Credulidade

José Horta Manzano

Com o passar dos anos, a gente vai amadurecendo e perdendo certas ilusões. Perder ilusões é chato. O mundo fica mais terra a terra, pão pão queijo queijo. O lado bom disso tudo é que a gente acaba ficando mais blindado contra algumas armadilhas.

Fico impressionado com a credulidade de tanta gente fina. A historinha que li hoje é divertida. Antes de mais nada, precisa saber que Itu, situada a 100km de São Paulo, é conhecida como a cidade dos exageros. Não sei bem quem foi o iniciador dessa legenda urbana, o fato é que funciona como apelo turístico. Todos sabem que Itu é o lugar onde tudo é grande.

Estes dias, um jovem resolveu fazer uma brincadeira. Postou nas redes uma foto com seu cartão de vacinação. Disse que tinha ido a Itu tomar vacina e que lhe tinham dado um cartão enorme. Na montagem, realmente o documento cobre metade do corpo do rapaz. E não é que muita gente acreditou?

A postagem ‘viralizou’, como se diz. Pelo que conta o jovem, “algumas pessoas disseram até que dava pra ter comprado mais vacina com o valor gasto na impressão da carteira de vacinação”.

Pode um negócio desses? Dá até medo de ver a que ponto o povo acredita em tudo o que contam. É comovente, mas também inquietante. A gente começa a entender a razão pela qual tanta gente bota fé nas lorotas do capitão.

Como é que se faz pra ensinar à juventude que não convém acreditar em tudo o que se vê, nem em tudo o que se ouve ou lê? É urgente encontrar solução.

Do jeito que está, vamos direto pro buraco. Com fábricas de notícias falsas brotando por toda parte (inclusive e principalmente no Planalto), a juventude vai estar cada vez mais desorientada.

Imunidade de rebanho

Imunidade coletiva

José Horta Manzano

Depois que os integrantes de hordas não-bolsonaristas resolveram chamar os integrantes de hordas bolsonaristas de gado, os termos que se referem à pecuária devem ser utilizados com muito cuidado, especialmente quando aplicados a humanos.

Dizer que, com a aceleração da vacinação, a imunidade de rebanho será logo alcançada, pode melindrar espíritos mais sensíveis. Talvez os integrantes das hordas bolsonaristas apreciem o elogio, talvez reclamem da implicância. Quanto aos integrantes das hordas não-bolsonaristas, certamente detestarão a expressão, justamente por não admitirem ser confundidos com gado. Gado, como sabemos, são sempre os outros.

Para não ofender nem uns nem outros, a língua – generosa – oferece diversas opções. Eis algumas:

    • Imunidade de grupo
    • Imunidade gregária
    • Imunidade de comunidade
    • Imunidade coletiva
    • Imunidade de população
    • Imunidade de massa

Está vendo? Pra evitar mal-entendidos, fuja da duvidosa imunidade de rebanho. Quando se fala em eliminar febre aftosa, a expressão que convém é exatamente imunidade de rebanho. Para gente, mais vale evitar polêmica.

Imunidade
A palavra deriva do adjetivo latino immunis (=imune), formado pela partícula in (negação) + munem (de munus = obrigação, dever). Na origem, tinha o sentido que hoje damos a isento. Quando determinados cidadãos estavam desobrigados de pagar uma taxa, por exemplo, dizia-se que estavam imunes.

Até hoje, as bagagens do diplomata passam a alfândega sem inspeção, em virtude da imunidade diplomática. Por seu lado, eleitos do povo são protegidos pela imunidade parlamentar.

O sentido que a palavra imunidade adquiriu em medicina é bem mais recente. Só apareceu no século 19, com a popularização da vacina antivariólica. O primeiro registro é da edição de 1865 do Dicionário Médico Littré-Robin (=immunité). De lá, passou às demais línguas.

Vacinação – 9 maio 2021

José Horta Manzano

Volta e meia, algum dos luminares do governo se vangloria da rapidez do processo de vacinação anticovid, gargarejando que o Brasil é o 6° país que mais vacinou. Bolsonaro – que justiça seja feita! – escapou dessa. Pela simples razão de ele jamais pronunciar a palavra vacina. Por seu lado, ministros e assessores, que são valentes e não têm medo de agulha, deitam falação. Mas distorcem a realidade.

Com mais de 200 milhões de habitantes (grande parte dos quais espremidos em insalubres megalópoles), é natural que o número de vacinados no Brasil seja expressivo. De fato é. O balanço de 9 de maio indica que quase 47 milhões de cidadãos já receberam pelo menos uma dose do imunizante.

Dito assim, parece enorme. Mas há que relativizar. Esse número milionário representa, na realidade, apenas 22% da população total, ou seja, apenas um em cada cinco habitantes do território nacional recebeu pelo menos uma dose. A imunização avança tímida. Ainda há muito por vir.

Pelo critério de doses aplicadas por 100 habitantes, bem mais realista que números absolutos, o Brasil se classifica em 78° lugar num total de 196 países, com 22,05 doses.

Os primeiros 15 lugares da lista são ocupados por ilhas e pequenos países pouco populosos. Assim mesmo, há alguns “penetras” nessa faixa. Sobressaem Israel, os Emirados Árabes e, surpreendentemente, o Chile, classificado em 12° lugar, com 82,15 doses aplicadas por 100 habitantes.

Reino Unido e EUA, que aparecem antes da 20ª posição, também estão muito bem colocados. Seguem-se os países europeus. Uruguai, onde já foram aplicadas 57,73 doses por 100 habitantes, também merece destaque.

Na faixa em que se situa nosso país – a dos que já aplicaram entre 20 e 30 doses por 100 habitantes –, Turquia, Marrocos, China e Argentina nos fazem companhia.

O que dá angústia é ver países ultrapopulosos como Egito, Congo e Vietnã, cada um com cerca de 100 milhões de habitantes, ainda estacionados nas últimas posições, sem terem aplicado nem uma dose. Perigam tornar-se viveiros de novas cepas, quiçá resistentes às vacinas atuais. Se isso acontecer, o mundo pode ir se preparando para a 4ª onda, a 5ª, a 6ª…

Para quem tiver curiosidade de ver a lista completa, deixei o pdf à disposição aqui, no site deste blogue.

Apontando soluções

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Como todos sabem, brasileiro é sempre muito bom para apontar os principais problemas do país mas não costuma se esforçar muito para encontrar soluções para cada um.

Tendo em vista o desânimo generalizado com as crises sanitária, econômica, social e política que vêm atrapalhando nosso sono, decidi sugerir algumas alterações no comando dos ministérios que poderiam ajudar a nos tirar do buraco em que nos metemos acidentalmente.

Convido a todos para acrescentarem suas próprias percepções e sugestões. Alerta importante: todas as indicações têm de ser feitas com base na expertise de cada ministro; apenas nomes técnicos serão considerados.

Mãos à obra:

  • Tira o Ernesto Araújo e põe o Pazuello nas Relações Exteriores: Ué, não é uma questão de logística colocar embaixadores em postos estratégicos para convencer os organismos internacionais multilaterais (como a ONU e a OMS) e os líderes do G-20 que o Brasil é exemplo de controle da pandemia? Pode ser que ele confunda a Albânia com a Alemanha (um lapso compreensível, considerando que o nome de ambos os países começa com Al), mas pra tudo dá-se um jeito no final, pode acreditar. Outro benefício é que ninguém vai nem notar a mudança de chefia do Itamaraty; afinal, esses dois países são comunistas e nós não queremos mesmo estreitar relações com essa gente.
  • Tira o Guedes e põe Salles na Economia: Ué, ele não é especialista em passar a boiada enquanto a imprensa está preocupada com o mimimi do negacionismo de Bolsonaro? Aproveita e deixa passar as reformas tributária, administrativa e política.
  • Tira a Damares e põe ela no Meio Ambiente: Ué, mulher sabe cuidar muito melhor das plantinhas.
  • Tira o Milton Ribeiro e põe o Augusto Heleno na Educação: Ué, ele não é especialista em segurança institucional? Quer área mais crítica que a educação para garantir que o futuro do país vai estar mais seguro nas mãos de um militar? Além disso, ele vai saber educar melhor nossa juventude a respeito da oportunidade e funcionalidade da decretação de um novo AI-5.
  • Tira o Marcos Pontes e coloca ele no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: Ué, ele já foi pro espaço e, portanto, já sabe que a terra é redonda, né? Por isso, ele vai ser muito útil para modernizar as diretrizes do ministério e colocar o Brasil de volta na rota da Renascença, em especial no que tange aos direitos humanos. Além disso, ele vai poder aplicar novas tecnologias na área dos direitos reprodutivos da mulher.
  • Tira a Teresa Cristina e põe ela no Ministério da Saúde: Ué, lá ela vai poder falar com muito mais propriedade sobre os efeitos benéficos dos gases estufa e dos agrotóxicos para fazer avançar os limites das áreas destinadas à pecuária e garantir uma alimentação mais farta e mais diversificada para as populações mais carentes, sem ter de pagar muito por isso. Além disso, ela deve ter muito mais experiência na vacinação em massa…mesmo que de bovinos.

Pronto, aí está. A lista de trocas sugeridas pode não ser exaustiva, mas certamente servirá de inspiração para a indicação de novas alterações ministeriais.

Nota para os pessimistas de plantão: Se nenhuma dessas trocas funcionar tão bem na prática quanto imagino, sugiro que se tire Bolsonaro e se coloque a neozelandesa Jacinda Ardern na presidência. O quê?? Não pode porque ela não foi eleita vice na chapa de 2018? Bobagem! Nada que o STF não dê um jeitinho, né não?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

As milhões

José Horta Manzano

Do latim, herdamos coisas boas, sem sombra de dúvida. Mas junto vieram uns espinhos. Os gêneros gramaticais, por exemplo. Pra que atribuir gênero às coisas? Só Júpiter sabe.  Por que uma porta é feminina enquanto um portal é masculino? São sutilezas que só fazem atrapalhar. Ah, que inveja do inglês, que conseguiu desatar esse nó há séculos. Mas os gêneros gramaticais fazem parte de nossa língua e somos obrigados a lidar com eles.

A desastrosa inação do governo federal gerou uma situação de angústia em que a vacinação ocupa o lugar central. Assisti ao Jornal Nacional, coisa que não fazia havia décadas. Por acaso, descobri que as edições antigas ficam disponíveis no YouTube. Na deste sábado, notícias relativas à vacinação preenchem metade do tempo; a outra metade é dedicada às trapalhadas do presidente e a notícias variadas. Imagino que, pouco mais pouco menos, sejam essas as proporções todos os dias.

Não só o jornal da tevê fala de vacina. O assunto está em todas as bocas e a mídia acompanha. Já vi várias vezes algum escriba se exprimir assim: “as 30 milhões de doses foram prometidas”; e também assim: “são dadas como certas 42 milhões de doses”.

Há que distinguir entre fala coloquial e artigo de jornal. Na fala de todos os dias, é permitido omitir um plural aqui e ali, tomar um atalho e esquecer o verbo, estropiar algum gênero gramatical. Ninguém vai olhar feio. Já na escrita séria, são caminhos a evitar. Um escorregão pode, às vezes, comprometer a seriedade de todo um artigo.

Por sua natureza substantiva, o numeral milhão é percebido como masculino. Ninguém dirá “uma milhão”, não é? Pois a regra que vale para “um milhão” vale para qualquer outra quantidade expressa em milhões. Ao fim e ao cabo, milhão será sempre percebido e tratado como se ao gênero masculino pertencesse.

Admito que soa esquisito escrever que os 30 milhões de doses foram prometidas”, mas assim são as coisas; se milhão pede o artigo no masculino, não há jeito de escapar. Reestruturar o trecho é uma solução. Para deixar a frase menos bizarra, o jeito é reescrevê-la. Pode-se reformular, por exemplo, assim: “as doses prometidas, que deverão ser da ordem de 30 milhões”. Pronto, o recado foi dado sem agressão à concordância.

Coragem, gente! Um pouco de criatividade não faz mal a ninguém.

Avanço da vacinação

José Horta Manzano

Eu gostaria muito que 300 milhões de doses de vacina chegassem semana que vem ao Brasil e que, antes da Páscoa, todos os habitantes estivessem imunizados.

Mas o que se vê na Europa é inquietante e não permite excesso de otimismo. Até mesmo países que foram prudentes e encomendaram vacinas com grande antecedência estão recebendo a conta-gotas.

O gargalo está na produção. Pelo que se vê, os laboratórios não dão conta da monstruosa demanda. Os primeiros a encomendar são os primeiros a ser atendidos, diz a prática comercial.

Se essa lógica for realmente seguida, o Brasil, que bobeou e só começou a encomendar agora, vai ter de ser paciente. Quando 2021 terminar, só uma (pequena) parte da população terá sido vacinada. Os demais vão ter de esperar 2022.

 

Avanço da vacinação no mundo
(Situação em 21 janeiro 2021)

Israel, o campeão da rapidez, encabeça a lista: já vacinou 37% da população. Seguem-se pequenos países, como Emirados Árabes, Gibraltar, Seychelles, Samoa, que já imunizaram mais de 10% da população.

Os primeiros países importantes vêm a seguir: República Tcheca e Reino Unido, ambos com 7,5%. Logo após, aparecem os EUA, que já vacinaram 5,4% dos habitantes.

Daí para baixo, a porcentagem vai diminuindo. Alguns exemplos:

Espanha    2,2%
Itália     2,1%
Canadá     1,9%
Alemanha   1,6%
Suíça      1,3%
França     1,2%
Portugal   1,0%
Argentina  0,6%
Chile      0,3%

O Brasil aparece no finzinho da lista, com 0,07% da população imunizada. Falta um bocado.

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ânimo!

Tuíte – 18

José Horta Manzano
Nenhum país deseja importar doentes nem doenças contagiosas. A importação de turistas doentes periga sobrecarregar o sistema nacional de saúde. Pior ainda, o forasteiro doente é foco de transmissão da enfermidade, que pode se alastrar pela população local.

Dito isso, vai aqui uma recomendação aos céticos, aos antivax e aos outros hesitantes: vacinem-se! Se e quando o imunizante estiver disponível no Brasil, naturalmente.

É bem possível que, dentro em breve, numerosos países comecem a exigir de todo visitante estrangeiro que prove ter sido vacinado contra a covid. Portanto, seja para dançar um tango em Buenos Aires ou andar de xícara na Disneylândia, é mais que provável que exijam prova de vacinação.

E não faça essa cara de espanto. Já hoje há muitos países onde não se entra sem ter sido vacinado contra a febre amarela, pois não? E isso não escandaliza ninguém.

Incompreensível

José Horta Manzano

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid?

Ele mesmo tem repetido, desde que a pandemia se instalou no país, que o bom desempenho da economia é essencial para ele conquistar um segundo mandato. Com a doença se alastrando, é inevitável que medidas de contenção continuem em vigor: confinamento, distanciação social, teletrabalho, entre outras. São medidas que, somadas aos hospitais transbordantes, freiam o bom andamento econômico do país. E o presidente sabe disso.

Nesta altura do campeonato, a única providência radical para acabar com a epidemia é a imunização coletiva. Para chegar lá, o caminho mais direto é a vacinação rápida e generalizada. Não é possível que doutor Bolsonaro não entenda isso; o moço é empacado, mas (supõe-se que não chegue) a esse ponto.

O raciocínio é simples e cristalino. Sem vacina, a doença vai continuar por meses e anos a perturbar todas as atividades – transportes, serviços, turismo, produção industrial, exportação. Em resumo, a economia vai continuar semiparalisada. Com vacinação generalizada e levada a toque de caixa, a recuperação poderá até ocorrer antes do fim de 2022. Um trunfo para o candidato à reeleição!

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid? Não é incongruente? Só vejo uma explicação, embora ela seja tão fora de esquadro que é difícil acreditar: se Sua Excelência age assim, será para contentar sua milícia de devotos.

De fato, entre os fanáticos, há quem acredite que a Terra é plana, há os que juram que o homem nunca pisou na Lua, há ainda os que estão certos de que o clã Bolsonaro é virtuoso e Trump venceu a eleição. Há, naturalmente, ruidosa parcela que tem medo que a vacina os transforme em jacarés. Por essa alucinante hipótese, doutor Bolsonaro estaria se mostrando hostil à vacinação unicamente para contentar seus seguidores e alimentar-lhes a ignorância.

Parece enorme demais pra ser verdade, não? Se minha hipótese for verdadeira, nosso doutor é ainda mais parado do que eu imaginava. Seu comportamento contenta os devotos, é verdade, mas leva ao desespero os demais, que formam a imensa maioria dos eleitores. As eleições estão logo ali na esquina, que não falta tanto assim pra 2022. Na hora de votar, todos se lembrarão do sufoco que passaram quando Bolsonaro bloqueava a vacinação no Brasil enquanto o mundo inteiro se imunizava. Brasileiro tem memória curta, mas nem tanto.

Falando em jacaré, vale lembrar o ditado que se usava antigamente e que cabe aqui como augúrio de ano novo para doutor presidente: «Deixe estar, jacaré, que a lagoa há de secar».

A roupa velha do rei

Marcelo de Moraes (*)

Faz sentido Jair Bolsonaro demonstrar tanta alegria ao participar de um evento que coloca em exposição os trajes usados por ele e pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, no dia da posse. Certamente, ao rever as roupas, o presidente viaja de volta a um tempo em que, recém-consagrado pelas urnas, tinha muito menos preocupações.

Aparentemente, o governo não dimensiona a ansiedade desesperada das pessoas que esperam pela vacinação, depois de nove meses de pandemia e quase 180 mil mortes. Talvez o presidente também não tenha escutado o recado das urnas, que lhe contaram que seu apoio não serviu para impedir a derrota da maioria dos seus aliados. O desgaste sofrido nos dois primeiros anos de administração e o negacionismo em relação ao coronavírus já estão cobrando uma alta conta política.

(*) Marcelo Moraes é jornalista. O texto é excerto de artigo de 8 dez° 2020.

Você tem carteira?

José Horta Manzano

O especialista em relações internacionais Jamil Chade, baseado em Genebra, foi durante anos correspondente do Estadão. Na coluna que assina atualmente no UOL, trouxe hoje informação importante e pra lá de preocupante.

Faz alguns meses que a ONU, diante do descalabro que a pandemia representa especialmente para países menos afortunados, instituiu um programa especial visando a garantir, na medida do possível, que todos os habitantes do planeta tenham acesso à vacina anti-covid. O programa, chamado Covax, tem exigido alentado esforço de coordenação.

Até o presente, o Covax já recebeu a adesão oficial de 95 países. A Europa inteira e até a China confirmaram presença. No começo, o governo brasileiro fez corpo mole. Talvez, sem confessar, contasse com a mão amiga e benevolente de um Trump firme no governo que, em atenção à sólida amizade que tem com nossa primeira famiglia, nos garantiria, a tempo e a hora, acesso às vacinas americanas. Em quantidade ilimitada e ao melhor preço.

O tempo passou, Trump rodou e o plano gorou. Ao fim e ao cabo, o Brasil se encontra hoje em posição precária. O programa Covax oferecia a cada país o direito de comprar vacina suficiente para um mínimo de 10% e um máximo de 50% da respectiva população. O Brasil optou pelo mínimo: 10% dos habitantes. Portanto, a menos que comece a chover vacina nos próximos meses, é magra a chance de o distinto leitor ser beneficiado pelas vacinas do programa Covax: não mais que 1 chance em 10.

Se não conseguir ser atendido (e se a “vacina do Doria” não for suficiente para toda a população brasileira), só resta um caminho: dar uma carteirada pra furar a fila. Falando nisso, você tem carteira?

Observação
Apesar da importância, o assunto tem sido pouco divulgado entre nós. Note-se que é compreensível. Ficaria estranho se a população soubesse que um governo que, além de ser anti-vacina e estar infestado de terraplanistas e negacionistas, se inscreveu na fila dos que querem receber vacina. Pegava mal pra cachorro. A militância era capaz de entrar em greve. E os bots também.

Que clique aqui quem quiser conhecer a história tim-tim por tim-tim.