, um extrato da sabedoria que a humanidade vem destilando desde que Lucy desceu da árvore, 3 ou 4 milhões de anos atrás. Muita gente aprendeu a lição. Outros são mais recalcitrantes. As manifestações de ontem reforçam o que acabo de dizer.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Nesta sexta feira logo de manhã, aqui na Europa, os jornais falados do rádio informaram que as manifestações da quinta-feira no Brasil não tinham tido o sucesso esperado por seus organizadores. Não chegaram a dizer que tinha sido um fiasco, mas não fez falta: todos entenderam.

A leitura dos principais jornais brasileiros me confirmou o que o rádio já tinha adiantado. Muita ameaça e pouco efeito. Cão que ladra não morde.

Na época em que um antigo operário de apelido Lula fazia discursos inflamados na porta das fábricas, as passeatas organizadas por sindicatos tinham conteúdo, eram credíveis. Embora não fosse exatamente seu objetivo, também contribuíram para enterrar o então já moribundo regime ditatorial.

O tempo passou e todos sabem o que aconteceu. Faz mais de dez anos que o sindicalista que eletrizava as massas foi elevado a importantes funções políticas. Para garantir apoio, distribuiu benesses àqueles cuja conivência lhe parecia essencial.

Grandes empresários e miseráveis deserdados (pobres, mas numerosos!) foram alvo preferencial. Aos grandes, generosidade e facilidades financeiras. À gente miúda, migalhas suficientes para garantir fidelidade na hora de depositarem voto na urna. Políticos e sindicatos foram cooptados com cargos e também com favores em espécie.

Milagres, ninguém faz. Para encher um pote, tem de esvaziar outro. Muito dinheiro foi necessário para sustentar esse modo estranho de fazer política. Para que um ganhe, é preciso que outro perca. E quem saiu perdendo foram os que não faziam parte das categorias acariciadas pelo governo: as classes médias e os trabalhadores, submetidos a impostos escorchantes.

Malabarismos de marketing e militantismo remunerado anestesiaram muita gente durante anos. Mas, como tudo o que é artificial, essas jogadas tinham prazo de validade. O prazo venceu e a mágica acabou. Deu no que deu: um pequeno e corriqueiro aumento no preço das passagens de ônibus foi o estopim para manifestações espontâneas às quais o País estava desabituado. E que ninguém esperava.

O susto tomou conta de muitas confrarias. Governo federal, Congresso, políticos vários e, naturalmente, centrais sindicais se sentiram incomodados.

Mas falemos dos sindicatos, que esse é o assunto do dia. Seus dirigentes, que vinham de anos e anos de inércia, sustentados no bem-bom por obesos favores oficiais, deram-se de repente conta de que haviam-se tornado inúteis.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Pânico! Descobriram, de repente, que o bom jardineiro deve cuidar de suas plantas se quiser ter flores vistosas. Não tinham sido bons jardineiros. As flores haviam murchado. Abandonada à própria sorte, a tropa havia desertado para cantar em outra freguesia.

Para juntar meia dúzia de gatos pingados, os sindicatos se viram obrigados a recorrer a «manifestantes» remunerados. Um constrangimento. Pior: repórteres descobriram a tramoia. A Folha de São Paulo e o Estadão botaram a boca no trombone. Vexame total. O movimento sindical no Brasil perdeu sua razão de existir. Não conseguem sequer reunir seus integrantes para uma boa passeata. Os antigos aderentes, que bobos não são, já se deram conta de que há caminhos mais eficientes para reclamar.

Conformemo-nos, que a vida é assim mesmo. Não estamos todos no mesmo estágio de desenvolvimento intelectual. Se, por um lado, todos os humanos já se acostumaram a andar sobre duas patas, o desenvolvimento da inteligência não tem sido uniforme em todos os indivíduos.

Alguns ainda acreditam em Papai Noel. Mas estão caindo do cavalo ― ou do trenó, que fica mais natalino.

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«Povo não precisa de carro de som.»

Mayara Vivian, do Movimento Passe Livre

Um povo cordial

José Horta Manzano

Tempos houve em que as notícias levavam semanas ou meses para chegar a regiões recuadas. Dizem que, em meados de 1890, em certos cafundós brasileiros situados pra lá de onde o vento faz a curva, ninguém estava ainda a par de que um golpe de estado havia rompido a ordem legal e imposto um novo regime. Achavam todos que o imperador ainda estivesse no trono.

Depois veio o telégrafo sem fio. Depois veio o telefone. Depois veio o rádio. Depois veio a televisão. E por fim chegou a internet ― por enquanto, a última palavra em matéria de modernidade. E tudo mudou. Notícias agora viajam à velocidade da luz. Não se consegue mais dar um espirro sem que, de Nova York a Pequim, todos fiquem sabendo. Será mesmo?

Interligne 20

Parece que nem sempre é assim, a julgar pelo que lhes vou relatar agora. A notícia é de arrepiar. Daquelas que não acontecem mais desde a Revolução Francesa. É o que imaginamos, pelo menos.

Para quem não ficou sabendo até agora, aconteceu dia 30 de junho passado, na localidade de Centro do Meio, município de Pio XII, Estado do Maranhão. Exatamente no domingo em que se jogaria, logo mais à noite, a partida final da copinha. As cenas são de uma barbárie inconcebível. Melhor que eu, o despacho da Folha de São Paulo dá os sórdidos detalhes. Conselho a almas sensíveis: abstenham-se de ler. Aqui.

Os crimes ocorreram em 30 de junho. Justiça seja feita ao site G1 (Globo), que deu a notícia no dia seguinte. Foi o único. Três dias depois, a horripilante informação começou a pingar aqui e ali, em sites de esporte, blogues, um jornal português, alguma gazeta interiorana. Da mídia prestigiosa, apenas a Folha de São Paulo deu a notícia, já no dia 4 de julho.

Decapitação

Decapitação

Foi preciso esperar até o dia seguinte, 5 de julho, para encontrar no Estadão uma nota de 5 linhas sobre o caso. Somente a partir daí a notícia espalhou-se pelo mundo. Está chegando por aqui estes dias.

Perguntas ficam no ar sobre o porquê dessa demora. É intrigante também esse véu de pudor com que os meios de comunicação brasileiros minimizaram ou simplesmente ocultaram a cena digna de tempos medievais.

De onde terá vindo a decisão de pôr panos quentes? Autocensura ou ordens superiores? Receio de que a realidade violenta do Brasil arranhe a imagem idílica do brasileiro cordial? Ignorância ninguém poderá alegar, visto que o G1, um site importante, já publicou a ocorrência nas horas que se seguiram.

Acho que não saberemos nunca. Talvez politólogos ou sociólogos possam explicar.

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Para os curiosos, aqui estão alguns sites que deram a notícia escabrosa do duplo assassinato:

1° de julho ― G1 (Globo)

2 de julho ― nada

3 de julho ― nada

4 de julho ― Esportes Terra

4 de julho ― Record (site esportivo português)

5 de julho ― Gazeta de Alagoas

5 de julho ― Estadão

6 de julho ― 20 minutes (tabloide suíço)

7 de julho ― Le Parisien (jornal francês)

8 de julho ― Gentside (site esportivo francês)

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No tempo do telefone a manivela, as notícias viajavam mais depressa.

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A frase do dia – 12

“Mas Lula dificilmente mete a mão em cumbuca. E não foi por outra razão que, diante do clamor da massa que perdeu a paciência com o governo, ele enfiou a viola no saco e foi cuidar de sua vida em outras paragens. Afinal, a coisa está feia. E ninguém mais do que ele é o culpado pelo que está aí.”

Editorial Estadão, 7 julho 2013

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A frase do dia – 11

“Lula, o Macunaíma, tergiversador, que ora se disse traído pelos mensaleiros, ora passou a mão na cabeça dos aloprados, é o responsável pelo clima deliquescente em que está imerso o Brasil.”

Miguel Reale Júnior, advogado, antigo Ministro da Justiça.

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Hipocrisia

José Horta Manzano

Desde que o mundo é mundo, espia-se o próximo. Desde a esposa que remexe nos bolsos da calça do marido (e vice-versa) até altas esferas do governo do país A que bisbilhota os assuntos internos do país B. Desde o mordomo que escuta atrás da cortina, como nos filmes, até organizações oficiais ― complexas, estruturadas e gordamente financiadas ― especializadas no ramo.

Sempre foi assim e sempre será. No entanto, em nome da coabitação harmoniosa, convém tomar cuidado para manter a discrição. Seja debaixo do teto familiar, seja entre países. Assim como os mafiosos, os espiões também têm sua omertà, seu código de conduta.

Embora não se faça muito alarde sobre o assunto, a cada ano são organizadas em vários países (inclusive no Brasil) dezenas de feiras e exposições especializadas em armamentos. Expõem-se revólveres, carabinas, espingardas, bombas de fragmentação, minas antipessoais, até tanques de guerra. As balas são apresentadas em estojos almofadados. Coisa de louco.

Faz algum tempo, num salão desse tipo organizado em Paris, descobriu-se que os chineses haviam montado, no interior de seu estande, uma complexa central de escuta telefônica. Conseguiam captar todas as comunicações que circulassem via telefone celular no recinto da feira. Alguns poucos jornalistas ficaram sabendo. Para evitar um incidente diplomático, o Estado francês fez questão de abafar o acontecido. Ficou tudo por isso mesmo.

A História (não) registrou milhares de outros episódios de mesmo tipo. Dar publicidade a certos fatos pode ser mais danoso do que fazer de conta que não aconteceu.

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Estes dias, um jovem com vocação para salvador do mundo tomou a ousada decisão de subir ao telhado para anunciar que espiões espionam. Não contou nenhuma novidade, o infeliz. Nada disse que especialistas no assunto já não soubessem. Mas rompeu velho acordo tácito, atributo básico da velha profissão de espião: manter a discrição a todo custo.

Os países espionados ― os quais, sejamos claros, também se espionam entre si ― mostraram-se indignados. «Oh! Como é possível? Entre amigos?» Esqueceram-se todos de que até marido e mulher cometem a mesma incorreção. Mutuamente, às vezes.

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva Moscou, Rússia

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva
Moscou, Rússia

Enfim, cada um tem de representar seu papel nesta grande comédia planetária. Ao mesmo tempo que juram respeito e amizade eterna, todos os países transgridem como podem. Espionam-se uns aos outros na medida da tecnologia de que cada um dispõe. Quando um é apanhado com a boca na botija, vem a grita generalizada: «Céus! Nunca esperava isso de você!».

Quanta hipocrisia! No final, vai ficar tudo por isso mesmo. O mundo não vai acabar. O infeliz denunciante, que tenha feito isso por ingenuidade ou por estrelismo, será o único prejudicado.

Que seja acolhido no Equador, na Venezuela ou no Sultanato de Omã, está condenado a viver em aflição permanente até o fim de seus dias. Terá palpitações a cada vez que tocar o telefone ou a campainha de casa. Não se quebram as regras do métier impunemente.

Interligne 34a

Preguiça mental
O site Wikileaks informa que o jovem imprudente enviou pedido de asilo a mais de 20 países. Não sei se por erro de digitação ou por ignorância, a nota informa que o Consulado Russo (sic) no Aeroporto de Шереметьево(*) está despachando os pedidos às embaixadas que os países solicitados mantêm em Moscou. Consulado russo em Moscou? É tão incongruente quanto falar de um consulado brasileiro em Brasília. Vivendo e aprendendo…

Mas não pára por aí. Os funcionários de plantão na Folha de São Paulo e no Estadão, meio sonolentos, repercutiram a informação tal qual a receberam. Engoliram sem mastigar. Confirmam todos a existência de um consulado da Rússia dentro da própria Rússia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

 .

(*) Шереметьево = Na Rússia, a pronúncia “Cheremetiêvo” é considerada inculta. Faça como os moscovitas, diga Chirimiêtchiva, numa pronúncia proparoxítona.

Bônus racial

José Horta Manzano

Interligne vertical 3Privilégio ― do latim privo (=solitário, singular) + legem (=lei).
Lei especial feita para um ou para poucos. Vantagem concedida a um só ou somente a alguns, e da qual estão excluídos todos os outros, que permanecem submetidos ao direito comum.

No Brasil, a Instrução Pública é calamitosa. Entre os que chegam ao fim da escolarização obrigatória, boa parte não tem a necessária competência para seguir estudos superiores. Há aí um problema grave, que se vem deteriorando há décadas, e que está a exigir reparo.

Há um caminho ― e um só ― para resolver o problema: reformular o ensino elementar e médio. A disfunção tem de ser corrigida na origem. «É de menino que se torce o pepino» ― o ditado anda meio fora de moda, concedo, mas continua válido. É praticamente impossível remediar um aprendizado malfeito.

Investir em educação básica é demorado, trabalhoso e caro. Além disso, os resultados não aparecem da noite para o dia. Portanto, não é política que renda lucros eleitorais a curto prazo. Apesar de todas as teorias de conspiração que se murmuram aqui e ali, segundo as quais este ou aquele grupo político se esforçaria para manter as massas na ignorância, a verdade é bem mais singela: investimento em educação simplesmente não dá voto.

No afã de conquistar o eleitorado, governos de ontem e de hoje têm dado preferência a ações mais vistosas e mais impactantes. Desde sempre, governantes consultaram gurus e estrategistas para sondar quais eram as ações susceptíveis de lhes granjear os melhores resultados eleitorais. O profissional hoje se chama marqueteiro, mas a função é a mesma, e idênticos são os objetivos.

O título dos artigos publicados em 27 de junho pelo Estadão (USP aprova bônus para negros) e pela Folha de São Paulo (USP aprova bônus racial) são, para mim, atemorizantes. A reboque da Bolívia, cujo estatuto oficial hoje é o de Estado Plurinacional, estaríamo-nos encaminhando para nos tornar a República Federativa Racial do Brasil?

Se nossos políticos estivessem sinceramente interessados no futuro do País, não seguiriam esse caminho. Reparar uma injustiça histórica ― a justificativa oficial ― sai bem na foto. Todos parecem bonzinhos. Para não ser tachados de vilães, todos fazem que concordam com a medida. Poucos se dão conta de que estamos escolhendo uma rota que não leva a bom porto.

Nenhum de nossos antepassados veio ao Brasil a turismo. Todos chegaram empurrados pela necessidade, pela fome, pela miséria, pelas perseguições. Nenhum deles, ao chegar, hospedou-se no Copacabana Palace. Amargaram anos difíceis, sofreram tratamento injusto, às vezes brutal. Enfrentaram hostilidade, passaram privações. Sacrificaram-se para dar aos filhos uma vida mais digna. Quem tem um termômetro para medir sofrimento?

Estudo superior não é prêmio que se conceda a uns e não a outros. O ingresso num estabelecimento de ensino superior não deveria ser facilitado a este ou àquele grupo. E muito menos por razões raciais. Baixar o nível de exigência é um paliativo, não uma solução. Em vez de aplicar um curativo, melhor será evitar a ferida.

Vista de fora do Brasil, essa inacreditável tendência a acentuar especificidades étnicas parece um contrassenso. Nosso País sempre se orgulhou de seu povo miscigenado, uma terra onde preto casa com branco, judeu é amigo de árabe, japonês gosta de pizza. Será que tudo isso está chegando ao fim? É uma tristeza constatar que, de caso pensado, governos estão-se empenhando em criar fossos artificiais entre hipotéticas «comunidades étnicas».

Na maior parte dos países, branco é branco, preto é preto, judeu é judeu, cigano é cigano, oriental é oriental. Ninguém se mistura. Em certos lugares, até a religião pode ser barreira: católico é católico, protestante é protestante, muçulmano sunita é muçulmano sunita, xiita é xiita. Não só não se misturam, como, às vezes, batalham entre si. No Brasil, o destino nos brindou com uma chance rara: uma baixa resistência aos que vêm de fora do grupo. Estamos demolindo um dos pilares que sustentam nossa nação. É realmente o que queremos?

A política racial no ensino nada mais é que a reedição da ajudinha que antigamente se conhecia como pistolão. É um cartucho racial versão Beta. Resolve um problema de imagem e de fachada. Sob uma aparência de (falsa) magnanimidade, varre-se para debaixo do tapete o problema maior: a falência da Instrução.

Em vez de mascarar o sintoma, melhor será erradicar o mal.

A raposa e a galinha

José Horta Manzano

Com toda a atenção da população e dos meios de comunicação focalizada nos surpreendentes protestos que pululam pelas ruas do Brasil, uma notícia está passando despercebida.

Matéria publicada em 20 de junho nos informa que Renan Calheiros, o famigerado presidente do Senado ― aquele que foi expulso pela porta dos fundos e voltou pela janela ― fez publicar no Diário Oficial uma resolução bizarra.

A raposa e a galinha

A raposa e a galinha

Trata-se da autorização concedida à União para contratar empréstimo de 18 milhões de dólares junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento. Até aí, nada de espantoso. O grotesco vem a seguir. O dinheiro vai servir para «combater a corrupção na gestão pública brasileira» (sic).

Confesso que, num primeiro momento, não me fiei no despacho do jornal. Fiz questão de conferir. Imagino que você também possa ter alguma dificuldade em acreditar em tamanho disparate. Pois é verdade. Eis a confirmação:

Estadão online

Jornal Jurid

Senado Federal

Acho que até para incongruência deveria haver limite. Suas Excelências estão gargalhando na cara do povo que os elegeu. Tomar dinheiro emprestado para combater a corrupção nas altas esferas federais? É como se a raposa contratasse uma galinha como secretária executiva.

Mas, pensando bem, são apenas 18 milhões, coisa pouca. No final, quem vai levar o calote é o BID. De toda maneira, Deus é brasileiro, e a Copa é nossa! Ou não?

A frase do dia – 06

“Pois quem tem os instrumentos para corromper? Quem recebeu delegação para usar dinheiro público? A quem cabe dar uma solução para a inflação? Quem gastou a rodo com os estádios da Copa? Certamente não foram os marcianos nem a oposição.”

 

Dora Kramer
in Estadão de 20 junho 2013

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A frase do dia – 05

“Está morto o projeto lulopetista – essa minha afirmação não nega sua enorme importância histórica. Mas ele se esgotou na repetição esclerosada, na incapacidade de se ajustar às novas situações que ele mesmo, às vezes, propiciou.”

 
José Arthur Gianotti
Professor emérito de Filosofia da USP
in Estadão de 19 junho 2013

 

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De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação soa estranha. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Municípios suíços

Municípios suíços

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, o nome é vilarejo (=village).

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é uma honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o mesmo sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade.

Vilarejo Crédito: Jamyshots.com

Vilarejo
Crédito: Jamyshots.com

No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, no ano passado. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de meio milhão de viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França ― ah! o país das regulamentações rigorosas ― a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE gaulês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando sua população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau (=lugarejo, aldeia, arraial)(*).Interligne 13

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente.

Cidade imaginária

Cidade imaginária

Estive lendo hoje sobre a onda atual de desmembrar municípios existentes para criar novos. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, a proximidade das eleições incentiva esse tipo de «bondade». Mais que possível, é altamente provável que um exército de novos municípios apareça nos próximos meses.

Na Europa, temos assistido a um movimento inverso. Mais instruídos, os cidadãos resistem a acatar bovinamente caprichos e casuísmos vindos do andar de cima.

Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos fizeram as contas e chegaram à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensavam amplamente a perda de autonomia.

Hameau Crédito: kako.artblog.fr

Hameau
Crédito: kako.artblog.fr

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos atuais mandachuvas brasileiros confirma que pouco mudou desde o Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas.

É bom que acordem a tempo.Interligne 18

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham, Arnhem, Mannheim, Trondheim são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

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As malandragens de lá e as de cá

José Horta Manzano

Em todo país civilizado, leis votadas pelo parlamento têm de ser sancionadas pelo chefe do Estado. Em muitos países, o Estado é chefiado por um presidente. No reino da Bélgica, o rei é o chefe do Estado. Uma nova lei só passa a valer depois de assinada por ele.

Em 1990, por lá reinava o mui católico Balduino I, fervoroso praticante de sua religião. O parlamento do país, após anos de debates, acabava de aprovar uma lei autorizando o aborto sob certas condições.

Rei Balduíno da Bélgica

Rei Balduíno da Bélgica

O rei, diametralmente oposto a essa resolução, recusou-se a sancionar o texto e pediu ao Primeiro-Ministro que encontrasse uma saída legal para o impasse. Uma solução que conciliasse as convicções íntimas do soberano com o anseio dos cidadãos.

O jeito foi recorrer a um artigo constitucional raramente invocado. O Conselho de Ministros constatou que o rei se encontrava na impossibilidade de exercer suas funções. Seus poderes foram então transferidos ao Primeiro-Ministro, que sancionou a lei controversa. Pouco tempo depois, o rei foi declarado apto a reinar. E voltou ao trono.

Há quem discuta até hoje se o recurso a esse subterfúgio foi realmente legal. No fundo, no fundo, não foi. O espírito do legislador ao incluir aquele artigo na Constituição do país tinha em mira um eventual afastamento físico do rei ― uma longa viagem, por exemplo ―, ou um caso de doença.

Seja como for, o rei mostrou ser um homem de convicções, um espírito reto. Embora apegado a princípios um tanto démodés, Balduíno era homem de elevada estatura moral.

Esse episódio, longe de causar celeuma, rendeu-lhe admiração e respeito. Sua popularidade cresceu vertiginosamente entre os súditos.

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Um acontecimento que lembra o caso de Balduíno teve lugar estes dias no Brasil. Nestes tempos estranhos em que estádios passam a chamar-se arenas, o caso passou praticamente despercebido.

Assim mesmo, jornais têm falado de um obscuro senhor Afif, homem político que, no limite da legalidade, carrega dois chapéus. Sem a menor cerimônia, apresenta-se como vice-governador do Estado de São Paulo ou como 39° Ministro da República, ao sabor das circunstâncias.

Com o coração empedrado pelos contínuos escândalos que têm sacudido a República estes últimos 10 anos, os brasileiros não deram muita atenção ao fato. Perto de tantas revelações mais escabrosas, essa duplicidade de funções concentradas num só indivíduo não é de fazer corar ninguém.

Dilma Rousseff e Afif Domingos

Dilma Rousseff e Afif Domingos

Mas a lei não autoriza essa farra. Nosso amigo terá de escolher, mais dia, menos dia, se usa este boné ou aquele. Não será possível continuar muito tempo cavalgando duas montarias.

Edificante reportagem do Estadão de 8 de junho nos informa que o senhor Afif agiu como o rei Balduíno. Surpreendido pela perspectiva de uma repentina ausência do governador, que se preparava para uma viagem ao exterior, tinha de assumir suas funções de vice. Mas só poderia fazê-lo se renunciasse ao cargo de ministro. Que fazer?

Uma saída à belga foi encontrada. Publicou-se às pressas uma edição extra do Diário Oficial ― à custa do contribuinte, evidentemente ― para anunciar a demissão do ministro. Isso abriu-lhe o caminho para assumir o posto de vice.

É verdade que lembra o caso de Balduíno. Mas, convenhamos, a motivação do senhor Afif é ― sejamos comedidos ― menos nobre.

Quanta ingenuidade!

José Horta Manzano

Nascido nas Alagoas em 1956, Aldo Rebelo, o atual ministro do Esporte já teve tempo de sobra para criar juízo. Suas mais recentes declarações tendem a provar que ainda lhe falta um pedaço de caminho a percorrer.

Sua opção pelo partidão (PC do B) fazia sentido quando a ele se afiliou, nos já longínquos anos 1970. Hoje em dia ― após a débâcle da URSS e a transformação da China em economia de mercado ― sua persistência nos mesmos ideais é mais difícil de explicar. Mas cada um tem suas convicções e há que respeitá-las. O ministro é a prova tangível de que, de vez em quando, ainda aparece algum dom-quixote.

Quando deputado, Rebelo apresentou projetos de lei um tanto desfocados. É dele a estranha ideia de coibir o uso de estrangeirismos a fim de «proteger» a língua portuguesa.

Não ocorreu ao nobre deputado que, assim como as gentes, as palavras também migram, vão daqui pra lá e vêm de lá pra cá. É justamente isso que faz a riqueza das falas e lhes dá vigor. Além do que, quando uma língua precisa ser protegida, é sinal de que está moribunda, com um pé na tumba. Não é o caso da variante de português falada no Brasil.

Aldo Rebelo ― Ministro do Esporte

Aldo Rebelo ― Ministro do Esporte

O deputado já tentou também fortalecer o saci-pererê em detrimento de bruxas importadas. Elaborou projeto para instituir o dia oficial do negrinho de uma perna só. Gostaria ele que caísse no 31 de outubro, justamente para resguardar o Brasil contra a insuportável ingerência estrangeira representada pelo Halloween.

Outra travessura do simpático homem político foi tentar, por meio de lei, obrigar que o tradicional pão francês ― aquele tradicional pãozinho de padaria ― passasse a conter uma certa porcentagem de raspa de mandioca misturada à farinha de trigo.

Como se vê por essa sucinta olhadela, o homem é adepto da maneira forte e radical: a imposição vem de cima, por lei, e não se fala mais nisso. Como nos bons velhos tempos do camarada Stalin, ah! que saudades…

O ministro do Esporte é, como se vê, pessoa sensível e sobretudo susceptível. Ano passado, ao captar numa declaração do secretário-geral da Fifa uma alusão ofensiva aos brios do País, não hesitou em proscrever o estrangeiro e em declará-lo persona non grata.

Não se conhecem as circunstâncias claras, mas deve ter levado um puxão de orelhas. Enquadrado, deixou o dito pelo não dito. Razões de Estado costumam ser mais convincentes que susceptibilidades. O secretário-geral da Fifa continua circulando livre e solto pelo País.

Como sabemos todos, o ministro do Esporte está no olho do furacão com relação aos eventos esportivos planetários que terão lugar em futuro próximo no Brasil. Segundo reportagem do Estadão, Aldo Rebelo mostrou sua preocupação com o alto valor cobrado pelos ingressos nos novos estádios ― curiosamente chamados de arenas, num atentado contra a língua digno de empalidecer qualquer ministro.

Ora pois, o idiota devo ser eu. Não posso imaginar que os mandachuvas brasileiros que negociaram a famigerada «Lei da Copa» com os controversos dirigentes da Fifa tenham negligenciado a fixação do preço dos ingressos. Se até na caxirola pensaram, não me parece cabível que tenham esquecido de combinar qual seria o preço das entradas.

Que reflete, então, a fala do ministro? Falsa ingenuidade? Ou, pior, confissão de incompetência?Interligne 35

O ministro reincide
Acabo de ler no Estadão desta quinta-feira notícia que vem bem a calhar. Agora o espantalho são os hotéis. Parece que os organizadores dos eventos se esqueceram de combinar com os hospedeiros também. O ministro adverte que, em caso de preços abusivos, «a mão pesada do poder publico vai agir». Bota peso nisso, coronel!

Primeira consideração: hotéis são entidades comerciais privadas. Praticam os preços que lhes parecerem convenientes. Cada hóspede é livre de alojar-se onde bem lhe aprouver.

Segunda consideração: o ministro não explicou o que vem a ser «preço abusivo». Conviria deixar a coisa mais clara.

Se beber, não case

José Horta Manzano

Estar em desacordo ao mesmo tempo ― no mesmo dia e sobre o mesmo assunto ― com o editorial do Estadão e com o Secretário de Redação da Folha de São Paulo não é coisa que me aconteça com frequência.

No entanto, calhou. O assunto é uma polêmica em torno de um projeto de lei recém-aprovado pela Assembleia Legislativa de São Paulo que impõe a publicação no Diário Oficial do nome dos motoristas que tiverem tido sua autorização de dirigir cassada.

O Estadão qualifica o projeto de «infeliz», enquanto a Folha o considera um «retrocesso moralista». Quanto a mim, sinto-me um tanto preocupado. Será pelos anos que passam, será pela distância que me separa da terra de origem, não sei. O fato é que sinto dificuldade em entender a persistente suavidade das medidas de repressão ao crime e à irresponsabilidade.

Aquele que se põe ao volante de um automóvel depois de ingerir bebida alcoólica está assumindo um risco. Em primeiro lugar, contra si próprio ― pode abraçar uma árvore pelo caminho. Em segundo lugar, o que é muito pior, contra quem, por infelicidade, possa cruzar seu caminho.

Acidente de automóvel

Acidente de automóvel

O dolo, ou seja, a intenção de cometer um crime ou um delito é exatamente isso. O automóvel é uma arma. Aquele que se puser a manejá-la ciente de que suas faculdades de coordenação e de cognição podem estar alteradas assume o risco de matar. Incorre em dolo.

Em terras mais civilizadas, atitudes como essa levam automaticamente a um processo penal. Além da perda ― temporária ou definitiva ― da autorização de dirigir, naturalmente.

No Brasil, deploram-se 45 mil mortos a cada ano em acidentes da circulação. Numa comparação internacional em que se confronta o número de mortos com a frota em circulação, o Brasil ocupa um honroso 4° lugar. Os países em que se morre ainda mais facilmente são ― será coincidência? ― exatamente os outros Bric: Rússia (3°), Índia (2°), e China, a campeã.

Ter seu nome publicado no jornal me parece um tapa com luva de pelica, punição leve demais para dissuadir potenciais assassinos motorizados.

Numa terra em que até aquele que arrancou o braço de um ciclista e o atirou num córrego escapou rapidinho das grades, que importância terá ver o nome publicado no D.O.?

Um dos articulistas evoca eventuais problemas decorrentes de homonimia. É aborrecimento comum no Brasil, que afeta multidões de joões e josés. O número da CNH está lá para dirimir dúvidas.

Enfim, o melhor conselho é: se beber, não case. Nem dirija.