A raiva do sultão

José Horta Manzano

Decisão brusca ditada pelo humor ou pelo capricho de uma alta personalidade pode, às vezes, mudar o curso da história e determinar se o futuro da nação será de progresso ou de trevas.

A decisão tomada pelo rei de Portugal ao tempo do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do Brasil contribuiu para condenar a colônia a cento e cinquenta anos de escuridão. Os jesuítas eram a ordem mais chegada à instrução básica de brancos e índios. Dado que seu banimento não foi seguido de medidas de incentivo à escolarização da população, o país permaneceu mergulhado na ignorância e viu crescer sua população de analfabetos. Isso durou até quando, já no século 20, a escola gratuita e obrigatória começou a se generalizar.

Vou contar-lhes outro caso, escorregão que causou um desastre cujas consequências se sentem até hoje, passados mais de quatro séculos. A virada do século 16 para o 17 assinalou o auge da expansão territorial e cultural dos turcos, que formavam, à época, o império otomano. Constantinopla, a capital, estava situada no cruzamento das rotas terrestres e marítimas que ligavam o Atlântico à Mongólia e à China. Ponto de passagem incontornável, era importante centro de comércio e de difusão da cultura.

Àquela altura, a Europa já contava com diversos observatórios astronômicos. Dois dentre eles, no entanto, sobressaíam. Eram o de Uranienborg (Dinamarca), onde oficiava o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, e o de Constantinopla, cuidado pelo otomano Taqi al-Din. No ano de 1577, um cometa muito luminoso atravessou o céu. Os dois estudiosos puderam observá-lo com atenção ‒ Tycho Brahe em Uranienborg e Taqi al-Din em Constantinopla. Quis o acaso que o cometa surgisse no primeiro dia do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Inquieto com o resultado da próxima guerra, o sultão turco quis saber se o cometa prenunciava boas novas ou desgraça.

Taqi al-Din constatou que o astro apontava na direção da Pérsia. Ademais, havia surgido na constelação de Sagitário (símbolo do flecheiro turco) e terminaria na de Aquário (símbolo da paz). A conclusão parecia evidente e o astrônomo não se furtou: predisse que o sultão podia seguir em frente sossegado, que a campanha militar seria coroada de sucesso. Não foi o que aconteceu. A guerra foi um desastre. Furioso, o sultão jogou a culpa no astrônomo e, ato contínuo, mandou que o observatório fosse destruído.

Enquanto isso, no observatório dinamarquês, Tycho Brahe aproveitou a passagem do cometa para adquirir conhecimentos. Registrou, por exemplo, que a cabeleira do corpo celeste se projetava sempre do lado oposto ao Sol. Os estudos de Brahe contribuiriam significativamente para o avanço da ciência na Europa. Já a destruição do observatório otomano travou o desenvolvimento da Turquia no campo científico. Foi preciso esperar pelo século 20 e pela chegada de Kemal Atatürk, herói que modernizou o país, para a Turquia começar timidamente a destravar o caminho do conhecimento. O país havia conhecido quatro séculos de estagnação.

Com informações de Manuel de León, El País.

São Valentim

José Horta Manzano

Metade da humanidade celebra hoje São Valentim, a quem foi concedido, já faz tempo, o estatuto de patrono dos namorados. O 14 de fevereiro, de fato, é celebrado em (quase) todo o mundo. O Brasil é uma das poucas exceções que confirmam a regra. Talvez em virtude de a data cair muito perto do carnaval ‒ às vezes até durante ele ‒, nossos amorosos são homenageados em outro dia. Imaginem um Dia dos Namorados no meio do carnaval. Passaria praticamente despercebido, um desastre para o comércio.

dia-dos-namorados-1As origens da festa são difíceis de determinar. A hagiologia católica registra, na Antiguidade, diversos santos com esse mesmo nome. A controvérsia quanto à escolha da data perdura, e nada indica que se chegue, um dia, a consenso. Por que razão festejar os enamorados neste dia e não em outro? O mistério é denso.

As primeiras manifestações ligando o 14 de fevereiro aos apaixonados surgiram na Inglaterra em meados do século XIX. O desenvolvimento das estradas de ferro, ao acelerar o transporte de mercadorias e de correspondência, favoreceu a troca de mensagens. Enamorados aproveitaram a brecha e aderiram ao costume de enviar cartinhas e cartões nessa data. Hoje em dia, o papel vai sendo substituído por mensagens eletrônicas, mas a tradição continua.

dia-dos-namorados-2No Brasil, atribui-se ao baiano João da Costa Doria(*), publicitário e homem político, a introdução do costume. Para o comércio varejista, o mês de junho costumava ser fraco. No final dos anos 1940, importante loja de departamentos de São Paulo encomendou ao publicitário um estudo para impulsionar as vendas. Ele teve a ideia de implantar um São Valentim abrasileirado. O dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio ‒ o casamenteiro ‒ caía bem. A campanha publicitária lançada em 1949 deu certo. A moda foi logo seguida, nos anos seguintes, por outros estabelecimentos comerciais. Em poucos anos, o Dia dos Namorados já tinha assumido ares de comemoração tradicional e inescapável.

Hoje em dia, a troca de presentes substituiu o simples envio de cartões. Os comerciantes, que levam vantagem com essa evolução dos costumes, aplaudem de pé.

(*) João Doria Jr., atual prefeito da cidade de São Paulo, é filho do publicitário homônimo.

Interligne 18cTítulos de nobreza
Em regimes monárquicos, o mandachuva tem título correspondente ao estatuto que ocupa.

Reino tem rei: o rei da Espanha;
Principado tem príncipe: o príncipe de Mônaco;
Grão-Ducado tem grão-duque: o grão-duque de Luxemburgo;
Sultanato tem sultão: o sultão de Oman.

E emirado, como é que fica? Ora, emirado tem emir, como o emir de Abu Dabi.

Falando no diabo, aparece o rabo. Senhor Doria, filho do criador do Dia dos Namorados, exerce atualmente a função de prefeito de São Paulo. Encontra-se estes dias nos Emirados Árabes negociando a participação de capitais da região no financiamento de melhoramentos na capital paulista. Em entrevista, disse hoje que se encontrou com o «rei» de Abu Dabi. Escorregou. O pequeno país não é reino, mas emirado. O alcaide visitou o emir.

A demissão parental

José Horta Manzano

Não, caros e fieis leitores, não é da demissão do papa que pretendo falar hoje. É de uma abdicação menos midiática, mas não menos inquietante. Assim mesmo, não dá para fugir da atualidade: o chefe da Igreja passa raspando pelas linhas que vêm a seguir.

Em reportagem publicada na edição online de 16 de fevereiro, a Folha de São Paulo nos informa que crianças não sabem o que faz um papa. Há até os que torcem para que o próximo seja… corintiano.

Até aí, nada demais. Eu também não sei exatamente o que faz o sultão de Omã ou o xamã de uma tribo da Sibéria oriental. São figuras distantes de nosso dia a dia, das quais não ouvimos falar praticamente nunca.

Acontece que a reportagem se baseia em relato de crianças e pré-adolescentes que estudam em colégio religioso, sob a orientação de eclesiásticos. No meu tempo, ser mandado para um colégio de padres era ameaça feita a crianças desobedientes, tal o pavor que essa ideia nos infundia. Mas estou divagando.Teologia

O que me deixa surpreso e preocupado é a demissão parental. Que diabo é isso? Refiro-me ao fato de, ao matricularem seus filhos na escola, os pais confiarem cegamente a outrem a formação dos rebentos. Na certa não se dão conta de que, ao fazer isso, estão abdicando da função de coeducadores que lhes cabe. A escola vai dispensar ao aluno não somente o ensino formal, mas vai também encharcá-lo com valores que não são necessariamente os de sua família.

Pais que escolhem um colégio de padres para o filho mostram duas particularidades: a primeira é que dispõem de meios suficientes para custear os estudos do pequerrucho; a segunda é que consideram importante que a formação escolar do herdeiro seja completada por formação religiosa.

O que me inquieta é constatar que, ao entregar o filho à escola, os pais ― que não hão de ser ignorantões ― lavam as mãos e se desinteressam pelo ensino que o colégio possa estar dispensando. Abdicam de suas funções. A escola que se encarregue de ministrar ao guri a noção de céu, de inferno e de seus intermediários. Se esta não o fizer ― como sugere a reportagem da Folha―, formará alunos ansiosos para que o papa seja corintiano.

Que um aluno de colégio de padres nunca tenha ouvido falar do papa ― e que, ingenuamente, até se alegre que o próximo torça para seu time de futebol ― é sintoma preocupante. Falha a escola, mas falham principalmente os pais. Aquela não ensina o que devia, enquanto estes últimos não aferem o que está sendo ensinado.

O infográfico inserido na reportagem, então, é cômico. Diz que a segurança do Vaticano é garantida pela Guarda Suíça, cujos recrutas «vestem uma roupa esquisita» (sic). E pára por aí, sem explicar a razão da vestimenta anacrônica. Evidentemente, quando não se sabe, fica complicado ensinar. O artigo diz ainda que a palavra papa é uma sigla. Não é. Uma rápida consulta aos dicionários que qualquer repórter tem à mão teria evitado proferir tamanha enormidade.

Como se vê, os colégios de padres acompanham a degringolada da Instrução no Brasil. E a demissão parental só faz piorar o quadro.