Ninguém escapa

José Horta Manzano

Você sabia?

Setenta anos atrás, o britânico George Orwell publicou um romance de ficção científica que levava por título 1984. A trama desenvolvia-se num mundo assustador, em que os habitantes eram constrangidos pela vigilância permanente de um governo tirânico. Big Brother, o líder misterioso, reinava absoluto, coadjuvado por organismos como a ‘Polícia do Pensamento’ e o ‘Ministério da Verdade’.

De tão fantástico, o livro ensejou a criação do neologismo ‘orwelliano’, termo que, ainda que não dicionarizado entre nós, costuma ser utilizado para definir situações em que cidadãos são esmagados pelo peso de um Estado onipresente e onipotente. O adjetivo ‘kafkiano’ (esse, sim, abonado por nossos dicionários), derivado da obra de Franz Kafka, designa um universo não muito distante do imaginado por Orwell.

A situação aterradora imaginada por Kafka é a de um cidadão que se vê envolvido numa trama diabólica sem saber como nem por que. Na vida real, felizmente, tal horror tem-se restringido a número relativamente reduzido de casos. Já o mundo concebido por Orwell está bem mais próximo de se tornar o pão nosso de cada dia. Se é que já não se tornou.

O exemplo mais recente foi tornado público estes dias. A notícia nos vem da agência noticiosa oficial chinesa. A meio caminho entre Pequim e Xangai, na província de Henan, está sendo testado novo dispositivo de reconhecimento facial. Agentes policiais portam um par de óculos híper-ultra-supersofisticados. À primeira vista, parecem óculos de sol. Na realidade, estão recheados de altíssima tecnologia.

À medida que o policial encara os passantes, um mecanismo de incrível rapidez se põe em marcha. A imagem de cada rosto é enviada a uma base de dados central e comparada à lista de malfeitores e outros procurados e foragidos. Caso o rosto corresponda ao de um indivíduo procurado ‒ ou apenas suspeito ‒, o guarda recebe aviso numa fração de segundo. Tem tempo, então, de deter o passante para averiguações.

O dispositivo poderia, sim, ser instalado num lugar fixo, de grande passagem. Identificaria malfeitores, mas, a partir daí, como fazer? Chamar o guarda? Foi pensando nisso que as autoridades chinesas decidiram que os próprios agentes portassem o aparelho. O tempo de reação é curto. O cidadão recebe imediatamente voz de prisão.

Os testes já revelaram que pouco importa a expressão do rosto. O sujeito pode estar sorridente, carrancudo, calado ou conversando, tanto faz. A confiabilidade do aparelho é estimada em 90% de acerto.

Conclusão
Tremei, ó procurados pela polícia! E, como toda moeda tem duas faces, regozijai-vos, ó cirurgiães plásticos!

Salvos por enquanto
Imagina-se que máscara de carnaval seja antídoto eficaz contra a identificação por esse método. Para azar dos chineses, Momo não reina por lá.

Visita de Estado

José Horta Manzano

Não sei se o rancor aparece entre os traços de caráter marcantes dos chineses. O que sei que é que, apesar da aparência fria e distante, são muito sensíveis. Apegados a valores tais como a acolhida a visitantes, dão grande importância à maneira como são recebidos no estrangeiro.

Talvez pelo pouco caso com que foram tratados durante séculos pelos europeus, mostram susceptibilidade exacerbada ao mínimo deslize no modo como são recepcionados quando estão de visita ao exterior. Altas personalidades do governo chinês fazem questão de ser tratadas nos conformes.

Presidente da China: Xi Jingping & esposa Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Presidente da China: Xi Jingping & esposa
Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Tradicionalmente, a Suíça só recebe uma visita de Estado por ano. Dirigentes estrangeiros podem vir ao país quando desejarem, mas somente uma vez por ano se oferecem honrarias oficiais ao dirigente de um país. Este ano, é vez da China. A última visita de Estado de um presidente chinês tinha ocorrido no século passado, em 1999.

Naquela ocasião, a passagem do dirigente oriental tinha constituído verdadeiro desastre. No exato momento em que o ilustre visitante atravessava a praça em frente ao Palácio Federal, um grupo de cidadãos munidos de faixas, bandeiras e cartazes iniciou uma ruidosa manifestação contrária à anexão do Tibete ‒ assunto supersensível em Pequim.

No discurso que pronunciou logo em seguida, o presidente da China não escondeu a fúria. Mostrando-se amargo e ofendido, disse não entender como a Suíça não tinha capacidade de controlar o próprio povo. Azedo, acrescentou: «Vocês acabam de perder um bom amigo». Pegou muito mal.(*)

suisse-28-xi-jinping-1Mas o tempo dissipa querelas. O presidente mudou, os tempos mudaram. Mais poderosa que vinte anos atrás, a China se esforça para mostrar que merece o lugar de destaque que lhe vinha sendo negado por séculos. Para provar que o antigo comunismo já não existe e que o país se transformou em economia de mercado, o presidente Xi Jinping está na Suíça há dois dias. Veio chefiando a delegação de seu país para participar, pela primeira vez, do Fórum Econômico de Davos. É excelente ocasião para mostrar aos donos dos dinheiros do mundo que vale a pena investir na China.

O governo suíço, escolado pelo fracasso da visita anterior, fez o necessário para não ofender os visitantes. Os entornos do Palácio Federal transformaram-se em praça de guerra. O exército foi chamado para dar uma mão. Há barreiras por toda parte. Atiradores de elite estão posicionados em cima dos telhados. Ninguém circula pelas ruas. Até mesmo moradores da vizinhança têm de ser filtrados, identificados e revistados. Para não tolher completamente o direito de livre expressão, uma manifestação em favor do Tibete foi autorizada ‒ longe do palácio e horas antes da chegada do ilustre visitante.

suisse-29-xi-jinping-2Desta vez, pelo menos até agora, nenhuma gafe foi registrada. Apesar das estonteantes diferenças entre os dois países ‒ a região de Pequim, sozinha, abriga três vezes a população da Suíça ‒ há interesses comuns. A Suíça, que não faz parte da União Europeia, está de olho no imenso mercado chinês. A China, por seu lado, está interessadíssima na tecnologia de vanguarda que lhe faz tanta falta e que a Suíça domina.

Está aí uma das vantagens de não pertencer a nenhum bloco econômico ou político: a liberdade de estabelecer tratados e relações privilegiadas com outras nações. Amarrados por pactos rigorosos, membros da União Europeia ou do Mercosul nem sempre podem agir como melhor lhes parece. Têm de obter anuência prévia dos sócios.

No que diz respeito ao Brasil, está chegada a hora de afrouxar certos nós que nos mantêm atados ao bloco «devagar quase parando» ao qual nosso destino está unido.

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(*) Esse episódio já foi mencionado em artigo meu de quatro anos atrás.

Uma relação de amor e ódio

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Geladeira 1A minha relação pessoal com a tecnologia sempre foi difícil e delicada. Para mim, ela atua conceitualmente como uma espécie de crack: tem um poder altamente viciante – ou aditivo, como prefere a linguagem médica contemporânea – desde as primeiras experiências de uso e também provoca significativas crises de abstinência quando o acesso a ela é cortado por alguma razão. Talvez por esses motivos ela encontre em mim forte resistência.

Mesmo sem conhecer muita coisa sobre neurologia, posso apostar que ela estimula nosso cérebro a liberar substâncias aparentadas com a endorfina – ou adrenalina – induzindo-nos a recorrer à nossa capacidade de autossuperação.

Outra característica que me incomoda sobremaneira na tecnologia é seu caráter impositivo. Certa vez me deparei com um artigo no qual o autor estabelecia uma analogia entre os computadores e o Deus cristão do Velho Testamento: autoritário, irascível, ancorado em decálogos e perseguidor cruel de todo aquele que ouse não observar estritamente seus comandos. É mais ou menos o que sinto neste momento, tentando dominar a linguagem mais complexa de meu novo computador. Eu, que já estava gostosamente curtindo minha zona de conforto, sou agora agressivamente forçada a mudar, evoluir.

ComputadorTudo o que eu queria com essa nova geringonça era não ter de enfrentar mais problemas com navegadores velhos, poder abrir arquivos embalados na roupagem .docx e ganhar mais agilidade para compor meus textos. O que ganhei foi humilhação, depressão, perda de autoestima. Envergonhada com minhas limitações intelectuais para lidar com a nova máquina, pedi ajuda a um sobrinho mais afeito à informática. Ele trouxe com ele a filha de apenas 7 anos de idade que, num segundo, assumiu o controle do mouse e me mostrou todas as opções de que eu dispunha para resolver meus problemas. Me dei conta, naquele instante, de que a informática é a arma das novas gerações para se vingar de seus ancestrais. Non ducor, duco.

Brasão SPNão foi a primeira vez que a tecnologia me deu um baile. Foi assim também com o microondas (que não tenho até hoje), com o refrigerador frost free e com o celular. Quando finalmente cedo à tentação de incorporar ao meu cotidiano um desses novos gadgets, encontro sempre mil motivos para criticar o sistema operacional e fico resmungando pelos cantos que antes tudo era melhor, mais fácil.

Não tenho disposição para penetrar nos labirintos idiomáticos dos manuais de instruções, não consigo decodificar a terminologia e não consigo me deixar levar pelo prazer da exploração e da descoberta. Como um burro empacado, limito-me a desligar o aparelho e acionar um técnico especializado, pedindo-lhe que traduza a solução buscada para uma linguagem que uma criança de 2 anos possa entender. Somente quando, depois de muitas tentativas e erros, começo a vislumbrar uma luz no final do túnel, encontro dentro de mim a força necessária para desbravar novos territórios. E aí já é hora de adquirir um novo modelo e recomeçar as batalhas inglórias do zero.

Porta automatica 1Lembro, estarrecida, de experiências mais antigas, da época da minha adolescência e início da vida adulta. O horrível constrangimento que experimentei com a primeira porta automática num aeroporto internacional, quando estendi o braço e me inclinei para a frente na tentativa de empurrá-la e fui de cara ao chão, com malas e bagagens. O pasmo com a ociosidade de todo o departamento contábil da empresa multinacional na qual trabalhava simplesmente porque a luz acabou subitamente. O assombro sem fim com a notícia de que um avião havia caído na floresta amazônica apenas porque o piloto digitara o código errado no computador de bordo e ignorara os alertas de um dos passageiros, nativo da região e mateiro por profissão, voando em círculos por horas até acabar o combustível.

Não faltam exemplos acabrunhantes da dependência irracional que as máquinas provocam, mas dou-me por satisfeita com estes. Dou por demonstrado que a tecnologia emburrece, fazendo-nos desacreditar da eficácia de nossos recursos instintivos de sobrevivência.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Rapidinha 29

José Horta Manzano

Biométrico
A Venezuela adota sistema biométrico para espionar o que o povo compra no supermercado. Dada a carência crônica de itens básicos, o cidadão tem direito de comprar cada tipo de alimento somente uma vez por semana.

É a tecnologia moderna a serviço do atraso.

Conheceu, papudo?

José Horta Manzano

Foguete chinês

Foguete chinês

Herton Escobar nos anuncia, em seu blogue alojado no Estadão, que um lançamento de satélite brasileiro fracassou. Tratava-se de projeto desenvolvido em conjunto com a China. O veículo espacial foi lançado esta segunda-feira do Centro Espacial de Taiyuan, naquele país. Diferentemente dos fogos Caramuru, o lançamento deu chabu. Tudo indica que o tempo, o esforço, o dinheiro foram desperdiçados. E a credibilidade levou um golpe.

Mais quelle idée! ― diriam os franceses. Que ideia mais maluca essa de se associar a chineses para esse tipo de aventura. Ideologia pode ter sua utilidade num palanque, mas, na hora de gastar nosso dinheiro, nossos mandachuvas deveriam ser mais escrupulosos. Duzentos e setenta milhões de reais! Como é bom ser irresponsável com o dinheiro alheio…

Até os parafusos que mantêm unidas as placas da fuselagem de qualquer nave espacial sabem que os chineses não são detentores de tecnologia de ponta em matéria de exploração espacial. Nem os indianos, nem os brasileiros, nem os sudaneses. Os três grandes são os EUA, a Rússia e a França. Países importantes como Alemanha, Itália, Canadá, quando têm de lançar seus satélites, recorrem a um dos grandes. Não vão arriscar seu dinheiro com principiantes.

Por que essa reticência brasileira em recorrer a quem tem conhecimento no ramo? Se foi por economia, aprenderam ― com nosso dinheiro! ― que o barato sai caro. (Nossos avós já sabiam disso.)

Foguete chinês

Foguete chinês

Talvez tenha sido por medo de que americanos, russos ou franceses pudessem inserir no satélite um cavalo de troia para coletar informações sensíveis. E quem é que garante que os chineses não terão feito igualzinho?

Quem quer serviço benfeito procura o melhor fornecedor. Considerando que o atual governo brasileiro está a anos-luz de qualquer afinidade ideológica com o governo chinês, a razão para terem escolhido um fornecedor de segunda categoria terá sido demonstrar uma certa soberba. Foi para mostrar aos loiros de olhos azuis que não precisamos deles, dado que os de zoinhos puxados nos dão uma força. Conheceu, papudo?

Não deu certo.