Tracambistas

José Horta Manzano

Na Suíça, país onde a mão de obra tem custo elevadíssimo, faz tempo que se tende a mecanizar o trabalho humano. A “moça do café” nunca existiu. Quem quiser adoçar a boca, enfia uma moedinha na máquina que fica no corredor, aperta o botão correspondende, e pronto. A profissão de cobrador de ônibus também é desconhecida. No tempo em que se comprava passagem dentro do veículo, quem vendia era o próprio motorista.

Já faz muitos anos, porém, que não se pode mais comprar bilhete dentro de ônibus. Para não viajar de “pendura”, arriscado a ser flagrado e levar multa, há duas opções. Para quem usa transporte coletivo frequente e regularmente, é conveniente comprar assinatura mensal ou anual – paga-se de uma vez e não se pensa mais nisso. Outra possibilidade, preferida pelos que viajam menos, é a compra a varejo. Cada vez mais gente compra pelo smartphone, mas boa parte dos bilhetes ainda é comprada nas máquinas instaladas em cada ponto de ônibus.

Antigamente, eram máquinas simples. Pelo menos, assim me pareciam. Hoje em dia são complicadíssimas, cheias de botões, com guia vocal, luzinhas aqui e ali. Mas o princípio é sempre o mesmo: toca-se aqui e ali pra indicar o trajeto e, em seguida, enfia-se a moeda na fenda. A máquina emite o bilhete e devolve o troco. Até aí, estamos todos de acordo. O complicador vem agora.

A moeda suíça de maior valor é a de 5 francos (= 19 reais). Acontece que a moeda russa de 1 rublo tem diâmetro e peso idênticos. A diferença é que não vale quase nada: 6 centavos de real. As máquinas de vender bilhete – um tanto antigas, é verdade – não conseguem distinguir entre as duas. Pronto, está aberta a porta pra tracambistas. (Tracambistas são fraudadores, só que a palavra me parece bem mais expressiva, especialmente neste caso.)

A boa-nova já se espalhou pelos lados da Rússia, Moldávia e cercanias. Os funcionários que esvaziam a máquina não passam um dia sem encontrar moedas de rublo. A astúcia consiste em comprar um bilhete de 2,40 francos e dar em pagamento moeda de 1 rublo. Entendendo que recebeu 5 francos, a máquina vai devolver 2,60 francos. Não é nenhuma fortuna mas, se o indivíduo repetir a operação vinte vezes por dia, vai amealhar cerca de 200 reais. No mole. É só tomar cuidado pra não dar demais na vista.

A prefeitura de Lausanne manda avisar que, visto que os usuários preferem, cada vez mais, comprar pelo celular, as máquinas atuais não serão substituídas. Vão ser gastas até a lona. Aviso aos amadores.

Estabilidade monetária

José Horta Manzano

A confiança inspirada por um país se mede pela estabilidade de seus atributos e de suas instituições. Quanto menos mudanças de regime houver, quanto menor for a inflação, quanto menos conflitos internos e externos surgirem, mais estável e confiável será a nação. A estabilidade monetária é termômetro significativo.

Poucos são os países cuja moeda tem história mais que centenária. O Reino Unido conta com a moeda mais antiga ainda em circulação. A história da libra esterlina se perde na névoa do passado. A última modificação importante ocorreu em 1971. Naquele ano, para desagrado de muitos ingleses, a subdivisão da libra, que já durava um milênio, foi alterada. Da divisão em 20 shillings de 12 pence cada um, a libra passou a ser declinada na cartilha decimal. Notas e moedas emitidas anteriormente foram pouco a pouco retiradas do circuito. Como resultado, nenhuma moeda anterior a 1971 continua em circulação.

Moeda suíça de 20 centavos ‒ anverso (ou coroa)

O Brasil, desde a independência, sobreviveu a nada menos que doze reformas monetárias, sete das quais entre 1986 e 1994. A cada vez, notas e moedas foram tiradas de circulação e substituídas. O período que vivemos desde 1994 é excepcional em nossa movimentada história monetária.

Nesse particular, a história das moedas suíças ocupa lugar singular. O franco suíço foi criado em 1850. A última modificação das moedas, que se restringiu à aparência, ocorreu nos anos 1870. De lá pra cá, embora a liga metálica se tenha modificado ‒ principalmente devido à penúria de certos metais durante as grandes guerras ‒, o aspecto delas permanece idêntico. Na aparência, nada distingue moedas do século 19, 20 ou 21.

O distinto leitor há de se espantar, mas garanto-lhe que, na Suíça, ainda circulam moedinhas cunhadas no século 19. Têm aparência idêntica às atuais e absoluta validade legal. Por terem sido muito manuseadas, algumas aparecem visivelmente gastas, meio lisas. No entanto, outras, talvez por terem dormido por décadas nalgum cofrinho ou nalguma gaveta, têm o mesmo aspecto das atuais.

Moedas suíças ‒ verso (ou cara)
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Como sou curioso e gosto de antiguidades, costumo verificar a data de cunhagem das moedas, principalmente as de 10 e as de 20 centavos. Somente as que têm mais de 40, 45 anos me interessam. Com o tempo, fui juntando uma pequena coleção. As moedas que ilustram este artigo fazem parte dela. Nenhuma foi comprada em loja de numismática. Foram todas recebidas por mim como troco em lojas e supermercados.

É um bocado emocionante ter nas mãos uma moedinha feita 130 anos atrás e imaginar sua história. Por quantas mãos terá passado? Quem terão sido os possuidores? Que mercadorias terão sido pagas com ela? Terão sido perdidas, encontradas? Ah, se as moedas falassem…

Nota
Ainda hoje, procurando bem, encontram-se moedas da primeira metade do século 20. Dos anos 1800, está cada dia mais raro.

Carcereiro suíço

José Horta Manzano

A ocasião faz o ladrão ‒ segundo a sabedoria popular. Fico com um pé atrás. Acho que ladrão já vem feito independentemente de ocasião. E ocasião, minha gente, é que não falta, nem cá nem lá. Se a sabedoria popular estivesse mesmo correta, viveríamos num mundo de ladrões. Enfim, melhor não enveredar por esse assunto, que os tempos andam meio sensíveis.

Prisioneiro 3Cerca de um mês atrás, a polícia suíça prendeu preventivamente um carcereiro. Contra ele, pesa acusação de corrupção passiva por ter vendido celulares e maconha a dezenas de prisioneiros.

Como em filme americano, prisioneiro passa frequentemente por acareação com cúmplices e confrontação com testemunhas. É também instado a dar esclarecimentos complementares. Nosso carcereiro não escapou à rotina. E não é que apareceu algo mais?

Fato surpreendente surgiu. Descobriu-se que, além dos já confessados, o homem cometeu crime de lavagem de dinheiro, «malfeito» pouco habitual em prontuário de carcereiro. O homem teria deixado corromper-se por um dos inquilinos da prisão ‒ por acaso, um brasileiro.

Dinheiro lavagemLogo no começo da história, o guardião e o brasileiro preso tornaram-se amigos, o que facilitou as coisas. Na sequência, o guarda forneceu vários telefones celulares ao preso para permitir-lhe comunicar-se com família, amigos e comparsas. Mas o mais importante vem agora.

O prisioneiro estava na cadeia por ter assaltado boa quantidade de caixas eletrônicos na região de Genebra. Apesar da prisão do criminoso, o dinheiro nunca foi encontrado.

Dinheiro voadorA amizade com o guardião foi preciosa. O preso deu a dica completa ao carcereiro amigo. Enquanto o brasileiro continuava na cadeia ‒ ainda está lá ‒, o guarda se encarregou de recolher o fruto dos assaltos (30 mil francos suíços = 100 mil reais) e de remeter a dinheirama ao Brasil. Não foi divulgada a propina cobrada pelo guardião.

O advogado do carcereiro garante que o cliente desconhecia a origem dos fundos transferidos ao Brasil. Ah, bom.

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Nota etimológica
Cárcere serve para guardar criminosos e delinquentes. Arca serve para guardar dinheiro e preciosidades. Não é espantoso que as duas palavras tenham parentesco longínquo.

Cárcere vem de raiz antiquíssima, já encontrada no sânscrito. No grego antigo, evoluiu para a voz arkeô, fruto da mesma árvore, com sentido de trancar, impedir a passagem, reter. Daí vem nossa moderna arca.

Em latim, a mesma raiz evoluiu para carcer, com o significado de recinto rechado, prisão. Alguns linguistas enxergam parentesco entre cárcere e coerção. Nesse ponto, não estão todos de acordo.

De ponta-cabeça

José Horta Manzano

Você sabia?

As coisas não têm valor intrínseco – têm o valor que lhes atribuímos. Se um objeto qualquer «vale» tal montante, é porque há comprador disposto a dar por ele esse valor. Caso ninguém estiver disposto a despender tal montante, o valor do objeto será mais baixo.

Bens diferentes são avaliados por critérios diferentes. No caso de um imóvel, por exemplo, leva-se em consideração a localização, a área, as comodidades e outros itens. Caso se avalie um automóvel, os parâmetros serão outros.

Quando se trata de avaliar um bem imaterial – como uma moeda nacional (euro, dólar, iene) – o primeiríssimo critério é a confiança que se deposita em sua solidez e em sua capacidade de atravessar, incólume, crises planetárias.

Dinheiro 1Quando o bicho começa a pegar, capitais gigantescos – voláteis por natureza – buscam porto seguro. Exatamente como fazem barcos à vela ao se darem conta de que tempestade se aproxima.

Quais seriam esses portos seguros? O ouro é resposta clássica, mas não única. Entre as moedas nacionais, sobressai o franco suíço, considerado valor refúgio por excelência. É surpreendente que a moeda deste pequeno país suscite no mundo dos negócios um respeito que não condiz com o tamanho da economia nacional. Seja como for, esse interesse gera supervalorização do franco.

Três anos atrás, o euro levou um tombo. Sua cotação caiu uma barbaridade principalmente com relação ao franco suíço. De repente, para os europeus, produtos suíços se tornaram extremamente caros. A exportação, que tem peso importante na economia deste pequeno país, sofreu um baque. A chegada de turistas estrangeiros desacelerou.

Banco 3À vista disso, o Banco Nacional Suíço, que faz as vezes de banco central, teve de entrar rapidamente em ação a fim de deter a valorização excessiva do franco. Fixou uma meta para o câmbio: o euro não deve descer abaixo de Fr. 1,20. Faz três anos que, por meio de compra maciça de euros, o objetivo tem sido alcançado.

Estes últimos tempos, porém, com a crise do rublo e a baixa do preço do petróleo, grandes capitais tornaram a comprar francos suíços em busca de porto seguro. O resultado é que a moeda nacional ameaça valorizar-se de novo, comprometendo as exportações.

Faz duas semanas, as autoridades monetárias do país decidiram adotar medida extrema e inusitada: estabeleceram o «juro negativo». Grandes investidores estrangeiros – principalmente bancos de outros países – deixam de receber juros e passam a pagar pelo direito de depositar seus capitais na Suíça. Atualmente, a taxa é de 0,25% ao ano.

Vasto mundo. Enquanto a maioria faz o que pode para atrair capitais, a Suíça dá-se ao luxo de repelir esses bilhões. Como se diz por aqui, «il faut de tout pour faire un monde» – pra fazer o mundo, precisa um pouco de tudo.