Estocando vento

José Horta Manzano

Era 25 set° 2015. Dilma discursava num evento patrocinado pela ONU. Como de costume, falava de modo confuso, com frases que nem sempre tinham começo, meio e fim. Talvez até quisesse dizer algo, mas a mensagem não passava, como se entre ela e o ouvinte houvesse uma parede. Algum som passava, mas as frases chegavam rateando.

Lá pelas tantas – pra quem quiser recordar, é fácil encontrar no youtube –, Madame afirma que o Brasil tem hidroelétricas e que a água é de graça. Diz também que o Brasil também tem vento, mas que não dá pra estocar vento.

Ah, pra quê! Ela foi alvo de uma avalanche de críticas, sarcasmos e gozações. Jornais publicaram charges, o fruteiro da esquina deu risada, o motorista de aplicativo comentou com um sorriso maroto, até o porteiro do condomínio tirou uma casquinha e abanou a cabeça.

Somada ao fato de haver afirmado dois anos antes que acreditava no ET de Varginha, essa da estocagem do vento selou a entrada de Madame no panteão das personalidades excêntricas. (Dizem que um rico que age fora dos padrões normais é excêntrico, mas um pobre nas mesmas condições é louco. Que cada um tire suas conclusões.)

Estadão, 12 mai ’22

Mas o mundo gira. Sete anos depois do vento de Madame, parece que os cientistas estão descobrindo modo de armazená-lo. Isso pode ser visto de duas maneiras. Pode-se dizer que não passa de coincidência e que a fala da doutora não tem nada a ver com a descoberta dos cientistas. Pode-se também dizer que Madame era uma visionária com o dom de levantar um problema antes de todo o mundo. Talvez tenha sido inspirada pelo ET de Varginha, vai saber.

Agora, que estamos no caminho da solução do problema da estocagem do vento, Madame está 50% perdoada. Para receber absolvição completa, tem de revelar ao país se a ideia foi dela ou se foi sugestão do ET. Depois disso, o nó estará desfeito. Conforme for, passaremos todos a acreditar tanto na estocagem de vento quanto no ET.

Agora, sem brincadeira, tente comparar por um instante a personalidade de Madame com a do capitão.

Têm características comuns. São ambos irritadiços, mandões, incompetentes, ignorantes, presunçosos, desbocados, sectários. Devem ter outros pontos em comum que não me ocorrem neste momento.

Mas têm diferenças importantes. Da boca de Madame, não me lembro de ter ouvido palavrão soltado em público. Já da boca do capitão, cruz-credo! Quando ele se prepara para falar, é bom tirar rápido as crianças da sala. Ele próprio não se dá ao respeito, razão pela qual não pode esperar pelo respeito de ninguém. Do jeito que se comporta, o capitão é tão respeitado quanto o pinguço que, acotovelado no bar da esquina, resmunga palavrões.

O grande estrago que Madame provocou no país foi de ordem econômica, com sua “nova matriz”, que já veio bichada e com prazo vencido. Mas a economia, sabe como é, estraga-se hoje, amanhã está consertada. Não se lembra como o Plano Real deu um jeito, num piscar de olhos, numa inflação que fermentava havia 50 anos?

Já o estrago provocado pelo capitão é bem mais profundo. Os milhares de quilômetros quadrados de floresta destruída não crescerão nunca mais. Ele acelerou o caminho da desertificação de nosso território. As armas distribuídas a torto e a direito não voltarão ao fornecedor; parte considerável delas vai irremediavelmente terminar nas mãos do crime organizado. As terras da União doadas a grileiros, agora com escritura passada em cartório, não voltarão ao cofre da viúva – são nacos de nosso território ofertados aos amigos do rei, e perdidos para sempre.

A lista é longa. Poderia citar dezenas de exemplos. O problema é que, a cada linha que escrevo, vai batendo o desânimo. Paro antes que venha a depressão.

Conclusão
Acho que até a doutora, apesar da ignorância, da mandonice e da incompetência seria menos nociva para “essepaiz” que o capitão. Se este blogueiro (que jamais votou no PT) tivesse de escolher entre os dois, não hesitaria um instante.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano


Num mundo polarizado como o nosso, tentar se equilibrar em cima do muro pode não ser a melhor solução.


Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, quando batalhões russos, em quantidade impressionante, já se amontoavam junto à fronteira, Bolsonaro foi a Moscou prestar reverência ao ditador Putin.

A guerra de conquista prestes a ser lançada não lhe pareceu motivo válido para suspender a viagem nem para acrescentar, de última hora, uma “visita de médico” a Kiev – nem que fosse pra equilibrar a posição brasileira.


 

Solidariedade “à” Rússia (sic)

Uma vez em Moscou, declarou – sem ter sido indagado – que o Brasil se solidarizava com a Rússia. Foi mais um erro monumental provocado por seu inexistente senso de geopolítica – fato raro mesmo entre seus antecessores mais incapazes.

Estivéssemos sob outras latitudes, sua carreira terminaria naquele instante e seu futuro eleitoral estaria comprometido por décadas, talvez para sempre. Mas não estamos sob outras latitudes. As nossas são tropicais.

Estourada a guerra, ninguém exigiu do presidente um posicionamento definitivo. E ele não se posicionou. Ficou, pois, o dito pelo dito mesmo. Ficou cimentada a posição do Brasil: todos nós nos solidarizamos com a Rússia. E ponto final. Pô.

Até certo ponto, é compreensível que o capitão procure amigos aqui e ali. Afinal, ele é rejeitado pelo mundo civilizado, justamente em razão das incivilidades que vem cometendo desde que vestiu a faixa. Parodiando a expressão inglesa “serial killer” (assassino em série), eu diria que nosso presidente é pessoa “serially incivilized” (um incivilizado inveterado).


 

Num mundo em plena turbulência, o Brasil precisa de aliados

Procurar amigos é uma coisa; bater à porta de ditadores ferozes e sanguinários é outra, bem diferente. Em vez de solidarizar-se com autocratas belicosos, Bolsonaro estaria mais inspirado se se dedicasse a aparar as arestas e aplainar as relações com os ofendidos. Os que foram por ele agredidos são justamente nossos aliados e parceiros tradicionais, dirigentes de países com os quais compartilhamos interesses comuns.

Se ele um dia ofendeu a esposa de Macron, ignorar a existência da França não é a melhor solução. Veja o resultado: o presidente francês acaba de ser reeleito para mais 5 anos no Eliseu. Se Bolsonaro não procurar consertar esse deslize, as relações franco-brasileiras permanecerão curto-circuitadas esse tempo todo, o que não é boa coisa.

Se insultou o presidente argentino, afastar-se do personagem não é o melhor remédio. Há que ter em mente que a Argentina não vai se mudar amanhã. Não vai sair do lugar e continuará sendo nossa vizinha pela eternidade.


 

É hora de virar a página dos insultos passados e olhar para a frente

Com a carta de desculpas redigida por Temer e assinada por Bolsonaro, este último conseguiu aplacar a indignação dos brasileiros com as barbaridades proferidas naquele 7 de Setembro de triste memória. Que convoque Michel Temer de novo e lhe confie a missão de preencher as lacunas de nossa diplomacia mambembe! O ex-presidente, que é culto, não é ministro de Bolsonaro nem deve favores ao capitão, saberá encontrar termos contritos mas não servis para expressar uma guinada no posicionamento internacional do Brasil neste momento grave para a humanidade.

Enquanto o destino do planeta se decide nas margens do Mar Negro, nenhum país tem o direito de virar a cara e fazer de conta que não é com ele. O peso populacional do Brasil, se não houvesse outra razão, nos obriga a nos posicionar claramente. Se Bolsonaro não sabe o que fazer – e as palavras pronunciadas em Moscou mostram que não sabe – que tome conselho com quem sabe.

A guerra acabará. Bolsonaro passará. Mas o Brasil ficará. Os brasileiros das próximas décadas não podem ser reféns das más decisões de um presidente pusilânime.

Observação
Na verdade, distorcendo a norma gramatical, o capitão não disse que o Brasil se solidarizava com a Rússia, mas que se solidarizava à Rússia. O fundo foi tão desastrado, que ninguém se preocupou com a forma.

Não se fazem mais Sextas-Feiras Santas como antigamente

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, Sexta-Feira Santa era um dia especial. Ainda me lembro do vendedor de pão, aquele que passava todos os dias na porta de casa, com sua carrocinha puxada a burro, e que vendia um pão doce com sabor de infância. Pois ele dizia que trabalhava todos os dias do ano, com exceção de dois: o Dia de Natal e a Sexta-Feira “Maió”, que era o nome que ele dava à Sexta-Feira Santa.

Os tempos antigos eram cheios de “não-podes”. Na sexta-feira antes da Páscoa, o comércio baixava as portas. Nem entregador de pão trabalhava. Não se podia comer carne. Estações de rádio tocavam música clássica e cinemas passavam a Vida de Cristo. Baile, festa, dança? Nem pensar. Qualquer festinha, nem que fosse de aniversário de criança, ficava pro dia seguinte.

Hoje mudou, e muito. Fomos de um extremo a outro. Se antes quase nada podia, agora tudo pode. Palavrão, modo de expressão antes reservado para bate-papo entre bandidos, entrou para o dia a dia de todos – a começar pelo capitão e pelas excelências que o acolitam. Alguns acham isso natural, marca de espontaneidade. Eu continuo achando que é falta de educação e de respeito.

Bom, mas não vamos ser mais católicos que o papa. Rádio não toca mais música clássica. Cinemas (os poucos que restam) já não dão mais A Vida de Cristo. Aniversariante não precisa mais mudar o dia da festinha. Presidente fala palavrão – e como fala!

Então, com o perdão dos que ainda conservam um trisquinho de recato, aqui vão dois comentários bem-humorados sobre a bizarra compra de medicamentos pra atenuar os problemas de disfunção erétil de nossa (antes) vigorosa tropa.

 

 

 

 

 

O fracasso da bolsa família

José Horta Manzano

Com o passar do tempo, a bolsa família, implantada no governo do Lula, mudou de nome mas não mudou de espírito. Como disse o companheiro José Dirceu, numa conversa que não era pra ser gravada mas foi, o programa não passava de alavanca eleitoreira capaz de trazer 40 milhões de votos para o lulopetismo.

E o truque deu certo. Precisou o impeachment da doutora pra desalojar do poder a turma do mensalão e do petrolão. Não fosse isso, continuariam imbatíveis. Num país de miseráveis, uns trocados no bolso fazem diferença.

Se os dirigentes do país estivessem realmente empenhados em mitigar a miséria, o programa, desde que foi implantado em 2003, já teria tirado da mendicidade, se não todos, pelo menos boa parte dos beneficiários. Não foi o que aconteceu.

A ficha custou a cair para Bolsonaro. Empenhado em deixar, após sua passagem pelo poder, uma marca que não pudesse ser confundida com a genial iniciativa do PT – seu espantalho –, tergiversou e protelou quanto pôde. Mas acabou rendendo-se à evidência. Quem quiser se reeleger na Presidência, tem de distribuir ajuda financeira. Tem muita gente que depende disso pra sobreviver.

Fez corpo duro, hesitou, mas não teve jeito: recriou a bolsa. Só pra não dar o braço a torcer, fez uma mudancinha aqui, outra ali, modificou o nome, mas a nota é uma só.

O Instituto Poder 360 publicou estudo detalhando os beneficiários do Auxílio Brasil (a nova bolsa família) comparados com os funcionários com carteira assinada, estado por estado. O resultado é edificante. Observa-se que, em 19 anos de bolsa (agora auxílio), a situação continua tão dramática quanto antes, se não for mais.

Em 12 dos 14 estados do Norte e do Nordeste, o número de dependentes de auxílio do poder público supera o de empregados com carteira assinada. A pior situação é a do paupérrimo Maranhão, reserva do humanista clã Sarney, que contabiliza dois beneficiários de programa assistencial para cada trabalhador formal.

Nas demais unidades da Federação, a situação é menos tensa. No entanto, mesmo em estados ricos, centenas de milhares de conterrâneos fazem jus à assistência do poder público.

No país, os ricos estão cada vez mais ricos. Os do andar de cima, com infinitas benesses e até polpudos orçamentos secretos estão nadando de braçada. “Pastores”, “bispos” e episcopisas(*) têm até liberdade (e anuência presidencial) para distribuir bíblias com foto de ministro. Diga-me então: por que é que alguém se preocuparia em tirar realmente esses infelizes da miséria?

O que tira gente da extrema pobreza é formação profissional. Mas é aí que mora o perigo. Gente que sabe ler e entender o que leu pode até se dar conta de que nosso governo e nossos parlamentares são “fake”, um circo monumental em que são sempre os mesmos que saem ganhando. Melhor não tentar o diabo.

Que continuem fazendo fila pra receber uns caraminguás. Que continuem a não entender o que leem, assim não há risco de entenderem que estão sendo esbulhados. Que venha Lula (de novo!) ou Bolsonaro (de novo!), tanto faz como tanto fez. O populismo deste é igualzinho ao daquele. Talvez a grande diferença entre os dois seja a quantidade que distribuirão de pílulas contra disfunção erétil.

O capitão prefere espalhar a benesse entre os companheiros militares, que devem estar precisando. O Lula há de preferir distribuir aos companheiros, que também devem estar precisando – afinal, estão todos envelhecendo.

(*) Embora seja forma praticamente desconhecida entre devotos, episcopisa é o feminino de bispo. Dá mais status que o bizarro “bispa”.

A acolhida dos refugiados

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José Horta Manzano

Já vi muita imagem de refugiado sendo acolhido em país que não é o seu. Já vi muita imagem de cidadão que, por motivo de guerra ou sequestro, foi fotografado na volta ao país natal. Todos chegam sorridentes. É sorriso de cansaço, mas sabem que é o último esforço antes de poder sossegar.

O que nunca vi é refugiado ou repatriado chegar ostentando a bandeira do pais natal ou do país que o acolhe. É imagem rara. Que eu me lembre, só cheguei a ver coisa parecida quando a doutora importou profissionais cubanos no âmbito do programa Mais Médicos, lembram-se? Eram aqueles que já vinham de jaleco – um contrassenso, visto o risco de contaminação –, todos agitando uma bandeirinha de Cuba e outra do Brasil.

O instantâneo estampado acima foi colhido em 10 de março, quando desembarcaram algumas dezenas de cidadãos provenientes da Ucrânia. Deviam estar todos pra lá de cansados. Dependendo da cidade ucraniana de onde cada um vinha, já tinha cumprido uma jornada de dias de perigo pra chegar a Varsóvia, ponto de embarque no aviãozinho da FAB.

Em seguida, dado que o pequeno aparelho não tem autonomia para ir muito longe sem reabastecer, tiveram de fazer quatro escalas: em Lisboa, depois em Cabo Verde (no meio do Atlântico), em seguida no Recife, para, finalmente pousar em Brasília sob aquele sol do meio-dia. Imagine em que estado chega alguém que saiu do inverno ucraniano, viajou sabe-se lá quantos dias e quantas noites fugindo de canhão, chacoalhou sentado num banco improvisado dentro de avião cargueiro, e desembarca no escaldante cerrado braziliense.

A meu ver, o que mais esse pessoal queria era poder espichar as pernas numa cama confortável e se deliciar com a sombra e o silêncio de um hotel qualquer. Mas Bolsonaro não liga pra essas coisas. Sofrimento alheio, pra ele, não conta. Enquanto ele e a família não estiverem em perigo, os outros que se danem. Todos tiveram de se alinhar, de pé, em cima do concreto, plantados ao lado do corpo metálico do bojudo avião, sem nada que lhes protegesse a cabeça.

O mais curioso é que, como por milagre, apareceram 10 ou 12 bandeiras, todas de mesmo tamanho e de mesmo feitio. Foi solicitado aos participantes que exibissem o símbolo nacional. Foi tão espontâneo, que alguns nem sabiam como segurar o lindo pendão da esperança.

Repare na foto. Tem um que “entornou” a flâmula, exibindo-a como livro em prateleira, daqueles que a gente tem de torcer o pescoço se quiser ler o dorso. Pior ainda, tem outra que segurou nosso símbolo maior… de cabeça pra baixo! (Fosse no tempo dos militares, seria chamada a prestar esclarecimentos no quartel mais próximo.)

Até o momento em que escrevo, perto de dois milhões (yes, dois milhões!) de cidadãos ucranianos já foram acolhidos na fronteira polonesa. Nem o presidente do país foi lá apertar mãos, nem a primeira-dama foi dar beijinhos. Ninguém distribuiu bandeiras para mostrar às câmeras. Presidente de país sério costuma ter mais que fazer. E as equipes designadas para a acolhida conhecem as necessidades urgentes dos refugiados: comida quente, água e uma cama quentinha o mais rápido possível.

O capitão precisa fazer um estágio fora do país. Não há muita esperança de ele aprender, mas não custa tentar.

Curiosidade
Ninguém se preocupou muito com isso, mas o fato é que Bolsonaro não discursou. Para um homem que, além de ter o costume de falar pelos cotovelos, está em desabrida campanha eleitoral, pode parecer estranho. Tenho cá uma explicação.

Os filhos e os áulicos devem ter recomendado vigorosamente a ele que não abrisse a boca diante de microfones. Sabem por quê? Porque fica difícil dirigir-se a um grupo que escapou de uma guerra sem pronunciar a palavra “guerra”.

Cairia muito mal que Bolsonaro – que não esconde sua admiração por Putin, nem o apoio indisfarçado que dá ao ditador russo – falasse em guerra, quando essa palavra está proscrita da ‘narrativa’ oficial russa. Pelas bandas de Moscou, quem ousar se referir à invasão da Ucrânia como “guerra” arrisca passar uma dúzia de anos nos gelos siberianos. Preso.

O capitão, que é meio bobão, era bem capaz de escorregar. Vai daí, foi compelido a calar o bico. Melhor assim. Já imaginaram, logo ele, que zombou do Lula quando foi preso no conforto de uma cela cinco estrelas em Curitiba, acabar encarcerado numa masmorra siberiana?

A sala de visitas de Putin

José Horta Manzano

Em diversos países da Europa, o uso comercial da expressão “saldos” é protegida. Isso quer dizer que toda venda de saldos é regulamentada. A palavra não pode ser usada por qualquer comerciante, pra vender qualquer tipo de mercadoria, a qualquer preço, em qualquer época do ano. Só pode ser usada durante a época fixada pelas autoridades que regulam o comércio. Nem antes, nem depois. Isso lhe agrega valor. A época dos saldos é aguardada ansiosamente.

O período dos saldos é especialmente apreciado por comerciantes de roupas. E por seus clientes, naturalmente. É que o comércio de peças de vestuário, além de sazonal, é sujeito às variações da moda. Os saldos são autorizados durante algumas semanas em janeiro (para liquidar o estoque encalhado de roupas de inverno) e, de novo, em julho (para o vestuário de verão).

Conforme o país, as vendas especiais duram de 3 a 4 semanas, às vezes até mais. Os primeiros dias têm o efeito de uma sexta-feira negra (em português: black Friday). Antes da abertura das lojas, já tem gente encostada à porta. Comerciantes que não trabalham com vestuário também aproveitam o embalo pra fazer caixa, vendendo alguns de seus artigos a preço de pechincha.

Quinta-feira passada, Señor Alberto Fernández, presidente da Argentina, esteve de visita a Vladímir Putin, em Moscou. Na foto, entre os dois dirigentes, aparece uma mesinha dessas que se usam pra pousar uma xícara de chá e, se der, pra ajeitar um pratinho (pequeno) para o bolo. Na mesinha que separava os dois, de tão minúscula, acho que nem bolo ia caber.

Terminada a visita, chegou o fim de semana. Vladímir Putin, que não tem o hábito de ir à feira comer frango com farofa, deve ter inventado outro programa. A agenda do dirigente russo não confirma, mas é possível que ele tenha aproveitado a folga pra dar uma espiada nos saldos de alguma loja de móveis. Não conheço os costumes locais, mas pode ser que os saldos de Moscou se estendam até fevereiro.

O fato é que, na segunda-feira 7, Monsieur Emmanuel Macron veio visitá-lo. A exígua mesinha de chá tinha desaparecido. Não se sabe onde foi comprada nem quanto custou a mesa ao redor da qual se sentaram Macron e Putin, mas, convenhamos, ela é im-pres-sio-nan-te!

Daqui a alguns dias, será a vez de nosso capitão fazer sua peregrinaçãozinha nas neves moscovitas. Vamos ver qual das duas mesas sairá na foto. A mini de chá ou a XXL dos saldos? A conferir.

Em tempo
Quem lê jornais em vez de ficar mergulhado na bolha sabe que a Rússia e a Ucrânia estão em pé de guerra. Putin encostou na fronteira com a Ucrânia um contingente militar de assustar. Fotos de satélite avaliam que cem mil homens estão ali, à espera da ordem de atacar. Um tiro de chumbinho na hora errada pode ser suficiente pra assustar todo o mundo e desencadear uma carnificina.

Macron, que bobo não é, entendeu a fragilidade da situação. Numa hora dessas, visitar um e ignorar o outro significa automaticamente que se tomou partido na briga. É exatamente o que Macron, a França e a Europa querem evitar. Nesta terça-feira, terminada a visita a Moscou, o presidente francês está em Kiev para uma conversa com o presidente ucraniano, Zelensky – que, por coincidência, também é Vladimir (ou Volodímir, como dizem eles). Se o encontro vai evitar a guerra, só o futuro dirá. Mas, pelo menos, Macron guardará o mérito de haver tentado.

Nosso capitão, que bobo é, vai se meter onde não foi chamado. O infeliz não consegue entender o frágil e o delicado da situação. Com os dois a ponto de se morderem mutuamente a orelha, lá vai o paspalhão visitar um dos contendores, ignorando o outro. Em linguagem diplomática, que é entendida por todos os governos do planeta, essa visita significa alinhamento com um dos beligerantes. Uma imensa estupidez para um Brasil que não tem nada a ver com aquele peixe. Não temos nada a ganhar com essa demonstração explícita de preferência por um dos lados.

A visita unilateral de Bolsonaro vai acrescentar agressão gratuita e desnecessária a mais um povo. O gesto será somado à longa lista das afrontas que já fizeram, ele e seu clã, aos EUA, à França, à Itália, à Alemanha, à Noruega, à Argentina, ao Chile, ao Peru. E, naturalmente, à China, vítima preferencial de suas ofensas de babaca boca-suja.

Ucrânia, seja bem-vinda ao clube! Sinta-se honrada! Amigo do capitão bom sujeito não é.

Genocida, não!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 janeiro 2022

A validade de um estudo científico só é autenticada depois de ele ter sido avaliado e abonado por um conjunto de reconhecidos cientistas da mesma área. É o que os ingleses chamam ‘peer review’.

Costuma-se traduzir essa expressão como ‘revisão por pares’, ‘revisão paritária’ ou até, um tanto desajeitadamente, ‘arbitragem’. A tradução flutuante vem do fato de não ser comum, entre nós, designar de “pares” os que exercem a mesma função ou os que pertencem à mesma categoria. Assim, qualquer tradução literal periga sair meio manca. Mas, pela atual tendência de integração de conceitos estrangeiros a nossa língua, a solução já foi encontrada: mantém-se a expressão inglesa, com casca e tudo.

A organização MedRxiv, cujo estranho nome se deve pronunciar “med-archive” (‘arquivo médico’) é um repositório online de preprints da área médica, clínica e de saúde. Preprint, como o nome sugere, é a publicação prévia de artigo científico ainda não validado pelos pares.

Agora vamos aos fatos. Alguns dias antes do fim de dezembro 2021, uma dezena de cientistas brasileiros assinaram, sob forma de preprint, um alentado estudo sobre a correlação entre vacinação, hospitalização e morte de maiores de 60 anos. A primeira constatação, como se imaginava, é de que a taxa de óbitos decresce à medida que a vacinação se generaliza.

Em seguida, os signatários do estudo valeram-se de fórmulas complicadas demais para serem descritas por não-iniciados como este escriba. O que interessa são as conclusões. E elas são comprometedoras para o governo brasileiro. O incrustado negacionismo gerado pela ignorância presidencial custou caro ao país. Em vidas humanas.

O estudo estima que milhares de idosos brasileiros foram salvos pela vacinação: um total de 75 mil, só no ano de 2021. Não fosse a vacina, esse contingente já não estaria mais entre nós. Essa é a parte decente da história. Em paralelo, há um lado bem mais sombrio.

Todos se lembram dos esforços envidados pelo capitão para frustrar – ou, pelo menos, retardar – a compra de vacinas anticovid. Baseados em análise dos dados e em cálculos atuariais, os cientistas chegam à conclusão de que, se a vacinação tivesse começado 8 semanas antes, 48 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Quarenta e oito mil mortes! Para efeito de comparação, essa hecatombe equivale à queda de 185 Boeings modelo 767 lotados, com 260 passageiros cada um, sem nenhum sobrevivente pra contar a história. Ou 4.800 desastres como o de Capitólio (MG), que ocupou as manchetes com suas 10 vítimas – um Capitólio por dia, durante 40 meses sem parar. Estamos falando apenas das mortes evitadas.

Muitos chamam Bolsonaro de genocida. Estão errados. Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é rigorosa: exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. É, portanto, limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos religiosos ou por loucura.

Os atos de Bolsonaro não correspondem à definição. Sabe-se que ele não gosta de pobre, mas a negação da pandemia não causou morte só de pobres. Sabe-se que ele tem medo de “comunista”, mas o atraso na compra das vacinas não mandou só “comunistas” pro cemitério. Sabe-se que ele é misógino, mas a louvação da cloroquina não matou só mulheres.

Bolsonaro tem alguns parafusos soltos. Sua loucura é apimentada por ignorância, poltronice e preguiça – condimentos explosivos, mas que não chegam a configurar um genocida que se preze. Genocidas verdadeiros, não houve tantos assim. O século XX conheceu alguns dos grandes, tais como Hitler (Alemanha), Pol Pot (Cambodja) e Stalin (URSS). Há outros menos conhecidos. Por mais que tenha feito, nosso capitão não entra nessa categoria.

Genocídio requer método e planejamento, conceitos que não frequentam o universo mental de Bolsonaro. Ele não passa de um ser perturbado, atrasado, sem instrução, paranoico, que chegou à Presidência numa esquina da história que não se repetirá. Está mais pra patacão que pra genocida.

Belonofobia

José Horta Manzano

Depois que a covid, firme e vigorosa, se agarrou ao mundo e não soltou mais, vêm sendo ressuscitadas palavras e expressões que cochilavam no fundo do armário junto aos saquinhos de naftalina.

Epidemia e pandemia, por exemplo, só saíam do armário pra lembrar surtos de tifo, varíola ou peste bubônica, coisa dos séculos de antigamente.

Ouvi ontem – pela primeira vez, que eu me lembre – a misteriosa palavra belonofobia. É composição erudita formada pelos elementos gregos βελόνα (belóna = agulha) + φοβία (fobia = pavor). Portanto, belonofobia (ou belenofobia) é pavor de agulha.

O único dicionário de língua portuguesa em que encontrei a palavra foi o Estraviz, dicionário benfeito mas pouco conhecido, que congrega o léxico português, o galego e o brasileiro. Ensina que belonofobia é o “receio mórbido em tocar agulhas, alfinetes e objetos que podem picar”.

Atrás dessa palavra, talvez se esconda o verdadeiro motivo de tanta gente rejeitar a vacina, a começar pelo capitão: pavor de agulha. No mundo, muitos entram nessa categoria.

Por alguma razão que desconheço, o povo brasileiro, com raras exceções, foge a essa recusa irracional. Estatísticas informam que apenas 2% de nossos conterrâneos entram na categoria dos antivax. Note-se que, em certos países da Europa, mais de 30% dos habitantes rejeitam a picada.

Eu desconfio que a imensa maioria dos ‘vacino-hesitantes’, embora não ousem confessar, têm mesmo é medo da agulha. À vista de uma seringa, já sentem as pernas bambeando.

Pra tentar convencer os hesitantes, a Suíça abriu um estágio de sensibilização. Gratuito e com duração de duas horas, o cursinho conta com a participação de enfermeiras e psicólogos que ‘apresentam’ seringas e agulhas aos participantes, suavemente, como quem leva as crianças ao serpentário pra mostrar cobra. O objetivo é esconjurar o medo irracional.

Se a técnica vai diminuir a quantidade de ‘vacino-hesitantes’, só o tempo dirá. Se funcionar, seria interessante pagar uma passagem para nosso capitão, pra permitir que ele participe também. Proponho fazer uma vaquinha pra comprar esse bilhete. De ida simples, de preferência, sem volta possível. Contribuo com gosto.

O estado e o cacete

José Horta Manzano

Os insultos que o capitão dirige aos que contrariam seus caprichos não surtem efeito. No começo, faziam as manchetes; hoje ninguém liga mais.

“Teu estado é o cacete!” – vomitou ele, elegantemente, quando informado de que o governador de São Paulo planejava reforçar o controle de estrangeiros que desembarcam em seu estado.

Ao pronunciar a requintada frase, o nobre líder quis reafirmar que continua se opondo firmemente a oferecer proteção ao povo brasileiro contra novas cepas de covid provenientes do exterior. Que todos enfrentem o vírus, pô! Peito aberto, sem medo e sem vacina! Todo o mundo tem de morrer mesmo!

Ainda bem que ele é, que eu saiba, o único dirigente do mundo a pensar assim. Se não, a humanidade estaria sendo dizimada.

No Brasil, ainda temos a sorte de viver numa federação, tipo de organização do Estado que dá aos governadores autonomia para decidir nos respectivos estados; é isso que nos tem salvado. Em outras partes do mundo, quem manda é o governo central, sem possibilidade de discussão. Imagine o Bolsonaro presidindo um país desses! Morticínio garantido.

Cresce a lista de países que apertam o cerco em volta dos que recusam a se vacinar. Aqui estão alguns exemplos:

Turquia
Desde agosto, prova de vacinação é exigida dos profissionais de alguns setores de atividade, entre os quais, professores.

Ucrânia
Desde outubro, a vacinação é obrigatória para funcionários públicos, incluindo professores. Além disso, os não-vacinados não têm acesso a restaurantes, locais esportivos e eventos em geral.

Polônia
A partir de março próximo, professores, funcionários do setor de segurança e agentes policiais serão obrigados a apresentar certificado de vacinação.

Letônia
Desde 12 de novembro, parlamentares não-vacinados estão impedidos de participar de debates e de votar. Além disso, não receberão salário enquanto não se vacinarem.

Itália
Desde outubro, o passaporte covid é exigido de todos que trabalham: funcionários, empregados, operários, professores, policiais, militares. Ninguém escapa.

Dinamarca
Lei votada em novembro autoriza empregadores a não aceitar a presença de funcionários não-vacinados.

Costa Rica
Desde setembro, a vacinação é obrigatória para todos os funcionários públicos.

Croácia
Desde 15 de novembro, tanto funcionários públicos quanto cidadãos que precisam de serviços públicos têm de mostrar o passaporte covid digital.

Áustria
A partir de fevereiro 2022, a vacinação anticovid será obrigatória para todos os adultos. Quem não obedecer será multado em 600 euros (3800 reais). A multa será renovada a cada três meses. Fazendo as continhas, uma família de 4 pessoas que recusar terminantemente a vacina vai pagar, em um ano, a impressionante soma de 9.600 euros (mais de 60 mil reais). Pra bater pé firme na recusa, só sendo abastado.

Alemanha
A Alemanha está em plena mudança de governo. Mas a obrigatoriedade está em estudo e deve ser anunciada brevemente.

Grécia
A partir de 16 de janeiro, os idosos (60 anos ou mais) que tiverem recusado a vacina estarão sujeitos a multa de 100 euros (630 reais) por mês.

Então, quem dá mais?

Cantem todos comigo: “Teu estado é o cacete!”

Nota 1 – Banco Mundial
Nossa sorte, além do guarda-chuva representado pelos governadores, é que ninguém dá ouvidos ao capitão. Segundo levantamento do Banco Mundial, o Brasil é o país latino-americano com menor rejeição à vacina. Uff!

Nota 2
Cacete – Acepções

Já tivemos presidente cacete.

Já tivemos presidente do cacete.

Já tivemos presidente que foi uma cacetada.

Um grande jogador de rugby francês tem um sugestivo sobrenome: Picamoles. (Lembrando que, em francês, o “s” final não é pronunciado.)

Disclaimer: Toda alusão a qualquer pessoa viva ou falecida terá sido coincidência fortuita e não-intencional.

Eolianas

José Horta Manzano

Em 1898, quando um certo senhor Hand Hansen, cidadão dinamarquês, adquiriu um pequeno estabelecimento familiar de fundição, sua intenção era apenas continuar a usar a forja para fabricar pregos e ferraduras. De fato, numa época em que a eletricidade era novidade, ele não tinha como imaginar que, 120 anos mais tarde, sua minúscula empresa teria evoluído tanto, e justamente nesse novo e misterioso ramo.

Passando pela construção de guindastes, já em meados do século 20, o negócio foi crescendo até assumir as gigantescas proporções atuais. A empresa, que hoje se chama Vestas, é a campeã mundial no ramo de construção de turbinas eólicas, com faturamento anual que supera os 12 bilhões de euros.

Aqui cabe uma digressão linguística. A turbina eólica é conhecida como “wind turbine” (=turbina de vento) em inglês. Em italiano, recebe o nome de “pala eolica” (=pá eólica). Windkraftanlage (=instalação [que explora] a força do vento) é o nome alemão. Os franceses escolheram um nome simples e poético: “éolienne” (=eoliana).

A palavra eolina não serve porque já está ocupada. No campo musical, dá nome a um pouco conhecido instrumento de sopro, que lembra um pequeno acordeom, mas é acionado pela força dos pulmões. É raro, mas existe.

Com tanto vento à disposição (e com o petróleo cada dia mais caro), o Brasil está despertando para a urgência de instalar parques eólicos, tanto em terra firme, quanto ao largo da costa. Espero e acredito que essas decisões não dependam da sanção do capitão, se não, estamos perdidos. Ignorante, é capaz de não entender a ameaça que pesa sobre a dependência de combustível fóssil.

Esta semana, a Enel – antiga estatal italiana de eletricidade, hoje privatizada – anunciou a inauguração da primeira parte de um projeto eólico realizado no Rio Grande do Norte. São 50 turbinas que geram 206 megawatts, energia suficiente para suprir as necessidades de meio milhão de habitantes.

Por seu lado, a dinamarquesa Vesta, herdeira da pequena forja que Senhor Hansen comprou 120 anos atrás, anunciou estar projetando a maior turbina eólica jamais construída. O protótipo leva o pouco poético nome de V236-15MW.

Suas dimensões são impressionantes: culmina a 300 metros de altura, com 3 pás de 100m de comprimento cada uma (mais que um gramado de futebol padrão Fifa). A capacidade da instalação será de 15 megawatts/hora, quase cinco vezes superior ao de uma turbina comum.

Uma única dessas gigantescas “eolianas” será capaz de suprir o consumo de 20 mil lares (60 a 100 mil habitantes) e deixar de lançar na atmosfera 38 mil toneladas de carbono por ano, que resultariam da queima de combustível fóssil. A primeira já foi encomendada para funcionar ao largo da costa dinamarquesa.

O perigo
O distinto leitor certamente já ouviu falar em Madame Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen. A família domina a paisagem da extrema-direita  francesa há 40 anos. O pai já foi, mais de uma vez, candidato à Presidência. Numa das vezes, chegou ao segundo turno. A filha idem: nas últimas eleições, disputou o segundo turno e acabou perdendo para Emmanuel Macron.

Como todo extremista, tanto de esquerda como de direita, Madame tem certas deficiências de raciocínio. É curioso, mas é assim: nenhum extremista consegue alcançar um patamar razoável de bom senso. Ficam todos na vociferação improdutiva.

Desde os anos 1960, a França decidiu apostar na energia nuclear para a produção de energia. É um sistema eficiente, porém arriscado. Mais e mais vozes se levantam para pedir reorientação da filosofia nacional, a fim de que o nuclear seja pouco a pouco abandonado e o país dê preferência a energias renováveis.

Pois acredite quem quiser: Madame Le Pen já propôs que todas as turbinas eólicas francesas sejam desativadas e desmontadas. Só não explicou como fazer para substituir a energia que deixará de ser gerada. O vento vai acabar varrendo suas ilusões – é o que esperam os franceses de bom senso.

O Brasil está sendo governado por um capitão extremista, dono de tantos defeitos que seria cansativo repeti-los aqui. Já pensou se, amanhã, um desses gurus que o cercam inventa de convencer o bobão de que turbina eólica não serve, e que bom mesmo é usina térmica movida a lenha?

Bye bye, Amazônia!

De conversa em conversa

José Horta Manzano

FHC e o Lula almoçaram juntos. E posaram para foto. E todos os veículos deram a notícia na primeira página. Assim que fiquei sabendo do encontro, minha primeira reação foi de perplexidade. “Como é que pode?”, pensei. “Parece que os dois perderam a cabeça! Com a idade, estão ficando de miolo mole.”

Dando uma vista d’olhos na imprensa, encontrei análises e reflexões sobre o almoço dos idosos. Analistas políticos reprovam. A reação generalizada é de rejeição. Cada um expõe as razões à sua maneira, mas todos torcem o nariz.

Parei pra pensar. E me lembrei de um episódio ocorrido muito tempo atrás, no final dos anos 1970, quando eu trabalhava na filial brasileira de uma indústria americana. Um belo dia, recebemos a visita de um figurão, um americano vindo direto da matriz. Dois dias depois, em reunião informal com os gerentes brasileiros, ele pediu informação sobre nosso principal concorrente, uma outra fábrica também situada em São Paulo, que produzia artigos semelhantes aos nossos.

Demos as informações. Ele então lança: “Quero ir visitá-los”. Estupor geral. Como assim? Visitar a concorrência? “E por que não?”, pergunta o estrangeiro. “Eu tomo um táxi, vou até lá, me apresento, digo em que firma trabalho, e peço pra encontrar o diretor”. Não foi fácil convencê-lo de que, no Brasil, as coisas não funcionavam daquela maneira. Não me lembro mais se ele acabou indo ou se ficou só na intenção.

Seria temerário generalizar a partir de um único caso. Mas ficou visível, no peculiar episódio da visita do americano, que o brasileiro tende a erguer barreiras que nem sempre têm razão de ser. Sem saber exatamente por que, a gente inventa que isto não pode, que aquilo não se faz, que aquiloutro não convém. São bloqueios que a gente faz por automatismo, sem pensar e sem medir.

No fundo, qual seria o motivo a nos proibir de ter uma conversa com um concorrente? Transpondo o raciocínio para o campo político, qual seria o motivo para FHC e o Lula se darem as costas e fazerem biquinho?

Volta e meia, soltamos o adágio “É conversando que a gente se entende”. Todos concordam com ele. No entanto, na hora agá, quando dois ex-presidentes que são vistos como adversários, se dispõem a trocar ideias, vem aquela torrente de protestos indignados. Não dá pra entender.

Pensando bem, acho que os dois fizeram muito bem de se encontrar, pouco importando as reclamações dos devotos deste ou daquele campo. O Brasil anda muito compartimentado. Vivemos num regime rigoroso que determina: ou você é deste lado, ou então só pode ser do outro; os daqui não podem conversar com os de lá; e vice-versa. Por que essa rijeza?

No encontro entre dois líderes políticos de correntes diferentes, realmente não vejo ameaça à democracia nem às instituições. Nem à moral, nem aos bons costumes. Tampouco vejo traição ou declaração de fidelidade. Acho que não se deve dar aos fatos mais importância do que eles têm. Não há motivo para dramatizar.

Que todos continuem a se encontrar e a conversar! É bem mais sadio do que ficar encastelado na própria bolha. Se, em vez de insultar inimigos imaginários, o capitão se dispusesse a bater um papo com eles, o Brasil estaria hoje menos crispado, e nós todos teríamos muito a ganhar. Afinal, é conversando que a gente se entende.

O destino de Pazuello

José Horta Manzano

Não acredito. Tirando esposa e família próxima, não acredito que alguém possa estar ‘preocupado’ com o destino do General Cloroquina. No fundo, no fundo, o que se quer mesmo é a prisão do capitão. Na impossibilidade, a do Pesadelo já serve de aperitivo e advertência.

O chefe não perde por esperar. A hora dele vai chegar um dia. Se chegou para um Lula, por corrupção passiva, por que não haveria de chegar para um Bolsonaro, corruptor ativo?

Vamos de cloroquina?

Prof. Didier Raoult, médico francês defensor da cloroquina contra a covid

 

José Horta Manzano

Esta semana, a Nature, conceituada revista científica britânica, publicou o resultado de uma análise sobre a administração de cloroquina e de hidroxicloroquina a pacientes que sofrem de covid-19. Nada menos que 94 cientistas endossam o estudo, que se baseou em quase três dezenas de ensaios clínicos efetuados com mais de dez mil pacientes.

Chegaram à conclusão de que o uso de hidroxicloroquina eleva a taxa de mortalidade. Já a cloroquina, molécula da mesma família, demonstrou ser simplesmente inócua. A fim de desestimular toda ideia de automedicação, os cientistas recomendam que pacientes de covid sejam alertados para esse perigo. Acrescentam que a administração de hidroxicloroquina potencializa o risco de hospitalização mais prolongada com frequente necessidade de intubação.

O estudo só vem reafirmar o que faz algum tempo que todos já sabemos: em caso de covid-19, cloroquina e hidroxicloroquina são medicamentos a banir. Na melhor das hipóteses, não fazem efeito nenhum; na pior, levam à morte. Tirando algum iluminado, como o professor Raoult – lombrosiano médico francês adepto ferrenho da cloroquina e da hidroxicloroquina –, todo profissional consciencioso devia passar ao largo desses medicamentos.

Não deixa de causar espanto que, no Brasil, muitos médicos (centenas? milhares?) continuem receitando e administrando essas moléculas a título de “tratamento precoce” de pacientes de covid. Será que esse pessoal não costuma se inteirar dos avanços da pesquisa científica? Não leem inglês ou, quem sabe, simplesmente não leem? Ou serão devotos fanáticos do capitão, daqueles que fazem tudo o que seu mestre mandar, sem parar pra refletir?

Talvez nenhuma das hipóteses mencionadas. Talvez a realidade seja mais tenebrosa ainda. É possível que, tendo estudado em escola de medicina de segunda categoria, estejam mal formados e despreparados para exercer a profissão. O que explica que não leiam pesquisa, visto que não entenderiam. O que também explica que sigam as orientações do capitão, visto que Bolsonaro lhes parece mais entendido no assunto do que os fracos professores que tiveram na escola.

Que São Benedito nos ajude!

Vacina em duas doses?

José Horta Manzano

General Pazuello – oficial que, apesar de ostentar três estrelas no galão, funciona como ordenança do capitão – está diante de um problema logístico. Dada sua fama de especialista na área, sua decisão deverá ser correta. Certo? Não sou general nem sou especialista em logística, mas desconfio que ele esteja escolhendo caminho equivocado.

O mundo anda correndo atrás de imunização contra a covid. Muitos querem, mas a vacina é pouca. Os laboratórios não dão conta. Se metade da humanidade tivesse de ser vacinada, seriam 4 bilhões de doses, volume que nem todos os fabricantes somados conseguiriam produzir em tempo razoável. O Brasil então, que dormiu no ponto e não passou encomenda, vai ter de esperar mais que os outros.

A entrega de vacinas prevista para os próximos meses não cobre as necessidades brasileiras. Pfizer e Astra-Zeneca, os principais fornecedores, preconizam que se apliquem duas doses espaçadas por um intervalo de quatro semanas. Revelam que a imunização adquirida após a primeira dose decresce e precisa ser reforçada pela segunda aplicação.

Países ajuizados decidiram seguir a recomendação dos fabricantes. Acreditam que mais vale imunizar corretamente, com duas doses, a faixa mais vulnerável da população para, em seguida, passar à fase seguinte e cuidar dos demais. Outros governos tomaram a decisão de fornecer a primeira dose a um número maior de cidadãos; a segunda dose virá se e quando estiver disponível, ainda que o prazo recomendado de 4 semanas tenha estourado.

Adivinhe por qual caminho doutor Pazuello está pensando optar? Pelo segundo, naturalmente. No papel, fica bonito: um número maior de indivíduos se sentirá protegido; no duro, não terão sido corretamente vacinados, mas pouco importa, visto que sai bem nas estatísticas. No frigir dos ovos, nem os vulneráveis nem os demais vão estar devidamente imunizados. Ao espaçar as duas doses, não se sabe o que pode acontecer. Talvez o efeito da primeira tenha se desmilinguido, o que obrigaria o paciente a receber não duas, mas três aplicações.

Pode ser que o ordenança do capitão ainda mude de ideia, nunca se sabe. Mas acho difícil. Como se sabe, a proteção da saúde dos brasileiros nunca esteve entre as prioridades daquele pessoal.

As qualidades do capitão

José Horta Manzano

A (longínqua) infância deste blogueiro foi povoada de capitães. Cada um, a seu modo, era herói.

O Capitão Nemo, que conduzia o submarino das 20.000 Léguas Submarinas, era sério, pouco dado a sorrisos, mas rigoroso e certeiro nas decisões.

Tinha também o Capitão Haddock, que aparecia nas aventuras do garoto Tintim e do cãozinho Milu. Com sua paixão pela bebida, estava mais pra anti-herói. Quando sóbrio, era rabujento mas não fazia mal a ninguém; bêbado, tornava-se irresponsável.

Popeye, embora não fosse capitão, tinha as qualidades que se esperam de um chefe: a retidão, a lealdade e o destemor. Nestas alturas, já deve ter subido de patente: terá sido nomeado capitão de longo curso.

O Capitão América, criado para encarnar os ideais americanos na Segunda Guerra, era portador das melhores qualidades do herói sem defeito. Faz tempo que a guerra acabou, mas o personagem continua por aí, ora eliminado, ora ressuscitado. Há sempre alguma guerra nalgum ponto do globo.

Tintim, Milu e o Capitão Haddock

Havia ainda o temido Capitão Gancho. Era capitão de verdade, comandante de galeão. Tirando a feiura e o jeitão assustador, não tinha grandes qualidades. Aquele gancho que lhe servia de mão era de tirar o sono dos pequeninos.

Nunca imaginei que um dia veria um capitão na Presidência do Brasil. Generais, vi desfilar vários. Civis puros e sem mistura, também. Mas nunca tinha visto, no trono maior, um senhor que se reclama de ambos os lados – militar e civil. E que, ainda por cima, não combina com nenhum deles. Como militar, é esquisito um simples capitão deter as atribuições (constitucionais) de comandante supremo das Forças Armadas. Como civil, é esquisito ver esse qualificativo aplicado a personagem tão incivil.

Pra dizer a verdade, não precisava nem o Capitão Nemo, nem o Capitão América no Planalto – seria pedir muito. Eu me contentaria até com um desajeitado Capitão Gancho, que só assustava criancinhas. Mas, que falta de sorte, fomos cair logo com o Capitão Cloroquina. Mon Dieu!

Apertem os cintos

Eduardo Affonso (*)

– Torre de comando, aqui é o capitão.

– Torre de comando na escuta, capitão. Prossiga.

– Quero trocar o engenheiro de voo, talquei?

– Durante o voo, capitão?

– Agora mesmo.

– Mas capitão…

– Eu sou o capitão, não sou? Quero colocar no lugar dele, hmmm, deixa eu ver, o comissário Éverton.

– O comissário Éverton tem conhecimentos para ser o engenheiro de voo?

– Ele trabalha no avião, porra. Conhece o avião. Já andou de avião. Quero o comissário Émerson como engenheiro de voo e pronto. O engenheiro antigo está demitido.

– Capitão, o senhor falou comissário Éverton ou comissário Émerson?

– Sei lá, porra. Um comissário aí.

– Está bem, capitão. O senhor está no comando, há de saber o que é melhor para a condução da aeronave até o seu destino.

– Eu andei pensando em mudar também o destino disso daí.

– O senhor quer mudar o plano de voo em pleno voo, capitão?

– Se os passageiros quiserem… E eu sei que os passageiros não estão satisfeitos de ser obrigados a viajar com o cinto afivelado, mesinha travada, não poder fumar… Tem muita gente insatisfeita com isso daí.

– Capitão, esses são procedimentos normais. É para a segurança dos passageiros e da tripulação.

– Falando em tripulação, eu não quero mais aquela aeromoça como chefe de cabine. Minha sobrinha, que está na poltrona 7F, é a nova chefe de cabine.

– Capitão, sua sobrinha trabalha na empresa? Tem os cursos?

– Contrata agora, porra. Contrato temporário. É que eu preciso de alguém de confiança na cabine enquanto eu vou lá fora trocar as turbinas.

– O senhor vai… trocar as turbinas?

– Vou. Elas estão me incomodando ali na asa. Não gosto de turbina zumbindo no meu ouvido.

– O senhor não prefere pousar primeiro para depois trocar as turbinas?

– Não. E quero as turbinas ali na parte de baixo. Naquele lugar ali, como é que chama? Aquele com pneu. Trem de pouso. Isso, quero as turbinas no lugar do trem de pouso.

– Capitão, vai ser difícil pousar sem os trens de pouso. Troque apenas a aeromoça e…

– Droga, tem uma luzinha vermelha acendendo aqui no painel. Ô da torre, como é que eu apago essa luzinha?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Se ditadura vier

José Horta Manzano

A hierarquização de funções é forte característica das Forças Armadas. E todo militar respeita a hierarquia. Quanto mais elevado estiver colocado na escala hierárquica, mais o fardado será sensível a qualquer quebra do respeito que o menos graduado deve aos que têm mais galões.

Na lógica militar, o inferior tem de respeitar o superior. Eis por que, na hora H, negaram apoio ao ministro Mandetta: entenderam que, ao afrontar o presidente, ele havia faltado com o respeito ao superior, ferindo assim os valores da hierarquia. Que o chefe esteja certo ou errado, pouco importa – o inferior tem de seguir as diretivas; se não estiver contente, que se vá.

Charles Chaplin in O Grande Ditador, 1940

A cada dia fica mais evidente que doutor Bolsonaro sonha em se apoiar nos militares para implantar uma ditadura da qual seria ele, naturalmente, o chefe maior. É urgente explicar a ele que, se os generais o respeitam hoje, não é pelo grau militar, mas porque foi eleito democraticamente, direitinho como manda a lei. Como presidente, é ele o chefe das Forças Armadas. Se, por hipótese, uma ditadura fosse implantada, a ordem democrática deixaria de valer e as cartas seriam redistribuídas.

No exato momento em que essa eventualidade tenebrosa ocorresse, Bolsonaro perderia a condição de eleito e retrogradaria à patente que tinha ao deixar o Exército. Aferrados à hierarquia, generais de quatro estrelas dificilmente se deixariam dirigir por um capitão da reserva que terá perdido o respaldo do voto popular. Portanto, se ditadura houvesse, seria sem o doutor.

Para azar nosso, o déficit de inteligência que acomete o capitão não lhe permite entender essa lógica. Vai daí, o homem continua clamando pela ditadura. Coisa de louco.