Colapso se agrava?

José Horta Manzano

De origem latina, a palavra colapso é originariamente de uso científico. Em medicina, dá nome à síndrome de insuficiência cárdio-circulatória aguda. Em engenharia, diz-se que há colapso quando uma estrutura deixa de suportar ao conjunto de forças externas. Em astrofísica também se usa essa palavra para descrever determinados fenômenos.

Muito apropriadamente, a língua de todos os dias tomou o termo emprestado para indicar situações em que aquilo que devia funcionar já não consegue fazê-lo, por algum motivo.

Nestes tempos de pandemia, a grande preocupação das autoridades – falo de autoridades sérias e civilizadas, não necessariamente de nosso presidente – é preservar o sistema nacional de saúde para evitar que entre em colapso. Em sentido figurado, o colapso equivale à estrutura de um edifício que, ao colapsar, provoca o desmoronamento do prédio, sem nada que se possa fazer para evitar.

A chamada do jornal diz que o “colapso hospitalar se agrava”. É uso inadequado. Se o funcionamento de uma UTI (ou, pior ainda, de um hospital inteiro) entrar em colapso, isso quer dizer que a UTI (ou o hospital inteiro) parou de funcionar, que não dá mais conta. Não é o que a chamada quis informar.

Não se deve falar em “colapso que se agrava”. Se a palavra colapso, que soa bem, tiver de ser usada, melhor será dizer:

que a situação se aproxima do colapso,
que o colapso se aproxima,
que há risco de colapsar,
que o colapso já aponta no horizonte,
que há forte ameaça de colapso,
que o colapso é iminente.

Não dá realmente pra dizer que o colapso se agrava. Colapso é fenômeno definitivo: colapsou, babau.

Tuíte – 8

José Horta Manzano

Um estudo publicado hoje pelos epidemiologistas da respeitada Escola de Estudos Superiores de Saúde Pública, da França, revela que o rigoroso confinamento que a população está obrigada a cumprir salvou o país de uma hecatombe.

As regras extremamente rígidas da quarentena à la française evitaram 60 mil mortes a mais nos hospitais. Se essa multidão tivesse de ser acolhida, as UTIs do país não teriam conseguido acompanhar, os hospitais teriam entrado em colapso e o sistema de saúde pública teria desmoronado.

Hoje, diante do achatamento da curva de novos casos, o desconfinamento já está em curso; será progressivo, devendo se estender até o mês de junho.

Tuíte – 7

José Horta Manzano

No fundo, no fundo, governantes não estão ligando a mínima para a saúde do povo. O que querem é evitar todo escândalo que os possa impedir de permanecer no poder. Para atingir o objetivo, caminham sempre na corda bamba: pra escapar de um escândalo, não é aceitável provocar outro.

Se dirigentes do mundo inteiro – com exceção de 3 ou 4 renitentes – estão submetendo a população a algum tipo de confinamento, não é tanto que estejam atristados com a perspectiva de perder certo número de conterrâneos. O que apavora é o colapso do sistema hospitalar.

O confinamento, que seja mais rigoroso ou menos, está aí justamente pra evitar esse afluxo excessivo. No dia em que cidadãos doentes baterem à porta de hospitais lotados, sobrecarregados e incapazes de atendê-los, estará instalado escândalo tonitruante.

Governadores e prefeitos ajuizados entenderam o perigo e fizeram como estão fazendo praticamente todos os países: aderiram às diretivas da OMS e editaram regras de distanciação social e de confinamento.

Ao insistir na negação da realidade e do bom senso, doutor Bolsonaro dá mais uma prova de seu déficit de inteligência. Se sua doutrina desvairada fosse seguida, o circuito brasileiro de saúde pública sofreria rápido aumento de pacientes e o colapso seria líquido e certo. O escândalo seria instantâneo. No fundo, ele está sendo salvo pela diligência de governadores e prefeitos ajuizados.

Frase do dia — 307

«Chegamos a um ponto em que já despontou um germe de conflito entre Poderes, a classe política está desmoralizada e de todos os lados se tenta enfraquecer o governo. Mas poucos ignoram que, se o atual governo não chegar a dezembro de 2018, será porque foi dado o passo que faltava para o colapso final.»

José Augusto Guilhon Albuquerque, cientista político, em artigo do Estadão, 13 jul° 2016.