Trump, a bomba humana

Ruy Castro (*)

Milhões perderam o emprego por causa do coronavírus. Donald Trump não. A pandemia não obrigou a Casa Branca a fechar as portas. Em consequência, Trump continuou batendo o ponto, recebendo o salário e contando com as benesses de seu cargo, inclusive a de ter sua vida salva.

Não sejamos cínicos. Foi com euforia que o mundo recebeu a notícia de que ele caíra vítima da doença que já afetou 35 milhões de pessoas e cuja gravidade sempre negou. Nada de condolências ou preces hipócritas pela sua recuperação. Multidões torceram para que ele passasse pelos mesmos horrores que nossos parentes e amigos, como o de ser entubado, e, quem sabe, se juntasse ao mais de um milhão de pessoas que o vírus levou. Entre outros motivos, para que alguém menos irresponsável tomasse as rédeas nos EUA e interrompesse o nefasto exemplo que Trump dá a governantes beócios.

Daí o encanto com que acompanhamos a batelada de remédios que os médicos bombearam no seu organismo por uma miríade de orifícios. Trump foi recheado com coquetéis de anticorpos sintéticos, antivirais, melatonina, zinco, aspirinas e antiácidos, associados a quilos de drogas heavy metal como dexametasona, remdesivir e REGN-COV 2, enquanto eles o mantinham respirando com jatos de oxigênio capazes de inflar o dirigível Hindenburg. Só não lhe deram cloroquina porque queriam salvá-lo, não matá-lo.

Com tudo isso, não admira que ele tenha levado apenas três dias para ressuscitar, voltar ao trabalho e jogar fora a máscara. O problema agora é: quem vai proteger a Casa Branca da bomba humana que Trump se tornou, despejando perdigotos por onde passa e atingindo colegas, burocratas, seguranças, faxineiros e até os pobres correspondentes?

Trump declarou que se sente melhor hoje do que “há 20 anos”. Mentira. Há 20 anos ele estava apalpando mocinhas em público. Agora já não lhe serve de nada fazer isso.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Ética e utilidade pública

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mesmo sem ter sido chamada, quero meter o bedelho nessa disputa entre o veterinário que resolveu dar plantões gratuitos para atender a população carente e os Conselhos de Medicina Veterinária ‒ Regional e Federal.

Sinto-me qualificada para dar alguns pitacos nessa questão, uma vez que desfruto de longa experiência de convívio com cães e veterinários de todos os tipos. Já enfrentei muitos conflitos com profissionais míopes e mesquinhos. Já disse com todas as letras a vários que a medicina veterinária herdou muito pouco dos méritos da medicina humana e todos os seus defeitos. Nas duas áreas de especialização, não é nada incomum encontrar aquilo que chamo de “mecânicos de corpos”, que se limitam a tentar consertar sintomas de mau funcionamento orgânico pedindo uma lista infindável de exames desnecessários, caros e, por vezes, dolorosos.

Cachorro 26Alguns exemplos ilustrativos do que quero dizer. Certa vez precisei localizar um veterinário que se dispusesse a adotar um tratamento alternativo para combater a leucemia de minha cachorra, que consistia em combinar a quimioterapia convencional com um medicamento antroposófico. Uma das médicas que consultei recusou-se terminantemente a atender o caso, alegando que, caso o tratamento desse certo, eu iria dizer que o mérito era da medicina alternativa e, se desse errado, eu culparia a quimioterapia e ela. Ponto para a insensibilidade.

De outra vez, uma amiga próxima viu um cachorro passando mal bem em frente a um consultório veterinário vizinho e foi correndo até lá solicitar atendimento de urgência. O profissional em questão sequer se deu ao trabalho de olhar para o pobre infeliz. Dirigindo-se à mulher aflita, disse calmamente que só o atenderia se ela se dispusesse a pagar pelo tratamento, já que se tratava de um animal de rua. Placar até aqui: insensibilidade 2 x profissionalismo 0.

O jogo não termina aí, felizmente. Posso dar testemunho do espírito de grandeza, nobreza de alma, solidariedade e compaixão de vários outros médicos veterinários. Já passei por situações comoventes em que esses profissionais largaram tudo o que estavam fazendo para atender a uma emergência com meus animais, abriram suas agendas gentilmente para encaixar uma consulta ou gastaram um bom tempo ao telefone respondendo a meus temores, dúvidas ou, ainda, discutindo opções de tratamento que eu poderia utilizar por conta própria – sem cobrar a mais por isso e, algumas vezes, aceitando que eu pagasse dias mais tarde ou parcelando o pagamento.

Cachorro 27Voltando ao caso em questão, acho que, dessa disputa, há no mínimo um efeito colateral positivo a comemorar: ficamos sabendo todos que o Conselho de Medicina Veterinária existe e nos enfronhamos com alguns detalhes do código de ética dos profissionais da área. Somente o fato de esse conselho de classe ter despertado de seu sono secular e ter vindo a público dizer o que pensa dos desafios da realidade brasileira já é um superavanço. Quem duvidar pode acessar o site do emérito Conselho paulista e tentar encontrar nele algum espaço para fazer contato, registrar uma reclamação ou esclarecer uma dúvida. Quem encontrar qualquer forma de transpor o muro da solene indiferença com que a população é tratada concorre a um saco de ração premium de 15 quilos!

Algumas perguntas não querem calar na minha cabeça. Onde estão os fiscais do Conselho para verificar as condições higiênicas e o tipo de ingredientes usados por muitos fabricantes de ração para cães e gatos e para afiançar que as promessas contidas nas embalagens e nos anúncios publicitários correspondem à verdade? Onde estão os auditores do Conselho para monitorar os preços escorchantes praticados pelos fabricantes de medicamentos veterinários, produtos de higiene e limpeza especializados, petiscos e acessórios e determinar se a relação custo-benefício é realmente satisfatória? Por que o conselho não se incomoda com a prática quase universal de misturar a administração de clínicas veterinárias com a de pet shops?

Cachorro 29A reação do presidente do Conselho paulista, ao reafirmar que não se pode considerar como de utilidade pública o atendimento gratuito se o profissional não estiver vinculado a uma ONG ou instituição de benemerência e ameaçar punir o “infrator”, lembrou-me a que teve um arcebispo da Igreja Católica em um caso famoso ocorrido no nordeste do Brasil há alguns anos. Uma menina de apenas 10 anos, estuprada pelo próprio padastro, havia engravidado. Aflita, a mãe da garota procurou um ginecologista para se aconselhar. O médico garantiu à mulher que a gestação era de alto risco, já que o corpo esquálido da menina não conseguiria sustentar o feto até o final da gravidez. Concordaram ambos que o melhor caminho a ser seguido seria um aborto. A mãe, penalizada e indignada, autorizou a cirurgia. Quando o sacerdote soube do acontecido, resolveu excomungar de uma só penada a mãe, a menina e o médico. Ao ser interpelado sobre a razão de haver excluído o agressor da pena de excomunhão, candidamente alegou que o crime por ele cometido era de menor gravidade, já que não atentava contra a vida.

Na minha santa ingenuidade, eu acreditava que os ministros da Igreja Católica eram escolhidos para defender a alma de seus fiéis e não seus corpos. Como convencer, então, uma autoridade eclesiástica de que o que havia ocorrido era, na verdade, o assassinato de uma alma infantil? Fiquei tão indignada naquela ocasião quanto estou agora. Da mesma forma, eu ingenuamente acreditava que a missão do Conselho era defender o bem-estar animal e não proteger humanos acomodados de eventual “concorrência desleal”. Será que o código de ética da categoria não contempla nem penas por omissão de socorro, como acontece com médicos de gente? Recorri até ao dicionário para tentar entender os meandros semânticos da expressão “utilidade pública” e constatei, horrorizada, que é de fato preciso que o governo reconheça o caráter benemérito de uma instituição (não pessoa) para conceder a ela algumas regalias.

Cachorro 28Pensando bem, faz sentido, ao menos no que tange à lógica humana e à lógica comercial. Nossas leis também não são feitas para premiar os justos e os de bom coração, mas sim para impedir o avanço dos oportunistas e malfeitores. O que é de estranhar ‒ e lamentar amargamente ‒ é que os dignos representantes do Conselho de Medicina Veterinária não tenham aprendido nada com seus clientes e pacientes. Se um dia eles não tiverem nada mais importante para fazer, aconselho que assistam a milhares de vídeos que circulam todos os dias na internet a respeito de ética animal.

Auxiliar semelhantes – sejam eles da mesma espécie ou não – em situação de fragilidade ou de perigo iminente, mesmo que para isso seja preciso oferecer a própria vida, é cláusula pétrea de toda Constituição animal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Novo sufoco vem aí

José Horta Manzano

O portal RFI (Radio France International ― conglomerado estatal da mídia francesa) publicou, neste 6 de agosto, artigo sobre o atraso nas obras para os Jogos Olímpicos de 2016. Segundo a reportagem, John Coates, vice-presidente do CIO (Comitê Internacional Olímpico) criticou abertamente os preparativos, qualificando-os de “os piores” que havia visto em 40 anos de carreira.

Faltando apenas dois anos para o evento, somente 70% das obras previstas foram iniciadas. Isso significa que 30% delas se encontram ainda em estado de projeto. Não nos esqueçamos de que o Rio acolherá 15 mil atletas oriundos de 200 países. Sem contar as delegações e cerca de 8 milhões de turistas.

Um trecho do artigo é especialmente marcante. Transcrevo abaixo no original. Traduzo em seguida.

JO 2016Interligne vertical 9La baie de Rio où auront lieu les épreuves de voile toujours pas dépolluée

Une régate de voile a eu lieu ces derniers jours dans la baie de Rio de Janeiro, une épreuve test pour les autorités. L’occasion pour les sportifs de voir l’avancée de cette dépollution. Leur constat est amer. «Si les Jeux olympiques avaient lieu demain, nous aurions réellement un problème», c’est ce qu’a affirmé l’Australien, Mathew Belcher, médaillé d’or olympique de 2012 à Londres.

Les navigateurs ont été confrontés à l’extrême pollution de la Baie de Rio. Elle est tellement contaminée qu’il est interdit de s’y baigner. Certaines zones sont même devenues des égoûts à ciel ouvert. Car à l’heure actuelle, la moitié des eaux usées de la ville sont rejetées dans la baie sans être traitées. La ville s’est engagée auprès du Comité international olympique (CIO) à ce que 80% des eaux usées soit retraité d’ici les Jeux olympiques, mais les associations de protections de l’environnement n’y croient tout simplement pas.

Même si la Mairie de Rio affirme qu’il n’y aura aucun danger pour la santé des athlètes, il vaudra mieux que ces derniers ne tombent pas par-dessus bord. La situation à Rio de Janeiro reste extrêmement préoccupante, voire choquante.

JO 2016 2

Interligne vertical 9Baía de Guanabara, que acolherá as competições de vela, ainda não foi despoluída

Faz poucos dias, realizou-se uma regata à vela na baía do Rio de Janeiro, um teste para as autoridades. Era momento propício para os esportistas verificarem o andamento das obras de despoluição. A constatação é amarga. «Se os JOs tivessem de começar amanhã, teríamos um problema de verdade», afirmou o australiano Mathew Belcher, ganhador de ouro olímpico em Londres 2012.

Os navegadores viram de perto a poluição extrema da baía. O nível de contaminação é tal que é proibido entrar n’água. Algumas zonas são, de verdade, esgoto a céu aberto. Atualmente, metade do esgoto urbano é lançado, sem tratamento, na baía. A municipalidade prometeu ao CIO (Comitê Internacional Olímpico) que, antes da abertura dos JOs, 80% do esgoto da cidade já estará sendo tratado. As associações de proteção do meio ambiente simplesmente não acreditam.

Apesar de a prefeitura do Rio tranquilizar os espíritos garantindo que não há risco para a saúde dos atletas, será melhor que ninguém despenque do barco e caia na água. A situação no Rio de Janeiro permanece extremamente preocupante, pra não dizer chocante.

Interligne 18b

Preparem-se. O sufoco tende a se acentuar daqui a 2016.