Periculum in mora

José Horta Manzano

O caso Lula da Silva, que virou novela de segunda categoria, já está levando à saturação a paciência dos brasileiros de bem. De molecagem em molecagem, o grão-petista e seu bando têm dado que fazer à Justiça, viciados que estão em brigar no tapetão.

Com as eleições chegando, seu mestre está de olho na miragem de uma eleição ao cargo maior, situação que lhe valeria, por quatro anos, imunidade para novos processos. A chance de poder concorrer (chance para ele, que para nós é risco) é praticamente nula. Ainda assim, Lula da Silva dá uma banana para o Brasil e passa o tempo entupindo a Justiça com recursos e reclamos absurdos.

Coube a doutor Luís Roberto Barroso a decisão sobre a fixação do rito que vai governar a decisão de homologar ou embargar a candidatura de Lula da Silva. Comedido, doutor Barroso, que é ministro do STF e também do Tribunal Superior Eleitoral, tem mostrado privilegiar decisões de bom senso. A maior parte das vezes, seu voto tem-se revelado isento, sem marcado viés ideológico.

Honesto e precavido, doutor Barroso considerou que o caso é de grande repercussão. Assim, preferiu adotar o rito longo, com prazos dilatados, consulta ao plenário da Corte, direito a réplica, tréplica e quatréplica. Sua intenção foi de fornecer um resultado inatacável. Louvo a decisão, mas acredito que Sua Excelência esteja equivocado.

Do outro lado da mesa, não está um “paciente” comum. Quando se julga um cidadão normal, deve-se calçar luvas de pelica e oferecer-lhe todas as possibilidades de defesa e de contestação. Quando, do outro lado da mesa, está um grupo de embusteiros, o tratamento tem de ser diferente, mais seco, mais radical, mais próximo do rito sumário.

Doutor Barroso está empenhado em seguir um caminho liso, perfeito, de modo a impedir todo ataque e toda contestação. Engana-se o magistrado. Seja qual for o rito seguido, é certo que Lula da Silva & amigos reclamarão de qualquer jeito. Insistindo no mito da vitimização, hão de proclamar ao Brasil e ao mundo que o julgamento terá sido injusto, autoritário e abusivo.

Se assim é, por que então deixar o Brasil em aflitivo suspense? Se a decisão (lógica) de proibir Lula da Silva de concorrer será atacada seja qual for o rito, não faz sentido fazer durar a espera.

Periculum in mora ‒ há perigo na demora.

Natal ortodoxo

José Horta Manzano

Você sabia?

O Grande Cisma deu origem à separação entre dois grandes ramos do cristianismo: os católicos da Europa ocidental e os ortodoxos da parte oriental do continente. Nos países ocidentais, a divisão é conhecida como Cisma do Oriente, enquanto os orientais lhe dão o nome de Cisma do Ocidente. Questão de ponto de vista.

A história registra o ano de 1054 como ponto de ruptura. Mas a divergência não ocorreu assim, da noite para o dia. Foi um processo longo e complicado, que durou um milênio e envolveu interesses que foram bem além do âmbito puramente dogmático. Rivalidades pessoais, interesses nacionais, cobiça, guerras intermináveis, cruzadas, expedições punitivas, litígios territoriais entraram na disputa.

Embates que tiveram início já no século V culminaram, ao final da Idade Média, na separação definitiva entre cristãos ocidentais e orientais. Grécia, Ucrânia, Sérvia, Bulgária fazem parte do território de maioria ortodoxa. A maior concentração, sem dúvida, se encontra hoje na Rússia. O período comunista reprimiu toda expressão religiosa durante décadas. Depois do desaparecimento da Cortina de Ferro, a devoção voltou com força total.

Feliz Natal!

Feliz Natal!

Os romanos haviam instituído o calendário juliano para registrar a passagem do tempo. Mas ele continha imprecisões que se fizeram notáveis com o correr dos séculos. Ao final da Idade Média, a defasagem entre o tempo civil e o astronômico já somava mais de dez dias, o que perturbava a vida de uma civilização essencialmente agrícola. As estações do ano chegavam cada vez mais cedo.

A correção, imperativa, foi imposta pelo papa Gregório XIII. Ficou combinado que a quinta-feira 4 de outubro de 1582 seria seguida pela sexta-feira 15 de outubro. Onze dias desapareceriam. Os países católicos rapidamente adotaram a nova contagem do tempo. Já os ortodoxos levaram séculos para se conformar.

A medida foi tomada em consequência de uma bula papal. Dado que não reconhecem a autoridade do papa romano, os cristãos orientais continuam ‒ até nossos dias ‒ a fixar suas festas religiosas pelo calendário antigo, ignorando a reforma gregoriana.

A diferença entre os dois sistemas de contagem do tempo atinge atualmente 13 dias. Eis por que russos e outros ortodoxos não festejam o Natal em 25 de dezembro, mas em 7 de janeiro. Hoje é dia de festa em terra ortodoxa. Catedrais e igrejinhas celebram a data com ritos tradicionais.

Feliz Natal a todos! E também “С новым годом”, feliz ano-novo!

Interligne 18cNota etimológica
Uma raiz indo-europeia bastante produtiva deu o grego skhisma com o sentido de divisão, separação. A voz foi retomada pelo latim eclesiástico sob a forma schisma, de sentido idêntico.

Alguns filhotes aparecem em nossa língua, tais como: cisão, cindir, rescisão, cismático. Todos trazem a ideia de separação de um tronco principal.

Quedémonos con lo bueno!

José Horta Manzano

É assim que dizem os espanhóis quando um acontecimento tem um lado bom e outro ruim. «Fiquemos com o que há de bom.» Vamo-nos contentar com o ganho. Depois, com calma, resolvemos o que ficou pendente. O mundo não vai acabar. Nada é perfeito. Às vezes, é preciso entregar os anéis pra salvar os dedos.

Nos últimos dias, por ocasião do julgamento da destituição da presidente, pelos senadores, assistimos a um espetáculo decente. Pelo menos formalmente, o desenrolar foi decente e civilizado. Surpreendentemente, o clímax que quase paralisou o Brasil dia 31 de agosto passou praticamente despercebido no exterior.

Senado federal 1Na maior parte dos países, crises envolvendo destituição de medalhões costumam resolver-se bem mais rapidamente. Meses atrás, quando o «rito» começou a se desdobrar, muito se falou e se escreveu sobre ele. À medida que o processo se arrastava, no entanto, o interesse da mídia internacional foi desmilinguindo.

A prova de que o resultado final não impressionou ninguém além de nossas fronteiras foi a repercussão quase nula do impeachment de dona Dilma. O jornal televisivo suíço, fonte-mor de informação da população, sequer abordou o assunto. Na França, os principais jornais não dedicaram mais que 15 segundos à ‘grande’ notícia. Fica a impressão de que, na cabeça de todos, o assunto já se havia esgotado e o mandato da doutora já estava cassado havia tempo.

Quanto a nós, apesar de termos conseguido o principal, continuamos a discutir sobre o accessório. Dona Dilma foi despachada mas não perdeu seus direitos políticos. E daí? Onde está o problema? Alguém imagina que ela venha a se candidatar à presidência em 2018? É possível que a moça tivesse dificuldade até em se eleger para a vereança de Porto Alegre.

Dilma 17O importante é que demos o passo maior para começar a desinfetar o mundo político brasileiro. A estrada é longa, o fim do caminho não está ainda à vista. O parlamento nacional não se transformou, como por magia, em parlamento escandinavo. Mas estamos no bom caminho.

A Constituição foi ferida? Eminentes juristas opinam que sim, enquanto outros doutores asseveram que não. A discussão, neste ponto, deixa de ser política e passa para o plano filosófico. Leis não podem prever tudo. Contradições existem. Em vez de nos dilacerar apoiando este ou aquele ponto de vista, concentremo-nos no principal.

Dos quatro presidentes eleitos pelo voto direto desde o retorno da democracia, dois foram destituídos. São percalços que revelam que o sistema está longe da perfeição. Na minha opinião, a reforma política é necessidade urgente. Gostemos ou não, temos de repensar os poderes e as atribuições do presidente da República.

Enquanto não chegamos lá, fiquemos com o lado bom. Nossos políticos, todos eles, desde presidente até prefeito de lugarejo, sabem hoje que, em caso de «malfeitos», o risco de serem apanhados e apeados é real e bem maior que poucos anos atrás. Podem até acabar atrás das grades. O medo, distinto leitor, é freio excelente.

Interligne 18h

Nota
Aos que aceitam o discurso da presidente, segundo a qual seus 54 milhões de eleitores foram espezinhados, lembro que os algozes ‒ Câmara e Senado ‒ representam a totalidade do eleitorado, ou seja, mais de 100 milhões de cidadãos, o conjunto do voto de todos os brasileiros. No frigir dos ovos, os parlamentares têm, em conjunto, legitimidade bem maior do que a doutora tinha. De cada quatro senadores, três preferiram cassar-lhe o mandato. Precisa mais?

O Mercosul e o fim da missa

José Horta Manzano

Nos tempos em que a missa era dita em latim e os ritos da Igreja ainda guardavam aquela aura de mistério que infundia respeito e temor, a gente não entendia as palavras. Mas isso não incomodava ninguém. Todos sabiam quando era hora de sentar, de levantar, de ajoelhar, de bater no peito.

Missal

Missal

Havia um momento especial, por cuja chegada nossa marotagem adolescente ansiava. Hoje, que já se foram todos os antigos e que ninguém mais está aqui para me repreender, posso confessar: o melhor momento da missa era quando o padre dizia «Ite, missa est». Os fiéis respondiam em coro «Deo gratias!». Nessa réplica ninguém se enganava.

A última missa à qual assisti ainda era rezada em latim. Pra você ver que faz um tempinho. Mas me contaram que o ritual não mudou, só ficou mais explícito. O oficiante continua dizendo «Ide, a missa acabou». E a resposta tampouco se alterou: «Demos graças a Deus!». Ouvidos mais sensíveis juram que chegam a captar no «graças a Deus!» a expressão de um certo alívio. Um certo ar de «até que enfim, acabou!». Pode ser ilusão auditiva ou intriga de gente de pouca fé.

Mas vamos parar por aqui, antes que me acusem de apostasia. Longe de mim posicionamentos anticlericais. Costumo respeitar e apreciar ritos.

Essas lembranças têm-me ocorrido estes últimos tempos, quando observo a involução desse infeliz Mercosul, que continua dançando sua estranha quadrilha: um passo à frente e dois pra trás. Criado para fluidificar e favorecer o comércio, tornou-se, com o passar dos anos, instância política. Trocas comerciais foram repelidas a segundo plano. Sobressai a vaidade e o jogo de cena de líderes deslumbrados e ineptos. A cada novo episódio, acentua-se a irrelevância da natimorta «união aduaneira».

Cúpula do Mercosul Junho 2013

Cúpula do Mercosul sem o Paraguai, que estava de castigo
Junho 2013

Faz um ano, quando o congresso paraguaio decidiu, dentro de suas normas constitucionais, dar um «ite, missa est» ao ex-bispo que presidia o país, os dirigentes progressistas de algumas repúblicas da região entraram em efervescência. Num golpe malandro, os mandachuvas do Mercosul mandaram o Paraguai para fora da classe, de castigo. Enquanto isso, trataram de admitir, rápido, a Venezuela no clubinho. Lembremos que o parlamento paraguaio era amplamente contrário à entrada desse novo membro.

Essa inacreditável tratantada teve pelo menos um efeito colateral de alcance planetário: o Mercosul confirmou ao mundo que não é instância séria nem confiável. Desse clube, não se pode esperar nada de bom. Seus sinais de colapso, aliás, já estão uivando. Só não ouve quem não quer.

O Paraguai, embora tencionando guardar boas relações com o Brasil, dá mostras de total desinteresse por um Mercosul que o humilhou e que, de todo modo, não lhe traz nenhuma vantagem econômica.

Señor Nicolas Maduro, da Venezuela, não foi convidado (nem assistirá) à cerimônia que Assunção está organizando para entronizar o novo presidente do Paraguai. Doña Cristina Fernández de Kirchner, da Argentina, um dia diz que vai, no dia seguinte desdiz. Anda um bocado acachapada com a derrota eleitoral que acaba de sofrer. Quem viver, verá.

Por seu lado, o Brasil dá a entender que não descarta iniciar negociações comerciais diretas com a União Europeia, sem combinar antes com os sócios do clubinho sul-americano. Esse tipo de comportamento é a negação da essência do clube. Se assim proceder, o governo brasileiro estará passando o atestado de óbito do Mercosul.

E já não é sem tempo. Constatado o passamento e firmado o atestado de óbito, que se enterre o defunto. E que o último a sair apague a luz.

Ite, fratres, missa est! (*)

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(*) Ide, irmãos, a missa acabou!