A razão da visita de Bolsonaro

José Horta Manzano

Parece que está esclarecida a disparidade de dimensões entre, de um lado, a mesinha de chá que punha Putin a meio metro de distância do argentino Fernández, e, de outro, a mesona de mármore que mantinha 6 metros de distância entre o russo e o francês Macron.

Segundo o próprio Kremlin, a razão é sanitária. Visto que Emmanuel Macron se recusou a passar pelos testes de detecção de covid exigidos pelo hospedeiro, este impôs distância física entre os dois. Vladímir Putin afasta todo risco a sua excelsa pessoa. Ameaçar vizinho de bombardeio pode (veja a Ucrânia), mas respirar bafo de colega não testado não pode.

Bolsonaro está de partida para Moscou. Agora, que as redes sociais já começam a estranhar a insistência do capitão em fazer essa viagem justo agora, quando o mundo faz novena pra evitar uma guerra na região, está começando a ficar realmente esquisito.

O presidente não é conhecido por ser homem corajoso. No dia a dia, vive transferindo as próprias culpas a terceiros e, quando obrigado a aparecer em público, vem regularmente escorado atrás de uma legião de seguranças. Se ele se expõe a atravessar uma região em conflito e passar uns dias nos gelos russos, com o risco de ser alvejado por um míssil, alguma razão muito forte haverá. Qual será?

Nem o Kremlin nem o Planalto vão confirmar. Resta conjecturar. Não custa nada, vamos lá.

O distinto leitor já há de ter ouvido falar em Pegasus, um spyware israelense de excepcional desempenho, capaz de se infiltrar em qualquer telefone celular e realizar tarefas de roubo de dados e monitoramento de voz. Meses atrás, fiquei sabendo que um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado federal, estava interessadíssimo em adquirir a tecnologia. O objetivo evidente era espionar adversários, desafetos, ministros do STF, parlamentares da oposição, líderes de associações, ONGs e quetais. Talvez tenha sido essa uma das razões da viagem que uma alentada comitiva do Planalto fez a Tel Aviv meses atrás. O motivo declarado era buscar um spray nasal contra a covid, mas essa alegação podia ser mera cobertura.

Por mais que apreciem o clã Bolsonaro, os israelenses não são bobos. Sabem que, dentro em breve, serão todos varridos para a lata de lixo da história. Em resumo: não vão se comprometer vendendo tecnologia tão sensível a gente tão pouco estável – e nada confiável. Acredito que o negócio tenha dado chabu.

Por trás da visita “de cortesia” a Putin, o capitão pode estar com alguma ideia desse tipo. Embora a Rússia não tenha nunca admitido, o mundo ficou sabendo da insidiosa interferência de Moscou quando da corrida presidencial americana que elegeu Donald Trump. Interferência, se houve, foi muito benfeita. Tanto que, até hoje, todos desconfiam, mas ninguém foi capaz de comprovar.

Essa poderia ser a razão que está levando o capitão a procurar comprar ajuda russa para lhe dar uma mãozinha na tentativa de reeleição. Comprar ajuda russa com nosso dinheiro, saliente-se. Diante de uma reeleição quase impossível, ele há de estar apelando para todos os santos.

Depois de ter orgulhosamente anunciado ao mundo todo que não estava vacinado e que não pretendia vacinar-se, Bolsonaro está agora em situação delicada. Putin foge da covid como da peste. Para se aproximar dele, todo convidado tem de passar por meia dúzia de testes consecutivos, ainda que esteja vacinado. Como é que as coisas vão se desenrolar?

Macron, que está vacinado com três doses, recusou-se a passar pelos testes. Receia que seu ADN seja coletado pelo Kremlin para fazer sabe-se lá o quê. Como vai reagir Bolsonaro? Vai passar pela humilhação dos testes? Acho que será obrigado, se não Putin não o receberá nem com mesa de 6 metros. E quanto à ajuda que está buscando, vai conseguir? Teremos interferência russa nas eleições de outubro?

Tenho cá minha ideia. Não é porque Bolsonaro voou até Moscou que ele será agraciado com ajuda russa para reeleger-se. Acho que Putin, que pode não ser grande amigo da democracia mas bobo não é, vai recusar. Não vejo que interesse ele teria em ter o capitão por mais quatro anos no Planalto. Mais interessante para Moscou é ter em Brasília um amigo da Venezuela, que é atualmente afilhada da Rússia.

E o distinto leitor sabe qual dos candidatos à Presidência do Brasil é o mais próximo de Caracas, pois não?

Genocida, não!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 janeiro 2022

A validade de um estudo científico só é autenticada depois de ele ter sido avaliado e abonado por um conjunto de reconhecidos cientistas da mesma área. É o que os ingleses chamam ‘peer review’.

Costuma-se traduzir essa expressão como ‘revisão por pares’, ‘revisão paritária’ ou até, um tanto desajeitadamente, ‘arbitragem’. A tradução flutuante vem do fato de não ser comum, entre nós, designar de “pares” os que exercem a mesma função ou os que pertencem à mesma categoria. Assim, qualquer tradução literal periga sair meio manca. Mas, pela atual tendência de integração de conceitos estrangeiros a nossa língua, a solução já foi encontrada: mantém-se a expressão inglesa, com casca e tudo.

A organização MedRxiv, cujo estranho nome se deve pronunciar “med-archive” (‘arquivo médico’) é um repositório online de preprints da área médica, clínica e de saúde. Preprint, como o nome sugere, é a publicação prévia de artigo científico ainda não validado pelos pares.

Agora vamos aos fatos. Alguns dias antes do fim de dezembro 2021, uma dezena de cientistas brasileiros assinaram, sob forma de preprint, um alentado estudo sobre a correlação entre vacinação, hospitalização e morte de maiores de 60 anos. A primeira constatação, como se imaginava, é de que a taxa de óbitos decresce à medida que a vacinação se generaliza.

Em seguida, os signatários do estudo valeram-se de fórmulas complicadas demais para serem descritas por não-iniciados como este escriba. O que interessa são as conclusões. E elas são comprometedoras para o governo brasileiro. O incrustado negacionismo gerado pela ignorância presidencial custou caro ao país. Em vidas humanas.

O estudo estima que milhares de idosos brasileiros foram salvos pela vacinação: um total de 75 mil, só no ano de 2021. Não fosse a vacina, esse contingente já não estaria mais entre nós. Essa é a parte decente da história. Em paralelo, há um lado bem mais sombrio.

Todos se lembram dos esforços envidados pelo capitão para frustrar – ou, pelo menos, retardar – a compra de vacinas anticovid. Baseados em análise dos dados e em cálculos atuariais, os cientistas chegam à conclusão de que, se a vacinação tivesse começado 8 semanas antes, 48 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Quarenta e oito mil mortes! Para efeito de comparação, essa hecatombe equivale à queda de 185 Boeings modelo 767 lotados, com 260 passageiros cada um, sem nenhum sobrevivente pra contar a história. Ou 4.800 desastres como o de Capitólio (MG), que ocupou as manchetes com suas 10 vítimas – um Capitólio por dia, durante 40 meses sem parar. Estamos falando apenas das mortes evitadas.

Muitos chamam Bolsonaro de genocida. Estão errados. Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é rigorosa: exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. É, portanto, limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos religiosos ou por loucura.

Os atos de Bolsonaro não correspondem à definição. Sabe-se que ele não gosta de pobre, mas a negação da pandemia não causou morte só de pobres. Sabe-se que ele tem medo de “comunista”, mas o atraso na compra das vacinas não mandou só “comunistas” pro cemitério. Sabe-se que ele é misógino, mas a louvação da cloroquina não matou só mulheres.

Bolsonaro tem alguns parafusos soltos. Sua loucura é apimentada por ignorância, poltronice e preguiça – condimentos explosivos, mas que não chegam a configurar um genocida que se preze. Genocidas verdadeiros, não houve tantos assim. O século XX conheceu alguns dos grandes, tais como Hitler (Alemanha), Pol Pot (Cambodja) e Stalin (URSS). Há outros menos conhecidos. Por mais que tenha feito, nosso capitão não entra nessa categoria.

Genocídio requer método e planejamento, conceitos que não frequentam o universo mental de Bolsonaro. Ele não passa de um ser perturbado, atrasado, sem instrução, paranoico, que chegou à Presidência numa esquina da história que não se repetirá. Está mais pra patacão que pra genocida.

O estado e o cacete

José Horta Manzano

Os insultos que o capitão dirige aos que contrariam seus caprichos não surtem efeito. No começo, faziam as manchetes; hoje ninguém liga mais.

“Teu estado é o cacete!” – vomitou ele, elegantemente, quando informado de que o governador de São Paulo planejava reforçar o controle de estrangeiros que desembarcam em seu estado.

Ao pronunciar a requintada frase, o nobre líder quis reafirmar que continua se opondo firmemente a oferecer proteção ao povo brasileiro contra novas cepas de covid provenientes do exterior. Que todos enfrentem o vírus, pô! Peito aberto, sem medo e sem vacina! Todo o mundo tem de morrer mesmo!

Ainda bem que ele é, que eu saiba, o único dirigente do mundo a pensar assim. Se não, a humanidade estaria sendo dizimada.

No Brasil, ainda temos a sorte de viver numa federação, tipo de organização do Estado que dá aos governadores autonomia para decidir nos respectivos estados; é isso que nos tem salvado. Em outras partes do mundo, quem manda é o governo central, sem possibilidade de discussão. Imagine o Bolsonaro presidindo um país desses! Morticínio garantido.

Cresce a lista de países que apertam o cerco em volta dos que recusam a se vacinar. Aqui estão alguns exemplos:

Turquia
Desde agosto, prova de vacinação é exigida dos profissionais de alguns setores de atividade, entre os quais, professores.

Ucrânia
Desde outubro, a vacinação é obrigatória para funcionários públicos, incluindo professores. Além disso, os não-vacinados não têm acesso a restaurantes, locais esportivos e eventos em geral.

Polônia
A partir de março próximo, professores, funcionários do setor de segurança e agentes policiais serão obrigados a apresentar certificado de vacinação.

Letônia
Desde 12 de novembro, parlamentares não-vacinados estão impedidos de participar de debates e de votar. Além disso, não receberão salário enquanto não se vacinarem.

Itália
Desde outubro, o passaporte covid é exigido de todos que trabalham: funcionários, empregados, operários, professores, policiais, militares. Ninguém escapa.

Dinamarca
Lei votada em novembro autoriza empregadores a não aceitar a presença de funcionários não-vacinados.

Costa Rica
Desde setembro, a vacinação é obrigatória para todos os funcionários públicos.

Croácia
Desde 15 de novembro, tanto funcionários públicos quanto cidadãos que precisam de serviços públicos têm de mostrar o passaporte covid digital.

Áustria
A partir de fevereiro 2022, a vacinação anticovid será obrigatória para todos os adultos. Quem não obedecer será multado em 600 euros (3800 reais). A multa será renovada a cada três meses. Fazendo as continhas, uma família de 4 pessoas que recusar terminantemente a vacina vai pagar, em um ano, a impressionante soma de 9.600 euros (mais de 60 mil reais). Pra bater pé firme na recusa, só sendo abastado.

Alemanha
A Alemanha está em plena mudança de governo. Mas a obrigatoriedade está em estudo e deve ser anunciada brevemente.

Grécia
A partir de 16 de janeiro, os idosos (60 anos ou mais) que tiverem recusado a vacina estarão sujeitos a multa de 100 euros (630 reais) por mês.

Então, quem dá mais?

Cantem todos comigo: “Teu estado é o cacete!”

Nota 1 – Banco Mundial
Nossa sorte, além do guarda-chuva representado pelos governadores, é que ninguém dá ouvidos ao capitão. Segundo levantamento do Banco Mundial, o Brasil é o país latino-americano com menor rejeição à vacina. Uff!

Nota 2
Cacete – Acepções

Já tivemos presidente cacete.

Já tivemos presidente do cacete.

Já tivemos presidente que foi uma cacetada.

Um grande jogador de rugby francês tem um sugestivo sobrenome: Picamoles. (Lembrando que, em francês, o “s” final não é pronunciado.)

Disclaimer: Toda alusão a qualquer pessoa viva ou falecida terá sido coincidência fortuita e não-intencional.

A palestra do ministro

Observador, Portugal

José Horta Manzano

Segunda-feira passada, doutor Queiroga, ministro da Saúde do triste governo Bolsonaro, deu um pulo a Lisboa para dar uma palestra. Discorreu sobre “As ações do Brasil no enfrentamento da covid-19” – tema escolhido por ele mesmo. Detalhe sintomático: ao final de 45 minutos de falatório, ninguém se animou a fazer perguntas. Fico deveras admirado com a cara de pau de Sua Excelência de se prestar a essa encenação oca.

O Brasil começou o combate à epidemia de maneira desastrada, com atraso em relação a países comparáveis. Todos se lembram de quando o capitão, que tinha rejeitado insistentes propostas da Pfizer, implorou à Índia que lhe mandasse meia dúzia de vacinas, só pra aparecer no telejornal antes do arqui-inimigo Doria. Chegou a mandar um avião buscar as preciosas ampolas. Voltaram desenxabidos e sem vacina.

Desde que a pandemia pegou feio, a área crucial da Saúde foi confiada a nada menos que 4 (quatro) ministros: Mandetta, Teich, Pazuello (de triste memória) e Queiroga. Os dois últimos, que realmente pegaram o período mais crítico da covid, tiveram comportamento negacionista e trabalharam contra tudo o que a ciência determina. Pazuello foi o desastre que todos viram. Queiroga já afirmou, por exemplo, ser contrário à máscara de proteção e ao distanciamento social.

Expresso, Portugal

Portugal também foi mal no início. Logo no começo, ano e meio atrás, figurou entre os países que mais sofriam, com hospitais e cemitérios lotados. Só que os portugueses tiveram a sorte de contar com um governo que trabalhou contra a disseminação da doença e a favor da saúde da população. Foi bem diferente de nós, que tivemos a infelicidade de ter um governo trabalhando a favor do alastramento da epidemia e contra a saúde do povo.

As boas medidas tomadas pelo governo luso, acompanhadas do espírito cívico de um povo que confia em suas autoridades, fizeram a diferença. Portugal recuperou o terreno perdido e tornou-se campeão mundial de vacinação. Neste momento, quase 87% da população já cumpriu integralmente o esquema vacinal. As autoridades sanitárias já estão preparando a dose de reforço (3ª dose). Mortes em decorrência da covid tornaram-se raras. Para efeito de comparação: o Brasil já vacinou 51% de sua população.

Carregando nas costas um passivo que ultrapassa 600 mil mortos, faço de novo a pergunta: o que é que Sua Excelência foi dizer aos portugueses? Será que foi pedir desculpas? Ou, humilde, tentar aprender como é que se enfrenta uma pandemia?

Jornal de Notícias, Portugal

Fica a incômoda impressão de que a palestra era apenas o pretexto para uma agradável etapa lisboeta, com direito a uma visita ao Castelo de São Jorge, seguida por um Bacalhau à Brás regado a vinho do Dão. De arrebitar-se-lhe as orelhas, ó pá!

Doutora Dilma fez isso uma vez, lembram-se? Voltando não me lembro de onde, mandou o avião fazer uma parada clandestina em Lisboa, onde toda a comitiva apeou para devorar uma bacalhoada. Na saída do restaurante estrelado, todos tiveram direito a sair carregando uma ou duas garrafas de vinho “p’ra viagem”. Tudo no cartão corporativo.

Direita? Esquerda? Quá! Tudo igual. Na hora da malandragem, todos comem à mesma mesa. E quem paga a conta somos nós, evidentemente.

Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.

Aerolula x Aerobolso

José Horta Manzano

Acho que ninguém esqueceu de quando, no longínquo março de 2020, Bolsonaro foi visitar o amigo Trump, que o recebeu em seu resort particular de Mar-a-Lago.

Na volta, 22 integrantes da comitiva, que tinham viajado no Aerolula (que agora deveríamos chamar de Aerobolso ou talvez Aeronaro) receberam resultado positivo no teste anticovid. Vinte e dois!

Passou-se exatamente um ano e meio durante o qual Bolsonaro praticamente não viajou para o exterior. Por um lado, foi por causa da covid. Por outro, é porque ninguém quer ser visto ao lado do capitão. Dado que fogem dele como da peste, ninguém o convida.

Ele então aproveitou a ocasião da abertura dos trabalhos anuais da ONU para dar um pulinho a Nova York. Aproveitou pra vacinar a esposa e pra levar a turma pra espairecer, gastar nosso dinheiro em hotéis estrelados e fazer umas comprinhas com o cartão corporativo. A ONU de Nova York é o único lugar aonde ele pode ir sem ser convidado, ainda que o preço a pagar seja comer pizza na calçada.

Na volta, os infetados por covid já começaram a aparecer. O primeiro foi o próprio ministro da Saúde (da Saúde!), aquele que cometeu o delicado gesto de apontar o dedo maior em riste aos que demonstravam não gostar do chefe dele. Em seguida, começa a cair gente graúda. Saiu hoje a notícia que o presidente da Caixa é a 4a vítima. Se não apareceu mais gente contaminada, é porque muitos – provavelmente todos, com exceção de Bolsonaro – estão vacinados.

Esse avião presidencial está mais pra navio fantasma, embarcação mal-assombrada, carroça com urubu trepado. Será praga do presidente barbudinho que preferiu comprar essa aeronave, deixando pra trás a nacional Embraer?

Não sei, mas, se fosse eu, mandava benzer esse avião. Eu é que não punha os pés lá dentro, nem que me pagassem.

Lei? Ora, a lei!

José Horta Manzano

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“Lei? Ora, a lei!”

A frase, um tanto estranha, é atribuída a Getúlio Vargas

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A meu conhecimento, não há gravação do pronunciamento. Gravador era artigo escasso nos tempos do velho ditador. Mas historiadores explicam que, ao pronunciar essas palavras, ele não estava se referindo a sua própria pessoa. Naquele tempo, a petulância do homem político ainda não havia chegado a esse ponto. Dizer isso referindo-se a si mesmo seria um acinte acima dos padrões da época.

Na verdade, a frase refletia uma crítica de Getúlio aos empresários que passavam por cima da lei e descumpriam pontos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o arcabouço da legislação trabalhista brasileira, instituído justamente durante sua gestão.

No entanto, até hoje a frase é empregada com outra conotação. É posta, em sentido irônico, na boca de governantes que se creem acima do populacho vil. Estou falando daquele tipo de políticos que ignoram a lei quando ela lhes põe obstáculos para obter benefícios ilícitos. Em resumo, infringem todo regulamento que não lhes agrada. A frase aparece em diálogos assim:

O assessor:
“Senhor governador, não dá pra fazer assim! É a lei!”

O governador:
“A lei? Ora, a lei…”

Todos temos tendência, sejamos francos, a torcer o nariz para uma proibição que nos desagrada. Mas não gostar é uma coisa; reagir é outra. A reação de cada um está ligada à própria personalidade. 1) Há quem aceite embora não goste, e acabe cumprindo a obrigação. 2) Há quem fraude no escurinho, sem alarde, sem dar muito na vista, tipo “atirando a pedra e escondendo a mão”. 3) Há, enfim, os que transgridem abertamente, sob o sol do meio-dia, tipo “eu sou mais eu; vai encarar?”.

O Brasil atravessa um período conturbado, com um presidente que se enquadra na terceira categoria, a dos que delinquem sem vergonha, sem se esconder e sem sequer ruborizar. Para ele, deve ser divertido. Para o país, é uma desgraça, uma noite interminável, um dia que não amanhece.

Pelas notícias que me chegam, a mais recente afronta feita à lei pelo capitão foi ainda em Nova York. Horas depois de ter sido informado de que seu ministro da Saúde, o improvável doutor Queiroga, estava infectado pelo coronavírus, descumpriu a regulamentação aplicável ao que chamamos aqui “caso-contacto” (qualquer um que tenha estado em contacto com um indivíduo comprovadamente positivo).

Bolsonaro havia estado em contacto com o ministro. Portanto, era um “caso-contacto” e tinha de seguir o protocolo de isolamento. Pois nosso capitão não só não se isolou, como desceu à calçada em frente ao hotel e misturou-se ao grupo apoiadores que por ele esperavam. Se eu fosse o prefeito de NY, mandava deter o homem. Para averiguações. Nem que fosse por algumas horas. Já imaginaram o susto? O quê? Incidente diplomático? Não temam. Com o Itamaraty que temos hoje, está tudo dominado. Durmam tranquilos.

Ah, me ocorreu! – 1
Francamente, como esse homem gosta de calçada, já repararam? Primeiro, a pizza. Agora, a aglomeração.

Ah, me ocorreu! – 2
Tenho dificuldade em entender como é possível que cidadãos brasileiros que vivem numa das cidades mais cosmopolitas do planeta e que, aparentemente, não ganharam carona de ônibus com direito a hambúrguer+coca grátis só pra aplaudir o presidente – como é que essa gente consegue apoiar aquele estropício.

Ah, me ocorreu! – 3
A melhor sugestão que o general Mourão, presidente substituto, recebeu durante sua interinidade no cargo foi a de editar um decreto proibindo a entrada no país de todo cidadão não-vacinado. Ele ficou de pensar. Mas não deu tempo, que o outro voltou. Fica pr’a próxima. Um dia, ele vai, pede asilo nalgum paraíso fiscal e não volta mais.

Sem luz no fim do túnel

Guadelupe, joia francesa do Caribe

José Horta Manzano

Do antigo império colonial francês, sobraram alguns retalhos, coisa pouca perto do que havia antes. Nas Américas, o maior território é a quase despovoada Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, lindeira com o Amapá. Interessa a Paris sobretudo por abrigar um centro de lançamento de foguetes.

Junto à costa do Canadá, sobrou ainda um minúsculo arquipélago – Saint Pierre et Miquelon –, batido pelos ventos, lambido por ondas violentas e habitado por menos de 6 mil almas, quase exclusivamente pescadores.

Mas a verdadeira joia são a Martinica, Guadelupe e Saint Martin, pequenos grupos de ilhas situadas nas verdes águas do Caribe, um paraíso muito apreciado por hordas de turistas que vêm especialmente da metrópole comer siri e tostar ao sol. Saint Martin é uma ilha minúscula, que a França compartilha com a Holanda.

Já Guadelupe e a Martinica são maiorzinhas e inteiramente francesas. Todos esses resquícios do antigo império perderam, há tempos, o estatuto colonial. Fazem oficialmente parte do território nacional, com deveres e direitos idênticos aos dos territórios metropolitanos, exatamente como Paris ou Marselha.

A pandemia de covid-19 está mais ou menos controlada na Europa. Digo “mais ou menos” porque, com essas novas variantes, focos ressurgem aqui e ali a toda hora. No entanto, nos territórios franceses do Caribe a coisa está bem pior. A situação está pra lá de feia. Guadelupe e Martinica, que, levando em conta os turistas, perfazem um total de quase um milhão de pessoas, estão pulando miudinho.

Os hospitais estão abarrotados. Acabo de ouvir no rádio o testemunho de médicos de hospital que confessam que, a cada nova entrada de paciente, estão tendo de fazer terrível triagem e decidir quem tem mais chance de sobreviver e quem tem menos. Exatamente como aconteceu em Manaus, estão faltando bombonas de oxigênio.

Quem tiver mais chance de sobreviver, vai receber alguma assistência; quanto aos demais, serão entregues à própria sorte. Hoje de manhã, no principal hospital de Guadelupe, já havia 17 pacientes de covid, todos em estado gravíssimo, acomodados em macas nos corredores, sem oxigênio e sem assistência respiratória. Por falta de alternativa.

Atenção: não estamos falando do Bangladesh, mas da França! O responsável por essa situação infernal é a nova cepa de covid, a variante Delta, que pegou firme por lá. As autoridades da Martinica determinaram que os turistas abandonem a ilha o mais rápido possível. O toque de recolher, que já estava em vigor nas duas ilhas, foi ampliado. Agora é proibido sair de casa entre as 19h e as 5h da manhã. Mesmo fora desse horário, ninguém tem o direito de se deslocar num raio mais amplo que 5km em volta de sua residência.

Não me cabe dar conselho às autoridades sanitárias brasileiras. Afinal, esses funcionários são pagos para isso e supõe-se que estejam mais capacitados que eu. Mas a meus distintos leitores, que são todos gente fina, insisto: continuem a respeitar os gestos que salvam. São os mesmos que todos já conhecemos.

  • Fora de casa, use máscara, até (e principalmente) no elevador.
  • Cumprimente de longe, sem beijinhos e apertos de mão.
  • Evite, sempre que possível, lugares apinhados
  • Se puder fazer suas compras fora do horário de maior afluência, melhor será.
  • Não se preocupe se o álcool em gel resseca as mãos: use e abuse.
  • Quando chegar da rua, procure lavar cuidadosamente as mãos, o rosto, os óculos e, se possível, o cabelo.

No fundo, é questão de bom senso. A epidemia ainda não se foi. A variante Delta é da pesada, capaz de fazer estrago grande. Ninguém pode ainda garantir que a vacina seja eficaz contra essa cepa.

Se você sobreviveu até aqui, pra que facilitar? Güenta mais um pouquinho!

Imunização coletiva

José Horta Manzano

Ano e meio depois do estouro da pandemia de covid, começam a aparecer estudos de larga escala, baseados na observação da evolução de grande número de casos num longo período. Um deles acaba de ser publicado na Suíça.

No Brasil, a busca pela vacinação tem ocultado aquela parte da população que se recusa a estender o braço. Por certo há, em nosso país também, um certo número de ‘antivax’ obstinados – o maior deles sendo justamente o presidente da República. Mas a massa dos que correm atrás da vacina ainda tem gritado mais alto.

Nos países europeus em que a campanha de vacinação está mais adiantada, os ‘antivax’ já começam a sobressair. Há os que, apesar de um bilhão de humanos já terem sido vacinados, ainda declaram ter receio de ser ‘cobaias’. Há os que, emboram tomem alegremente vacina antimalárica quando viajam a um país africano, não querem saber da anticovídica. Há ainda os que simplesmente têm medo de injeção.

E há os piores, aqueles que são burros e egoístas ao mesmo tempo, e que esperam ser protegidos pelo resto da população. São como o capitão, que não perde ocasião de repetir que “será o último a ser vacinado”. Botam fé no conceito da imunização coletiva, ou “imunidade de rebanho”, como preferem. Em sua fantasia, imaginam que, assim que a maior parte dos habitantes estiver imunizada, os não vacinados vão acabar sendo “contaminados” pela vacina alheia, sem nem mesmo precisar estender o braço.

Estão iludidos. Não é assim que funciona. O estudo suíço comprova que as pessoas não vacinadas têm risco 80% maior de contrair a covid. Como exemplo, na região do país onde ele foi levado a cabo, nas 2 últimas semanas de julho foram declarados 1030 casos novos de covid. Dessas 1030 pessoas, só 9 haviam sido vacinadas – as 1021 restantes não tinham recebido nenhum imunizante. Em outros termos, de cada 100 novos infectados, 99 não tinham sido vacinados. Isso mostra também que os benefícios da vacinação da maioria não “contaminam” nem se propagam aos demais.

Constata-se que essas vacinas anticovid, embora recentes, têm eficácia excepcional. Mas fazer novena não basta: precisa estender o braço e receber a picada. As palavras do chefe da Brigada Científica Suíça Anticovid são categóricas:

“Se os que resistem a se vacinar estão contando com a imunização coletiva pra escapar, estão enganados. Mais cedo ou mais tarde, todos eles apanharão a covid.”

Pior que aqui

José Horta Manzano

Todos nós, os não-devotos, nos escandalizamos com a conduta que Jair Bolsonaro imprimiu a seu governo nos piores momentos da crise sanitária. Temos a impressão de que a maldade do capitão é impossível de ser superada. Desgraçadamente, como diz o outro, nada é tão ruim que não possa ser piorado. Há quem esteja fazendo pior que nosso presidente.

O distinto leitor há de se lembrar com horror da crise de oxigênio em Manaus, quando doentes morriam sufocados enquanto nosso presidente sonegava oxigênio, entregava cloroquina e aparecia nas redes arremedando a asfixia dos moribundos. Pois saiba que a ditadura militar da Birmânia (país que em inglês se chama hoje Myanmar) está superando a crueldade do capitão.

A Birmânia é daqueles países que nunca (ou quase nunca) souberam o que significa democracia. Em 2011, saíram de meio século de ditadura militar. Chegou a normalização, com eleições, como convém a todo país civilizado. Mas durou pouco. Dez anos mais tarde, em fevereiro deste ano, veio novo golpe militar. Seguiu-se novo mergulho nas trevas.

A variante Delta do covid-19 está se alastrando firme e fazendo estrago por lá. Como resposta, o governo ditatorial acaba de proibir a venda de balões de oxigênio às clínicas privadas, assim como a cidadãos comuns. A pena para quem desobedecer é a prisão imediata. Enquanto isso, soldados estão encarregados de confiscar todos os cilindros que encontrarem, visto que a posse deles se tornou “ilegal”. O oxigênio recolhido vai servir para acudir militares e seus familiares doentes de covid.

Apesar de estarem habituados a sobreviver sob ditadura militar, os birmaneses nunca haviam visto uma legislação que evidenciasse tanto a diferença entre a casta dos militares e o resto do povo. Os fardados e seus familiares têm todos os direitos, enquanto o povão é abandonado à própria sorte. Já faz meses que os cidadãos comuns saem em passeata para mostrar insatisfação, mas o regime continua firme e forte. Afinal, são os militares que têm os tanques e as armas.

Outro dia, populares faziam fila em frente a uma fábrica de oxigênio na capital do país. Sob o pretexto de que se tratava de comércio ilegal, chefes militares deram ordem de atirar contra o povão. Com balas de verdade! Ainda não se tem notícia do número de mortos.

É pena que os devotos do capitão não tenham acesso a esse tipo de notícia. Falo dos fanáticos renitentes, aqueles que vivem dentro de uma bolha e que concordam com tudo o que seu mestre diz e faz. Se soubessem que estão sendo usados como massa de manobra e que um dia, no futuro, poderiam até ser metralhados numa fila “ilegal” qualquer, dariam um passo atrás. Mas… a Birmânia é tão longe, não é?

Vagabundo

El vagabundo
by Mónica Caruncho Fontela, artista espanhola

José Horta Manzano

No andar de cima, os convivas – todos copiosamente sustentados com nosso dinheiro – continuam a encenação. A incessante troca de casais é de rigor. Inimigos de anteontem, que tinham justamente feito as pazes ontem, tornam a apontar-se mutuamente os estilingues. Amigos desde a infância, duas excelências hoje se viram a cara. Outras duas, que não se falavam havia anos, hoje surgem de braço dado. E o povão vibra sem se dar conta de que a intenção era justamente esta: divertir a galeria, nada mais.

Tem a CPI da Covid (ou “da Cloroquina”, como receiam os devotos do capitão). Lá também, o alvoroço segue firme. Talvez eu não devesse dizer “lá também”, mas “lá principalmente”. Ora, é a vitrine maior, o horário nobre daquele palco de hipocrisia! Excelência que se preze tem o dever de se agitar na hora e no lugar certo.

Entre as encenações da semana, um distinto parlamentar botou pedra um pouco maior no estilingue, apontou para um colega e mandou: “Vagabundo!”. Ao que o atingido, com impressionante presença de espírito, respondeu de pronto: “Vagabundo é você!”. Diálogo edificante, foi uma finura que só.

É inadequado duas excelências usarem pedras tão grandes para lapidar-se mutuamente. Acho até que o calibre das pedrinhas devia ser fixado por lei. A partir de tal e tal diâmetro, não pode, porque fica feio e baixa o nível.

Vagus e bundus
Deixando de lado as ironias, vamos aos fatos. Vagabundo – de onde vem esse bicho? Pois a palavra já existia em latim (vagabundus). É composta de vagus (errante, sem destino) e de bundus (que tem propensão a).

A raiz do primeiro elemento aparece em numerosas palavras nossas: vagar e vaguear (ir sem destino), divagar (soltar o pensamento), vagante, extravagante, vago (impreciso), noctívago (que passeia à noite sem destino preciso).

O segundo elemento (bundo) também reaparece em palavras como nauseabundo, meditabundo, moribundo. Há muitas outras, mas, no Brasil, tendemos a evitar essa terminação por sua semelhança com bunda, palavra que, no meu tempo, convinha evitar quando havia senhoras na sala.

Por último, é interessante notar que o termo vagabundo, se está presente nas demais línguas latinas, não tem o mesmo peso em cada uma delas. Em português, chamar alguém de vagabundo é ofensa na certa. Significa que esse alguém é desocupado, gandaieiro, preguiçoso, vadio. A palavra tem sentido fortemente pejorativo.

Em italiano, embora não seja propriamente um elogio, vagabondo também não é ofensa pesada. Para ofender mesmo, precisaria dizer: “vagabondaccio”. Tirando essa variante pejorativa, a palavra é muito usada no sentido figurado: “pensieri vagabondi” = pensamentos vagabundos (ou seja, que vagueiam).

Em francês, a palavra vagabond não faz parte das pedradas que se possam dar em alguém. O verbo vagabonder (=vagabundear) é até simpático; pode servir para descrever, por exemplo, um fim de semana que alguém passou sem fazer nada, só passeando.

Até alguns anos atrás, a rádio suíça tinha um programa chamado “L’humeur vagabonde” = O humor vagabundo. Era um programa interessante, de uma hora de duração. Como o título indica, não havia um tema fixo. A cada semana, falava-se de um assunto diferente, a biografia de alguém, uma viagem a um lugar interessante, um acontecimento histórico.

Se fossem passar essa emissão no Brasil, teriam de modificar o título. Vagabundo, francamente, não dá. É expressão privativa de certas excelências.

Apavorado

José Horta Manzano

“– A CPI é um vexame, só se fala em cloroquina!”, exclamou o capitão.

“Queria que falasse de quê?”, perguntamos nós, “do aumento da população de jacarés no Pantanal?”

A Comissão foi instalada exatamente para avaliar os estragos cometidos por Sua Excelência desde o início da pandemia. É natural que fale de cloroquina. Ao final dos trabalhos, o capitão ainda periga tomar um processo por charlatanismo e exercício ilegal da medicina.

Pólen & covid

José Horta Manzano

Você sabia?

Em regiões de clima mais frio, a vegetação descansa no inverno. Com a chegada da primavera, cada espécie vai despertando, lançando brotos e flores. Com as flores, vêm os pólens, cuja função é fecundar outras plantas da mesma espécie, num fenômeno chamado polinização.

Para o caso de flores ornamentais, a natureza dispõe das abelhas que, ao colher o néctar de uma flor, levam pólen grudado às patinhas. Esse pólen acabará sendo depositado em outra flor, fecundando-a. Essa é a função das abelhas: a polinização.

Para o caso de árvores – que também botam flores e dependem de polinização –, quem se encarrega de transportar o pozinho é o vento.

Enquanto pólen de flor ornamental é mais pesado e dificilmente levado pelo vento, o de árvore é fininho, levinho, às vezes invisível. Voa pelo ar. Em organismos mais sensíveis, costuma provocar a febre do feno, uma rinite alérgica – doença respiratória que causa grande desconforto.

A National Academy of Sciences (EUA) publicou recentemente um vasto estudo coapresentado por uma penca de cientistas originários de uma dúzia de países. Ele trata da interferência entre pólens e covid-19, visto que os dois causam afecção respiratória. O trabalho, muito completo, baseou-se nos dados de 130 estações de medição de pólen, situadas em 31 países do Hemisfério Norte.

O estudo é longo e altamente técnico, mas o que interessa saber é que a ação dos pólens é realmente fator agravante da covid. A abundância de pólen no ar resulta em significativo aumento das taxas de infecção. Não se tem absoluta certeza do mecanismo, mas o fato é este: mais pólen, mais covid.

Que eu saiba, não existem no Brasil estações destinadas a medir a quantidade de pólen no ar. Se as árvores de clima temperado se fecundam por meio de pólen lançado ao ar, quero crer que árvores tropicais sigam o mesmo caminho. A diferença é que, dado que nosso inverno não é tão marcado, as árvores não soltam o pólen todas ao mesmo tempo. Como resultado, nosso ar contém pólens de modo constante.

Talvez um dia alguma instituição que tiver escapado à atual sanha obscurantista consiga fazer um estudo sobre a interferência dos pólens tropicais na infecção por coronavírus. Enquanto nossa civilização não atinge esse estágio, distinto leitor, a melhor arma é a máscara. Para pessoas sensíveis ao pólen, são recomendadas máscaras mais especiais ainda: aquelas que protegem contra micropartículas.

Ao fugir de aglomeração, evita-se contaminação pelo bafo alheio. Mas não se evita respirar os pólens que, invisíveis, dançam por todos os ares em busca de uma árvore amiga. A única maneira de escapar aos dois – ao bafo e ao pólen – é usando máscara. Não é má ideia usá-la o tempo todo que se passa fora de casa, seja num baile clandestino, seja passeando no bosque.

Vacinação diferenciada

Chamada Estadão, 7 abril 2021

José Horta Manzano

Dos países civilizados que conheço, nenhum pensou, até agora, em privatizar a vacinação contra a covid. A lógica é a mesma das vacinas tradicionais – poliomielite, tuberculose, varíola, febre amarela, hepatite. Cabe ao governo cuidar da imunização da população.

Só o fato de haver cogitado essa possibilidade já mostra que algo continua torto em nosso país. Se o projeto for realmente posto em prática, será passado atestado de nossa fé inabalável na desigualdade social.

Não respondo pelos laboratórios situados, digamos assim, em países menos tradicionais – Rússia, Índia. Mas me surpreenderia que empresas farmacêuticas sérias acatassem um pedido de compra de vacina vindo de particulares brasileiros, enquanto os demais cidadãos continuam fazendo novena pra Santa Genoveva pra conseguirem ser imunizados logo. Sem muita esperança.

Se, no Brasil, esse projeto não causa escândalo, além-fronteiras não é bem assim. Num momento em que o mundo corre atrás de imunizantes, cairia mal fornecer imunizante para abastados enquanto o povão continua ao deus-dará.

Confinamento na França

França: coletiva de imprensa do primeiro-ministro

José Horta Manzano

Como todo governo responsável, também o francês está atento à curva de progressão da pandemia, que continua dando sinais inquietantes apesar do avanço da vacinação.

O primeiro-ministro fez ontem pronunciamento solene. Lembrou que o país se aproxima da terrível marca de 100 mil mortos. Tendo em vista a chegada do que parece ser uma terceira onda de contaminações por covid, novo confinamento será aplicado à população de extensas regiões do país a partir desta sexta-feira, por quatro semanas. O território confinado inclui a capital e engloba um total de 21 milhões de habitantes, o que equivale a 1/3 da população do país.

Confinamento
As escolas permanecerão abertas. O comércio terá de baixar as portas, com exceção dos que vendem remédios e gêneros alimentícios. Lojas de música e de livros estão liberadas. Será permitido sair à rua e se deslocar até uma distância de 10km da residência, desde que cada um leve consigo um autoatestado com data e assinatura.

Toque de recolher
O horário do toque de recolher que já vigora atualmente no país inteiro será alterado. Com a chegada da hora de verão, que entrará em vigor dia 28 de março, os cidadãos terão uma horinha a mais de liberdade. Em vez de 18h, todo o mundo terá que estar bonitinho em casa a partir das 19h. O toque de recolher tem se mostrado radical para evitar aglomerações.

Em sua fala, o primeiro-ministro incentivou o teletrabalho. Exortou todas as empresas a aplicar, sempre que possível, esse sistema. Para terminar, tranquilizou a população ao informar que as autoridades sanitárias liberaram a vacina Astra-Zeneca, por considerar que não há prova científica de que os efeitos secundários assinalados possam ser imputados a ela.

Enquanto isso…
Quando vejo que, um ano depois das primeiras mortes, a pandemia ainda continua se expandindo até em países que se conscientizaram desde o início, fico ainda mais preocupado com o Brasil. O que acontece hoje na França, na Itália, em Portugal e em tantos outros países periga se repetir, com mais força ainda, num Brasil em que o governo central foi incapaz de dar diretivas e tomar as rédeas do combate ao vírus.

Eles lá e nós aqui

José Horta Manzano

As variantes britânica, sul-africana e brasileira do coronavírus estão fazendo estrago feio na Europa. A Itália é bom exemplo do fenômeno. Em março-abril de 2020, sofreram a primeira investida da epidemia. Foi aquele caos que assustou o mundo, período em que caixões eram transportados em caminhões do Exército, de madrugada, que era pra não aterrorizar a população. (Ficou ainda mais sinistro.)

O confinamento (que também responde pelo charmoso nome estrangeiro de lockdown) durou mais de dois meses durante os quais todos tiveram de ficar trancados em casa. Lá pelo fim de maio, a doença deu uma trégua, veio o desconfinamento e todos pensaram que o pior tinha passado. Ilusão.

Com o verão, vieram as férias e, com elas, os ajuntamentos, os beijos e os abraços. Não deu outra: no mês de outubro, o bichinho mostrou que não morre tão fácil assim. Voltou com força. As autoridades hesitaram em reconfinar a população. O vírus aplaudiu de pé. A partir daí, a curva de contaminações oscilou, numa gangorra angustiante, hoje sobe, amanhã desce, depois sobe de novo.

As medidas de proteção – desinfecção das mãos, distanciação social, máscara de proteção – ajudaram. E assim foi indo, até que passou o Natal e o novo ano trouxe a vacina. Todos imaginaram que estava aparecendo a luz no fim do túnel. O que ninguém previu foi que a vacinação seria tão lenta e que surgiriam variantes bem mais contagiosas da doença.

Nestas últimas semanas, a contaminação tem se alastrado em alta velocidade. As UTIs estão de novo lotadas. Pacientes em estado grave estão sendo transferidos para outras regiões do país. Que fazer?

Depois de hesitar, não houve jeito. Aconselhado pelas autoridades sanitárias, o governo italiano decretou novo confinamento, válido para o país inteiro com exceção da Sardenha (que é uma ilha). As regras são as mesmas que no ano passado: liberdade de ir e vir fortemente entravada, comércio fechado, proibição de todo deslocamento que não seja por motivo de trabalho ou de saúde.

O período de penitência começa nesta segunda-feira 15 de março e vai até a Páscoa. É como se a população inteira tivesse de usar tornozeleira eletrônica – sem direito a habeas corpus.

Enquanto isso, numa terra chamada Brasil, continuamos a brincar com fogo. Atiçados por um presidente que é vítima de manifesta perturbação mental, cidadãos se apinham em praça pública para exigir abertura do comércio. Agem como se fosse possível espantar o vírus no grito. Vestem verde-amarelo como se isso lhes conferisse legitimidade. “Brasileiros somos nós; o resto são comunistas!”, parecem querer dizer.

Sinto tristeza ao assistir a esse tipo de espetáculo. Me dá muita pena ver que, em pleno século 21, ainda se encontra gente que acredita num salvador da pátria. Tanto esses que agora se esgoelam por Bolsonaro quanto aqueles que antes se engalfinhavam por Lula ou por Dilma são apóstolos de seitas que não combinam com nosso tempo. Essa gente devota, que engole tudo o que seu mestre mandar, mostra falta de discernimento, incapacidade de pensar com a própria cabeça e de captar a realidade.

Uma lástima. Graças a eles, continuamos firmes em nossa trilha para transformar o país no foco mundial de irradiação da covid. O distinto aceita um comprimido de cloroquina?

Utilidade pública

José Horta Manzano

Se, poucos anos atrás, alguém previsse que, mais de 500 anos depois do descobrimento e quase 200 anos depois da independência, nosso país teria de lutar para se desvencilhar dos males causados pelo próprio chefe da nação, teria sido tachado de biruta agourento. No entanto, é o que aconteceu. E é muito triste.

Diante do negacionismo oficial de Jair Bolsonaro e de seus prepostos, o povo tem de se defender como pode pra tentar evitar que o mal se aprofunde. A batalha travada pelo doutor contra o povo (e a favor da epidemia) tem sido tão intensa que está ficando difícil reverter a marcha dos acontecimentos. Talvez seja até tarde demais pra evitar o colapso nacional, mas não custa tentar.

Hospital Sírio Libanês, São Paulo

Chegamos a um ponto em que, para fazer o que tem de ser feito, convém recorrer ao conselho de quem entende do riscado. O jornal O Globo desta quinta-feira traz um artigo imperdível da jornalista Vera Magalhães. Ela transcreve a conversa que teve com dr. Paulo Chapchap, diretor executivo do Sírio Libanês, um dos três ou quatro melhores hospitais do país.

O médico relata a realidade dos doentes de covid vista como ela é, por quem passa o dia nos hospitais. Vale a pena ler o artigo. Está aqui.

Garoto-propaganda da fábrica de mentiras

José Horta Manzano

Num momento em que a imprensa livre é intimidada, insultada e agredida pelo presidente, dia sim, outro também, é um alívio saber que ainda há gente disposta a botar a boca no trombone e expor ao mundo o que ocorre no Brasil.

Em todo o planeta, a voz mais forte na defesa da liberdade de imprensa falada e escrita é Repórteres sem Fronteiras, ONG fundada em 1985 e baseada em Paris. É uma sociedade sem fins lucrativos composta de 120 colaboradores, com filiais em uma dezena de países, entre os quais o Brasil.

Sua ação é menos espetaculosa que a da Greenpeace, porém mais eficaz a longo prazo. Ações teatrais podem garantir o espetáculo na hora, mas nem sempre geram efeito duradouro. Mais vale ir pianinho (como dizem os gaúchos), pois mingau se come pelas bordas (como dizem os mineiros).

No ano passado, quando as más intenções do clã presidencial brasileiro ficaram claras, a Repórteres sem Fronteiras (RSF para os íntimos) cunhou nova expressão: o Sistema Bolsonaro. A denominação engloba o presidente, seus filhos e todos os que integram a máquina de distorcer a verdade e de fabricar mentiras, instalada no Planalto. A expressão é um achado.

No exterior, já faz algum tempo que Bolsonaro está classificado no mesmo balaio que Lukachenko (Belarus) e Maduro (Venezuela), um clube de dirigentes autoritários, mais interessados em favorecer a si e à própria família do que em melhorar a vida dos governados.

Para denunciar os maus-tratos que o presidente tem infligido aos brasileiros, a RSF lançou nova campanha de informação. A intenção é chamar a atenção para as mentiras espalhadas pelo Sistema Bolsonaro. A imagem-símbolo é uma montagem em que o doutor aparece atrás de um cartaz com os dizeres «A verdade nua», além do número de mortos e de casos positivos da covid.

Ignorantes como são, não acredito que os integrantes do Sistema Bolsonaro tomem conhecimento da campanha. Mas o mundo vai ficar sabendo. E, às vezes, por via indireta, o bumerangue acaba voltando.

Para ver o texto da campanha, clique na língua correspondente:

Em português

Em francês

Em inglês

Em espanhol

País medieval

José Horta Manzano

É curioso constatar que o governo dirigido por doutor Bolsonaro nunca atira na direção certa. Se o tiro vem da direita, aponta a arma para a esquerda. E vice-versa. Não está claro se fazem isso de propósito ou se lhes falta senso de orientação. De orientação política e social, entenda-se.

No ano passado, quando governos do mundo inteiro sonhavam com o dia em que poderiam vacinar a população e livrar-se da pandemia, nosso doutor fazia pouco caso e torpedeava toda iniciativa que visasse a encomendar vacina.

Agora, que as vacinas começam a aparecer, ele levou uma trombada. Não sei se captou o anseio da população ou se os filhos o aconselharam, fato é que se tem mostrado menos veemente em sua cruzada antivacina. Mas o homem não dá ponto sem nó. Logo abaixo, veremos como, agora que era hora de gritar e bater o pé, se mantém em silêncio – o silêncio dos que calam e consentem.

No Brasil, a insegurança jurídica impera. Com isso, nunca se sabe se o que vale hoje continuará valendo amanhã. No momento em que escrevo, a Associação Brasileira das Clínicas de Vacina está em preparando a importação de cinco milhões de doses de Covaxin – a vacina indiana anticovid. Os destinatários da mercadoria são as clínicas particulares do país.

A meu conhecimento, nenhum país entre os quase 200 que há no planeta admitiu esse tipo de prática. Em todos eles, o trato da pandemia é da alçada governamental. Assim como cabe às autoridades determinar confinamento, fechamento de lojas e funcionamento de escolas, cabe também a elas adquirir, distribuir e aplicar vacina. Imagine se fosse deixada a cada comerciante a decisão sobre abertura do próprio estabelecimento: o resultado seria uma enorme confusão.

Embora o modo de agir do atual governo federal nem sempre dê essa impressão, governo serve, em princípio, para articular o funcionamento do país. Essa história de permitir que os que podem pagar passem à frente dos demais e tomem vacina antes é simplesmente escandalosa. Essa prática, indigna do século em que vivemos, tem de ser banida.

Pesquisa Instituto PoderData

Na Idade Média, o regime era outro. Quem era da classe nobre tinha filhos nobres; plebeus tinham filhos plebeus; filho do rei era príncipe. Assim, a estratificação da sociedade se perpetuava, sem permeabilidade possível. O elevador social ainda não tinha sido inventado. De lá pra cá, o mundo evoluiu.

Em muitos aspectos, nossa sociedade guarda resquícios medievais. Nosso elevador social anda emperrado e só funciona no tranco, à força de manivela. Temos um sistema de saúde pública bizarro, que segrega os usuários de segunda classe e os mantém higienicamente afastados dos que têm acesso aos mimos da primeira classe.

Se essa marca ostentiva de diferença de classe social na área de saúde costumava ser tolerada na vida de todos os dias, a pandemia baralhou as cartas e exige que seja distribuída nova mão. Não é admissível que cidadãos abastados sejam servidos antes dos menos favorecidos. A doença se alastra por toda parte. A mortalidade é ameaça para todos.

Se alguma pressão tem de ser exercida, que se pressione o governo central. Cabe a ele se mexer para suprir o sistema público de saúde com as vacinas necessárias. Isso não é – nem deve ser – tarefa de empresas particulares. A vida daquele que tem posses vale tanto quanto a daquele que não tem.

Neste momento, cabe, a quem tem o poder de fazê-lo, impedir que essa prática perversa se instale no país. Não convém dar mais uma mostra de que certos brasileiros são mais iguais que outros.

Pesquisa do Instituto PoderData mostra que um em cada três brasileiros acha justo que aqueles que podem pagar tenham o direito de procurar uma clínica privada para receber o imunizante. Sabe-se que não há 33% de gente abastada na população do país. A conclusão é terrível: boa parte dos que não têm condições de pagar pela vacina concorda com o privilégio e acha correto os mais ricos poderem se vacinar antes deles. Se isso não é mentalidade medieval, o que será?