Imprevidência social

José Horta Manzano

«O Crédito Pessoal Consignado é uma linha de empréstimo pessoal para você usar como quiser» ‒ é assim que um grande banco brasileiro apresenta o «produto». Chamativo, parece um negócio da China. Mas convém desconfiar, que nem tudo que reluz é ouro.

Velhice 5O Senado da República acaba de aprovar medida provisória que permite ao trabalhador do setor privado dar as economias amealhadas no FGTS como garantia para tomar empréstimo. «Para usar como quiser» ‒ a propaganda é clara. Embora venha travestida de bondade, a medida é trágica, um atentado contra as camadas menos abastadas da população.

Poupança nunca foi nosso ponto forte. Por razões históricas e resistentes, grande parte de nosso povo vive na corda bamba, na base do «amanhã, vamos ver», à espera do milagre virá na hora da necessidade.

Velhice 4Poucos têm algum tipo de amortecedor ou de colchão que lhes garanta trégua ou desafogo na necessidade. Cidadãos jovens, com força e ânimo, têm mais chance de superar situações adversas. O aperto maior vem nos velhos dias, quando toda atividade remunerada cessa. Antigamente, a solidariedade de parentes e descendentes paliava. Pouco a pouco, o esgarçamento do tecido familiar tradicional impôs a generalização do sistema de aposentadoria.

Assim mesmo, a renda de velhice era pouca, nem sempre dava para o gasto. Foi essa lacuna que o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço quis preencher. Instituído em 1966, veio complementar segurança econômica de idosos. Respondendo a tendência planetária, outros países também adotam instituto análogo.

Até na Suíça, um pecúlio obrigatório para assalariados existe desde 1985 destinado a reforçar os proventos dos idosos. Diferentemente do que ocorre no Brasil, essa poupança é realmente reservada para os velhos dias. O único caso em que pequena porção pode ser retirada antecipadamente é para compra de casa própria. Faz sentido. Ter moradia contribui para a segurança econômica.

by Jean-Louis Calmejane, artista francês

by Jean-Louis Calmejane, artista francês

A aberrante MP, editada nos estertores do governo de dona Dilma, vai no sentido errado: esvazia os fundamentos do FGTS. Foi mais uma comprovação de que, para salvar a própria pele, nossos governantes estão dispostos a qualquer abominação. A anuência dos senadores é escândalo ainda maior.

O FGTS tem de continuar fiel a seu princípio: garantir vida mais digna aos que trabalharam a vida inteira. Acenar com créditos eventuais «para você usar como quiser» desvirtuam a poupança.

O Brasil e seus estádios falidos

«As primeiras arenas já apodrecem, a corrupção devora milhões e a crise financeira piora tudo: dois anos após a Copa do Mundo no Brasil, as doze cidades-sede continuam tentando digerir as consequências.

Falta dinheiro para reembolsar os empréstimos. Faltam torcedores para encher os estádios. Faltam turistas nos hotéis. E os projetos de mobilidade continuam até hoje na fila das obras que não saíram do papel. Nada disso é de bom augúrio para o que virá depois dos Jogos Olímpicos.

Os doze estádios e as doze cidades pagam hoje o preço do gigantismo de uma Copa que vinha carregada de promessas. Tudo isso é mau presságio para o Rio, sede da Olimpíada.»

Interligne 18h

Esse trecho foi extraído de matéria publicada em 12 jul° 2016 no portal alemão Sport, especializado em assuntos esportivos. Mostra preocupação com o desenrolar da Olimpíada. Para iniciados, aqui está o texto original.

Estadio 1«Brasilien und seine Pleite-Stadien

Die ersten Arenen verrotten bereits, die Korruption verschlingt Millionen und die Finanzkrise macht alles nur noch schlimmer: Zwei Jahre nach der Fußball-WM in Brasilien haben die zwölf Ausrichterstädte noch an den Folgen der Copa 2014 zu knabbern.

Es fehlt Geld, die Kredite zurückzuzahlen. Es fehlen Fans, um die Stadien zu füllen. Es fehlen Touristen in den Hotels. Und Verkehrsprojekte stecken bis heute im Planungsstau. Kein gutes Omen für Rio und die Nach-Olympia-Zeit.

Brasilien hatte sich viel von der WM 2014 versprochen. Die zwölf Stadien und Städte bezahlen noch heute für den Gigantismus. Für Olympia-Gastgeber Rio verheißt das nichts Gutes.»

Frase do dia — 307

«Chegamos a um ponto em que já despontou um germe de conflito entre Poderes, a classe política está desmoralizada e de todos os lados se tenta enfraquecer o governo. Mas poucos ignoram que, se o atual governo não chegar a dezembro de 2018, será porque foi dado o passo que faltava para o colapso final.»

José Augusto Guilhon Albuquerque, cientista político, em artigo do Estadão, 13 jul° 2016.

De fininho

José Horta Manzano

O século e meio que vai da coroação de Luís XIV (1654) até a queda definitiva de Napoleão (1815) marca o apogeu da França. Naquela época, o país dominava grande parte da África e possuía vastos territórios nas Américas. Seus braços se estendiam até o Extremo-Oriente e a arquipélagos do Pacífico.

A influência francesa sobre os demais países europeus era esmagadora. Marcas desse tempo subsistem até nossos dias em numerosas línguas, especialmente em inglês. Está aqui uma lista não exaustiva. Ela também inclui expressões adotadas mais tardiamente.

French pastry = tortinha doce recheada de chantilly ou de frutas

French dressing = molho vinagrete para salada

French chalk - Giz de alfaiate

French chalk – Giz de alfaiate

French telephone = telefone que combina, numa peça só, a recepção e a transmissão da voz. (Em contraposição ao modelos anteriores, em que fone de ouvido e microfone eram peças separadas)

French bread = pão francês, baguette

French chalk = giz de alfaiate

French doors = porta-janela

French fries = batata frita

French horn = trompa (instrumento musical)

French seam = costura em que duas peças de tecido são superpostas

French letter = (vulgar) preservativo

French heel - Salto estilo anos 2910

French heel – Salto estilo anos 1920

French cricket = (esporte) críquete modificado e adaptado ao gosto francês

French loaf = pão francês comprido

French pancake = panqueca fina, crepe

French polish = laca

French kiss = beijo de língua

French skipping = brincadeira infantil para três crianças e uma corda circular contínua

French disease = (antiquado) sífilis

French cuff = manchette (de camisa)

French knitting - tricô tubular

French knitting – tricô tubular

French beans = vagem

French knickers = faca curta usada por caçadores

French marigold = (flor) tagetes, cravo-amarelo, cravo-de-defunto

French plait (braid) = trança (de cabelo)

French roll = espécie de penteado feminino, chignon

French toast = espécie de pão tostado de um lado só; ou ainda: pudim de pão

French knitting = tipo de tricô de aspecto tubular

French boxing = boxe francês, semelhante ao boxe tailandês

French pastries - doces com creme ou frutas

French pastries – doces com creme ou frutas

French manicure = estilo sofisticado de corte de unha

French harp = (EUA) gaita

French cap = gorro

French chop = (culinaria) tipo de corte de carne

French maid = auxiliar doméstica

French custard ice cream = sorvete cuja receita leva ovos

French dip sandwich = sanduíche de carne com pão embebido no caldo

French endive = endívia, chicória de Bruxelas

French roof - Telhado vertical

French roof – Telhado vertical

French twist = coque (de cabelo)

French cleaners = lavagem a seco

French curve = régua de desenho curva (hoje suplantada por aplicações de computador)

French eye needle = agulha de dois buracos

French fly pants = (vestuário) braguilha com dois botões

French heel = salto curvo de sapato feminino, estilo anos 1920

French knot = técnica especial de bordado em que se enrola a linha na agulha antes de dar o ponto

French curtains = cortina pesada, trabalhada, de brocado ou tecido espesso

French skipping - Brincadeira infantil com corda

French skipping – Brincadeira infantil com corda

French onion rings = rodelas de cebola à milanesa

French poodle = poodle (cão)

French casement = janela de dois batentes

French press = cafeteira, usada amplamente na França, com êmbolo para extrair o café

French drain = dreno construído sem uso de cimento

French roof = telhado inclinado, quase vertical, que permite a construção de cômodos de estilo mansardé

French silk pie = espécie de torta recheada de mousse de chocolate

Pardon my French = desculpe-me pelo que vou dizer. Costuma-se usar a expressão antes de pronunciar palavra(s) vulgar(es). Corresponde a nosso “com o perdão da palavra”, já caído em desuso.

Interligne 18b

A recíproca, no entanto, não é verdadeira. Em francês, fatos e gestos ingleses são pouco usados em expressões. Em compensação, para dizer «sair de fininho», os ingleses dizem «take a French leave» (sair à francesa), enquanto os franceses preferem «filer à l’anglaise» (escapar à inglesa). Cada cabeça, uma sentença.

Observação
Algumas expressões são usadas exclusivamente no Reino Unido. Outras são conhecidas unicamente nos EUA. Uma poucas são coloquiais, no limite do tabuísmo.

Os cães ladram

José Horta Manzano

Quando a insistência é demasiada, a gente desconfia. Entre milhares de erros e de passos em falso cometidos pela dupla Lula/Dilma, com assistência de assessores duvidosos, está a facilitação da entrada da Venezuela no Mercosul. Um erro monumental.

Não é demais lembrar como se deu a entrada do novo sócio. As regras do clube estipulam que novos membros sejam obrigatoriamente aceitos pelos demais ‒ por unanimidade. No caso venezuelano, Brasil, Argentina e Uruguai já havia concordado. Último dos moicanos, o Senado paraguaio resistia. Entrava mês, saía mês, e nada de aprovarem a entrada de Caracas.

Mercosul 4À época, o presidente do país era Monsenhor Lugo. Rabo de saia, o eclesiástico era acusado de haver transgredido em repetidas ocasiões o voto de castidade. Libidinagem não costuma derrubar presidente; má gestão, sim.

Foi justamente por não tê-lo considerado capaz de continuar à frente do país que o congresso paraguaio o destituiu da presidência. O impedimento, embora tenha sido processado a toque de caixa, não feriu as disposições da Constituição paraguaia.

Doña Cristina Kirchner e doutora Dilma Rousseff não entenderam assim. Numa intromissão descabida em assuntos internos do país vizinho, argumentaram que a destituição do monsenhor tinha sido inconstitucional. De castigo, presentearam o Paraguai com um ano de suspensão do Mercosul.

País suspenso não é sinônimo de país excluído. Ainda que temporariamente impedido de participar dos debates rotineiros, o Paraguai manteve seu estatuto de membro fundador e de integrante do Mercosul. Toda decisão que exigisse unanimidade dos membros teria de contar com o voto guarani. Cristina e Dilma passaram por cima dessas miudezas. Valeram-se da suspensão para abrir a porta para a Venezuela. A porta dos fundos, na verdade.

Não ficou claro até hoje por que razão Brasil e Argentina se empenharam tanto para emplacar a Venezuela como sócia. Há quem alegue razões de ideologia. Fico de pé atrás. Nem Cristina nem Dilma nem os respectivos partidos são lá paradigmas em matéria ideológica. A aliança entre Lula e Maluf que o diga. A meu ver, embaixo desse angu tem carne. Conhecendo os protagonistas, é lícito desconfiar que a insistência se prenda a obscuras transações.

Mercosul 3Já emperrado por lutas intestinas, nosso infeliz Mercosul não precisava de um sócio malvisto por dez entre dez democracias do planeta. Não se pode dizer que o bloco tenha ganhado com a entrada do sócio problemático. A mais recente enrascada está acontecendo estes dias.

Em princípio, pelo sistema de rodízio, Caracas deveria assumir, pelos próximos seis meses, a presidência do Mercosul. O desconforto dos demais sócios é palpável. Entregar a presidência ao caudilho Maduro? Ninguém concorda. Reuniram-se em Montevidéu pra discutir sobre o assunto. A Venezuela não foi convidada. Assim mesmo, para aflição dos demais, a ministra de Relações Exteriores apareceu de surpresa.

Como em filme cômico, os enviados de outros países evitaram encontrá-la. Foi o retrato acabado de um bloco inerte, sem ação, sem importância, sem escapatória, sem futuro.

No fundo, no fundo, pouco importa que a presidência pro tempore seja exercida por este ou por aquele sócio. De qualquer modo, as discussões que se travam nessas cúpulas lembram aqueles cães que ladram sem se dar conta de que caravanas passam, avançam e progridem. Que continuem ladrando, tanto faz.

Direitos & deveres

José Horta Manzano

Certos pormenores, embora pareçam insignificantes, dão recado certeiro. O distinto leitor já terá reparado que, no Brasil, fala-se muito mais em direitos do que em deveres, pois não?

Desde o sublime direito de ir e vir até o folclórico «exijo meus dereito», passando por todas as garantias intermediárias, sempre tive a impressão de que temos direitos demais e deveres de menos.

Direito de expressão

Direito de expressão

Diz a lógica que não se pode gastar o que não se tem. A Lei de Responsabilidade Fiscal é materialização desse princípio. A cada despesa, tem de corresponder uma receita, caso contrário, o jeito é tomar dinheiro emprestado. E endividamento em excesso acaba provocando, sabemos, o rompimento da corda. Em geral, do lado mais fraco, que assim são as coisas.

A mesma lógica ensina que, a direitos, hão de corresponder deveres. Se o trabalhador tem direito a salário, tem o dever de trabalhar para merecê-lo. Se o espectador tem direito a assistir a um filme, tem o dever de pagar o bilhete de entrada no cinema. Se vigora o direito ao pensamento crítico e à sua livre expressão, contrapõe-se o dever de respeitar a honra e a dignidade da pessoa criticada.

Direito de fazer fila na entrada da fábrica São Paulo, anos 1910

Direito de fazer fila para entrar na fábrica
São Paulo, anos 1910

A Constituição é o arcabouço de nosso contrato social. Nenhuma lei, nenhum dispositivo, nenhum regulamento pode contrariá-la. Assim, direitos e deveres básicos já constam, em esboço, em nossa Lei Maior. Não sei se alguém já teve a curiosidade de contar quantas vezes os termos «direitos» e «deveres» aparecem no texto de 1988.

Pois eu tive. É singular. A palavra direitos, no plural, é mencionada 78 vezes. Surpreendentemente, o termo deveres, só aparece… 6 vezes. O distinto leitor leu bem: meia dúzia de vezes. Em nosso país, a não relação ‒ pra não dizer o divórcio ‒ entre os dois conceitos parece institucionalizada.

Jogo do bicho

Jogo do bicho

Maldade
Levei a curiosidade um pouquinho além. Quis saber qual era a relação entre 78 e 6. Dividindo um pelo outro, dá exatamente 13. Ô numerozinho complicado, sô! Na dezena, é borboleta. No grupo, é galo. No andar de cima, está mais pra ave de rapina.

É pura coincidência. Aquele partido político ‒ hoje em via de expulsão dos polos do poder ‒ sequer deu voto favorável à Constituição de 1988.

Cara de paisagem

José Horta Manzano

Melhor fazer cara de paisagem.

Deixa como está pra ver como fica.

Faz de conta que não é comigo.

Cocô, quanto mais se mexe, mais fede.

Não estou nem aí.

A arma mais contundente é o desprezo.

Interligne 28a

Todas as línguas têm uma coleção de ditos que giram em torno do mesmo assunto. Apesar disso, tem gente que não aprendeu a lição. Eu aprendi faz muitos anos.

Numa certa época, eu tinha um chefe muito chato. Severo, insistente, difícil de suportar. Como não sou de levar desaforo pra casa, costumava contestar toda ordem que colidisse com minha maneira de ver. Vivíamos, assim, em constante estado de beligerância, feito cão e gato, cada um com quatro pedras no bolso, pronto a atirar. A coisa ia de mal a pior até o dia em que um colega me deu um conselho pra lá de útil.

Tribunal«Quando o chefe lhe pedir pra fazer alguma coisa, ainda que você não esteja de acordo, não discuta. Faça de conta que concorda, diga que vai fazer e pronto» ‒ disse ele.

«Mas e se eu concordar, vou ter de fazer mesmo sem ter vontade, não?» ‒ respondi.

E ele: ‒ «Não, não necessariamente. Faça de conta que você concordou. Não reclame. Não discuta. Não conteste. Se você deixar de transformar cada conversa em conflito, pode escrever: meia hora depois de pedir, o chefe terá esquecido do assunto. E não virá cobrar.»

E não é que funciona, gente? Desde então, já testei inúmeras vezes. Não costuma falhar. Quanto menor importância se der ao assunto, mais rapidamente ele sairá da atualidade. Dito assim, parece uma evidência. No entanto, há gente que parece não ter entendido.

Estes dias, em manifestação de rua, apareceu um boneco inflável que, embora não esteja identificado, lembra muito o presidente do STF. As decisões de qualquer tribunal sempre alegram uns e desagradam outros. É da vida. O STF não escapa desse ritual.

Pixuleco 7Quanto ao boneco, nenhuma reação seria de esperar de parte dos juízes-mores, figuras ilustres que, imagina-se, estão acima dessas estudantadas. Em situações como essa, mais vale fazer cara de paisagem. Dois dias depois, com a avalanche de fatos novos que se atropelam, ninguém mais se lembraria do boneco.

O augusto tribunal não entendeu assim. Pediu que a PF investigue e faça luz sobre hipotética «campanha difamatória». Na hora, ficou claro que… a carapuça tinha servido.

Resumo da ópera
O boneco, que nada mais é que manifestação bem-humorada, ainda vai dar pano pra mangas. Enquanto o povo vai-se esquecendo de outros bonecos ‒ o do Lula e o de dona Dilma ‒ esse aí pode ter vindo pra ficar.

Da missa a metade

José Horta Manzano

Você sabia?

Um deputado paranaense propôs, o Congresso votou e o presidente sancionou lei que afeta o Código Nacional de Trânsito. O dispositivo, que entrou em vigor neste 8 jul° 2016, altera a redação de dois artigos do CNT.

Encurtando a história, todo condutor está agora obrigado a «manter acesos os faróis do veículo, utilizando luz baixa, durante a noite e durante o dia nos túneis providos de iluminação pública e nas rodovias». Quem desobedecer se expõe a sanção de 85 reais e quatro pontos. O valor da multa até que é modesto, mas os quatro pontos são doídos.

Carro 13E de onde é que vem essa ideia? Não conheço a origem. Sei que, faz décadas, o uso de farol baixo é obrigatório nos países escandinavos, mas não sei se foram os pioneiros. Por seu lado, conheço a situação na Europa. Por aqui, a obrigatoriedade também existe, mas os especialistas foram mais zelosos no estudo de causas e efeitos. Quem passeia pela Europa e vê que carros costumam trafegar, dia e noite, com farol aceso pode até imaginar que todos usam farol baixo. Não é bem assim.

Estudos demonstraram que, se farol baixo faz que o veículo seja mais visível, é ultravoraz em consumo de energia. Mal regulado, pode até ofuscar, tornando a emenda pior que o soneto. Chegou-se à conclusão de que era mais eficiente instalar pequeninas lâmpadas de LED de baixíssimo consumo. Não servem para iluminar o caminho, mas para fazer que o veículo seja visível. Não perigam estar mal reguladas.

Carro 12A partir de 2011, todos os carros novos postos em circulação na UE são dotados dessas pequeninas lâmpadas LED. Basta ligar o contacto para que se acendam. Essa solução traz três vantagens.

A primeira é que o motorista não precisa se preocupar em lembrar: basta ligar o motor e pronto, as lâmpadas se acendem automaticamente. A segunda vantagem é que o sistema funciona o tempo todo, enquanto o carro estiver de motor ligado, seja dia ou noite, seja dentro de túnel ou fora, seja na cidade ou na estrada. A terceira vantagem ‒ essa é boa para quem conduz ‒ é que ninguém periga ser multado.

Carro 14Os proprietários de carros mais antigos, não dotados de sistema de lampadinhas LED, são fortemente encorajados a ligar o farol baixo o tempo todo. Mas não são obrigados a fazê-lo.

Taí um exemplo da falta que faz uma boa assessoria parlamentar, de olho vivo e aberta ao mundo. A proposta do deputado, que acabou mexendo na regulamentação brasileira, era bem intencionada, mas podia ter sido aperfeiçoada. Parlamentares e assessores ouviram da missa a metade.

Crime e castigo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma notícia chamou ontem minha atenção, quando eu, já cansada com a rotina de traduções, me preparava para desligar o computador e relaxar.

Contava a história de uma mulher que havia ido buscar o filho de 5 anos na escola. O garoto foi ao encontro da mãe, alegre e saltitante como de hábito, e, mesmo diante da pergunta sobre como havia sido seu dia, negou que alguma coisa de especial houvesse ocorrido. A supervisora de ensino, que estava ao lado, decidiu então refazer a pergunta da mãe: “Tem certeza de que não tem nada mais a contar para sua mãe?”

O garoto abaixou a cabeça, constrangido, e acabou contando à mãe que naquela tarde havia desrespeitado a fila para entrar na sala de aula e, irritado com a demora, ao invés de pedir licença, havia empurrado uma coleguinha. Aturdida com aquele relato inesperado e sem saber ao certo como proceder, a mãe optou por não reagir de imediato. Manteve silêncio durante todo o trajeto de volta para casa, limitando-se a comentar que havia ficado muito triste com o comportamento do filho.

Briga 6Ao chegarem em casa, a mãe sentiu que estava na hora de ter uma conversa franca com o filho. Colocou-o de pé em frente a ela e, olhando-o bem fundo nos olhos, apontou a inadequação de seu comportamento e discorreu brevemente sobre as consequências da agressividade infantil. Em tempos de discussão da cultura do estupro, adicionou a advertência de que “não se deve bater em mulher”. Não bateu nele, não gritou, não o desqualificou. Com voz calma, disse apenas que, como castigo, ele deveria ficar isolado em seu quarto por algumas horas.

O menino assentiu. Foi para o quarto e ficou até a hora de dormir. Quando a mãe o procurou mais tarde para o jantar, ele pediu desculpas, abraçou a mãe e prometeu nunca mais repetir aquele gesto. Enternecida, mas ainda não inteiramente convencida de que o aprendizado havia se completado, a mulher resistiu o quanto pôde à tentação de mimá-lo. Aceitou o pedido de desculpas e, com cara séria, foi dormir.

Flor 8No dia seguinte, a caminho da escola, a mãe teve uma súbita inspiração para pôr um ponto final feliz naquele episódio. Parou em um mercado, levou o filho até a seção de floricultura e pediu que ele escolhesse uma flor para a coleguinha agredida. Orientou-o a entregar o presente, acompanhado por um pedido público de desculpas. O garoto assim fez. A menina, surpresa com a delicadeza do gesto, aceitou o presente, mas só concordou em abraçar o garoto e perdoá-lo quando autorizada pela própria mãe.

Mal consegui terminar a leitura da notícia. Uma onda forte de emoção tomou conta de mim, enchendo meus olhos de lágrimas. Por que uma história tão corriqueira como essa mexeu tanto comigo? Talvez por um motivo bastante singular: aconteceu no mesmo dia em que a presidente afastada enviou sua defesa por escrito à comissão do impeachment, alegando que “Herrar é Umano” ‒ ops, perdão ‒ errar é humano.

O vídeo educacional mais instigante a que já assisti abordava exatamente essa máxima. De forma criativa, um repórter interpelava uma mãe na antessala de um consultório médico: “A senhora concorda com a frase que diz que errar é humano?” A mulher respondia de chofre que sim. Na sequência, o repórter indagava: “Quer dizer que, se o pediatra de seu filho errar o diagnóstico ou a medicação, estaria tudo bem?“ A mulher, num pulo e com ar indignado, reagia com um sonoro não.

«A imaginação é uma faculdade fundamental de nosso psiquismo. O imaginário é tão velho quanto a humanidade. Nasceu e morrerá com ela.» by Michel Barthélémy (1943-), artista belga

«A imaginação é uma faculdade fundamental de nosso psiquismo. O imaginário é tão velho quanto a humanidade. Nasceu e morrerá com ela.»
by Michel Barthélémy (1943-), artista belga

Em outra cena, o mesmo repórter entrevistava um praticante de voo de asa delta e repetia a pergunta. Mais uma vez, o jovem, concentrado na tarefa de verificar a correta colocação do cordame, dizia concordar com a máxima, mesmo sem muita reflexão. O repórter prosseguia: “Quer dizer que, se você ou outra pessoa se distraírem durante a checagem de segurança do voo, você vai entender?” Horrorizado com a possibilidade de um acidente, o rapaz balançava negativamente a cabeça atônito e se voltava com mais afinco à tarefa que estava executando.

Não é preciso agregar nenhuma conclusão moralista ou moralizante a essas duas histórias. Cada um deve saber onde lhe apertam os calos. Quanto a mim, não tenho cabeça para refletir sobre nenhuma moral edificante para histórias tão contrastantes. Ainda estou flutuando sobre uma nuvem cor-de-rosa, meus ouvidos ainda embevecidos com o som diáfano de um coral de anjos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Carcereiro suíço

José Horta Manzano

A ocasião faz o ladrão ‒ segundo a sabedoria popular. Fico com um pé atrás. Acho que ladrão já vem feito independentemente de ocasião. E ocasião, minha gente, é que não falta, nem cá nem lá. Se a sabedoria popular estivesse mesmo correta, viveríamos num mundo de ladrões. Enfim, melhor não enveredar por esse assunto, que os tempos andam meio sensíveis.

Prisioneiro 3Cerca de um mês atrás, a polícia suíça prendeu preventivamente um carcereiro. Contra ele, pesa acusação de corrupção passiva por ter vendido celulares e maconha a dezenas de prisioneiros.

Como em filme americano, prisioneiro passa frequentemente por acareação com cúmplices e confrontação com testemunhas. É também instado a dar esclarecimentos complementares. Nosso carcereiro não escapou à rotina. E não é que apareceu algo mais?

Fato surpreendente surgiu. Descobriu-se que, além dos já confessados, o homem cometeu crime de lavagem de dinheiro, «malfeito» pouco habitual em prontuário de carcereiro. O homem teria deixado corromper-se por um dos inquilinos da prisão ‒ por acaso, um brasileiro.

Dinheiro lavagemLogo no começo da história, o guardião e o brasileiro preso tornaram-se amigos, o que facilitou as coisas. Na sequência, o guarda forneceu vários telefones celulares ao preso para permitir-lhe comunicar-se com família, amigos e comparsas. Mas o mais importante vem agora.

O prisioneiro estava na cadeia por ter assaltado boa quantidade de caixas eletrônicos na região de Genebra. Apesar da prisão do criminoso, o dinheiro nunca foi encontrado.

Dinheiro voadorA amizade com o guardião foi preciosa. O preso deu a dica completa ao carcereiro amigo. Enquanto o brasileiro continuava na cadeia ‒ ainda está lá ‒, o guarda se encarregou de recolher o fruto dos assaltos (30 mil francos suíços = 100 mil reais) e de remeter a dinheirama ao Brasil. Não foi divulgada a propina cobrada pelo guardião.

O advogado do carcereiro garante que o cliente desconhecia a origem dos fundos transferidos ao Brasil. Ah, bom.

Interligne 18c

Nota etimológica
Cárcere serve para guardar criminosos e delinquentes. Arca serve para guardar dinheiro e preciosidades. Não é espantoso que as duas palavras tenham parentesco longínquo.

Cárcere vem de raiz antiquíssima, já encontrada no sânscrito. No grego antigo, evoluiu para a voz arkeô, fruto da mesma árvore, com sentido de trancar, impedir a passagem, reter. Daí vem nossa moderna arca.

Em latim, a mesma raiz evoluiu para carcer, com o significado de recinto rechado, prisão. Alguns linguistas enxergam parentesco entre cárcere e coerção. Nesse ponto, não estão todos de acordo.

Brexit ‒ 3

Cabeçalho 11

José Horta Manzano

Britânicos expatriados
Por volta de 1,3 milhão de britânicos vivem longe da pátria mas dentro da União Europeia. Em matéria de acolhida a cidadãos do Reino Unido, a Espanha é campeã absoluta. Juntando ingleses, galeses, escoceses e norte-irlandeses, perto de 400 mil residem em terras do rei Felipe VI.

Não só na Espanha
Há britânicos espalhados por toda a Europa. Na França, são 172 mil. Na Alemanha, quase 100 mil. A Itália abriga mais de 70 mil originários do Reino Unido. Até Portugal, não obstante o território pouco extenso, conta com quase 20 mil súditos de Elizabeth II.

A especificidade belga
A Bélgica é um caso à parte. As estatísticas informam que 28 mil britânicos residem no país. Embora o número não seja impressionante, há que ter em mente que boa parte desse contingente é constituído por funcionários das instituições europeias.

Bandeira UE UKPorta fechada
O regulamento da UE estipula que, para ser admitido, o funcionário tem de ser cidadão de um dos países-membros. Assim que o Reino Unido deixar oficialmente a UE, todos os britânicos se tornarão estrangeiros da noite pro dia. E os funcionários, que será deles?

Não tenho nada com isso
Naturalmente, há funcionários cuja função está rigorosamente ligada ao fato de o Reino Unido ser membro da União. Para esses ‒ deputados e assessores ‒ não há esperança: vão perder o emprego. Mas há outros, a maioria. São tradutores, intérpretes, técnicos especializados em diferentes áreas. A partir do momento em que seu país deixar de ser membro, vão se tornar tão estrangeiros como um vietnamita ou um mongol. Que fazer?

Quero ficar
Coisas nunca antes vistas estão acontecendo. Grande número de cidadãos britânicos residentes na Bélgica estão apresentando pedido de naturalização. Felizmente, a legislação belga não é rigorosa na hora de conceder cidadania a estrangeiros. Exige que o candidato tenha morado ‒ legalmente ‒ e trabalhado no país por cinco anos. Pede ainda que fale uma das línguas oficiais: francês, holandês ou alemão.

Passaporte 4A língua fica
Com a saída do Reino Unido, sobram na União Europeia apenas dois países nos quais o inglês é língua oficial: Irlanda e Malta. Mas que ninguém se engane. Dado que o bloco tem 24 línguas oficiais, as falas e, principalmente, os documentos têm de ser traduzidos para todos esses idiomas. Funcionários capazes de traduzir diretamente do estoniano para o búlgaro ou do tcheco para o finlandês são raros. Para contornar o problema, costuma-se traduzir em duas etapas, passando pelo inglês. Daí a absoluta necessidade desta última língua, que continuará importante com ou sem o Reino Unido.

Degradação
Com a queda da libra esterlina, o Reino Unido deixou de ser a quinta economia do planeta. Desceu um degrau e cedeu o lugar à França.

Welcome to Hell

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem manda um tweet ou um sms pode-se permitir um errinho aqui, uma inadequação ali. Se faltar um pedaço, o mundo não vai acabar: na mensagem seguinte, completa-se. E a Terra continua a girar.

Há papéis mais solenes. Há casos em que o erro ou a omissão não se podem admitir. Um pronunciamento de figurão da República é definitivo, não tem como voltar atrás, entra para a História. A saudação que dona Dilma fez à mandioca já faz parte do folclore nacional. Daqui a dezenas de anos, depois que nos tivermos ido todos, manuais escolares ainda vão recordar, irônicos, a frase bizarra.

Destino igual há de ter aquele vídeo em que nosso guia explica ‒ diante de plateia admirativa ‒ que a poluição que castiga o Brasil não é culpa dos brasileiros, mas da rotação da Terra. Fosse o planeta retangular ou quadrado, o problema não existiria. Impagável.

Constituição 4Mais séria ainda que declarações de presidentes ignorantes é a lei. Erro ou imprecisão em texto legal pode ter consequências complicadas. Estive passeando pela Constituição brasileira. Logo no comecinho, entre os artigos que traçam o perfil e o caminho do país, está o que define as liberdades fundamentais.

Art. 5º
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

O artigo é longo, mas o essencial está dito nessas primeiras linhas. O arguto leitor há de ter reparado que a coleção de direitos não inclui todos. Estende-se a brasileiros e a estrangeiros residentes no país. Pergunto eu: como ficam os turistas, que não são brasileiros nem estrangeiros residentes? Não têm direito à vida nem à segurança? Más línguas dirão que, ao pôr os pés em território nacional, ninguém tem a vida e a segurança garantidas ‒ nem os de lá nem os de cá. Mas não é hora de brincar.

Welcome to Hell ‒ Bem-vindos ao Inferno

Welcome to Hell ‒ Bem-vindos ao Inferno

O texto constitucional tem falha gritante. Ao tentar ser sucinto e reunir numa só frase disposições desconexas, escorregou. Uma alínea deveria especificar que o direito à vida, à segurança, à igualdade e à liberdade são garantidos a quem se encontrar no território nacional, pouco importando que sejam brasileiros, estrangeiros residentes ou forasteiros de passagem. Outra alínea teria de tratar do direito à propriedade, que pode não se estender automaticamente a não residentes.

Do jeito que está, turistas que se aventurarem a visitar o Brasil não têm direito constitucional à vida nem à liberdade nem à igualdade nem à segurança. Num tempo de Jogos Olímpicos, pega mal pra caramba.

Dissidência

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Meu reino de escriba por uma dissidência não gratuita!

Não peço explicitamente por um cavalo, mas tomo o cuidado de informar de antemão que a dissidência, um jeito diferente de pensar, argumentado com clareza e destemor, funciona para mim exatamente como um cavalo. Monto nela e volto à arena com o coração pulsando ainda mais forte, cheio de novos brios. Cavalgo a discordância em pleno gozo, sentindo meus músculos mentais se retesando e os ventos da paixão intelectual batendo na minha pele, me estimulando a seguir na luta.

Idade Media 3Nenhum governo se sustenta sem oposição. O regime do meu cérebro não é diferente. Precisa desesperadamente de um antagonista que o faça explorar contradições, limites, dúvidas e certezas. Que o force a pulsar, alternando momentos de expansão e de retraimento. Que encoste no seu peito a lâmina fria da espada de um outro intelecto.

Admito que hoje em dia não é nada fácil ser oposição. O contraditório é agora quase que um insulto, um tapa na cara de quem ousa se posicionar. Vivemos tempos de intolerância, de esgrima mental e verbal. Esquecemos que as palavras são meros instrumentos, cheios de som e fúria, mas que não significam nada em si mesmas. Temidas hoje como faca na mão de crianças, não mais na de cirurgiões.

É pena. Precisamos nos exercitar sempre. Pensar é desobedecer a Deus, disse Fernando Pessoa através da pluma de Álvaro de Campos. Acredito nisso. Pensar, para mim, é denunciar a onipotência do outro, ser iconoclasta, recusar-se a idolatrar o carneiro de ouro da superioridade moral ou intelectual. Contraditar é uma forma benfazeja de emparelhar ângulos de visão, redesenhar fronteiras, encontrar uma perspectiva própria.

Parlamento UKQuando navego pelas redes sociais, não consigo ocultar de mim mesma o desconforto com aquele oceano de platitudes e de eterna reafirmação mútua. Pode soar presunçoso, mas não preciso de afagos a meu Narciso. Claro que sempre dá aquele calorzinho gostoso no peito descobrir que se tem almas gêmeas no mundo, mas sei que o demônio da vaidade costuma atacar por meio delas.

Preciso de alguém que dialogue comigo e que, aceitando o intercâmbio corajoso de opiniões, me devolva a sensação inebriante de estar viva, lúcida. A adesão irrefletida, sem contestação, a meus pontos de vista só faz dissolver aos poucos a atração que experimentei no início. Me emburrece, me empobrece emocionalmente. Tem um efeito tão deletério em meu psiquismo quanto a discordância pela mera discordância.

O confronto leal, por outro lado, tem o condão de me devolver a meu tamanho natural. Sinto-o como uma demonstração de respeito, uma forma de reconhecer a legitimidade de meus sentimentos e de minha maneira de pensar a vida. Reafirmo como um mantra para tentar salvar a mim mesma: a verdade liberta, a integridade seduz.

Idade Media 2Saibam todos os que me lerem que, para mim, os laços afetivos pressupõem a existência de duas pessoas inteiras e separadas. Se uma aceita se dissolver como ser pensante na outra em nome da preservação da relação, o jogo amoroso desaparece, vira tédio. E, lamentavelmente, nem todo mundo se dá conta hoje em dia que o melhor antídoto para realimentar o fogo do amor é a dissensão ocasional.

Duvida? Cantarole comigo:

“O amor da gente é como um grão,
Uma semente de ilusão,
Tem que morrer para germinar…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Vaquinha virtual

José Horta Manzano

Proponho a organização de uma «vaquinha virtual» ‒ a expressão está na crista da onda! ‒ para financiar meia dúzia de dicionários. Destinam-se aos fazedores de manchetes e chamadas na grande mídia.

Investir em Instrução Pública dá mais futuro que chamar de volta presidentes de passado tenebroso.

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Não é «nonogenário». Aquele (ou aquilo) que já passou dos noventa anos é nonagenário. Qualquer dicionário confirma.

Apagando a História

José Horta Manzano

Nos anos 1960-1970, enquanto a Europa optava pelo aperfeiçoamento da malha ferroviária ‒ que desembocaria na construção das atuais linhas de trem-bala ‒, uma ideia um tanto tosca da modernidade fez que, no Brasil, fosse dada prioridade ao transporte por rodovia. Poderosos lobbies petroleiros deram empurrão certeiro ao projeto tupiniquim.

Vendeu-se a ideia de que o trem era um meio de locomoção ultrapassado. Empolgada com a recente instalação de filiais de montadoras estrangeiras, a opinião pública imaginou que o progresso havia chegado. E aplaudiu a ideia. Em poucos anos, linhas de estrada de ferro foram desativadas. Até os bondes foram mandados para o esquecimento.

Minhocão, São Paulo ex-Costa e Silva, agora João Goulart

Minhocão, São Paulo
ex-Costa e Silva, agora João Goulart

Em vez de privilegiar o transporte coletivo por ferrovia, racional e econômico, prioridade foi dada à locomoção individual. O automóvel, apesar de ser ineficiente, barulhento e poluidor, passou a representar o objeto do desejo. Cada um queria ter o seu.

Placa 21Estradas tiveram de ser construídas. Nas cidades, o número de carros cresceu exponencialmente. Rios foram enterrados para dar lugar a avenidas. O tráfego foi-se tornando infernal. Para «desafogá-lo», vias elevadas tiveram de ser erguidas. Entre elas, o ultraconhecido Minhocão paulistano. Seguindo onomástica tradicional, foi-lhe atribuído o nome de um figurão da época. Por artes do destino, o nome oficial nunca foi usado pelo povo. Nasceu Minhocão e assim continua.

Em decisão tomada esta semana, a Câmara Municipal de São Paulo ‒ cujos 55 vereadores, decididamente, não devem ter muito que fazer ‒ decidiu alterar o nome da via elevada. A denominação oficial de Elevado Presidente Costa e Silva vai às favas. Em seu lugar, entra outro presidente. Em documentos oficiais, o Minhocão torna-se Elevado Presidente João Goulart.

Placa 22É sempre melhor que Elevado Presidente Dilma Rousseff, convenhamos. Ainda assim, a decisão soa como tentativa bisonha de refazer a História. O que aconteceu, aconteceu. Não tem como mudar. Muito menos cabe a uma Câmara Municipal, seja ela a da maior cidade do país, tomar a si a tarefa de apagar o passado à sua conveniência.

Senhor Costa e Silva pertence a uma casta de medalhões que mudaram, à força, o regime vigente no Brasil. Está longe de ser o único, que a casta é avolumada. Não tenho simpatia particular por esse senhor. Aliás, devo dizer que, tendo vivido no exterior durante seu inteiro mandato, pouca notícia tenho do personagem.

Certo é que, sozinho, ninguém faz revolução nem dá golpe. É preciso contar com bom número de auxiliares, acólitos, cúmplices e simpatizantes. Se o ato da Câmara paulistana reflete intuito generalizado de apagar o nome dos que participaram de todas as mudanças forçadas de regime, há muito trabalho pela frente. Milhares de logradouros terão de ser renomeados. E não só em São Paulo.

Igreja da Memória, Berlim

Igreja da Memória, Berlim

Placa 19Comecemos por D. Pedro I, aquele que deu um golpe no próprio pai. Sigamos com Deodoro da Fonseca, aquele que, traiçoeiramente, apeou do trono o imperador legítimo. Continuemos com Getúlio Vargas, o sorridente baixinho que derrubou presidente eleito e conduziu o país com mão de ferro. Aliás, Filinto Müller, chefe da política política de Vargas e torturador notório, continua a dar nome a um logradouro da mesma São Paulo.

É inútil tentar ocultar a memória de um passado doloroso. Tê-lo em mente é a melhor maneira de evitar que se repita. Tentativas isoladas de pasteurizar a História aparecem como obra de um bando de eleitos ignorantes, que não entenderam bem por que razão foram eleitos nem o que estão fazendo ali.

Na fila dos passaportes

José Horta Manzano

Até em Cuba os ventos estão mudando de quadrante. A cerca de arame farpado virtual que constringia os cidadãos e os impedia de deixar a ilha está-se afrouxando. Nos tempos em que as farpas da cerca eram ainda mais afiadas, aquela blogueira que afrontava o regime teve de ter muita paciência e insistir durante anos pra conseguir um visto de saída.

Passaporte brasileiro 2O Brasil nunca foi de segurar cidadãos. Desde que os primeiros aventureiros e piratas aqui aportaram, entrou e saiu quem quis. Desde que o cidadão tivesse meios de financiar a viagem, tinha liberdade pra ir e pra vir. Mas as coisas mudam ‒ e nem sempre na boa direção.

Saiu estes dias uma informação que nos aproxima da Cuba dos anos mais espinhudos. Passaporte solicitado à PF na cidade de São Paulo leva quatro meses para ser emitido. Trocado em miúdos, se o distinto cidadão se candidatar agora, tem chances de receber o documento em novembro. Enquanto isso, pode esperar sentado.

A razão da demora? Falta papel. Falta papel… Falta competência, cáspite! Não consta que tenha havido aumento brusco na demanda de passaportes. Portanto, o problema não vem de lá. O que se deduz é tremenda falta de planejamento. Alega-se que, na Casa da Moeda, uma máquina deixou de funcionar. Toda máquina é susceptível de enguiçar hoje ou amanhã. Prevendo isso, toda organização séria tem, guardado na gaveta, um plano B. Na Casa da Moeda, ainda acreditam em Papai Noël.

Fila do passaporte, São Paulo

Fila do passaporte, São Paulo

Foi a PF quem teve de improvisar seu plano B. Mediante cobrança de uma «taxa de emergência», expede o documento em prazo mais curto. Atenção: não se trata de passaporte de emergência, aquele que sai em 24 horas. É modalidade intermediária, uma novidade. Mostra que toda lei é feita pra ser burlada.

Não sei o que ressente o distinto leitor. Quanto a mim, tenho às vezes a sensação de estarmos andando pra trás.

Interligne 18cNota difícil de acreditar
Atualmente, há 191 mil pessoas na fila, todas esperando pelo precioso documento. Um número pra cubano nenhum botar defeito.

Nota birrenta
O assunto saiu da atualidade. Assim mesmo, fico me perguntando se a família Lula da Silva devolveu os passaportes diplomáticos que nosso guia concedeu ‒ indevidamente ‒ a todos os membros da famiglia, no seu último dia de mandato. Abuso de autoridade não é crime? Taí mais um pra adicionar ao prontuário do chefe-mor.