Quando o assunto é dinheiro…

José Horta Manzano

23 jan° 2017
Circundado por sete homens engravatados, Donald Trump assina decreto limitando o financiamento de ongs que defendem o aborto. A imagem é simbólica: um conclave exclusivamente masculino retratado no exato momento em que, de certa maneira, cerceava a liberdade feminina de dispor do próprio corpo. A foto deu a volta ao mundo.

2017-0215-01-tsr3 fev° 2017
Indignado com a atitude do presidente americano, o governo sueco reagiu. Divulgou uma foto de uma de suas ministras cercada de equipe exclusivamente feminina. O retrato foi tirado por ocasião de assinatura de acordo sobre mudanças climáticas. Em sua página web, o governo sueco se declara feminista ‒ com muito orgulho.

2017-0215-02-tsr11 fev° 2017
Em visita a Teerã (Irã), a titular do Ministério do Comércio sueco fez-se acompanhar por um grupo de assessoras. Todas eram mulheres. Mas uma imagem vale mais que mil palavras: no momento de saudar o presidente do país, a ministra desfilou com a cabeça coberta pelo véu islâmico. Todas as integrantes do comitê traziam o adereço.

2017-0215-03-tsrO instantâneo causou estupor pelas bandas de Estocolmo. Como é possível que justamente um governo que se autodefine como «feminista» se dobre aos códigos vestimentários iranianos? A explicação é simples e pouco elegante: quando o assunto é dinheiro, ideologia não vigora.

Aliás, essa é uma lição que os brasileiros estão carecas de saber. Na prática, a teoria é outra.

Interligne 18cPS
As mandachuvas suecas entraram em saia justa por se terem «afinado» na hora H, quando, em tempos normais, costumam se gabar de ativismo feminista. Pecaram pela soberba.

Fora isso, não vejo escândalo no fato de mostrar respeito a costumes locais quando se é forasteiro de visita.

2017-0215-04-tsrQuando são recebidas pelo papa, todas as mulheres se apresentam com véu ou chapéu. E ninguém se escandaliza. Vasto mundo.

São Valentim

José Horta Manzano

Metade da humanidade celebra hoje São Valentim, a quem foi concedido, já faz tempo, o estatuto de patrono dos namorados. O 14 de fevereiro, de fato, é celebrado em (quase) todo o mundo. O Brasil é uma das poucas exceções que confirmam a regra. Talvez em virtude de a data cair muito perto do carnaval ‒ às vezes até durante ele ‒, nossos amorosos são homenageados em outro dia. Imaginem um Dia dos Namorados no meio do carnaval. Passaria praticamente despercebido, um desastre para o comércio.

dia-dos-namorados-1As origens da festa são difíceis de determinar. A hagiologia católica registra, na Antiguidade, diversos santos com esse mesmo nome. A controvérsia quanto à escolha da data perdura, e nada indica que se chegue, um dia, a consenso. Por que razão festejar os enamorados neste dia e não em outro? O mistério é denso.

As primeiras manifestações ligando o 14 de fevereiro aos apaixonados surgiram na Inglaterra em meados do século XIX. O desenvolvimento das estradas de ferro, ao acelerar o transporte de mercadorias e de correspondência, favoreceu a troca de mensagens. Enamorados aproveitaram a brecha e aderiram ao costume de enviar cartinhas e cartões nessa data. Hoje em dia, o papel vai sendo substituído por mensagens eletrônicas, mas a tradição continua.

dia-dos-namorados-2No Brasil, atribui-se ao baiano João da Costa Doria(*), publicitário e homem político, a introdução do costume. Para o comércio varejista, o mês de junho costumava ser fraco. No final dos anos 1940, importante loja de departamentos de São Paulo encomendou ao publicitário um estudo para impulsionar as vendas. Ele teve a ideia de implantar um São Valentim abrasileirado. O dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio ‒ o casamenteiro ‒ caía bem. A campanha publicitária lançada em 1949 deu certo. A moda foi logo seguida, nos anos seguintes, por outros estabelecimentos comerciais. Em poucos anos, o Dia dos Namorados já tinha assumido ares de comemoração tradicional e inescapável.

Hoje em dia, a troca de presentes substituiu o simples envio de cartões. Os comerciantes, que levam vantagem com essa evolução dos costumes, aplaudem de pé.

(*) João Doria Jr., atual prefeito da cidade de São Paulo, é filho do publicitário homônimo.

Interligne 18cTítulos de nobreza
Em regimes monárquicos, o mandachuva tem título correspondente ao estatuto que ocupa.

Reino tem rei: o rei da Espanha;
Principado tem príncipe: o príncipe de Mônaco;
Grão-Ducado tem grão-duque: o grão-duque de Luxemburgo;
Sultanato tem sultão: o sultão de Oman.

E emirado, como é que fica? Ora, emirado tem emir, como o emir de Abu Dabi.

Falando no diabo, aparece o rabo. Senhor Doria, filho do criador do Dia dos Namorados, exerce atualmente a função de prefeito de São Paulo. Encontra-se estes dias nos Emirados Árabes negociando a participação de capitais da região no financiamento de melhoramentos na capital paulista. Em entrevista, disse hoje que se encontrou com o «rei» de Abu Dabi. Escorregou. O pequeno país não é reino, mas emirado. O alcaide visitou o emir.

Jus sanguinis e jus soli

José Horta Manzano

Nacionalidade é conceito de geometria variável. Diferentes países não a enxergam necessariamente através das mesmas lentes. Na Antiguidade, partia-se da premissa de que filho de peixe peixinho é. Como qualquer outro bem, a nacionalidade também se herdava. Nascesse onde fosse, filho de caldeu era caldeu, filho de assírio era assírio e assim por diante. Em juridiquês, a prática leva o nome de jus sanguinis ‒ a lei do sangue.

Um dia, os europeus descobriram a América, um mundo novo. Homens e mulheres começaram a formar colônias permanentes nas novas terras. Enquanto o território foi extensão da respectiva metrópole, o problema da nacionalidade não existia: filho de português era português, filho de inglês era inglês. Que tivessem nascido nas Américas ou não.

Na virada dos anos 1700 para os 1800, no entanto, movimentos de independência foram surgindo. Em menos de meio século, o Novo Mundo coalhou-se de países novos e emancipados. Aí surgiu a questão da nacionalidade. Quem era brasileiro e quem não era? Quem era mexicano e quem não era? Se a lei do sangue continuasse em vigor, seriam todos portugueses, espanhóis ou ingleses ad vitam æternam. Um beco sem saída.

Passaporte 1Para contornar o problema, a geometria do conceito de nacionalidade teve de ser alterada. Alargando a noção, os países do Novo Mundo passaram a conceder nacionalidade a todos os nascidos no território. É o que se conhece hoje como jus soli ‒ a lei do solo.

Mas atenção: os países americanos são os únicos a concederem nacionalidade automática aos nascidos no país. No resto do mundo, a antiga visão não mudou: a lei do sangue continua vigorando. Como resultado, os países da América são obrigados a adotar ambas as visões. Reconhecem tanto a lei do solo quanto a do sangue. E por quê?

É simples. Pela lei alemã, filho de brasileiro nascido na Alemanha não é alemão. Se a lei brasileira não reconhecer a criança como brasileira e não lhe conceder automaticamente a nacionalidade, estará criado um pequenino apátrida. O mesmo vale para o filho de peruano nascido na Inglaterra. Ou para o filho de americano nascido na Mongólia.

A legislação suíça, como a dos demais países europeus, reconhece unicamente a lei do sangue. A cada criança nascida no território, é atribuída a nacionalidade do pai (ou da mãe, se for o caso). Faz mais de um século que a Suíça é país de imigração, contando com forte contingente de estrangeiros. Décadas atrás, o grosso dos forasteiros vinha da Itália, país vizinho e, na época, pobre. Hoje a origem dos estrangeiros é muito mais variada.

Como a legislação não concede nacionalidade a filho de estrangeiro nascido aqui, os descendentes de imigrantes têm a nacionalidade do pai. E assim por diante, a coisa continua. Caso o imigrante não se naturalize, seu neto, seu bisneto, seu tataraneto serão estrangeiros. Calcula-se que 25 mil habitantes se enquadram hoje nessa categoria. Embora a família esteja estabelecida no país há três gerações (ou mais), continuam estrangeiros. Têm passaporte de um país que, em muitos casos, nunca visitaram e cuja língua não conhecem.

suisse-31-passaporteNa Suíça, o processo de naturalização é tão longo e tão complicado que chega a desanimar. Precisa ter vivido 12 anos no país. O candidato terá de enfrentar verdadeiro inquérito policial que vasculhará sua vida. Receberá a visita de um comitê encarregado de verificar como vive, como se veste, que atividades pratica. Vai-se verificar se conhece bem a língua local, se sua casa é limpa e arrumada. Seus vizinhos serão interrogados e darão opinião sobre candidato. O pobre postulante terá ainda de encarar prova escrita e exame oral diante de bancada formada por um grupo de cidadãos. Será questionado sobre a política nacional, as instituições, o sistema de governo, a história e a geografia do país. O processo, estressante e ‒ por que não dizê-lo? ‒ humilhante, leva por volta de três anos. E custa caro. Essa via crucis explica a existência dos 25 mil estrangeiros de terceira geração.

Para resolver o problema, um projeto de mudança da Constituição foi proposto à votação popular ontem. Por maioria de 60%, os suíços aprovaram a modificação. A partir de 2018, estrangeiros de terceira geração que tenham nascido no país e que aqui tenham sido escolarizados têm direito à chamada naturalização facilitada. Que fique claro: a concessão da nacionalidade não será automática, mas os trâmites serão amenizados. Parte-se do princípio que os candidatos estão bem integrados na comunidade nacional, portanto não serão mais obrigados a enfrentar comitês e inquérito policial. De três anos, o processo de naturalização levará apenas um. Para os demais estrangeiros, nada muda.

Nestes tempos de Trump e de Brexit, já é uma conquista.

Quanto ganha um parlamentar suíço?

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz semanas que a França vive mergulhada num escândalo político. Cá entre nós, os franceses simplesmente a-do-ram escândalos políticos. Se houver uma pitada de sexo, então, os cidadãos chegarão ao clímax. Que se recorde o caso de DSK (Dominique Strauss-Kahn), aquele figurão francês que, quando diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira num hotel chique de Nova York. O homem pegou cadeia, prisão domiciliar com tornozeleira, pagou uma fortuna para escapar a processo por indenização. Para completar, seu casamento foi por água abaixo. O homem ainda perdeu o emprego e disse adeus a qualquer futuro político.

O escândalo atual é de proporções bem mais modestas. Descobriu-se que Monsieur François Fillon, forte candidato às eleições presidenciais de maio próximo, fez mau uso de dinheiro público nos anos em que foi senador. Um jornal satírico dedurou. Naquela época, o hoje candidato empregou esposa e filhos como assessores. Foram pagos com dinheiro público durante anos. A revelação não podia vir em momento pior, quando todos já pressentiam em Monsieur Fillon o próximo presidente da França. Depois das acusações, suas chances desmilinguiram.

Conseil Fédéral (Câmara Federal), Berna, Suíça

Conseil Fédéral (Câmara Federal), Berna, Suíça

Na Suíça, em virtude da proximidade geográfica e linguística, os acontecimentos da França costumam ser acompanhados com atenção. Ficou-se a imaginar se seria possível acontecer algo parecido por aqui. A resposta é simples: não, as regras rigorosas e claras não teriam permitido. Eleitos não podem dar emprego assim, a torto e a direito, a quem bem entendem. Tudo está previsto.

A remuneração anual de um conselheiro nacional (que equivale a um deputado federal brasileiro) compõe-se de 5 itens(*):

1)  26.000 = Salário de base
2)  41.000 = Jetons de presença
3)  33.000 = Gastos com assessores e material
4)  20.000 = Gastos com alimentação e hospedagem
5)   6.300 = Gastos com transporte
   126.300 = Total anual (cerca de 10 mil/mês)

Esse total é uma média. Caso o eleito deixe alguma vez de marcar presença no parlamento, perderá 440 francos por sessão. Os outros itens são fixos. Não há outras regalias. Ninguém tem carro à disposição, muito menos motorista ou guarda-costas. Plano de saúde? Nem pensar. Tampouco existe a noção de «apartamento funcional»: as despesas de hospedagem já estão cobertas pelo item 4.

E se o parlamentar não quiser ter assessor nenhum? Pouco importa. O montante do item 3 será pago de qualquer maneira. Caso o salário de eventuais assessores exceda 33 mil francos anuais, o parlamentar terá de pagar a diferença do próprio bolso.

Pronto, o problema está resolvido. Um escândalo no estilo do que envolve o candidato à presidência da França não pode acontecer na Suíça. As coisas são claras: parlamentares ‒ que são pagos com dinheiro do contribuinte ‒ têm de andar na linha.

Interligne 18c

(*) Em francos suíços. Nos tempos atuais, a diferença entre franco, euro e dólar é tão pequena que não vale a pena entrar nos detalhes. Os montantes altos justificam-se pelo fato de o custo de vida na Suíça ser elevadíssimo.

As travessuras de um Boeing

José Horta Manzano

Você sabia?

Você sabe onde fica Iqaluit? Eu também não sabia até alguns dias atrás. Um pouquinho de paciência: você também vai ficar sabendo já já.

Era uma hora da tarde no aeroporto de Zurique. Naquele 1° de fevereiro, instalados dentro de um moderno Boeing 777 da companhia aérea Swiss, os 300 passageiros embarcados no voo LX-40 já sonhavam com as palmeiras de Los Angeles. Iam deixar pra trás as neves alpinas e, ao cabo de 11 horas de voo, gozar as delícias do inverno ameno da Califórnia.

Rota regular Zurique-Los Angeles

Rota regular Zurique-Los Angeles  –  Imagem Flightradar  –  clique para aumentar

O avião levantou voo com meia hora de atraso. Em viagens longas, isso não costuma ser problema: em geral, a demora é compensada e acaba-se pousando na hora certa. Se não for um pouco antes.

A bordo, tudo corria bem. Depois do almoço, já pela metade da viagem, passageiros cochilavam. Eis senão quando… os alto-falantes trazem a voz grave do piloto. «Senhoras e Senhores, em virtude de um problema numa das turbinas, faremos uma escala técnica em Iqaluit. Não se preocupem, o pouso não representa risco. Repartiremos assim que o problema for resolvido.»

Rota do voo LX-40 de 1° fev° 2017

Rota do voo LX-40 de 1° fev° 2017  –  Imagem Flightradar  –  clique para aumentar

Para não alarmar os passageiros, o piloto preferiu omitir detalhes inquietantes. Na realidade, uma das turbinas (são duas) tinha parado de funcionar. E olhe que o avião era novinho, com apenas oito meses de uso. Fosse um eletrodoméstico, o proprietário ainda teria direito a devolução.

O protocolo internacional é rigoroso: quando um dos motores pára, não é permitido seguir viagem. O piloto tem de pousar no aeroporto mais próximo. Acontece que estavam sobrevoando o Oceano Ártico, a uma latitude de 70 graus, não longe do Polo Norte. O primeiro aeroporto, pouco mais que um campo de pouso, era o Aeródromo de Iqaluit, perdido na tundra do norte canadense. O vilarejo é habitado por sete mil esquimós.

Aparelho 777 da Swiss pousando em Iqaluit

Aparelho 777 da Swiss pousando em Iqaluit  –  clique para aumentar

Sem outra opção, o jato pousou. Em redor, tudo branco de neve. O termômetro marcando 25 graus abaixo de zero. E agora, que fazer? Era impossível consertar a turbina ‒ o vilarejo não dispunha de peças nem de pessoal habilitado. Mais difícil seria ainda alojar os 300 viajantes por absoluta falta de hotel. Sobrou uma única opção: mandar vir novo avião para resgatar os passageiros. Nova turbina tinha também de ser encomendada para substituir a que tinha parado de funcionar.

Um aparelho veio de Nova York para levar as pessoas. Só chegou depois de 11 horas de espera. Enquanto isso, tripulação e passageiros continuaram sentados. Pelo menos, o aquecimento funcionava. Assim que chegou o avião de resgate, foram transferidos e puderam levantar voo e seguir viagem.

Cargueiro Antonov pousando em Iqaluit - clique para aumentar

Cargueiro Antonov pousando em Iqaluitclique para aumentar

Quanto à turbina, foi mais complicado. Tinha de ser trocada, senão o avião não ia poder sair de lá. Como levar uma peça de 8,3 toneladas até a tundra canadense? Foi preciso contratar um gigantesco avião de transporte Antonov semelhante àquele que visitou Viracopos algumas semanas atrás. Ele veio com turbina e técnicos. Faltava resolver o último problema. A retirada do motor enguiçado e a instalação do novo leva horas e horas, trabalho delicado e difícil de executar quando a temperatura do ar teima em permanecer entre –20° e –30°. O jeito foi construir uma espécie de tenda gigantesca, aquecida por dentro, para abrigar o pessoal técnico.

Depois de oito dias angustiosos, a turbina nova foi instalada e a antiga foi carregada no Antonov. O Boeing vazio voltou a Zurique. Depois de uma revisão e uma boa limpeza, já está quase pronto pra voar de novo. Quanto ao Antonov, levou a turbina defeituosa ao fabricante.

Swiss recusa-se a informar o custo total da desaventura. Especialistas estimam que a brincadeira não tenha saído por menos de um milhão. De dólares, francos ou euros ‒ é praticamente a mesma coisa.

Aceita um sorvete geladinho? Não sei se têm da marca Eskimó.

O piso da corrupção

José Horta Manzano

Desde a histórica e surpreendente manifestação popular de dezembro de 1989, que precipitou a queda e levou ao processo e à execução expeditiva do bondoso casal de ditadores Ceaușescu, não se via nada parecido na Romênia.

Meio milhão de manifestantes vêm-se reunindo insistentemente, noite após noite, numa Bucareste que mal passa de 2 milhões de habitantes. Uma quarta parte da população da capital está nas ruas! Proporcionalmente, é como se cinco milhões de paulistanos se juntassem para protestar. Todas as noites. E olhe que, naquela região, faz um frio dos diabos em fevereiro, com médias noturnas de cinco graus abaixo de zero.

Bucareste, 6 fev° 2017

Bucareste, 6 fev° 2017

A Romênia, um dos países mais pobres da União Europeia, nunca conheceu a democracia. Região eminentemente rural e periférica, passou diretamente do feudalismo ao jugo austro-húngaro e, pouco depois, ao autoritarismo comunista. Os mandachuvas sempre pertenceram a uma casta à parte, flutuando acima da carne seca.

Ao longo do tempo, a oligarquia permaneceu. Que se chame aristocracia, nomenklatura ou simplesmente «andar de cima», tanto faz. O país sempre foi governado por pequeno grupo que cuidou, em primeiríssimo lugar, dos próprios interesses. Se isso soar familiar ao distinto leitor, talvez não seja mera coincidência.

Fato é que os meios de informação se aperfeiçoam vertiginosamente. Coisas que, antigamente, costumavam permanecer ocultas hoje chegam rápido ao conhecimento de todos. Como no Brasil, a vida de corruptos romenos está ficando cada dia mais difícil. Não se pode mais nem roubar em paz, um despropósito!

Manif 13Como num habeas corpus preventivo e coletivo, o governo romeno decidiu, por decreto, que só pode ser considerado corrupto aquele que tiver roubado acima de certo piso. Abaixo disso, a prática será tolerada. Só que o piso não é de dez merréis, mas de 44 mil euros (cerca de 150 mil reais). Leve-se em conta que o salário médio no país é de cinco mil euros por ano.

Ok, comparada à corrupção brasileira, a roubalheira deles é dinheiro de pinga. Assim mesmo, é uma ousadia considerar que roubo de dinheiro público só se torna crime ao ultrapassar determinada quantia. O montante, estabelecido sob medida para livrar a barra da maioria dos homens de poder, é um monumento à hipocrisia.

Apesar das monstruosas manifestações, o governo tem hesitado em abolir o decreto. Com um passo atrás hoje e um à frente no dia seguinte, os medalhões têm feito o que podem para se garantir. Só que o romeno tem uma característica que falta ao brasileiro: a persistência. Os manifestantes não dão mostras de recuar. É quase certo que a bizarra medida que estabelece piso para corrupção vai escorrer pelo ralo. Frise-se que, com decreto de tolerância ou sem ele, a roubalheira periga continuar. Vasto mundo.

Voto em papel

José Horta Manzano

Neste período de entressafra eleitoral, volto ao voto. Temos pela frente quase dois anos sem convocação às urnas. Para o bem da democracia, parece-me período demasiado longo, mas assim são as coisas. Quanto mais repetidamente se chama o eleitorado a se exprimir, mais corriqueiro se torna o ato. Menos solene e menos apaixonado, o voto frequente faz bem ao espírito republicano. Uma votação anual seria bem-vinda. Tem seu custo, mas é gasto útil para aproximar a população de seus representantes. Um dia, quem sabe, quando a democracia anunciada em 1988 for implantada pra valer, chegaremos lá.

Esta época de reorganização da bagunça criada nas últimas décadas é propícia para repensar o calendário eleitoral. Um caminho a considerar seria a desvinculação da eleição de presidente, senadores, deputados e governadores, que ocorre de roldão, a cada quatro anos. O espaçamento desse aglomerado de escolhas não me parece ser má ideia.

voto-3Enquanto não se chega a essa reforma maior, é tempo de refletir sobre modificações menores. O voto dito eletrônico, generalizado há vários anos, pareceu-nos a todos um avanço. Quando se pensa que, nos tempos de antigamente, a apuração chegava a levar um mês, a velocidade atual da contagem é espantosa. Nos primeiros anos, vimos nisso um sinal inequívoco de modernidade.

Segundo a sabedoria do Conselheiro Acácio, as consequências costumam vir depois. A rapidez da apuração passa pela urna eletrônica. Muitos se mostram reservados quanto à confiabilidade do sistema. Quando a gente fica sabendo que piratas informáticos já conseguiram invadir sofisticadas redes informáticas, como as do governo americano, a gente sente a pulga atrás da orelha. Se acontece lá, por que não aqui?

A Holanda tomou esta semana uma decisão que mostra que o risco de manipulação de resultados é concreto. Para as eleições do mês que vem, o país abandona o sistema eletrônico e volta ao método manual, velho de guerra. Parece-me decisão sábia. O voto no papel pode até ser mais laborioso na hora da apuração mas guarda vantagens consideráveis. A apuração, feita publicamente diante de fiscais partidários e de jornalistas, não abre brecha para manipulação eletrônica. Em caso de contestação, uma recontagem ‒ parcial ou total ‒ é possível a qualquer tempo.

voto-4Tem mais. No fundo, nenhuma razão justifica demora excessiva na apuração. Em países democráticos, cada seção eleitoral tem a incumbência de contar os votos de sua própria urna. Terminada a votação, inicia-se a apuração, à frente e à vista de todos. Em poucos minutos, sai o resultado. A presença de representantes de partidos e de partes interessadas é permitida e até incentivada.

Quando uma novidade não dá certo ou dá margem a questionamento, é mais ajuizado voltar ao sistema anterior. Pelo menos até o dia em que se encontre maneira de blindar o novo método. No caso da urna eletrônica, ainda temos longo caminho para chegar à garantia de absoluta lisura.

Brexit ‒ 4

José Horta Manzano

Com o voto a favor do Brexit, os britânicos armaram uma confusão e se enfiaram numa encurralada da qual terão dificuldade em sair. A coisa é muitíssimo mais complicada do que parece. «Sair da UE» é frase simples de pronunciar mas difícil de pôr em prática.

Afinal, o casamento do Reino Unido com a União Europeia já dura há quase 45 anos. Para começar, quando aderiram à comunidade, os britânicos tiveram de reformar muitas leis para pôr-se em conformidade com as regras vigentes à época. Por cima dessa adaptação inicial, vieram acumular-se todos esses anos de vida em comum, com regronas, regrinhas, regulamentos, práticas, tratados e toda a parafernália. Terão de ser avaliados e descosturados um a um. Não é coisa pouca.

Em matéria de asneira, o voto britânico em favor da separação só se compara à eleição do atual presidente americano. Ambas as decisões mandam para o espaço todo um edifício construído e consolidado por décadas, tijolo por tijolo num desenho mágico. A tolice do eleitor americano ainda pode ser revertida e consertada. De fato, a eleição do próximo presidente ‒ ou, eventualmente, a destituição do atual ‒ há de repor as coisas no lugar. Já o caso britânico é mais embaraçado. É ida sem volta.

refugiados-1Ao se distanciar dos vizinhos, a Grã-Bretanha tem muito mais a perder do que a ganhar. Theresa May há de estar horrorizada com a ascensão de Mr. Trump. Tanto que, dos chefes de governo do mundo inteiro, foi a primeira a precipitar-se a Washington. Sem o aconchego da Europa e com um homem imprevisível instalado por quatro anos na Casa Branca, o futuro dos súditos de Elisabeth II se anuncia inseguro.

Muitas razões levaram os britânicos a votar pela saída da UE. A primeira delas, arma utilizada por dez em cada dez políticos populistas, foi a rejeição aos «estrangeiros que vêm roubar nossos empregos». Aliás, para confortar o naco da população que se deixou embalar por essa quimera, Theresa May tem declarado que o Brexit vai servir para «controlar a imigração».

Para reforçar, Mrs. May anunciou dois dias atrás que seu país está disposto a pagar para manter refugiados longe do Reino Unido. Na cúpula realizada em Malta sexta-feira passada, a Grã-Bretanha disse estar disposta a contribuir com 30 milhões de libras para barrar a rota de forasteiros indesejados. A ideia é desviá-los para bem longe. A América Latina ‒ e o Brasil em especial ‒ fazem parte dos destinos alternativos.

A primeira-ministra acredita que humanos possam ser tratados como objetos. A exemplo do que certos países ricos costumam fazer quando «exportam» contêineres de lixo hospitalar contaminado em direção a países mais pobres, a intenção é desviar o caminho desses infelizes e obrigá-los a ir para outro lugar.

refugiados-2Além da questão ética ‒ afinal, não se trata gente como se lixo fosse ‒, sobra o velho problema: esqueceram-se de combinar com os russos. O sonho da maioria dos refugiados não é unicamente chegar à Europa. O objetivo maior é chegar à Grã-Bretanha sim, senhor. A não ser que se utilize força bruta, não vai ser fácil redirecionar esse fluxo de populações para a América Latina.

Mal comparando, é como se o universitário brasileiro abandonasse o sonho de fazer especialização num prestigioso estabelecimento americano ou europeu e se conformasse com um estágio na Mongólia, no Congo ou na Bolívia.

Playtime

José Horta Manzano

Jacques Tati (1907-1982), nascido Jacques Tatischeff, foi ator e diretor de cinema. Veio ao mundo nos arredores de Paris no seio de família de origem eclética, com antepassados russos, franceses, holandeses e italianos.

Sua obra não é prolífica. Dirigiu meia dúzia de filmes de longa metragem e dois pares de curtas. Não se pode dizer que tenha sido ator de renome. Em quase cinquenta anos de carreira, apareceu em pouco mais de dez filmes além de atuar nos que ele mesmo dirigiu.

Jacques Tati

Jacques Tati

Era cineasta fora dos padrões, difícil de ser encaixado numa categoria. Os diálogos em seus filmes, embora raros, existiam. Portanto, não se pode defini-los como filmes mudos. Trabalhou em preto e branco, mas também em cores. Seus filmes não têm propriamente enredo com começo, meio e fim. Mostram uma sucessão de gags, de momentos cômicos um tanto desconexos e surreais.

Sua obra é vista como crítica vigorosa aos costumes de seu tempo. É certo que Jacques Tati enxergava o mundo com lentes próprias. Em 1953, lançou «Les vacances de Monsieur Hulot» ‒ As férias do Sr. Hulot, filmado em preto e branco. Em 1958, foi a vez de «Mon oncle», que chegou ao Brasil como Meu tio, talvez seu filme mais emblemático.

Playtime - cena da rotatória Clique para ampliar

Playtime – cena da rotatória
Clique para ampliar

Tati era perfeccionista. Podia filmar e refilmar dezenas de vezes uma sequência, pouco importava. Enquanto não estivesse a seu gosto, não desistia. Foi o que aconteceu durante a filmagem de «Playtime», que, no Brasil, receberia o nome de Playtime – Tempo de Diversão. O filme levou mais de três anos para ser terminado. Frustrados, os produtores recusaram-se a continuar financiando. Tati foi obrigado a hipotecar a própria casa. A renda de seus filmes anteriores foi sequestrada pela Receita. Um desastre.

Lançado finalmente em 1967, Playtime viria a conhecer mais um duro golpe. Tati contava muito com a receita que pudesse vir da exibição do filme nos EUA. Por infelicidade, a película não foi exibida naquele país. Só chegaria às telas americanas seis anos mais tarde.

São Paulo, 2 fev° 2017

São Paulo, 2 fev° 2017

Nos anos 60, a Europa, já recuperada da Segunda Guerra, se reindustrializava. Os cidadãos se motorizavam. As cidades, pouco preparadas para acolher o tráfego crescente, se aproximavam da asfixia. Os constantes engarrafamentos são simbolizados na cena da rotatória de Playtime, que se tornou cult.

Ontem, o mau funcionamento de um semáforo paulistano causou cenas que me fizeram irresistivelmente lembrar da rotatória de Jacques Tati. O engarrafamento parisiense de 1967 era de mentirinha, coisa de cinema, mas o paulistano de 2017 mostra a que ponto chegou nossa fragilidade: um curto-circuito à toa pode arruinar o dia de milhares de cidadãos.

Se bem que, visto assim do alto, o engarrafamento brasileiro é hilário. Parece coisa de cinema.

Rearranjo planetário

José Horta Manzano

As relações comerciais planetárias estão passando por uma revolução. Todos já se deram conta de que, sob inspiração do novo presidente, os Estados Unidos estão em plena guinada protecionista, numa curva fechada de cantar o pneu. Passado um primeiro momento de estupor, é chegada a hora de seguir as novas regras do jogo.

Aqui nas bandas do Mercosul, a saída da Venezuela, embora desejada por todos os que têm juízo, ainda não é oficial. Caracas, embora com a voz temporariamente neutralizada, ainda aparece oficialmente como membro do clube. Torçamos para que o galho apodrecido seja amputado quanto antes.

by Mark Knight (1960-), desenhista australiano

by Mark Knight (1960-), desenhista australiano

A mente embotada do novo dirigente da Casa Branca não lhe permite dar-se conta de que seus atos teatrais estão inaugurando nova era. Não sei quais possam ser as perspectivas para seus conterrâneos, tenham votado nele ou não. Pode ser que a vida melhore para alguns, talvez possa ser um desastre para outros. Quanto ao resto do mundo, a violência, os vaivéns, as meias verdades, o zanzar de barata tonta de Mister Trump espantam mas não empolgam.

Como diz o outro, não dá pra botar fé no indivíduo. Impetuoso, em menos de duas semanas de governo já mostrou a que veio. Feito de um bloco só, o novo presidente é como peça bruta que acabou de sair da fundição. Cheio de rebarbas cortantes, falto de facetas, o homem desconhece nuances. Lapidá-lo parece missão impossível. Tem 70 anos(*). Se não aprendeu até agora, é caso perdido.

Treze anos atrás, o Lula e señor Kirchner bombardearam a Alca ‒ um tratado de comércio que agruparia todas as Américas, do Canadá à Terra do Fogo. Preferiram jogar-se de cabeça num hipotético e folclórico mercado dito «Sul-Sul». Irã, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba e ditaduras africanas se juntariam a nós para redirecionar o comércio mundial. Deu no que deu.

Agora que o mercado dos EUA está se tornando esquisito, não há que hesitar muito para reagir. Que ninguém se engane: o mundo todo está mexendo os pauzinhos para pôr ordem no desarranjo que Trump ameaça gerar. Não vamos deixar passar o momentum.

By Bill Day, desenhista americano

By Bill Day, desenhista americano

No Brasil, embora o governo atual seja visto como temporário ou “tampão”, não podemos nos conceder o luxo de esperar pelo próximo ocupante do Planalto. Afinal, faltam dois anos. O diálogo entre o Brasil e a Argentina, retomado pelas respectivas equipes econômicas esta semana em Brasília, é de excelente augúrio. É muito bom constatar que os governantes de ambos os países se deram conta de que está passando da hora de procurarmos bom porto.

Que se dialogue com a Aliança do Pacífico ‒ com ou sem os EUA. Que se relancem as tratativas com a União Europeia ‒ sem se preocupar com o Brexit. Que se expulse a Venezuela do Mercosul até que volte a ser uma democracia de pleno direito. Que se abrande a rigidez do Mercosul e que se dê liberdade a cada membro de concluir alianças comerciais por conta própria, segundo os interesses maiores de cada um.

Chega de ocasiões perdidas. Não vamos deixar passar este momento de reorganização de forças criado por um terremoto chamado Trump. É hora de enterrar de vez essa ingenuidade bolivariana e cair na real.

Interligne 18c

(*) Uma curiosidade: o ano de 1946 é o único que deu três presidentes aos EUA. De fato, Bill Clinton, George Bush Jr. e Donald Trump são todos da mesma safra.

Trump e os estrangeiros

José Horta Manzano

Segundo a definição da ONU, imigrante é a pessoa que não nasceu no país em que reside. Por esse critério, cerca de 13% dos habitantes dos Estados Unidos entram na categoria. A atual proporção de estrangeiros é praticamente a mesma que habitava no país há um século, nos anos de imigração maciça. De fato, a quantidade de habitantes nascidos fora do país em 1860 (13,2%), em 1880 (13,3%), em 1900 (13,6%) ou em 1920 (13,2%) equivale à de hoje.

Portanto, o número de imigrantes naquele país não deveria, em si, surpreender ninguém. Por um lado, o fenômeno não é novo. Por outro, o número não é assustador. Convenhamos, se um estrangeiro sai de casa pra fazer a vida do outro lado do mundo, não é por pura vocação turística. É sinal positivo que indica que há boas oportunidades de trabalho.

alfandega-3Tem mais: o imigrante tende a ocupar os extremos da escala social. A maioria cuida justamente das atividades que os nativos desdenham. São pessoas com pouca instrução, que aceitam empregos de baixo salário recusados pelos nacionais. Na outra ponta, estão os profissionais solidamente formados, disputados por universidades, centros de pesquisa, empresas de desenvolvimento tecnológico.

O grau de avanço de países de forte imigração parece demonstrar os benefícios que a vinda de estrangeiros traz. EUA, Suíça, Canadá, França, Austrália, Suécia, Nova Zelândia são bons exemplos. Não fosse a criminalidade descontrolada e o roubo institucionalizado, Brasil e Argentina também apareceriam nessa lista.

Na França, os imigrantes representam cerca de 12% da população. O grosso desses indivíduos vem de antigas colônias (Argélia, Tunísia, Marrocos, África subsaariana), países de maioria muçulmana. Como resultado, no imaginário popular, o imigrante é identificado como maometano. Para combater esse clichê, as autoridades evitam dar destaque à religião em recenseamentos. Embora a escassez de estatísticas ligando imigração e religião não elimine o preconceito, o esforço e a intenção são louváveis. Sem essa orientação oficial, a clivagem seria ainda mais importante.

Mr. Trump, truculento e pouco experimentado, nem sempre consegue calcular o alcance de seus atos. Acaba de fechar as portas dos EUA a pessoas oriundas de determinados países de maioria muçulmana. A decisão, ofensiva e de sabor medieval, equivale a identificar em cada cidadão dos países vetados um potencial terrorista. É inacreditável como um mandachuva, sozinho, pode causar estrago tão grande em tão pouco tempo.

green-card-1Acredito que, se pudessem voltar atrás, muitos dos que votaram nele reconsiderariam a escolha feita. De qualquer ponto de vista que se analise a ferocidade do novo presidente, só se conseguem ver consequências negativas.

O mundo civilizado está atônito. A antipatia planetária espalhada por Bush Jr. volta com força total. Os oito anos durante os quais Obama tentou amenizar a imagem do país estão escorrendo pelo ralo em poucos dias. Negar entrada no país até a cidadãos munidos de autorização permanente ‒ o chamado «green card» ‒ gera insegurança jurídica, situação típica de países atrasados. Vai-se dormir sem saber como será o dia seguinte.

Francamente, os EUA não mereciam um líder de mente tão embotada.

Make America great again

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 jan° 2017

Todos entenderam que a desintegração da União Soviética, na última década do século 20, anunciava o fim do bilateralismo. De fato, o fracasso de setenta anos de coletivismo demonstrou que os trilhos do comunismo não serviam. O sistema implantado por Lenin e aperfeiçoado a ferro e a fogo por Stalin chegou ao apogeu ao derrotar a Alemanha nazista mas foi incapaz de trazer prosperidade e bem-estar ao próprio povo. Acabou apodrecendo sozinho, de dentro para fora, sem bomba, sem guerra, sem choro nem vela.

Durante os vinte anos seguintes, a hegemonia americana instalou-se soberana. Nenhuma potência lhe batia nos tornozelos. Tinha chegado ao primeiro lugar por mérito e também, sejamos francos, pelo fracasso do adversário. Quando o inimigo joga a toalha, o vencedor, ao sentir-se todo-poderoso, baixa a guarda e amolece. Foi o que aconteceu.

Poucos se deram conta de que a Rússia, empobrecida e com o orgulho ferido, não se havia resignado a assumir o rótulo humilhante de «nação emergente». Quem já foi rei não perde a majestade assim tão fácil. As portas se escancararam para a entrada em cena de um salvador da pátria. E ele surgiu de onde ninguém esperava.

bandeira-eua-2No caos que se seguiu à débâcle do império, uma oligarquia formada por um punhado de novos-ricos tomou o lugar da antiga «nomenklatura». O grupo decidiu entregar as rédeas do país a um obscuro funcionário de carreira, na certeza de que, por detrás do pano, continuariam a dar as cartas. Erro fatal. Pinocchio, Dilma e tantos outros demonstram que esse tipo de acerto costuma falhar. Falhou.

Em quinze anos, Vladimir Putin botou pra correr a turma de padrinhos e, com mão de ferro, instalou-se no comando. Um pouco por sorte, um pouco por se ter rodeado de gente competente, conseguiu elevar espetacularmente o nível de vida do povo. Sua popularidade, já nas alturas, continua subindo. A prosperidade do país permitiu-lhe quintuplicar o orçamento militar. Sem estardalhaço, a Rússia voltou a meter medo. Retomou a Crimeia, considerada desde sempre como território nacional. Apossou-se de facto da região oriental da Ucrânia. De olho na base naval que detém em território sírio, não hesitou em apoiar o ditador do país, com o objetivo de conservar as preciosas instalações militares.

Por seu lado, a China encontrou em Xi Jinping o homem forte que lhe faltava. Sereno, mas firme e esperto, o mandatário entendeu que seu país tem tudo a ganhar com a nova paisagem multilateral. Menos belicosos que os vizinhos russos, os governantes de Pequim dão prioridade ao poderio comercial. Cada vez mais, capitais chineses se apoderam de marcas tradicionais, fato que passa batido para a maioria.

E os Estados Unidos, como ficam nestes tempos de transição? Têm ainda, ninguém duvida, o maior mercado e o mais forte poderio bélico do planeta. Mas a assunção de Donald Trump à Casa Branca, contrariando as aparências, ameaça esse predomínio. Sua campanha baseou-se no lema «Make America great again». (Repare o distinto leitor que, num lapsus linguæ, o «again» traz embutida a ideia de que o país já deixou de ser grande.)

bandeira-eua-2Em si, a ideia até que faz sentido: todo mandatário tem obrigação de aprimorar o desempenho do país e a prosperidade da população. O problema é o caminho escolhido: um agourento isolacionismo. Num mundo que tende à multipolaridade, construir muros e romper tratados de comércio internacional não é a melhor maneira de evoluir. Eliminar a versão castelhana do site da Casa Branca, então, é recuo infausto que demonstra estreiteza cultural. «Cê é grande, mas cê não é dois» ‒ responde a sabedoria popular às ameaças do valentão. Deslumbrado com o próprio umbigo, o presidente narcisista não se dá conta de que o mundo gira e o país vai acabar ficando pra trás.

A árvore plantada pelo ingênuo e parlapatão presidente dos EUA não dará os frutos que ele espera. Não tendo entendido como funciona o frágil e sutil equilíbrio entre as nações, optou por entrar de sola, como elefante em loja de cristais. Se for realmente rico como diz ser, deve saber que dinheiro é imune a patriotismo. Caso se sintam incomodados, os grandes capitais de que seu país dispõe não hesitarão em procurar portos mais seguros. E aquele que prometeu fazer «America great again» periga armar um desastre. A continuar por essa vereda, quando se apagarem as luzes do mandato, sua «America» vai estar «smaller» ‒ apequenada.

Nepotismo

José Horta Manzano

A doença é mundial e o mal está entranhado. Falo do nepotismo, o ato de favorecer parentes especialmente em matéria política. Para os poderosos, a tentação é grande. No Brasil, tem sido praga desde os tempos de Cabral. Algumas leis foram feitas nos últimos anos, mas é praticamente impossível eliminar o problema. Quem está lá em cima sempre dá um jeito de contornar interdições ‒ utilizando, por exemplo, testas de ferro para ocultar familiares.

canard-enchaine-1A França carece de legislação na matéria. Fica tudo por conta da ética ‒ da ética individual de cada político, entenda-se. No campo eleitoral, faz alguns anos que virou moda organizar eleições primárias, com participação do povo, para designar o candidato dos grandes partidos à presidência da República. Este ano, uma coligação de partidos de direita e de centro-direita seguiu esse caminho. Sete candidatos se apresentaram e enfrentaram três debates na tevê, quando cada postulante teve ocasião de expor seu programa. A votação aberta a todos os eleitores designou, ao cabo de dois turnos, Monsieur François Fillon para candidatar-se em nome da coligação.

François Hollande, atual presidente, à vista do balanço catastrófico de seu governo, decidiu não se recandidatar. Sentiu que daria vexame e perigava ser eliminado antes do segundo turno. Assim sendo, a coligação de partidos de esquerda e de centro-esquerda também organizou primárias para escolher candidato. Após o primeiro turno, domingo passado, sobraram dois finalistas. Vão se enfrentar neste domingo. Quem ganhar será o candidato.

Monsieur Fillon, candidato oficial dos partidos de direita, já foi primeiro-ministro do país durante o governo Sarkozy. Esta semana, o jornal «Le Canard Enchainé» ‒ respeitado semanário satírico publicado desde 1915 ‒ soltou uma bomba política. Acusou o candidato de ter, quando primeiro-ministro, nomeado a esposa para um «cargo fantasma». Trata-se de emprego fictício, daqueles em que o funcionário se contenta em receber o salário no fim do mês, sem sequer se preocupar em aparecer pra bater ponto. No total, Madame Fillon teria embolsado mais de meio milhão de euros de dinheiro público. Sem trabalhar.

nepotismo-1A polêmica está longe de chegar ao fim. A Justiça, que já está cuidando do caso, ainda não tomou decisão. O candidato, em entrevista dada ontem durante jornal televisivo de forte audiência, declarou que, caso se torne réu, abandonará imediatamente a candidatura. Se acontecer, estará criada uma confusão dos diabos. A eleição para a presidência do país está marcada pra daqui a três meses.

Entendo que tudo o que relatei possa ser de pouco interesse para o distinto leitor. Minha intenção foi mostrar que nepotismo e emprego fantasma não são exclusividades tupiniquins. O que nos diferencia é a repercussão que cada caso provoca. Em outros países, um único caso pode derrubar uma candidatura importante. No Brasil, tem gente graúda que, apesar de carregar nas costas dúzias de processos por improbidade, continua exercendo cargo na administração pública. Numa boa.

Crescendo e minguando

José Horta Manzano

Você sabia?

Toda criança brasileira sabe que a Lua crescente se parece com um C desenhado no céu. Quando chega ao quarto minguante, o astro assume o formato de um D. Fica fácil memorizar: C para crescente e D para decrescente. Quanto mais ao sul estiver o observador, mais o fenômeno é evidente. Já à medida que a gente se desloca em direção ao norte do país, a visão vai mudando. O desenho da Lua vai girando até aparecer deitado, como se esboçasse um sorriso. Ou como se desenhasse um muxoxo.

Crédito: Les comptines de Gabriel

Crédito: Les comptines de Gabriel, youtube

E no Hemisfério Norte, como é que fica? A imagem é exatamente inversa àquela que se observa no sul do Brasil. Ao norte do Trópico de Câncer ‒ onde vive a maior parte da humanidade ‒, a Lua crescente forma um D no céu. E a decrescente parece com um C.

Cada povo há de ter inventado maneira de memorizar. Nas regiões de língua francesa, a Lua crescente chama-se «premier quartier» (primeiro quarto). Para não esquecer, lembram-se da letra p de «premier». De fato, a parte redonda do p minúsculo mostra a imagem estilizada da Lua crescente tal como os que vivem no Hemisfério Norte a veem.

A Lua minguante se diz «dernier quartier» (último quarto). De novo, a parte redonda do d de «dernier» lembra a todos que a Lua está em fase decrescente. E por que acontece isso? Por que razão uns enxergam nosso satélite «de cabeça pra cima» enquanto outros o veem «de ponta-cabeça»?

by Marc Chagall (1887-1985), artista franco-russo

by Marc Chagall (1887-1985), artista franco-russo

A explicação não é complicada. Primeiramente, precisa saber que a órbita da Lua segue, pouco mais ou menos, o Equador da Terra. Agora, vamos exagerar. Imagine o distinto leitor que o observador se encontre no Polo Norte. Para ver a Lua, terá de olhar «para baixo», ou seja, para o sul. Agora vamos imaginar que outro observador esteja no Polo Sul. Terá de olhar «para cima» ‒ quer dizer, para o norte.

Cada um deles verá uma imagem invertida. Se a Lua estiver à esquerda do Sol para o observador do Polo Norte, ele verá um C desenhado no céu. No mesmo momento, o corajoso que se instalou no Polo Sul, se ainda não estiver congelado, verá a Lua à direita do Sol. Como resultado, a imagem vai se parecer com um D.

De qualquer maneira, que estejam aqui ou ali, os namorados vão continuar se encantando com a Lua. Mais ainda se estiverem longe do polo.

O passaporte e as estrelas

José Horta Manzano

Já na escola primária, aquela que já se chamou «grupo escolar» e que muda de nome a cada vinte anos, a gente ficava sabendo que existia uma constelação chamada Cruzeiro do Sul. Aprendíamos também que aparecia entre as estrelas da nossa bandeira. Como não nos ensinavam que outros povos também a avistavam, a gente ficava com a impressão de que o Cruzeiro só era visível a partir do Brasil. Era nossa constelação nacional. Era só anos mais tarde que a gente se iria dar conta de que outros habitantes da Terra também enxergam o Cruzeiro do Sul em noite de céu claro.

cruzeiro-do-sul-1A olho nu, somente cinco estrelas são visíveis, mas os livros ensinam que o conjunto é composto de 54 estrelas. Pra vê-las todas, o observador tem de munir-se de luneta ou telescópio. Só que, aí, vai-se o charme de distinguir aquela cruz tão característica.

Bandeira da Austrália - Cruzeiro do Sul representado corretamente

Bandeira da Austrália – Cruzeiro do Sul representado corretamente

A particularidade da constelação é só poder ser avistada a partir do Hemisfério Sul da Terra. Dizem que os primeiros europeus a contemplá-la foram os marinheiros portugueses, aqueles que se aventuraram além do Cabo Bojador. Há quem conteste. No fundo, pouco importa.

Fato interessante é que, hoje em dia, mais de meia dúzia de países ‒ todos do Hemisfério Sul, naturalmente ‒ incorporaram o Cruzeiro do Sul à bandeira nacional. Além do Brasil, Austrália, Papuásia-Nova Guiné, Samoa, Nova Zelândia e outros pequenos Estados do Oceano Pacífico fizeram isso.

Passaporte brasileiro - modelo antigo

Passaporte brasileiro – modelo antigo

Para figurar uma cruz, bastariam quatro estrelas, mas a constelação tem cinco visíveis a olho nu. Cada uma delas aparece numa extremidade e a quinta, que leva o apelido de «intrometida», fica no espaço que, se fosse num relógio, marcaria as 4 horas ‒ no campo inferior, à direita.

Bem ou mal, o antigo modelo do passaporte brasileiro trazia a «intrometida» na posição correta. Já o modelo atual negligencia essa particularidade. A representação estilizada situa a quinta estrela na posição das 8 horas do relógio ‒ em baixo, à esquerda.

Passaporte brasileiro - modelo novo

Passaporte brasileiro – modelo novo

É surpreendente que essa representação errônea tenha sido adotada. Não se pode deixar de perceber, nesse grafismo, a negligência com que se costuma lidar com coisa séria em nosso país. Devemos concluir que o desleixo deturpa até os símbolos da nação?

Doação de órgãos

José Horta Manzano

Em matéria de doação de órgãos, a diferença de legislação entre países dá margem a análise psico-sócio-filosófica, se é que assim me posso exprimir. Tradição, comportamento social, crença religiosa entram em conta. Visão da igualdade entre cidadãos também.

No Brasil ‒ assim como praticamente no resto do mundo ‒ é longa a lista de pacientes que esperam pelo órgão que lhes permitirá continuar vivendo. O mui oficial portal do governo brasileiro é claro. Explica que «mensagens por escrito deixadas pelo doador não são válidas para autorizar a doação».

Na prática, isso significa que «apenas os familiares podem dar o aval da cirurgia, após a assinatura de um termo». O resultado é dramático: «metade das famílias não permite a retirada dos órgãos para doação».

doacao-1É surpreendente constatar que, de certa maneira, boa parte dos brasileiros ainda mantêm, com relação ao corpo físico, relação semelhante à dos egípcios de seis mil anos atrás, na época dos faraós. Como se sabe, naqueles tempos recuados, era generalizada a crença de que a preservação do corpo morto era importante para seguir viagem no além.

Na França, faz quarenta anos que a lei é clara nessa matéria. Quando um cidadão morre, parte-se da presunção de que tenha dado consentimento à doação de órgãos ou tecidos corporais. Diferentemente da regra vigente no Brasil, todo cidadão é considerado doador a menos que, em vida, tenha exprimido oposição formal.

Em lugar de criar um cadastro de potenciais doadores, foi instituído um registro nacional de não-doadores. Todos os que se recusarem à retirada post-mortem de vísceras ou tecidos do próprio corpo devem inscrever-se nesse arquivo. Melhor fazê-lo enquanto vivos, evidentemente.

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

Até aqui, o não-doador tinha de se alistar por meio de documento escrito, assinado e datado. Com a popularização da internet, o procedimento foi atualizado por decreto que entra em vigor neste 23 de janeiro. A partir de agora, todos aqueles que se recusarem a doar parte de seus restos mortais podem inscrever-se por meio de formulário disponível online.

Permitir que outros possam sobreviver graças a órgãos dos quais não vou mais precisar me parece óbvio, lógico e natural. Mal comparando, é como se, em vez de doar roupa que não me serve mais, preferisse jogá-la no lixo a dá-la a quem precisa.

É por isso que não acredito que a nova possibilidade oferecida pelo decreto francês venha a suscitar vocações. Não é um formulário online que vai transformar doadores generosos em egoístas que preferem deixar apodrecer o coração debaixo de sete palmos. Só escolhem esse caminho aqueles cujo coração já apodreceu em vida.

Discurso para a militância

José Horta Manzano

Pronto, o ciclo se fechou. Ou se abriu, fica ao gosto do freguês. Mister Trump subiu ao trono que já foi de George Washington, de Abraham Lincoln, de Richard Nixon e de George Bush.

O ritual aperfeiçoado ao longo dos anos foi seguido à risca. Numa época como a nossa, em que, cada vez mais, descerebrados se devotam a urdir atentados contra tudo e contra todos, forças policiais foram compelidas a tomar excepcionais medidas de segurança. A plateia teve de enfrentar bloqueios, filtros, verificações.

A Folha de São Paulo qualifica de "agressivo" um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

A Folha de São Paulo qualifica de “agressivo” um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

Felizmente, excetuada alguma baderna orquestrada por bléquiblóquis locais, nenhuma ocorrência grave veio perturbar a passação de poder. A sensação ficou por conta da esperada cerimônia de tomada de posse. Centenas de equipes de reportagem do mundo inteiro se tinham abalado para não perder uma migalha do grande momento.

E que se viu? Nada de empolgante, nada de novo, nada de massacrante. Foi manchete em todo o planeta a indumentária da nova primeira-dama, dado de capital importância para o futuro da humanidade. Graças à argúcia de repórteres a quem nada escapa, sabemos que Mrs. Trump estava vestida de azul-bebê, tom afeiçoado por Jacqueline Kennedy. Quem poderia ir dormir sem esse precioso relato?

trump-1E que se ouviu? Nada de empolgante, nada de novo, nada de massacrante. Quem foi ouvir Trump, saiu saciado: ouviu Trump. O novo presidente gastou vinte minutos repetindo exatamente os mesmos slogans que já havia martelado na campanha, todos do tipo «me engana, que eu gosto».

Fiquei sabendo que gente conhecida no mundo do espetáculo boicotou a cerimônia. Percebi que, na falta de um grande nome, tiveram de dar a uma adolescente o encargo de entoar o hino nacional. Tive notícia de que uma ou duas dezenas de parlamentares descontentes recusaram-se a comparecer ‒ atitude que, francamente, não combina com a democracia americana, justamente por acentuar o antagonismo entre «nós & eles», tão deletério e tão nosso conhecido. Ainda que muitos não tenham apreciado o resultado da eleição, esta não é a melhor hora para acentuar divisões no país.

O Estadão qualifica de "agressivo" um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

O Estadão qualifica de “agressivo” um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

Li análises alarmistas. Até gente fina, articulistas que costumo respeitar se deixaram impressionar pelo que disse o novel presidente. Bobagem. Vamos repor as coisas no contexto apropriado, minha gente. O pronunciamento de Mr. Trump foi o discurso final de campanha, o agradecimento aos que nele votaram. O homem não podia dizer outra coisa senão o que já vinha dizendo havia meses. Nem todos os analistas entenderam, mas a fala era dirigida aos que o elegeram, um discurso para uso interno sem nenhuma intenção de impressionar o mundo.

Vamos, camaradas! O diabo não é tão feio assim. Novato em política, Mr. Trump entra na arena galopando e encabritando-se como potro novo. O dia a dia vai-lhe mostrar que o mundo não funciona exatamente como ele imagina. O presidente vai deixar de galopar. Vai maneirar na andadura e acabará trotando como fizeram todos os seus predecessores.

Santo de casa ‒ 2

José Horta Manzano

Hoje em dia, vendem-se menos discos. Métodos de «streaming», de compartilhamento ou de pura piratagem fazem concorrência pesada à venda de gravações. Não era assim trinta anos atrás. Primeiro as ‘bolachas’ de vinil preto, depois os cedês (discos compactos) dominaram o mercado e reinaram, soberanos, por décadas.

Em 1989, uma canção estourou nas paradas de sucesso na França. Cantada em português brasileiro, chamava-se «Chorando se foi» e anunciava a chegada de novo ritmo, a lambada. Gravado por uma desconhecida moça chamada Loalwa, o disco vendeu mais de um milhão de meio de exemplares, fato notável. Na França, estações de rádio tocavam a música o dia todo. O disco foi o mais vendido no país durante 12 semanas seguidas ‒ praticamente o verão inteiro.

Loalwa Braz Vieira

Loalwa Braz Vieira

O sucesso perdeu todo brilho quando, no ano seguinte, estourou o escândalo: a música não passava de vexaminoso plágio da canção boliviana «Llorando se fué», lançada anteriormente pelo conjunto Los Kjarkas. O roubo tinha sido feito por um produtor musical francês que, ao vislumbrar potencial sucesso, simplesmente mandou botar letra em português e registrou-se como autor oficial da música, sob o pseudônimo de Chico d’Oliveira.

Em seguida, o espertalhão formou um conjunto disparate, com instrumentistas de nacionalidades diversas. Para o canto, escolheu Loalwa Braz, carioca residente na França, praticamente desconhecida pelo público, tanto lá como cá. O bom arranjo musical e o marketing frenético fizeram efeito. O sucesso foi retumbante.

Como não podia deixar de ser, os verdadeiros autores da canção entraram com processo por plágio. Mesmo sem ser musicólogo, qualquer um percebe que se trata da mesmíssima música, sem tirar nem pôr uma nota. Naturalmente, o falsário perdeu o processo e teve de devolver o dinheiro ganho indevidamente.

Depois disso, produtor, cantora e conjunto desapareceram da paisagem musical francesa. O ritmo dito ‘lambada’ sumiu pelo mesmo ralo. Hoje, passados quase trinta anos, o nome da cantora e de seu único sucesso voltaram às manchetes em notícia trágica.

lambada-1Foi assassinada por três assaltantes na modesta pousada que mantinha em Saquarema, no litoral fluminense. O corpo foi encontrado carbonizado. Jazia dentro do automóvel da própria cantora, incendiado pelos homicidas. A polícia informa que os criminosos já estão atrás das grades.

A entronização de Mister Trump na Casa Branca e a dramática morte do ministro Zavascki dominam hoje a atualidade, o que explica que a tragédia que atingiu a artista carioca tenha passado quase despercebida no Brasil. Em compensação, a mídia francesa não deixou de noticiar e lamentar o ocorrido. Todo francês cinquentão ainda se lembra dos movimentos eróticos ‒ e até lascivos ‒ aos quais a hoje esquecida lambada predispunha os pares.

Interligne 18cPlágio
Aqui está o clip original do conjunto boliviano Los Kjarkas.

E este é o clip de promoção de Loalwa e do grupo Kaoma.

Visita de Estado

José Horta Manzano

Não sei se o rancor aparece entre os traços de caráter marcantes dos chineses. O que sei que é que, apesar da aparência fria e distante, são muito sensíveis. Apegados a valores tais como a acolhida a visitantes, dão grande importância à maneira como são recebidos no estrangeiro.

Talvez pelo pouco caso com que foram tratados durante séculos pelos europeus, mostram susceptibilidade exacerbada ao mínimo deslize no modo como são recepcionados quando estão de visita ao exterior. Altas personalidades do governo chinês fazem questão de ser tratadas nos conformes.

Presidente da China: Xi Jingping & esposa Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Presidente da China: Xi Jingping & esposa
Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Tradicionalmente, a Suíça só recebe uma visita de Estado por ano. Dirigentes estrangeiros podem vir ao país quando desejarem, mas somente uma vez por ano se oferecem honrarias oficiais ao dirigente de um país. Este ano, é vez da China. A última visita de Estado de um presidente chinês tinha ocorrido no século passado, em 1999.

Naquela ocasião, a passagem do dirigente oriental tinha constituído verdadeiro desastre. No exato momento em que o ilustre visitante atravessava a praça em frente ao Palácio Federal, um grupo de cidadãos munidos de faixas, bandeiras e cartazes iniciou uma ruidosa manifestação contrária à anexão do Tibete ‒ assunto supersensível em Pequim.

No discurso que pronunciou logo em seguida, o presidente da China não escondeu a fúria. Mostrando-se amargo e ofendido, disse não entender como a Suíça não tinha capacidade de controlar o próprio povo. Azedo, acrescentou: «Vocês acabam de perder um bom amigo». Pegou muito mal.(*)

suisse-28-xi-jinping-1Mas o tempo dissipa querelas. O presidente mudou, os tempos mudaram. Mais poderosa que vinte anos atrás, a China se esforça para mostrar que merece o lugar de destaque que lhe vinha sendo negado por séculos. Para provar que o antigo comunismo já não existe e que o país se transformou em economia de mercado, o presidente Xi Jinping está na Suíça há dois dias. Veio chefiando a delegação de seu país para participar, pela primeira vez, do Fórum Econômico de Davos. É excelente ocasião para mostrar aos donos dos dinheiros do mundo que vale a pena investir na China.

O governo suíço, escolado pelo fracasso da visita anterior, fez o necessário para não ofender os visitantes. Os entornos do Palácio Federal transformaram-se em praça de guerra. O exército foi chamado para dar uma mão. Há barreiras por toda parte. Atiradores de elite estão posicionados em cima dos telhados. Ninguém circula pelas ruas. Até mesmo moradores da vizinhança têm de ser filtrados, identificados e revistados. Para não tolher completamente o direito de livre expressão, uma manifestação em favor do Tibete foi autorizada ‒ longe do palácio e horas antes da chegada do ilustre visitante.

suisse-29-xi-jinping-2Desta vez, pelo menos até agora, nenhuma gafe foi registrada. Apesar das estonteantes diferenças entre os dois países ‒ a região de Pequim, sozinha, abriga três vezes a população da Suíça ‒ há interesses comuns. A Suíça, que não faz parte da União Europeia, está de olho no imenso mercado chinês. A China, por seu lado, está interessadíssima na tecnologia de vanguarda que lhe faz tanta falta e que a Suíça domina.

Está aí uma das vantagens de não pertencer a nenhum bloco econômico ou político: a liberdade de estabelecer tratados e relações privilegiadas com outras nações. Amarrados por pactos rigorosos, membros da União Europeia ou do Mercosul nem sempre podem agir como melhor lhes parece. Têm de obter anuência prévia dos sócios.

No que diz respeito ao Brasil, está chegada a hora de afrouxar certos nós que nos mantêm atados ao bloco «devagar quase parando» ao qual nosso destino está unido.

Interligne 18c

(*) Esse episódio já foi mencionado em artigo meu de quatro anos atrás.

Dividir para reinar

José Horta Manzano

Dividir para reinar. Os registros mais remotos dessa máxima vêm da antiguidade grega. Dois milênios mais tarde, foi adotada pelos latinos como «Divide ut regnes». Mil anos depois, Maquiavel acudiu-se dela sob a forma «Divide et impera». E não é que a máxima chegou até nossos dias? E olhe que continua valendo sem arredar. Exprime o exato oposto de nosso conhecido «unidos, venceremos».

O atual quiproquó(*) entre Trump e Putin deixa alguns preocupados enquanto enche outros de esperança. Levando em conta que ‘onde tem fumaça tem fogo’, a esquizofrênica troca de acusações e de gentilezas entre os dois líderes não é anódina. Há de haver um fundo de verdade nessas declarações de amor e ódio. Desde o fim da Guerra Fria, trinta anos atrás, não se via tamanho morde e assopra entre os líderes das antigas superpotências.

putin-trump-xi-jinpingPutin, matreiro como raposa, há de ter julgado que a eleição de Trump, populista meio bobão, seria proveitosa para a Rússia. É de crer, portanto, que tenha tentado influir nas eleições americanas. A suposição está longe de ser absurda.

E não é só: o mandachuva de Moscou pode muito bem ter ido além. Como antigo dignitário dos serviços secretos soviéticos, aprendeu a pegar cada um por seu ponto fraco, especialidade da casa. Trump é mulherengo, todos sabem disso. A existência de vídeos comprometedores do quase empossado presidente é arma poderosa, que Putin pretende usar, com parcimônia, em proveito próprio.

Enquanto isso… a milhares de quilômetros de Washington e de Moscou, senhor Xi Jinping, provavelmente o líder chinês mais poderoso desde Mao Tsetung, enche-se de júbilo. O comércio internacional já se tornou jogo de cartas marcadas, em que a China sai sempre ganhando. Essas são favas contadas. Mas o domínio do comércio não basta para levar um país ao topo do pedestal. Há outros requisitos.

by Marine Fargetton, artista francesa

by Marine Fargetton, artista francesa

Enquanto Trump e Putin trocam amabilidades e sopapos, que faz Xi Jinping? Já programou visita ao Forum Internacional de Davos (Suíça), marcado para a semana que se inicia. Pragmático, o líder chinês vem reafirmar que seu país mudou, que se tornou economia aberta, que está no mesmo nível dos demais países. Ninguém acredita muito, mas a economia mundial não vive de ideologia, mas de dinheiro. A presença do chinês na meca dos donos do dinheiro só pode ser benéfica para seu país.

Mr. Xi, ao ignorar o bate-boca entre EUA e Rússia, age como abre-alas da entronização de seu país como economia de mercado. Segue à risca outra máxima: «Os cães ladram e a caravana passa.»

Interligne 18c

(*) O desastroso AO-90 ‒ acordo ortográfico firmado quase trinta anos atrás entre Brasil, Portugal e mais alguns pequenos países onde se fala, em certa escala, alguma variante da língua lusa ‒ cassou o direito de existir do simpático trema. Certas sumidades, julgando-se donas da língua, suprimiram o diacrítico. O resultado já se faz sentir.

O ensino do latim na escola regular tendo sido banido, os mais jovens não estão familiarizados com o que a língua dos césares nos legou. Quiproquó costumava escrever-se «qüiproquó». Na hora de ler, mesmo sem conhecer a palavra, ninguém se enganava. Todos liam «kuiprokuó». Já não é mais assim. Deve ter muita gente por aí lendo «kiprokó», que soa como nome de ilha grega.

Não é o caso, naturalmente, de nenhum de meus cultos leitores. Todos sabem que a expressão latina qüiproquó traz a ideia de «isto por aquilo», «uma coisa pela outra». Em suma, uma confusão.