A mudança do capitão

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José Horta Manzano

A imprensa publicou este flagrante do carregamento dos pertences do capitão (clique na imagem para ampliar). Os jornais descrevem como “mudança” do presidente, mas eu acredito que seria mais apropriado falar em “despejo”, que é a palavra adequada para o caso de alguém ser impedido de ficar, e sair de má-vontade.

Noto alguns detalhes curiosos. O objeto que está para subir no caminhão deve ser bem pesado, visto que há seis carregadores atarantados em torno, com ar de conjecturarem sobre o melhor modo de operar.

Note que o objeto não está saindo da residência presidencial (Alvorada), mas do Palácio do Planalto, centro nevrálgico do Executivo, onde fica o escritório do presidente, o gabinete do ódio e onde despacham os generais palacianos.

Pelo jeitão, se objeto não for um desconhecido mumificado, há de ser uma estátua representando uma figura humana em tamanho real. Estátua? Saindo do escritório presidencial? Como assim? Será que o capitão estaria subtraindo parte do patrimônio nacional, como Lula já fez no passado?

Pode ser que seja uma estátua de propriedade de Bolsonaro, trazida por ele para enfeitar sua sala. Ué, mas até as emas de Brasília sabem que Bolsonaro odeia a arte! Coisa mais esquisita.

Ouriços tchecos em Kiev

Suponho que a Presidência conte com uma governanta ou com um funcionário encarregado de controlar tapetes, quadros, mobiliário e outras obras de arte. Se o objeto misterioso tiver sido “tomado emprestado por descuido”, a verdade deve aparecer da próxima vez que fizerem o inventário. Por enquanto, fica o mistério.

Outro detalhe interessante é a proteção antitanque de guerra, aquela fileira de “ouriços tchecos” que se estendem de borda a borda da rampa. Inventados pouco antes da Segunda Guerra, esses dispositivos de aço espesso e resistente são de grande eficácia em situação de batalha urbana. Impedem a passagem de todo veículo leve ou pesado e até de tanques de guerra.

Na rampa do Planalto, estão pintadinhos de branco, que é pra evitar chocar alguém. Quem terá mandado instalar? O presidente quase ex-presidente ou o ex-presidente quase presidente? Ao subir a rampa, dia 1° de janeiro, será que Lula & acompanhantes vão ter de saltar por cima desses obstáculos? Vai ser um espetáculo pra lá de gracioso, não percam!

Pra vocês verem quanto uma foto despretensiosa pode nos revelar. Basta observar.

O buraco é mais à frente

Carlos Brickmann (*)

O presidente Bolsonaro pensa que seu maior problema é o Congresso. Não é: tudo o que pode ser resolvido com dinheiro não é problema, é custo. Sim, está sendo caro: evitar impeachment, evitar CPIs, o investimento é alto mesmo. Mas não é um problema.

Para evitar o constrangimento de levar uma proposta indecente a um parlamentar decente, o Brasil criou uma novidade tecnológica: a turma disposta a ouvir os argumentos do Poder Executivo – e, ao menos em um caso famoso, de até entubá-los – usa código de barras em local visível. Facilita o diálogo, evita incompreensões, não se perde tempo.

Mas o maior problema não é o Congresso (nem é o Congresso a solução). A turma do código de barras quer é levar vantagem em tudo. E, se já foram pagos, qual o problema de mudar de posição? Trair e coçar é só começar.

O grande problema do presidente Bolsonaro é um grupo de trabalhadores que já acreditou nele: os caminhoneiros. Como já acreditaram (e já levaram um pé no pazuello), conversar com eles é difícil. Talvez não aconteça nada, pois não há cúpulas que os comandem; mas, se acontecer, os caminhoneiros programaram sua parada para esta segunda-feira.

Se não pararem, Bolsonaro poderá continuar pensando o tempo todo no governador João Doria. Mas se houver paralisação, todo o país terá problemas sérios. Bolsonaro também.

Boa parte das mercadorias viaja de caminhão. Uma greve derruba o abastecimento. Vai faltar até leite condensado para o pão de Sua Excelência.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Antes tarde

José Horta Manzano

A primeira estrada de ferro comercial ligando duas cidades foi inaugurada na Inglaterra em 1830. Ligava Liverpool a Manchester.

Estadão, 4 março 2017

Estadão, 4 março 2017

Com perto de 200 anos de atraso, o Brasil começa a se dar conta de que o transporte ferroviário é, de longe, mais interessante e vantajoso que o rodoviário. Antes tarde que nunca.

Força, Brasil!

A infraestrutura

José Horta Manzano

«Carregado com 37 toneladas de soja, o sete eixos de placas HKE 0878, dirigido por Sonildo Alves de Souza, de 40 anos, saiu da Fazenda São Luis, em Ipiranga do Norte, no Mato Grosso, na sexta-feira, dia 8. O motorista atravessou quase 2 mil quilômetros, numa viagem de quatro dias, até chegar ao Porto de Santos, litoral de São Paulo, no começo da noite de segunda-feira. Mas chegar é uma coisa; entregar a encomenda, é outra. Sonildo teve de esperar 31 horas na fila de caminhões para descarregar no terminal de granéis da T-Grão, na Avenida Silo do Porto de Santos.

No final da tarde de terça-feira, 20 horas depois da chegada à Baixada Santista, o cargueiro servia de sombra para a rede do motorista, estacionado perto da Praça Guilherme Aralhe, onde fica a empresa T-Grão Cargo – Terminal de Granéis, endereço final da soja do cerrado. “Antes da meia-noite não descarrega”, previa Sonildo, atirado na rede, já conformado com a longa espera na fila dos caminhões.»

Esses são os dois primeiros parágrafos do artigo de autoria de Pablo Pereira, publicado pelo Estadão online de 17 de março. Para quem se interessar em continuar a leitura, fica aqui o endereço.

Caminhão 2

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Faz alguns anos que se fala nas vantagens que traria a implantação de um trem-bala no trecho Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro. Pode até ser. Por meu lado, acredito que os trinta ou quarenta bilhões que teremos de desembolsar para essa obra faraônica seriam bem mais úteis se empregados para ressuscitar nossas antigas ferrovias.

Se a Europa pode dar-se ao luxo de calcar sua logística majoritariamente em transporte ferroviário, por que não poderíamos nós? Trem é poderoso, forte, seguro, não poluente, confiável. Uma só composição pode transportar carga equivalente à de dezenas de caminhões. Dos grandes. Trem não tem medo de chuva, barro, tempestade, vento.

Se nem os Estados Unidos, sempre na ponta do progresso tecnológico, abandonaram suas ferrovias, por que devemos nós banir as nossas?Caminhão 1

Segundo a canadense Michelle Lalande-Dery, autora do livro La suite des idées (Les Editions Lucange, Québec, Canadá), a via férrea apresenta vantagens consideráveis. Algumas estão elencadas abaixo:

A ferrovia é o meio de transporte ecológico do futuro, movido a energia limpa.

O transporte de frete por trem consome 1/3 da energia necessária para transportar o mesmo peso por estrada.

Um trem pode transportar uma tonelada de mercadoria por uma distância de 169km com um litro de combustível.

No caso de locomotivas movidas a diesel, o reservatório tem capacidade para 15’000 litros. A maior parte dos trens pode percorrer mais de 1600km sem precisar reabastecer.Caminhão 3

Numa distância de 1 km, um caminhão consome 13 vezes mais energia que um trem para transportar uma tonelada de frete.

Uma via férrea de um único par de trilhos equivale a uma via expressa de 14 pistas paralelas.

Um comboio de 200 vagões transporta tanto quanto 400 carretas rodoviárias.

Acrescentar um único trem de frete à rede equivale a retirar da circulação até 280 caminhões.

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