A vergonha continua

José Horta Manzano

Sabe aqueles dias em que você se sente envergonhado com as notícias vindas do Brasil? Nem falo dos escândalos de corrupção, um atrás do outro, uma barbaridade. Corrupção existe por toda parte, em maior ou menor grau, mais ou menos visível. Diferentemente dos ladrões brasileiros, rapinadores estrangeiros trabalham com maior finesse. De vez em quando, algum caso vêm à luz, mas é mais raro.

O que tem me deixado incomodado estes dias é aquela história da «cura gay». O distinto leitor não imagina a repercussão que tem tido por aqui. Parece coisa medieval. O Brasil está rebaixado ao nível de país selvagem, como aqueles grotões africanos onde crianças albinas ‒ nascidas com problemas de pigmentação ‒ são assimiladas a seres diabólicos e rejeitadas.

O portal austríaco GGG dá a notícia das “Konversionstherapien” com um bocado de ironia. Cita uma psicóloga que, depois de «falar com Deus», acusa a proibição da cura gay.

O espanhol El País bota na manchete: «Indignación en Brasil después de que un juez autorice ‘terapias’ para gais» ‒ que dispensa tradução.

Nos EUA, o New York Post chega a mencionar a reação do companheiro daquele jornalista inglês que andou espalhando vazamentos do Wikileaks.

O italiano Il Mattino conta que a decisão do juiz brasileiro quanto à «terapia psicológica» provocou tempestade. Fala também da repercussão que estremeceu as redes sociais.

O canal estatal de televisão France TV Info relembra a onda de protesto levantada pela decisão judicial.

Fico aqui a matutar como é possível que a solitária decisão de um juiz isolado possa afrontar regras e práticas estabelecidas e aceitas há décadas. Algo está desequilibrado.

Imagino (e espero) que logo entre nos eixos. Enquanto isso, fica a vergonha de vir de um país que dá sinal tão evidente de atraso e de barbárie.

Chega rápido

José Horta Manzano

Prisioneiro 2Ninguém sabe explicar bem por que, mas o fato é que notícia boa demora a chegar, enquanto notícia ruim voa.

Ao redor do planeta, poucos estão interessados na sucessão presidencial brasileira. Um punhadinho de gente sabia quem era o empresário Antonio Ermirio de Moraes, falecido este fim de semana. Ninguém está interessado no desenrolar das novelas em cartaz. A seca persistente em algumas regiões da parte sul do País ainda não comove a humanidade.

Foto: Digital Vision

                      Foto: Digital Vision

Em compensação, barbaridades como as que estão acontecendo em Cascavel, onde uma insurreição carcerária tem posto à mostra o lado mais primitivo da alma humana, essas, sim, vão para a manchete da mídia global.

Chantagem, degola, decapitação, tomada de refém, cena de violência são ingredientes indispensáveis para o bolo midiático crescer apetitoso e perfumado. O motim da prisão paranaense seguiu a receita. Como dizia uma tia minha, que se recusava a revelar segredos sobre os quitutes que preparava, «levou tudo o que precisou».

Segue, aqui abaixo, um giro turístico pela mídia estrangeira. É resenha do tipo «falem bem, falem mal, mas falem de mim».

Interligne vertical 16 3KbLa Repubblica (Itália)
Brasile: rivolta in un carcere, almeno 4 detenuti morti
Brasil: rebelião numa prisão, pelo menos 4 presos mortos

Der Spiegel (Alemanha)
Gefängnis in Brasilien: Hunderte Häftlinge meutern und enthaupten zwei Geiseln
Prisão no Brasil: Centenas de presos se amotinam e decapitam dois reféns

La Nación (Argentina)
Sanguinario motín en una cárcel del sur de Brasil
Motim sangrento em prisão do sul do Brasil

Blick (Suíça)
Blutige Knast-Revolte in Brasilien
Motim sangrento no Brasil

Expressen (Suécia)
Blodigt fånguppror i Brasilien ― två döda
Rebelião carcerária sangrenta no Brasil ― dois mortos

ABC News (EUA)
2 Beheaded, 1 More Killed in Brazilian Prison Riot
Dois decapitados e mais um abatido em rebelião carcerária no Brasil

Api Ural (Rússia)
В бразильской тюрьме начался кровавый бунт
Rebelião sangrenta começou em prisão brasileira

RTL (França)
Brésil : quatre morts dans la mutinerie d’une prison
Brasil : quatro mortos em motim carcerário

Volkskrant (Holanda)
Braziliaanse gevangenen onthoofd bij opstand
Presos brasileiros decapitados em rebelião

Frase do dia — 143

«Luiz Inácio da Silva, ao ganhar a eleição em 2002, não soube perceber: a lei vale para todos e, uma vez transgredida com autorização do Estado, mais cedo ou mais tarde, a barbárie se generaliza.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão de 1° jun 2014.

Rapidinha 4

José Horta Manzano

Dona Dilma definiu os atos de vandalismo como barbárie. Tem razão, ponto para ela. Manifestantes brutais não podem ser tratados com luva de pelica. A autoridade tem de usar métodos equivalentes. Não se enfrenta canhão com estilingue.

Já basta a imagem de pusilanimidade que nossas autoridades têm exibido. O mundo não precisa ficar sabendo que, no Brasil, além de o governo ser fraco, o povo é baderneiro e violento. Nossa imagem já anda um bocado amassada. É melhor parar por aqui.

A prefeitura tem o poder de proibir que manifestantes saiam às ruas mascarados. Aquele que desobedecer será sumariamente detido para averiguações, mesmo que (ainda) não tenha quebrado nenhuma vitrine. Depois de algumas dezenas de prisões, os ânimos vão-se acalmar. O que move esses selvagens é a certeza da impunidade.

Um povo cordial

José Horta Manzano

Tempos houve em que as notícias levavam semanas ou meses para chegar a regiões recuadas. Dizem que, em meados de 1890, em certos cafundós brasileiros situados pra lá de onde o vento faz a curva, ninguém estava ainda a par de que um golpe de estado havia rompido a ordem legal e imposto um novo regime. Achavam todos que o imperador ainda estivesse no trono.

Depois veio o telégrafo sem fio. Depois veio o telefone. Depois veio o rádio. Depois veio a televisão. E por fim chegou a internet ― por enquanto, a última palavra em matéria de modernidade. E tudo mudou. Notícias agora viajam à velocidade da luz. Não se consegue mais dar um espirro sem que, de Nova York a Pequim, todos fiquem sabendo. Será mesmo?

Interligne 20

Parece que nem sempre é assim, a julgar pelo que lhes vou relatar agora. A notícia é de arrepiar. Daquelas que não acontecem mais desde a Revolução Francesa. É o que imaginamos, pelo menos.

Para quem não ficou sabendo até agora, aconteceu dia 30 de junho passado, na localidade de Centro do Meio, município de Pio XII, Estado do Maranhão. Exatamente no domingo em que se jogaria, logo mais à noite, a partida final da copinha. As cenas são de uma barbárie inconcebível. Melhor que eu, o despacho da Folha de São Paulo dá os sórdidos detalhes. Conselho a almas sensíveis: abstenham-se de ler. Aqui.

Os crimes ocorreram em 30 de junho. Justiça seja feita ao site G1 (Globo), que deu a notícia no dia seguinte. Foi o único. Três dias depois, a horripilante informação começou a pingar aqui e ali, em sites de esporte, blogues, um jornal português, alguma gazeta interiorana. Da mídia prestigiosa, apenas a Folha de São Paulo deu a notícia, já no dia 4 de julho.

Decapitação

Decapitação

Foi preciso esperar até o dia seguinte, 5 de julho, para encontrar no Estadão uma nota de 5 linhas sobre o caso. Somente a partir daí a notícia espalhou-se pelo mundo. Está chegando por aqui estes dias.

Perguntas ficam no ar sobre o porquê dessa demora. É intrigante também esse véu de pudor com que os meios de comunicação brasileiros minimizaram ou simplesmente ocultaram a cena digna de tempos medievais.

De onde terá vindo a decisão de pôr panos quentes? Autocensura ou ordens superiores? Receio de que a realidade violenta do Brasil arranhe a imagem idílica do brasileiro cordial? Ignorância ninguém poderá alegar, visto que o G1, um site importante, já publicou a ocorrência nas horas que se seguiram.

Acho que não saberemos nunca. Talvez politólogos ou sociólogos possam explicar.

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Para os curiosos, aqui estão alguns sites que deram a notícia escabrosa do duplo assassinato:

1° de julho ― G1 (Globo)

2 de julho ― nada

3 de julho ― nada

4 de julho ― Esportes Terra

4 de julho ― Record (site esportivo português)

5 de julho ― Gazeta de Alagoas

5 de julho ― Estadão

6 de julho ― 20 minutes (tabloide suíço)

7 de julho ― Le Parisien (jornal francês)

8 de julho ― Gentside (site esportivo francês)

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No tempo do telefone a manivela, as notícias viajavam mais depressa.

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